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Padre Manuel Teixeira: falhas e erros gramaticais

3 Luís Gonzaga Gomes: vida e obra

3.2 Biografia sumária de Luís Gonzaga Gomes

3.2.4 Principais testemunhos

3.2.4.1 Padre Manuel Teixeira: falhas e erros gramaticais

No texto “À Memória de Luís Gonzaga Gomes” (Teixeira 1986, 466-481), apesar de lhe reconhecer várias áreas de intervenção, referindo-o como professor, arquivista, homem de diálogo cultural luso-chinês, historiador e musicólogo, o Padre Manuel Teixeira não refere Luís Gonzaga Gomes como tradutor ou sinólogo, apontando, numa secção intitulada “sombras”, que:

66 Famoso historiador português de Macau e sacerdote católico que vive grande parte da sua vida em Macau e dá

contributos significativos para as áreas de missionação, de educação e do estudo da história de Macau.

67 Professora portuguesa que chegou a Macau em 1949 e é uma das personalidades mais marcantes no panorama

da cultura contemporânea de Macau.

68 Como referido anteriormente, António Aresta é licenciado e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da

Universidade do Porto, formador e professor, com comissões de serviço em Macau (entre 1987 e 1998) e em Moçambique (entre 2002 e 2007). É autor de uma extensa bibliografia nas áreas da filosofia e da história da educação e da cultura de Macau. É ainda professor do Liceu de Macau quando estava em Macau.

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Com dois anos de estudo no Expediente Sínico, não se pode chamar um verdadeiro sinólogo [...] as versões e retroversões luso-chinesas de Luís Gomes apresentam vários deslizes [...] O mesmo se diga dos seus livros, em que surgem aqui e além alguns lapsos de gramática. (Teixeira 1986, 475)

Lendo a afirmação do Padre Manuel Teixeira à luz do plano de estudos do Expediente Sínico, acima apresentado, depressa se conclui que “os dois anos de estudo no Expediente Sínico” referidos não correspondem à formação de Gonzaga Gomes, que, pelo contrário, tem a duração total de oito anos, dos quais os primeiros cinco são dedicados ao estudo do dialeto cantonense para ser intérprete-tradutor de 2.ª classe e os últimos três ao estudo do dialeto pequinense para ser intérprete-tradutor de 1.ª classe.

Relativamente ao número de volumes dos Arquivos de Macau que Luís Gonzaga Gomes publica, o Padre Manuel Teixeira comete outro erro:

Nos 12 volumes dos Arquivos que [Luís Gonzaga Gomes] publicou, há várias falhas e nomes estropiados; nem se pode chamar uma edição crítica, pois que lhe faltam as notas, que ele, como a sua competência, nos poderia dar, mas que lhe tirariam mais do dobro do tempo. (Teixeira 1986, 475).

No entanto, afirma, um pouco antes, numa das secções intitulada “Arquivista” do seu artigo, que “[Luís Gonzaga Gomes] nos deixa vinte e quatro volumes, aparecendo cada número com uma regularidade nunca interrompida” (Teixeira 1986, 470). Existe uma discrepância de número de volumes que refere, ora 12, ora 24 (o número

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verdadeiro), no mesmo texto. Além disso, a sua atitude avaliativa do trabalho de Gonzaga Gomes, parece algo contraditória: por um lado, parece tentar fazer uma avaliação sistemática e equilibrada, reconhecendo o contributo de Luís Gonzaga Gomes para o diálogo cultural luso-chinês, por outro lado, limita-se a dizer que este trabalha “vertendo” (Teixeira 1986, 472) para chinês Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo (Barros 1972) e publicando um resumo de P'ou Kuók Si-Leok (História de Portugal em Chinês, em colaboração com Tcheong Iek Tchi)69

(Gomes 1955).

