4. APLICAÇÕES A CASOS PORTUGUESES
4.2.2. P ROCESSOS HIDROMORFOLÓGICOS E SEDIMENTARES
Embora os estuários possuam geralmente boas condições ao estabelecimento de portos comerciais, com boas condições de abrigo face à agitação e acessibilidade fluvial muito para montante, os controlos da dinâmica sedimentar têm levado ao seu assoreamento progressivo na generalidade dos estuários e portos. O estuário do Mondego é um desses casos, onde o progressivo assoreamento veio ao longo dos anos promovendo uma cada vez maior dificuldade de acesso aos portos fluvio-marítimos interiores (sucessivamente Coimbra, Montemor, Soure, Santa Eulália e Veride). Assim o movimento portuário foi transferido para a foz, com grande movimento desde o século 18.
No entanto, as condições naturais associadas à agitação marítima e o incremento das actividades económicas na região, foi conduzindo a sucessivas intervenções e investimentos no desenvolvimento de estruturas portuárias e acessibilidades. Já no início do século 19, o Porto da Figueira da Foz apresentava dificuldades para receber embarcações devido aos múltiplos bancos arenosos existentes, à pouca profundidade e à embocadura divagante, sendo que as primeiras dragagens datam de 1859. Entre 1962 e 1965 a necessidade de assegurar a acessibilidade a embarcações com maior calado levou à primeira grande fase de desenvolvimento do porto, que incluiu: o enrocamento do troço terminal do braço sul e a construção de extensos molhes – P. Proença Cunha & J. Almeida Mendes (2002).
A partir de 1977 foi iniciado o processo de extracção de areia na praia junto ao molhe norte, com o intuito de resolver o problema da saturação sedimentar do quebramar. Devido à interrupção no transporte litoral promovida pela presença do quebramar norte, os sedimentos passaram a acumular-se progressivamente, provocando o avanço do areal da praia da Figueira da Foz. O molhe ao saturar passou a permitir a passagem da totalidade do caudal sólido em deriva litoral e uma parte deste passou rapidamente a assorear a barra e o anteporto. A extracção aumentou progressivamente, com uma média anual de 400×103m3 de sedimento entre 1989 e1995. Em 1996 a extracção de areias na praia junto ao molhe norte foi interrompida.
Em 1990 foi introduzida uma draga de maxilas e entre 1994 e 1999, uma draga de sucção. O objectivo era o de permitir uma permanente manutenção das cotas dos fundos arenosos na barra e anteporto, pois apesar dos elevados montantes de areias retiradas na praia junto ao molhe norte, continuou a registar-se entrada de sedimentos marinhos no porto. A operação da draga teve naturalmente condicionada pelas condições da agitação marítima e operava preferencialmente na frente da cabeça do quebramar norte, mas também periodicamente no anteporto e canal de acesso ao cais comercial. Entre 1990 e 1999 o volume anual médio de areia extraído pelas dragas foi de
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Transposição Artificial de Sedimentos em Embocaduras
4.2.2.2. Dinâmica Sedimentar
Durante a maior parte do ano, Portugal é afectado por ondulação de WNW devido ao Anticiclone próximo dos Açores, existindo também uma menos frequente ondulação de W e SW. A costa noroeste portuguesa é essencialmente arenosa, aproximadamente orientada a N21E, e é um sector costeiro afectado por uma agitação marítima bastante energética, caracterizado por uma altura de onda significativa média de 2m e um período de 12s. A agitação de oeste (W) atinge o seu máximo no Inverno, que é quando geralmente se dão os temporais provenientes de noroeste, com alturas de onda ao largo que facilmente chegam aos 8m, persistindo até cinco dias. O regime de maré é semi-diurno, com uma amplitude de maré que varia entre 2 e 4m em marés vivas. O transporte longilitoral é principalmente devido às ondas, de norte para sul, com uma intensidade média de 1-2 milhões de metros cúbicos por ano. Os sedimentos necessários para saturar a capacidade de transporte das ondas são provenientes de duas fontes: o Rio Douro e a erosão costeira. Em regime natural, o Rio Douro debitaria cerca de 1.8 milhões de metros cúbicos por ano, mas esta taxa tem vindo a diminuir, mostrando actualmente uma tendência de cessação, e, como consequência tem-se verificado um aumento da erosão costeira - C.Coelho et al (2006).
