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Diante dos gêneros das escritas de si que foram abordados, entendemos que o acordo de leitura, que se dá entre autor e leitor, pode ser classificado como referencial ou ficcional, sendo que cada tipo de pacto possui peculiaridades que servem, principalmente, para direcionar ou até enganar quem está lendo o texto literário. Nesse sentido, pretendemos, neste subcapítulo, apresentar aspectos relativos ao pacto referencial e, posteriormente, aspectos sobre o pacto ficcional.

Ao revisar os pressupostos de Umberto Eco a respeito do acordo ficcional e de Philippe Lejeune acerca do pacto autobiográfico, compreendemos que um pacto de leitura pode ser entendido como um acordo entre autor e leitor, que se dá tacitamente, e que pode ocorrer antes de iniciar a leitura do texto literário, ou mesmo durante o ato de leitura. O acordo tácito pode ser efetivado a partir de informações que constam no paratexto, que induzem o leitor a ler a narrativa de determinada maneira, sendo a indicação do gênero uma das formas mais comuns de instauração de um pacto de leitura.

O pacto de leitura pode ser compreendido como um contrato entre um emissor e um receptor ou entre o autor e o leitor, sendo que, para esse pacto, é necessário identificar no texto ou no paratexto questões como gênero, tipo e forma. A observação desses dados serve para que o leitor ative conhecimentos prévios e, no caso de estar diante de um texto de ficção, para que construa uma relação com o espaço ficcional, isto é, que ele se insira na “realidade” de um universo artificial, que é diferente do mundo empírico.

O termo pacto autobiográfico, discutido por Philippe Lejeune, relaciona-se com a proposta de pacto referencial, no qual determinadas narrativas sugerem um relato “verdadeiro” e que se situem no mesmo nível do mundo empírico. O pacto autobiográfico, proposto por Lejeune, desenvolve a ideia de que o leitor seria uma espécie de “confidente”, uma vez que o escritor, ao estabelecer a identidade comum de autor-narrador-personagem principal, “confiaria” as suas experiências a quem o lê. Por isso, o pacto autobiográfico está inserido em um acordo referencial, em que é possível buscar referências – julgadas como “verdadeiras” – externas ao texto literário.

Sendo assim, o pacto de leitura no qual a autobiografia e as confissões estão inseridas é o referencial, pois pressupõe-se que essas narrativas estejam ligadas a uma “verdade” e que podem ser comprovadas, se buscadas informações sobre a vida do autor. Dessa maneira, a proposta de Lejeune sugere que o leitor acredite no que é narrado, uma vez que:

[e]m oposição a todas as formas de ficção, a biografia e a autobiografia são textos referenciais: exatamente como o discurso científico ou histórico, eles se propõem a fornecer informações a respeito de uma “realidade” externa ao texto e a se submeter portanto a uma prova de verificação. Seu objetivo não é a simples verossimilhança, mas a semelhança com o verdadeiro. Não o “efeito de real”, mas a imagem do real. Todos esses textos referenciais comportam então o que chamarei de pacto referencial, implícito ou explícito, no qual se incluem uma definição do campo do real visado e um enunciado das modalidades e do grau de semelhança aos quais o texto aspira (LEJEUNE, 2014, p. 43, grifos do autor).

Diante dessas considerações, compreendemos que o pacto referencial projeta uma equivalência ao “real”, diferentemente da narrativa de ficção, que apresenta um “efeito de real”. Além disso, em um acordo referencial é necessário que exista a “verdade” que pode ser verificada externamente ao texto e, caso algum fato narrado não coincida com a verdade, o texto referencial adentra o plano da

ficção. Outrossim, Lejeune (2014, p. 43) afirma que o pacto autobiográfico e o pacto referencial estão vinculados, pois na autobiografia há a fórmula do “eu abaixo-assinado” que se aproxima com a expressão “juro dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade” sugerida pelo pacto referencial.

Figueiredo (2013, p. 26) afirma que “[a] ideia chave do livro Le pacte autobiographique (1975) é a de que haveria um pacto de referencialidade, de fidelidade ao acontecido entre autor e leitor”. Dessa forma, o acordo referencial exige que o leitor acredite que os fatos narrados acerca da vida do autor sejam “verdadeiros”, isto é, que realmente aconteceram. Porém, a proposta de autobiografia, exposta por Lejeune, apresenta problemáticas em relação à “verdade”, uma vez que existem questionamentos sobre as “fronteiras” da “verdade” em uma narrativa autobiográfica.

