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Paisagem como forma simbólica na Geografia

No documento O POMBO URBANO: PAISAGENS DO OUTRO (páginas 76-80)

2. Espaços do pombo urbano

2.6. Paisagem como forma simbólica na Geografia

Como vimos até aqui, a perspectiva não é uma mera técnica de representação gráfica do espaço: é uma ordem que se instaura, através das representações da arte e da fotografia, como equivalência entre artifício e realidade (ou natureza). A perspectiva alterou a forma com que enxergamos o mundo e construímos nossas paisagens; segundo Cauquelin, essa “forma simbólica” estabelecida pela perspectiva não se limita ao domínio da arte; ela envolve de tal modo o conjunto de nossas construções mentais que só conseguiríamos ver através de seu prisma. Assim, a representação da paisagem construída sobre a ilusão da perspectiva confunde-se, por vezes, com aquilo de que ela seria a imagem. “Por isso é que ela é chamada de

‘simbólica’: liga num mesmo dispositivo, todas as atividades humanas, a fala, as sensibilidades, os atos.” (CAUQUELIN, 2000, p. 38). A autora não credita o termo “forma simbólica” a Ernest Cassirer, mas é evidente que o utiliza exatamente com o mesmo sentido e conteúdo, como nós o utilizaremos daqui em diante.

Esta condição própria da paisagem como forma simbólica, que coloca a natureza e a cultura numa relação dinâmica, e ainda carrega embutido em seu conceito a dimensão da representação do mundo, é que faz da paisagem uma representação e uma categoria científica possível para a investigação das relações entre seres humanos e pombos urbanos através de suas representações. A Geografia já incorporou a dimensão cultural da paisagem há algum tempo e vem, cada vez mais, trabalhando com os conceitos de representação social e cultural.

O século XX foi marcado também por duas outras abordagens geográficas: uma de base de base positivista, e a outra baseada no materialismo histórico/marxismo, a Geografia Crítica. O conceito de paisagem em sua amplitude e ambiguidade não se encaixava no racionalismo lógico-matemático da Geografia Quantitativa. Na Geografia Crítica, a paisagem passa a ser tratada como mera manifestação física da formação socioeconômica, sendo analisada somente na sua materialidade física e na sua dimensão ideológica.

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Nos anos de 1970, na França, Yves Lacoste lança a revista Hérodote, em que, mesmo sob uma perspectiva marxista, recupera a paisagem como conceito operacional na Geografia. Nos Estados Unidos da América, sob influência do ambiente intelectual promovido pela cultura hippie da década de 1960, com a contracultura e os movimentos estudantis, a paisagem será retomada em seu viés cultural. Na academia, em oposição ao crescimento da Geografia Quantitativa, acusada ora de servir a interesses político-econômicos dominantes, ora de ser excessivamente pragmática, racionalista, acrítica e positivista, surgiu um apelo extremo à subjetividade e à sensibilidade na Geografia. É nesse contexto que David Lowenthal vai defender uma Geografia que se debruça sob diversos modos de observação, incluindo as dimensões do consciente e do inconsciente, do objetivo e do subjetivo. Também na mesma época e contexto, Yi-Fu Tuan publicou seu livro The World's Landscapes (1970), um estudo sobre paisagens. Mais tarde, Tuan iria publicar sua obra Topofilia (1974), um dos marcos principais da geografia humanista. Dentre as aproximações humanistas que mais tarde Tuan defenderia, a paisagem é convencionou chamar de geografia humanista, a partir dos valores, das crenças, do gosto e das preferências, da visão de mundo, termos que substituem o conceito de cultura. Busca-se a análise da paisagem a partir de sua interação com pequenos grupos (o máximo no que diz respeito a um “sujeito coletivo”) e seus valores, sejam pequenas elites locais ditando o que são belas paisagens e formando um gosto geral, sejam camponeses dando inteligibilidade a seus arredores (BUNKSE apud NANE, 2010, p. 172).

A paisagem cultural, nesses estudos, perde um pouco de seu caráter

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acadêmica, a chamada Nova Geografia Cultural. O contexto é o da pós-modernidade em formação, das diluições das fronteiras, da globalização. Seu expoente de maior destaque é o norte americano Denis Cosgrove, para quem a paisagem, como conceito dentro do campo acadêmico, é uma ferramenta analítica do pesquisador: a análise da paisagem é um método para entender o mundo e as sociedades que, aliás, produzem, mantém e compartilham as diversas paisagens e suas devidas valorações.

Não há de maneira alguma uma distinção entre a paisagem que é supostamente real daquela que seria mera representação:

realcionando-se direta ou indiretamente a autores como Michel de Certeau e Henri Lefebvre, parte-se do princípio que realidade e representação são mundos que se complementam e se integram entre si, sendo que a paisagem os sintetiza: ideologia, representação e cultura assim se fundem e se confundem. (NANE, 2010, p. 177).

A paisagem na produção geográfica atual traz consigo uma multiplicidade de aplicações, podendo ser considerada apenas para a análise material do espaço, em abordagens humanistas existenciais, ou em sua faceta cultural. Em realidade, a divisão entre humanidade e cultura tende cada vez mais a se dissolver na direção de uma Geografia Humanista e Cultural.

Fundada nas ciências naturais, a Geografia foi ao longo de sua trajetória incorporando conteúdos das Ciências Sociais e também da Filosofia. Através de sua matriz mista de tendência unificadora e totalizante, a Geografia, como conhecimento e disciplina acadêmica, proporciona uma reação à ideia de cultura e história como separação entre homem e natureza. Como conceito, a paisagem, dentro da geografia, acompanha desde o início esta trajetória da disciplina, incorporando sentidos e abordagens sem nunca se desligar completamente de seus significados fundantes, que colocam sempre em relação a natureza, a cultura e a representação. Esta dinâmica da paisagem se mostra como uma alternativa muito rica para esta pesquisa, que trabalha justamente com as relações que se estabelecem, na paisagem das cidades, entre seres humanos e pombos urbanos, tomadas a partir de suas representações no mundo da arte e da cultura. Tomarei novamente uma citação de Cauquelin para introduzir o que se seguirá:

A mescla dos territórios e a ausência de fronteiras entre domínios são marca bem própria do contemporâneo; a paisagem não foge a essa

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regra. Sua esfera se ampliou e oferece um panorama bem mais vasto em apoio à tese construtivista; ela compreende noções como a de meio ambiente, com seu cortejo de práticas, ao passo que as novas tecnologias audiovisuais propõem versões perceptuais inéditas de paisagens outras.” (CAUQUELIN, 2000, p. 8).

A imagem a seguir, retirada da obra Ornitologia urbana, é um exemplo de uso da paisagem na arte contemporânea, representações em que o pombo figura como elemento constante. O que será discutido no próximo capítulo é a presença e o significado do pombo urbano, entendido como elemento da paisagem urbana, em diferentes representações culturais, e como este elemento coloca em correlação conceitos como natureza e cultura.

Figura 3 - Ana Bellenzier. Frame da videoinstalação Ornitologia urbana – experimento nº1.

Curitiba, 2010.

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