3.1 – Metade Sul, Metade Pobre?
É impossível falar em “metade sul” do RS sem lembrar-se das grandes extensões de terras que ali se concentram. Tão necessário quanto remeter-se aos latifúndios e às marcas que estes deixaram (e ainda deixam) na sociedade, faz-se necessário também resgatar alguns fatos mais relevantes na formação histórica do território sul-riograndense, para que se possa efetivamente compreender como se constitui esta divisão entre o norte e o sul do estado.
Inicialmente, cabe lembrar que a economia do RS sempre se baseou na criação de gado10 e, para fomentar a produção de carne e também propiciar a ocupação do território, a Coroa efetivou a distribuição de Sesmarias11. Primeiramente, para os tropeiros e militares, consolidando assim a criação extensiva de gado nos latifúndios (PESAVENTO, 1997), não sendo necessário o seu pagamento, pois as mesmas eram doadas geralmente em troca de favores.
De acordo com Brum Neto (2007), a elevada concentração fundiária impedia o crescimento demográfico e era um obstáculo ao desenvolvimento da agricultura de subsistência. Os primeiros sinais de mudança desse quadro começaram a ocorrer com a chegada dos imigrantes que pouco a pouco introduziram a agricultura no estado e iniciaram um tímido processo de mudança da estrutura fundiária.
Para Zarth (2002), a imigração que ocorreu no norte do estado, nas áreas de florestas no planalto, só ocorreu ali para não mexer no latifúndio, o qual já havia se estabelecido anteriormente na parte sul do Rio Grande. Afirma o autor que:
10 É importante ressaltar que o capital proveniente das lavouras de arroz possibilitou por muitos anos
(e ainda possibilita em alguns casos) a permanência da pecuária extensiva na região sul do país.
11 As sesmarias eram vastas extensões de terras, algumas com milhares de hectares, concedidas
pelo governo português, mediante solicitação dos interessados, geralmente a os nobres ou oficiais, desde que comprovassem ter condições de explorá-las. Elas são a origem dos latifúndios pecuaristas ainda hoje existentes.
(...) se o governo era adepto da colonização, os latifundiários tinham algumas restrições: colonização sim, mas sem mexer nas estâncias pastoris... dividir as matas sem mexer nos campos nativos foi a saída encontrada para resolver os problemas levantados e atribuídos aos latifúndios pastoris... Em 1921, a superfície colonizada, transformada em pequenas propriedades, era de 34.800 km², conforme informa o Anuário
Estatístico do RS daquele ano. E os campos nativos para criação de gado,
segundo informa essa mesma fonte, ocupavam 180.000 km².(ZARTH, 2002, p.72- p.73)
Além disso, para garantir a posse da maioria da terra sob o domínio dos grandes latifundiários e impedir que os lavradores nacionais, ex-escravos e imigrantes tivessem acesso a terra, instituiu-se no Brasil a Lei de Terras, a qual só permitia adquirir terra através da compra. Dessa maneira, a Lei de Terras foi fundamental para garantir a existência e o domínio do latifúndio na paisagem do Rio Grande do Sul. Criaram-se assim restrições legais ao desenvolvimento da agricultura familiar no país. Para Martins (2004, p. 137), este fato impôs sérios entraves ao desenvolvimento de um mercado interno mais robusto e manteve o direcionamento da produção das grandes propriedades (e de boa parte da economia brasileira, até os dias de hoje) voltada ao mercado externo.
Desse modo, pode-se notar que o processo de concentração fundiária não é algo recente, mas que decorre do processo histórico de ocupação do território do Rio Grande do Sul. Todo esse engessamento em torno da grande propriedade e da pecuária acabou deixando a região da Campanha à margem do processo de industrialização no estado, que iniciou no final do século XIX, concentrando esse processo especialmente para as regiões de colonização alemã e italiana. Tal processo, somado às diferenças de produtividade do solo, às diferenças culturais e aos diferentes modos de produção contribuíram significativamente para a concretização do cenário atual do estado. Cabe lembrar, portanto, que o cenário de “atraso” hoje apresentado, é o descrito sob o ponto de vista dos números, da economia, não significando necessariamente qualidade ambiental e de vida.
