PRIMEIRA PARTE
P RÁTICA T URÍSTICA
2.2. P RINCIPAIS E FEITOS DAS N OVAS F ORMAS DE T URISMO
O turismo é intrinsecamente uma actividade portadora de riscos e de oportunidades (Barré, 1997: 7), enquanto fenómeno multidimensional que engloba várias vertentes, tais como a económica, a política, a ambiental, a demográfica, a social e a cultural (Pearce, 1988: 3) e com repercussões a todos os níveis. Mas, não é uma actividade com características puramente económicas, revelando importância no que respeita às trocas culturais120, ao conhecimento e ao estabelecimento de relações interpessoais que provocam transformações no visitante e no visitado. A cultura representa, em muitos casos, um factor motivacional importante e um
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A cultura pode ser entendida como um modelo paradigmático, para as comunidades de acolhimento e para o visitante, de atitudes comportamentais reguladas por crenças, valores, normas, tradições, modos de vida, formas de relacionamento, modos de produção, gestão e regulação do poder político (Barré, 1997: 11).
estímulo para a viagem, entendida como mecanismo propiciador de descobertas, de alargamento do conhecimento e de aprendizagem (Barré, 1997: 10), porque característica e caracterizadora de uma determinada comunidade, diferenciando-a de todas as outras a partir de processos identitários.
Para que um país seja potencialmente considerado destino turístico é fundamental que reúna três condições principais (Cunha, 1997: 152): ser atraente no que respeita a um conjunto de aspectos, tais como o meio ambiente natural, as características culturais, a estabilidade política e as vantagens económicas; ser acessível relativamente à distância e à acessibilidade a meios de transporte externos, assim como nas formas de deslocação internas; reunir internamente as condições que permitem estadias por um período de tempo desejado.
As principais finalidades da actividade turística, no contexto das NFT, podem ser classificadas (Cunha, 1997: 232) em social, económica, territorial, patrimonial e cultural. A finalidade: social respeita à possibilidade das populações autóctones acederem a melhores condições de vida; a económica relaciona-se com a contribuição do sector para a resolução de problemas pela dinamização global da actividade produtiva; a territorial refere-se à possibilidade de minimizar os desequilíbrios regionais; a patrimonial à capacidade de valorização do património nacional; a cultural com a possibilidade de promover a cultura pré existente.
A rentabilidade da actividade turística alternativa pode ser avaliada pela influência exercida em diferentes níveis: o rendimento nacional e o equilíbrio na distribuição, a criação de novos postos de trabalho, a capacidade de modificação da estrutura profissional, a estabilidade dos preços e da balança de pagamentos, podendo ser classificados com base em dois critérios (Valls, 1996: 45):
- os efeitos globais sobre o desenvolvimento nacional com repercussões no equilíbrio da balança de pagamentos, na redução da dependência externa,
- os efeitos parciais na economia com implicações no crescimento dos sectores produtivos, público e privado, e na ordenação do território com adequada utilização dos recursos.
O sector turístico, no geral, é dotado de um efeito dinamizador (Valls, 1996: 55), podendo ser transformado no motor de desenvolvimento de outros sectores produtivos. Esta evidência é reforçada pelas NFT, pelo sentido de responsabilização implícito, pelos objectivos e pela
metodologia adoptada. Por um lado, estimula os sectores próximos do ponto de vista produtivo e que o fundamentam, tais como a construção civil e as obras públicas, o mobiliário, o comércio, as infraestruturas, os transportes e a agricultura, o artesanato e a animação. Por outro lado, caracteriza-se por um efeito difusor, ao serem gerados benefícios emergentes da actividade, nomeadamente pela promoção de rendimentos complementares. Pelas características inerentes à actividade turística, um país receptor transforma-se a partir do momento em que recebe fluxos anuais de turistas. O contacto entre povos com traços culturais diferenciados, relacionando-se de forma particular e com entendimentos próprios do valor do ambiente e das características socioculturais, é determinante para a evolução comunitária. As NFT (García, 1997: 77) influenciam as comunidades de acolhimento a dois níveis: macrossocial, com transformações globais de ordem social, cultural e económica e, microssocial, com efeitos imediatos, pela interacção directa entre turistas e comunidades locais, sendo evidentes os impactos decorrentes da actividade e da prática turística, no meio:
− ambiente natural, tais como a preservação ou, pelo contrário, a degradação dos recursos florísticos e faunísticos com perda de biodiversidade ou a poluição,
− sociocultural pela valorização da identidade comunitária através da divulgação da organização social e das práticas tradicionais ou pela alteração de práticas decorrentes de processos de aculturação e da introdução de novos hábitos com eliminação dos ancestrais,
− económico com a introdução de padrões de consumo criando novas necessidades que, se não houver controle, podem gerar desequilíbrio.
