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PA RABO LA DO SAM ARITANO

No documento Poesias (páginas 145-153)

(Traduzido do Samaritano, de Ednioud Rostand)

Um homem,

Que de Jerusalém ia p’ra Jerichó,

Uns ladrões encontrou. Atacam-n’o, sem dó. Atiram -n’o por terra, o ferem brutalmente ; Seus ais na solidão se perdem yagamente. E suppondo, talvez, que já estivesse morto, Deixaram-n’o, então, exhausto, sem conforto... Como o vinho de um odre o sangue se derrama... Um Sacerdote chega, encara a rubra lama,

Fita esse corpo, assim, que a vida pouco anima, E fica indifferente, e passa-lhe por cima. Chega um Levita, após, vê esse turvo olhar Onde o brilho da luz, em breve, vai findar ; E fazendo, egualmente, um gesto de desdém, Impassível, caminha e despreza-o também. Vem um Samaritano, e olhando o pobre craneo, De sua mula, ao chão. se atira subtaneo,

Compassivo lhe estanca o copioso sangue. Em seus braços levanta o enfermo, ternamente, E o colloca nasella, humanitariamente ; Ao' abrigo o conduz, desce e fal-o deitar, Passandu á noite ainda ao pé delle, a velar... Na seguinte manhã, chamando os hoteleiros Lhes paga adeantado ; entrega dois dinheiros E diz-lhes : Vou partir ; porém, na minha ausência, Para com elle usai de toda complacência ;

Com desvello o pensaé, que, quando regressar, Da despesa o excesso eu hei de vos pagar.

E foi-se logo,|então, O fraternal pagão...

Agora, respondei-me, em vossa consciência ; Do moribundo, assim, tratado sem clemencia,

Bem como um cão leproso, Nojento, perigoso,

Seu proximo qual foi ? Qual delles mais humano? —Foi o Padre, o Levita ou o Samaritano ?

SUPREMO ID E A L

Efa profundo o cahos, illimitado o espaço, Dormia a creação das trevas no regaço, Nem verdes palmeiraes, nem páramos azues ; Mas uma voz se ergueu, e a scena transformou-se, Scindindo o denso véo, o abysmo eclypsou-se,

Desabrochou a vida e Deus formou—aLuz !

Explode o glauco mar na rubra penedia, Canta na selva a brisa um kirie de alegria, Fecunda o loiro sol a natureza em flor ;

'Num arroubo febril de inspiração suprema, Palpita um coracão, e Deus faz—o Amor !

Mas a inveja fatal, da escuridão nascida, Arma o braço cruel ao monstro, ao fratricida. E do seio arrebata a divinal essencia ;

Era mister punir o trágico delicto, Queimar a fronte vil ao misero precito,

E Deus crêa o remorso e gera—a Consciência !

Sinistra a corrupção diffunde-se bravia, Gargalha o vicio audaz, o crime tripudia, Os lábios jorram fel, as almas vertem puz ; Despenha-se a razão no negro precipício, Mas logo se consumma o heroico sacrifício, Desperta a Caridade e Deus aponta—A Cruz !

Suffoca o coração, campeia a indifferença, Tritura os peitos nús o abutre da descrença, Ergue o scepticismo a lugubre polé ; Ha sorrisos de hyenae beijos de panthera, Mas um novo clarão acariciá a esphera, Um astro surge, além, e forma Deus—A FÈ ! Da gloria no corsel galopa o pensamento, Um diluvio de luz alaga o firmamento, O braço quer luetar, o genio quer subir ; A phalange do Bem seu estandarte arvora, Seiva, seiva, Senhor, a mocidade implora,

Abre-se um templo, então, e Deus fa z—o Porvir !

Inda resta^ porém, banir o despotismo, Dos lábios extinguir o fel do servilismo, Nos cranebs accender a aurora da verdade ; E Deus, ouvindo, emfim, o soluçar do povo, Rasga, no céo da patria, um horizonte novo : —Acclama Tiradentes e faz—a Liberdade !

CONSOLAÇÃO

Ao amigo e collega Dr. Antooio P. da S. Castro

Quando o negror da descrença, Da vida na lucta immensa, Meu coração vem ferir,

Nauta perdido entre abrolhos, E’ só na luz dos teus olhos Que eu vejo o sol do porvir. Quando minh’alma suspira, Quando meu peito respira, Dos desenganos á flor, E’ no jardim de teus lábios Que eu sorvo doces resabios, Que eu colho as rosas do amor. Quando fulmina-me o mundo Com seu desprezo profundo, Com seu terrível desdém, E’ só no céo de tu ’alma

Que eu vejo a aurora da calma, Que eu vejo a estrella do bem. Quando me foge a esperança, E’ que não posso, creança, Contra o destino luctar... E’ de teus beijos na chamma Que minha mente se inflamma, Que eu sinto a vida brilhar...

N A B RECH A !

Recitada por occasião do embarque, para Canudos, do 34 Batalhão de liifanteria.

Soldados, chegou a hora De triumphar ou morrer... Si é grande vosso heroísmo Maior é vosso dever ! Bravos, leaes brazileiros, Correi ás armas, ligeiros, P’ra libertar a nação,

Que á sombra do fanatismo Occulta-se o banditismo Pregando a restauração. A patria, ufana, confia O seu futuro de vós; Si o odio cria sicários, O brio produz heroes ! Varrei, gigantes do Norte, Essa maldicta cohorte De seus reductos fataes, Salvando dos vis caudilhos O berço de vossos filhos, O tumulo de vossos paes. Que importa o louco denodo Dos combatentes do mal ? Não céde o rijo granito A’s fúrias do temporal. Qaando se vinga um aggravo Cada soldado é um bravo Que só procura subir... A nossa causa é sagrada : Contra um punhal—uma espada, Contra o passado—o porvir ! Nas luctas que se assignalam Nas aureas folhas da historia,

Cada uma gotta de sangue Vaie um poema de gloria ; Rompa-se a negra muralha, Seja a Justiça a metralha. Seja o Direito o canhão, Abaixo o vil embusteiro ! Não pode ser brazileiro Quem foge ao sol da razão. Nunca um soldado das plagas Do Rio Grande do Norte Fugiu em frente ao perigo, Tremeu em face da morte. Na terra de Miguelinho, Unde o valor tem um ninho E a cohsciencia um trophéo, Sim, nesta terra sublime, A covardia é um crime, O servilismo um labéo.

Canudos ! Quem diz Canudos Diz trevas, diz traição... Diz prantos, diz orphandade, Diz lucto, diz maldicção !... Foi lá que o grande spartano Erguendo a bandeira, ufano Da liberdade civil,

Morreu, mas não entregou-se. Seu nome immortalisou-se Np coração do Brazil.

Para as sublimes empresas, Para as conquistas do bem, Até as filhas do Norte Sao patriotas também ! Esta phalange de arminho Não tem somente o carinho, Tem heroismo e valor ; Aítronta a lucta mais rude

Tendo por gladio a virtude, Vibrando golpes ie amor ! Olhai! Este povo inteiro Que vos contempla de pé, Traz a su’alma banhada Nos esplendores da fé.

Avante ! A lucta se inflamma, Já Tiradentes vos chama Lá das trincheiras azues... Voai, brazileos condores, - Ides cobertos de flores, - Voltais cobertos de luz.

No documento Poesias (páginas 145-153)