Capítulo 1 – De Chefes, Mestres e Padrinhos
1.4. Padrinho Sebastião
Sebastião Mota de Melo nasceu na cidade de Eirunepé, estado do Amazonas no dia 07 de outubro de 1920, no seringal Adélia, as margens do Rio Juruá. Trabalhou no
48 corte da seringa, agricultura, construção de casas e canoas. Casou-se com Rita Gregório de Melo e em 1957 mudou-se para Rio Branco, nas terras da família da esposa, chamada Colônia 5000.
Desde pequeno Sebastião relata ter visões, viagens astrais e contatos com seres da floresta, do mar e do astral (ALVERGA, 1998, p.56). Junto a Mestre Oswaldo, iniciou-se no espiritismo Kardecista, ainda no estado do Amazonas. Aprendera a trabalhar, através do transe mediúnico de incorporação, com os espíritos do Professor Antônio Jorge e do médico Bezerra de Menezes, entidades conhecidas do Kardecismo brasileiro. Atuava como curandeiro e benzedor, única figura que atendia seringueiros e ribeirinhos no interior da floresta amazônica (COUTO, 1989, p. 91).
Em 1957 mudou-se para Rio Branco, e foi na busca de uma cura que o amazonense chegou, em 1965, à comunidade de Mestre Irineu. Sofria de um mal do fígado, após ser examinado e desenganado pelos médicos, foi à procura do Mestre Irineu. Vejamos o relato de Sebastião sobre sua cura com Mestre Irineu:
Quando fui tomar o Daime estava doente de um troço que eu não sabia o que era. Começou quando recebi a pancada de um besouro aqui na barriga. Por muito tempo aquilo fervilhando, e num dia começou a andar na minha barriga, subiu até aqui a garganta. Eu gurgulhava e não saía nada. Passei um ano doente desse jeito, sem que nada me resolvesse. (...) Ia no doutor, ele receitava isso e aquilo até que por fim disse: “rapaz, eu acho que o recurso é abrir pra ver o que que tem.” Eu respondi: “ Ah, doutor, sem saber o que é, eu não vou abrir não.” Nesse mesmo dia eu disse: “Hoje ou eu fico bom ou então vou morrer, vou lá no Mestre Irineu! Procurei antes uma mulher que trabalhava com macumba que me disse: Oh! Não vá não que o senhor vai perder seu tempo” Eu respondi: “Se o doutor disse que eu não tenho jeito, que o jeito é abrir, eu vou lá ” (ALVERGA, 1998, p. 58).
Sebastião procura Irineu algumas vezes sem encontrá-lo, já que este estivera viajando para o Maranhão nesta época. Depois de algum tempo chega no Alto Santo e participa de uma sessão de concentração, explica para mestre Irineu sua doença, toma o daime e recebe sua cura sob os efeitos do daime, fato determinante para sua filiação ao culto:
“(...) O corpo velho foi abaixo. O corpo no chão e eu já fora do corpo, fiquei olhando para ele. E me sentia alegre, não tinha nada de doença só o que sofria era o corpo que estava lá estirado. Nesse momento se apresentaram dois homens que eram as duas coisas mais lindas que eu já vi na minha vida! Brilhavam como o sol! Mesmo que fossem feitos apenas de fogo não era nada, porque o ser era muito mais bonito ainda! Traziam uma aparelhagem que parecia muito pesada. Quando eles chegaram pegaram meu esqueleto todinho na mão. Puxaram meus ossos por inteiro, que nem uma espinha de peixe. Olhavam e
49 reviravam aquela ossada, separando costela de espinhaço, depois danaram-se a tirar tudo. De repente os ossos sumiram, quando dei conta já estavam no corpo. Aí viraram a carcaça que sobrou partiram em pedaços, pendurando tudo nuns ganchos. Puxaram para fora o intestino e ficaram com ele todo na mão. Depois pegaram o fígado, cortaram, abriram, e me mostraram, tinham três bichos do tamanho de um besouro. Eram eles que andavam para cima e para baixo, provocando todo aquele mal. Um dos homens veio bem pertinho de mim, que a tudo observava fora do corpo, e disse: Estão aqui, quem estava lhe matando, eram esse três bichos, mas não tenha medo, que desse você não morre mais. Aí eles meteram os órgãos e o esqueleto dentro do corpo e fui acordar dentro dele”. (ALVERGA, 1998, p. 60).