O sector costeiro da Figueira da Foz encontra-se limitado a norte pelo Cabo Mondego, uma arriba cuja base tem afloramentos rochosos. A sul deste cabo a costa inflecte para sudeste e, a seguir à praia de Buarcos vai recuperando a orientação típica da costa noroeste portuguesa - C.Coelho et al (2006). Para profundidades superiores a 25m os fundos não apresentam irregularidade na passagem do Cabo Mondego que se encontra a norte do Porto da Figueira, mantendo portanto o traçado geral da costa. As batimétricas acima de -5m ZH são muito influenciadas pelos molhes exteriores, sendo que por exemplo a batimétrica 0 ZH está desfasada para leste cerca de 600m a sul da embocadura - P. Proença Cunha & J. Almeida Mendes (2002). O banco de areia de vazante apresenta cerca de 300 metros de largura e 4 metros de altura, contornando o molhe norte, com adelgaçamento junto à cabeça do molhe sul (dados inferidos a partir de levantamentos topo-hidrográficos). Provavelmente, parte do transporte litoral dar-se-á ao longo deste banco, numa faixa a cerca dos -3 metros de profundidade. O banco de areia de vazante tem tendência a aproximar-se da barra e anteporto devido à fraca descarga do Mondego, prejudicando a entrada de embarcações com maior calado.
O troço compreendido entre o estuário do Rio Mondego e a praia da Leirosa corresponde a uma praia arenosa extensa. Junto ao Cabo Mondego os sedimentos são grosseiros, com alguns depósitos de gravilha, condicionados pelos afloramentos rochosos, enquanto para sul se encontram areias médias, essencialmente compostas de grãos de quartzo, e na praia submersa se verificam sedimentos finos a muito finos - C.Coelho et al (2006). De Maio a Outubro (em regra) o caudal sólido é persistente para sul, sendo que nos restantes meses pode ocorrer um transporte importante em ambos os sentidos. Em geral tem-se como referência o valor médio de 1 a 1.5 milhões de metros cúbicos anuais para o transporte litoral que a partir do norte alimenta o troço Cabo Mondego – Figueira da Foz. Note-se que este valor é um valor potencial máximo possível de ocorrer caso existissem sedimentos em abundância para serem transportados, baseado em fórmulas semi-empíricas, mas na verdade os valores que realmente atingem o porto são usualmente bastante inferiores, como demonstram os levantamentos topo-hidrográficos de anos sucessivos. Além disso as dinâmicas que controlam os processos hidromorfológicos e sedimentares são imprevisíveis e não raramente ocorrem grandes variações nas suas intensidades e direcções de ano para ano e mesmo por vezes em meses sucessivos, daí a grande complexidade do fenómeno. No troço terminal do estuário de margens rectilíneas e alinhadas longitudinalmente com a entrada do porto, a agitação de W propaga-se, provocando elevados níveis de agitação. Este raro fenómeno é de reduzida persistência e penetração para montante - P. Proença Cunha & J. Almeida Mendes (2002).
Figura 4.2 – Transporte litoral e porto da Figueira da Foz
O estuário do Mondego está hoje confinado a uma área de influência muito reduzida fruto das barreiras introduzidas ao avanço mareal em direcção a terra, e da artificialização das suas margens - José Luís G. S. Ribeiro (2002). O Rio corre em canal artificial de Coimbra à foz devido às diversas intervenções antrópicas ocorridas ao longo dos anos. Esta artificialização tem implicações no regime natural do rio, provocando grandes modificações hidráulicas e de capacidade de transporte, com drástica redução do caudal sólido afluente ao estuário. O estuário é caracterizado por dois braços, norte e sul, separados pela Ilha da Morraceira. Na verdade cada braço constitui um subsistema com características distintas do ponto de vista hidrodinâmico e sedimentológico, o subsistema Mondego (braço norte) e o subsistema Pranto (braço sul). No subsistema Mondego a descarga fluvial leva areão até à Fontela, areias muito grosseiras e até à ponte e finos até à desembocadura (figura 4.1.). A entrada marinha em enchente faz-se pelo lado sul do canal de desembocadura, devido à sedimentação na zona de sombra a norte por ondulação de NW, a enchente leva areias grosseiras a muito grosseiras até à área em frente ao cais comercial, e médias até à Carrapatosa - P. Proença Cunha & J. Almeida Mendes (2002). O subsistema Mondego apresenta ainda as seguintes características: mais profundo e predominantemente arenoso, intensivamente dragado para funcionalidade do porto, predominância fluvial face à mareal, energia fluvial reduzida (regularização de caudais), energia mareal reduzida (diminuição do prisma mareal).
Transposição Artificial de Sedimentos em Embocaduras
No subsistema Pranto a enchente faz penetrar areias grosseiras a médias pela margem oeste. A vazante volta a transportar parte das areias entradas na enchente. Este subsistema apresenta ainda as seguintes características: menor profundidade (máximo de 3m), areias médias a finas e lodos, reduzido caudal fluvial, hidrodinâmica mareal.
Em comparação com a situação não regularizada, os sedimentos estuarinos apresentam uma penetração de areias marinhas no braço norte, devido ao decréscimo do caudal sólido fluvial, e da tendência natural para a recuperação das cotas que foram aprofundadas por dragagens. Pode-se afirmar que em termos globais este subsistema (Mondego) apresenta um deslocamento da hidrodinâmica mareal / fluvial para montante.