Todos esses breves apontamentos históricos servem para, antes de tudo, esclarecer que para além das diferenças físicas e naturais (principalmente de solo), este território é heterogêneo, passou por processos distintos de ocupação e que jamais se tornará idêntico a porção norte do estado. Sendo assim, de nada adianta a insistência do poder público e/ou privado em transformar a Campanha idealizando
nela um fim comum, acreditando que um dia ela se torne tão (des)envolvida quanto o planalto norte. A região pode sim se desenvolver, transformar-se em uma referência de qualidade de vida, ambiental e também de crescimento econômico, porém valorizando suas próprias características, as potencialidades do seu meio natural e do seu povo. Porém para isso, precisa deixar de ser vista apenas sob o olhar único do capital, de exploração e de geração de lucro.
3.2 – Formação da paisagem do Pampa Gaúcho
Conforme salientado anteriormente, indicadores de desenvolvimento ligados ao modelo hegemônico vêm sendo adotados para caracterizar os municípios localizados na porção sul do estado do Rio Grande do Sul, denominando-a de “metade pobre” do estado.
Tal afirmação, já bastante comum inclusive em alguns segmentos da comunidade acadêmica, reflete a maneira como se incorporou uma única maneira ou possibilidade de desenvolver-se, evoluir: através do acúmulo de capital. Tal situação é ainda mais preocupante pelo fato de que tal estereótipo está sendo usado na administração e gestão das políticas públicas estaduais, principalmente quando governos facilitam e atraem empresas multinacionais (que deixam muito pouco retorno para o município) para essa região, em nome do tão prometido e desejado (des)envolvimento.
Esta é, no entanto, a transformação que vem passando o Pampa Gaúcho, que segundo Suertegaray e Pires da Silva (2009), abrange regiões pastoris de planícies nos três países da América Platina, abrangendo cerca de dois terços do estado do Rio Grande do Sul (17,6 milhões de hectares da metade sul) (fig. 07), além das províncias argentinas de Buenos Aires, La Pampa, Santa Fé, Entrerríos e Corrientes e a República Oriental do Uruguai.
Figura 7: Área de abrangência do Bioma Pampa no Brasil Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Org.: Sell, J.C.
Este bioma, é a reunião de “formações ecológicas que se inter-cruzam em uma formação ecopaisagística única, com intenso tráfego de matéria, energia e vida entre os campos, matas ciliares (de galeria), capões de mato e matas de encostas” (IBGE apud SUERTEGARAY e PIRES DA SILVA, 2009).
No entanto, desta sua vegetação campestre e dos seus banhados característicos, restam apenas 39% (PICOLLI e SCHNADELBACH, 2007). Entre os anos de 1970 e 2005, segundo as autoras (op. cit.), estima-se que 4,7 milhões de hectares de pastagens nativas foram convertidos em outros usos agrícolas, como lavouras e plantações de árvores exóticas.
Esta violenta supressão da vegetação campestre natural do Pampa gaúcho torna-se ambientalmente ainda mais grave diante da imensa riqueza da biodiversidade nela existente. Estimativas recentes indicam que esta região é composta de pelo menos 3.000 plantas vasculares, com 450 espécies de gramíneas e 150 de leguminosas, além de 385 aves e 90 mamíferos, sendo parte destas espécies chamadas endêmicas, pois só ocorrem neste ecossistema. É por isto que os campos pampeanos, na sua composição de flora e fauna, podem ser considerados tão importantes quanto uma floresta tropical, para a conservação da biodiversidade planetária. (PICOLLI e SCHNADELBACH, 2007)
Do ponto de vista sócio-econômico, Suertegaray e Pires da Silva (2009) apontam que o objetivo é transformar a matriz econômica da metade sul, histórica e culturalmente pastoril, em região de produção de madeira e celulose. Segundo os autores (op. cit.) as bases desse empreendimento estão assentadas na “construção de um pólo de produção de celulose em terras ‘pampeanas’ e promover o escoamento dessa produção através de vias navegáveis, como a Lagoa dos Patos”. (p.56). A introdução da monocultura (do eucalipto, pinus ou acácia) constitui-se em uma mudança na matriz econômica de forma conservadora e concentradora de renda.
Sob outro aspecto, cabe registrar as manifestações relativas à defesa do bioma Pampa. Esta defesa recebe o apoio dos movimentos sociais pelo acesso a terra, na medida em que a “garantia da diversidade do bioma Pampa não deverá excluir a possibilidade da diversificação da produção econômica e manutenção da vida”, visão de mundo que perpassa a luta dos movimentos sociais pela terra. (op.
cit.)