Com o espírito de volta ao corpo, Sebastião relata estar curado, sem dor ou mesmo marca da cirurgia que recebeu. As cirurgias astrais são comumente relatadas por fiéis do Santo Daime, e como já foi colocado neste trabalho, a cura é um elemento preponderante de adesão ao culto: “Muitos correm até a essa doutrina porque tem precisão, se acham já sem vida, chegam até aqui, acham a vida e aqui ficam (Pd.
Sebastião)”(ALVERGA, 1998, p 61). O episódio é interessante também no sentido de que fica evidente uma qualidade do ser: dividir-se entre um corpo, “que foi abaixo”, de onde os dois homens que “brilhavam como o sol” retiram esqueleto, separam costelas e espinhaço, puxando para fora o intestino, cortando o fígado e retirando os “três bichos”
causadores da doença; e um espírito, que observa de fora, alegre, sem doença alguma. A cura parece operar a partir da interação entre seres do mundo espiritual e do mundo terreno, uma interação que parece operar a partir de movimentos ritualizados de disjunção e conjunção entre esses mundos, mundo espiritual e o mundo material.
Essa separação entre um mundo espiritual e um mundo material, entre o mundo invisível e visível, entre corpo e espírito-alma é fundamental para se compreender o sentido, os vetores que movem o mundo daimista. Digamos que é uma concepção do cosmos e da pessoa a partir de uma disjunção dada a priori entre o mundo da matéria, o corpo, a dimensão mais visível porém não a mais real, e o mundo do espírito, o mundo que é invisível mas que é a realidade verdadeira. E uma conjunção a posteriori entre corpo e espírito, mundo visível e mundo invisível efetuada em determinados episódios onde esses mundos são postos em relação: entre os quais os principais são os rituais públicos da religião, mas também em passagens críticas da vida dos fiéis, donde a cura acima relatada é um claro exemplo.
Neste trabalho busco considerar essa visão de pessoa e de mundo acima esboçada a partir de seus próprios termos, buscando ir além de uma caracterização que a consideraria como uma crença ou representação relativa, ideia propriamente ocidental
50 de Cultura que Roy Wagner chama de “sala de ópera” (WAGNER, 2012, p.), que incidiria sobre um fundo de realidade invariável: a história, ou a natureza somática e biológica. Pelo contrário esses construtctos nativos não são senão o ponto de partida, se queremos observar o Santo Daime de um ponto de vista antropológico, pois que estabelecemos termos pelos quais o daimista inventa, em um sentido wagneriano, o mundo que vive, com suas próprias bases do que se considera como real e como ilusão.
Com a caracterização desses demiurgos daimistas, com uma leitura das trajetórias de Mestre Irineu e Padrinho Sebastião busco ir introduzindo o leitor ao mundo daimista, inserindo e descrevendo os termos, as instanciações, que compõem a invenção desses personagens e que são fundamentais para compreender a invenção do cosmos e da pessoa no Santo Daime.
Observando a trajetória de Padrinho Sabastião novamente a cura aparece como um fator preponderante de adesão. Este, após receber a cura, como grande parte dos seguidores de Irineu, passou a frequentar o Alto Santo, e em pouco tempo pouco tempo alcança notoriedade na doutrina, recebendo autorização de Mestre Irineu para realizar trabalhos de concentração na sua casa na colônia 5000 devido à grande distância entre a colônia e o Alto Santo, onde eram realizados os trabalhos de Mestre Irineu. Já nessa época Sebastião era tratado como padrinho pelos seus seguidores da colônia 5000 e recebia os hinos de seu primeiro hinário: o Justiceiro.
Após a “passagem” de Mestre Irineu, Leôncio Gomes havia assumido a presidência do Alto Santo e após uma série de desentendimentos, dentre os quais estão o fim da concessão para que Sebastião produzisse daime e as relações com as autoridades que continuavam a perseguir a religião, o Padrinho Sebastião retira-se do Alto Santo em 1974 sendo acompanhado por cerca de 100 seguidores, que formaram a comunidade da Colônia 5000 (COUTO, 1989).
1.5. A Santa Maria e a Umbanda: instanciações de uma simbolização