Numa entrevista ao Padre Manuel Teixeira, anexa ao artigo de Luís Ortet, em homenagem de Luís Gonzaga Gomes, publicado na Revista Nam Vam em 1984, oito anos após a sua morte, podemos testemunhar uma apreciação menos positiva. Desta vez, levanta outras questões, nomeadamente relacionadas com os conhecimentos de português de Luís Gonzaga Gomes:

Como ele [Luís Gonzaga Gomes] viveu sempre em Macau e não fez os estudos em Portugal, dava erros gramaticais. O que prejudicou muito a obra dele. Se ele tivesse a humildade de entregar qualquer livro que escrevesse a uma pessoa que soubesse bem português… mas não teve. De maneira que saíram vários erros gramaticais; Tenho citado muitas vezes a obra dele mas tenho de corrigir a gramática. (Ortet 1984, 39)

69 Uma série publicada no Mosaico, secção chinesa, durante o período entre março de 1951 e

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Ele [Luís Gonzaga Gomes] trabalhou muito, mas devia ter-se concentrado num assunto. Mas, ainda que não fosse encarregado oficialmente, podia ter trabalhado sobre a história de Macau e seguir esse trabalho até ao fim. Mas não o fez. O único livro original que ele escreveu foi Páginas de História de Macau. (Ortet 1984, 40)

Os comentários do Padre Manuel Teixeira sugerem que Gonzaga Gomes não é proficiente em português nem é um historiador dedicado. É provável que devido a este preconceito o Padre Manuel Teixeira simplifique a categorização de obras publicadas por ele em apenas duas categorias em função de língua: em chinês e em português. A categoria “em chinês” inclui: P'ou Kuók Si-Leok (História de Portugal em Chinês, em colaboração com Tcheong Iek Tchi) (Gomes 1955), Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo (Barros 1972), Vocabulário Cantonense-Português (Gomes 1941), Vocabulário Português-Cantonense (Gomes 1942) e Vocabulário Português-Inglês-Cantonense (Gomes 1954); enquanto a categoria “em português” inclui quase todo o resto das obras de Luís Gonzaga Gomes. Importa salientar que a opinião do Padre Manuel Teixeira é bastante representativa das opiniões dos seus contemporâneos. Conforme outra entrevista, de José dos Santos Ferreira “Adé”,70 anexa ao mesmo artigo de Luís Ortet, podemos

deduzir a receção desfavorável que Gonzaga Gomes enfrenta:

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Nos primeiros tempos os trabalhos do Luís Gomes quase não eram apreciados. Ninguém ligava aos trabalhos do Luís Gomes; Quando ele começou a publicar aquelas lendas achávamos piada mas deixávamos tudo na prateleira; Não foi muito compreendido porque a inveja é uma arma terrível. Mesmo as actividades culturais dele não eram muito compreendidas. Ele foi director da Emissora durante alguns anos e os programas eram muito criticados ou porque tinha música clássica a mais… enfim, arranjavam sempre alguma coisa para dizer. Mas ele continuava, não era homem para cessar a sua actividade só porque havia críticas. (Ortet 1984, 37)

Esta receção desfavorável não desaparece senão umas décadas depois da sua morte. Estes preconceitos só começam a ser eliminados mais tarde quando o valor das obras de Gonzaga Gomes começa a merecer reconhecimento. Numa entrevista na década de 1980,71 Túlio Tomás, residente em Macau há muitos anos e antigo diretor

dos Serviços de Educação de Macau e vice-reitor da Universidade da Ásia Oriental, aponta que “ele [Luís Gonzaga Gomes] não encontrava no ambiente que o rodeava, digamos, uma satisfação completa. De modo que procurava outros mundos” (Ortet 1984, 40). Estes “outros mundos” terão sido o mundo da sua escrita e o mundo de música.

No entanto, o Padre Manuel Teixeira ao citar os comentários de Amândio César sobre as publicações de Luís Gonzaga Gomes acerca da cultura chinesa, adota uma atitude bastante positiva, reconhecendo-lhe “uma culta e esclarecida inteligência em

71 Na década de 1980 foram realizadas entrevistas a quatro personagens, em homenagem de Luís Gonzaga Gomes.

Foram feitas por Luís Ortet, respetivamente ao Padre Manuel Teixeira, ao Padre Benjamin Videira Pires, a Túlio Tomás e a José dos Santos Ferreira-“Adé”, que se encontravam anexadas ao artigo de Luís Ortet, em homenagem de Luís Gonzaga oito anos, publicado em 1984, após a sua morte.

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sinologia” relativamente ao seu papel no diálogo cultural luso-chinês (Teixeira 1986, 472).

3.2.4.2 Graciete Nogueira Batalha: uma dedicação devidamente apreciada