Tais problemáticas são manifestadas no texto “Autobiografia e ficção”, no qual Lejeune expõe as críticas que recebeu devido à menção de que existe uma suposta “verdade” na autobiografia, pois os críticos, que Lejeune denomina “adversários”, indicam que o compromisso da verdade não tem nenhum sentido. Conforme seus adversários, a “verdade” seria um problema devido ao papel da memória, que pode demonstrar esquecimentos durante uma narração do passado e também por causa da narrativa, que, muitas vezes, é associada a uma “fabricação” (LEJEUNE, 2008, p. 103). Ainda, os críticos rotulam a autobiografia e a caracterizam como uma “ficção de segunda categoria” (LEJEUNE, 2008, p. 103), pois, segundo eles, o gênero não se aceita enquanto uma ficção.

Entretanto, Lejeune (2008, p. 104) defende sua teoria argumentando que “[o] fato de a identidade individual, na escrita como na vida, passar pela narrativa não significa de modo algum que ela seja uma ficção”, uma vez que a autobiografia, conforme o teórico, não deve ser entendida como uma “brincadeira” em que o autor inventa a si mesmo ou cria uma personalidade, mas como um trabalho vinculado à construção de uma identidade, mantendo a fidelidade à “verdade”. Por isso, “[s]e a identidade é um imaginário, a autobiografia que corresponde a esse imaginário está do lado da verdade” (LEJEUNE, 2008, p. 104) e não do lado da ficção. Dessa maneira, entendemos que a autobiografia sugere questões problemáticas a respeito da “verdade”, já que no resgate de memórias existirão falhas, esquecimentos ou até contradições que poderão ser preenchidos com invenções ou adaptações na história. Esses esquecimentos fazem com que seja ativada a imaginação acerca dos

fatos que foram esquecidos, no intuito de deixar uma história com aspecto concluído ou acabado.

Ao lado da autobiografia, o gênero confissões corresponde aos textos literários que mostram a intimidade do sujeito, visto que o objetivo da narrativa confessional é a revelação, por parte do autor, sobre acontecimentos de sua vida por meio de uma “autoanálise”. O gênero confissões está ao lado da autobiografia porque ambos se constituem enquanto narrativas ligadas a uma suposta “verdade”, porém se diferenciam porque nas confissões não é necessário revelar a história de toda uma vida (do nascimento até o momento da narração), pois o texto literário está centrado em episódios específicos e selecionados pelo autor. Sendo assim, conforme os pressupostos de Lejeune, percebemos que existem esforços para considerar a autobiografia e as confissões como textos referenciais, ligados à ”verdade”, já que o escritor se comprometeria em narrar aspectos “reais” de sua vida e de sua intimidade, atribuindo ao leitor o papel de “confidente”13

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Outrossim, entendemos que o pacto referencial estabelece uma relação com a referencialidade, isto é, existem referências na vida real do escritor empírico que, eventualmente, podem confirmar o que é afirmado no texto literário. No entanto, a questão sobre a “verdade”, nas narrativas referenciais, é problemática porque poderá ser interpretada com desconfiança pelo leitor que, mesmo firmando um pacto referencial, pode continuar suspeitando que as histórias contadas pelo narrador adentram o plano da ficção.

Diante das considerações apresentadas, entendemos que o pacto referencial é fragilizado, pois pode ser encerrado diante de sinais ficcionais apresentados pela narrativa, ou, ainda, se o leitor desconfiar que o autor, na autobiografia, está contando mentiras. Ademais, o surgimento da autoficção, que, muitas vezes, mistura aspectos referenciais e ficcionais, pode ser responsável por essa fragilização do pacto, pois o leitor transita entre diferentes possibilidades de leitura, isto é, entre a referencialidade e a ficção. O romance autobiográfico também pode confundir as expectativas do leitor, pois, de acordo com a abordagem que propusemos a respeito

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Além do pacto referencial e ficcional, que abordaremos na sequência, é importante mencionar o caso do “pacto indireto”, que está relacionado com os dois contratos de leitura mencionados. O que configura um pacto indireto é o caso de o texto de ficção que, em algum momento, revela informações pessoais do autor, o que significa que o leitor poderá ler o texto com um viés referencial e não mais ficcional. Os textos que envolvem o pacto indireto “transgridem de alguma forma o ‘pacto ficcional’, incorporando elementos que exigem serem lidos em outra clave, referencial” (KLINGER, 2012, p. 10). O gênero romance autobiográfico poderia ser entendido como um exemplo de pacto indireto, já que pode apresentar traços biográficos na narrativa ficcional.

do gênero, o leitor firma um acordo ficcional, mas durante a leitura do texto literário pode se deparar com sinais que se referem à vida do autor empírico, gerando, novamente, uma proposta dinâmica entre o pacto ficcional e referencial.

Assim sendo, a diferença entre o acordo referencial e o ficcional, conforme Leite (2014, p. 26), é que, no ficcional, “[o] público concorda em suspender sua descrença para aceitar, por exemplo, o elemento fantástico em uma obra”. O subcapítulo a seguir, portanto, resgatará pressupostos teóricos sobre o pacto ficcional, que compreendemos que é distinto da ideia de pacto referencial, abordado neste subcapítulo.