O desenvolvimento do sector, através das NFT, contribui para a produção nacional (Cunha, 1997: 245) pela criação de uma procura suplementar, interna e externa, promotora de desenvolvimento regional (op. cit.: 284), que pode ser integrado quando entendido como o principal elemento dinamizador da mudança. Assim, é “catalítico” quando as actividades desenvolvidas são complementares de outras, consideradas como estimuladoras de processos de mudança ou “créstico” quando as actividades tendem para o desenvolvimento regional, sem influenciar directamente o crescimento económico.
A importância do sector para a economia dos países receptores repercute-se positivamente e a vários níveis (Trindade, 1997: 9; Valls, 1996: 42; OMT, 1999d: 30; Lima, 1997: 11):
- Favorece a criação de emprego, a reconversão dos postos de trabalho e a (re)qualificação profissional da mão-de-obra, independentemente do género, da idade e da origem étnica. - Permite a criação de empresas turísticas locais gerando lucros com retenção.
- Possibilita a concentração de impostos através de cobrança para a criação e a melhoria de infraestruturas e de equipamentos sociais de apoio aos grupos desfavorecidos.
- Permite equilibrar a balança de pagamentos representando uma fonte de rendimentos. - Induz o crescimento de outros sectores produtivos visto deles depender, criando novas e
futuras dependências: sector agrícola e produção animal, pescas, sector extractivo, construção civil e obras públicas, transportes, produção têxtil, mobiliário e artesanato. - Promove a criação de novos mercados abastecedores para actividades produtivas
tradicionais com valorização dos sectores minoritários.
- Pode ajudar a corrigir e a minimizar as assimetrias regionais criando condições para que o desenvolvimento se processe de forma mais equitativa, homogénea e integrada.
- Permite diversificar a oferta adequando-a às necessidades e às aspirações dos visitantes, incentivando a valorização profissional da mão-de-obra, através de qualificação, fomentando a competitividade e a melhoria dos serviços e produtos oferecidos.
O turismo, através das NFT, é um sector com potencialidades reconhecidas e susceptíveis de gerar benefícios para o desenvolvimento global das comunidades e não apenas efeitos sectoriais. O incremento do sector requer planificação e investimentos, com base nas características ancestrais e tradicionais, de forma a integrar as diferentes dimensões da vida comunitária (Cunha, 1997: 233): culturais, ambientais, sociais, políticas, religiosas, produtivas, entre outras. Por um lado, contribui para a preservação da diversidade cultural, minimizando os preconceitos, funcionando como meio de troca de informação, de conhecimentos e de valores. Por outro lado, favorece a valorização da qualidade ambiental relacionada com o ordenamento do território, a conservação de zonas naturais, culturais e históricas, reforçando o sentimento identitário.
A qualificação e a formação profissional, a promoção e a valorização da imagem do país, do ponto de vista natural e paisagístico, social e cultural, político, económico e de serviços centra-se nas potencialidades locais, com o objectivo da promoção da região.
O desenvolvimento da actividade pode ter efeitos perversos, promovendo alterações estruturais negativas (Cunha, 1997: 233), aos níveis social, económico e ambiental, reflectindo-se através de processos de internacionalização dos circuitos turísticos, criando
dependências em relação ao exterior e gerando um reduzido valor acrescentado para as comunidades.
Os principais efeitos negativos decorrentes da actividade turística (Valls, 1996: 42; OMT, 1999d: 32; Vellas, 1996: 15) podem ser sistematizados de acordo com os seguintes itens: - A descaracterização dos traços culturais das comunidades de acolhimento pela imposição
de comportamentos, originando a emergência de conflitos entre os padrões culturais tradicionais e os do turista, com eventual perda de identidade cultural;
- A criação de expectativas de aquisição de riqueza num curto espaço de tempo; - O aumento dos preços dos produtos incluindo para o consumo autóctone;
- A excessiva dependência de um único sector de actividade no que concerne à criação de emprego e à manutenção dos postos de trabalho existentes;
- A perda de controle na exploração de recursos locais e regionais passando a ser efectivado por interesses estrangeiros com baixo retorno dos investimentos efectuados;
- O aumento das importações destinadas ao consumo turístico;
- O agravamento de uma estratificação socioeconómica com confrontação entre os valores dos proprietários e dos não proprietários, podendo incentivar os processos migratórios; - A emergência de problemas sociais conducentes a situações de exclusão, prostituição,
alcoolismo, toxicodependência e outras formas diversificadas de delinquência; - O desenvolvimento urbanístico não controlado e não planeado;
- A ameaça de desequilíbrios ambientais podendo o turista, a longo prazo, ser encarado, pelas comunidades, como um intruso que invade a privacidade;
- A pressão sobre os recursos com a contaminação da fauna e da flora;
- A vulnerabilidade de alguns destinos, particularmente condicionados pela sazonalidade.
Para que os efeitos negativos possam ser minimizados (Cunha, 1997: 233), evitando-se as situações de dependência sectorial em relação ao estrangeiro ou a interesses multinacionais, é necessário criar condições para que a promoção do desenvolvimento através das NFT seja integrada. Os efeitos podem ser considerados globais, sendo possível equacionar as concepções do desenvolvimento de longo prazo.
Os impactos do turismo podem assim ser avaliados a partir de um conjunto de indicadores propostos por Craik (Vieira, 1997: 40 e seg.) e sistematizados no Quadro 15:
Quadro 15 – Tipologia de Indicadores de Impactos do Turismo segundo Jennifer Craik
- Identificação de oportunidades e custos - Medidas de sustentabilidade e lucro - Disponibilização e custos de infraestruturas - Tendências nos impostos e taxas locais
BENEFÍCIOS ECONÓMICOS - Indicadores dos lucros
- Oportunidades de emprego na comunidade - Estrutura do desemprego
- Impacto nas pequenas empresas
- Disponibilização de novos serviços para os residentes - Aumento do custo de vida
- Tendência dos preços das propriedades - Disponibilidade e custo do alojamento
ENVOLVIMENTO PÚBLICO - Planeamento responsável - Consulta e audição públicas - Direito a crítica pública
- Avaliação de impacto social e ambiental - Informação e educação
- Profissionalização governativa
COMERCIALIZAÇÃO DE BENS CULTURAIS - Desenvolvimento cultural e na produção artística - Novas actividades culturais e produtos
- Atracções e locais de memória colectiva
DEGRADAÇÃO AMBIENTAL - Impactos em parques naturais e áreas protegidas - Valores ambientais
- Poluição, lixo e vandalismo
- Multidões e congestionamento de tráfego - Poluição visual
AUTONOMIA E IDENTIDADE CULTURAL - Estímulo e orgulho cultural - Formas únicas de turismo local - Perfil cultural e capacidades locais
CONFLITOS E HOSTILIDADE A HÁBITOS