É este bioma, suas paisagens e a sua cultura que se encontram ameaçados. A proposta da silvicultura como alternativa desenvolvimentista contrária às propostas de manutenção da diversidade através do uso diversificado e da manutenção desse mosaico de paisagens, saberes e fazeres revela o embate. (SUERTEGARAY e PIRES DA SILVA, 2009).
Esse cenário de insatisfação econômica e de intensificação de um processo produtivo com pouco retorno para o município traz algumas preocupações, principalmente com relação à paisagem e a construção de cenários futuros deste
território12. A dinâmica da paisagem envolve aqui não somente o que é visível ao
olho humano, mas também a compreensão de todas as forças que, por uma razão ou outra, não se manifestam de forma evidente nesta estrutura visível. Romero e Jiménez (2002) afirmam que a forma e a estrutura que vemos na atualidade, são o reflexo das dinâmicas do passado, fazendo com que o tempo acabe se tornando um elemento fundamental na determinação dos controles que definem o ritmo e a forma das transformações estruturais e que, na maior parte das vezes, não é considerado. Portanto, ao caracterizar uma paisagem, não basta apenas descrever as suas características visíveis, mas sim todo processo interno e externo que influencia uma determinada unidade. Nesse processo, além da necessidade de conhecimento do conjunto, é fundamental a compreensão de cada componente da paisagem (antrópico, o biótico e o abiótico).
Antes de uma descrição mais detalhada da paisagem de Piratini, cabe salientar que, Romero e Jiménez (2002) dividem os seus componentes em dois grandes sub-grupos: as macroestruturas e as mesoestruturas. As primeiras possuem menor suscetibilidade a mudança (mais independentes) e são compostas pela estrutura geológica e pelo clima. As macroestruturas apresentam estabilidade e independência e definem a estrutura básica do território, aonde irão se assentar e se sobrepor os demais componentes que se manifestam na paisagem. (op. cit.). Já as mesoestruturas compõem-se dos demais elementos constituintes da paisagem, como água, solo, vegetação, fauna, relevo e intervenção antrópica. São os elementos mais dinâmicos e vulneráveis de uma paisagem e, conforme os autores (op. cit.) dependem da matéria e da energia controladas pelas macroestruturas.
Quanto ao município de Piratini, este se caracteriza, assim como a maior parte do Pampa, por possuir um mosaico de vegetação campestre e arbustiva (OVERBECK, 2009), submetido a características macroestruturais - condições climáticas e de geologia – únicas.
Sob o ponto de vista dos aspectos naturais, o município revela uma combinação particular de elementos abióticos (rochas, solo, clima, relevo, etc) com uma diversidade biológica muito presente (fauna, flora), sendo a associação destas
12 Usamos, aqui, a paisagem como uma categoria central para o estudo e a compreensão do
território, uma vez que ela “(...) reflete o estado ou situação do território em um momento determinado, assim como a forma como participam nele cada um dos componentes ambientais (...) e o peso da intervenção de cada um deles nos processos que são chaves para o funcionamento do território (Romero e Jimenez, 2002, p.13)
características responsável por uma beleza paisagística inusitada. Estas particularidades da paisagem encontrada no município revelam a existência de um grande patrimônio natural a ser preservado.
Geologicamente essa região é a mais antiga do Rio Grande do Sul (NESKE, 2009), sendo por isso também chamada de Escudo Cristalino Sul-Rio-Grandense. As rochas são formadas principalmente de composição granítica com associações de rochas metamórficas (STRECK apud NESKE, 2009) intercaladas por estruturas areníticas de 400 a 600 milhões de anos.
Devido a tais características geológicas, é muito freqüente encontrar na região, antigas minas de exploração mineral, como é o caso da exploração de cassiterita na comunidade Minas do Paredão, terceiro distrito de Piratini. Embora esta tenha sido uma atividade econômica muito importante para a formação da comunidade, hoje já não possui nenhum tipo de influência sobre a população, a não ser a sua presença nas longas e detalhadas histórias contadas pelos moradores mais antigos.
De modo geral, portanto, a exploração de minérios na Serra do Sudeste, mesmo tendo sido uma atividade bastante localizada, transformou a paisagem. Atualmente, a exploração, principalmente do calcário, em municípios próximos traduz-se em uma atividade extremamente impactante, causando remoção de solo e vegetação de áreas íngremes, alterando o ciclo hidrológico e contaminando o lençol freático.
Quanto aos solos, predominam os pedregosos com afloramentos de rochas, presentes em áreas de relevo ondulado a fortemente ondulado (NESKE, 2009), vulneráveis a erosão e que conferem grandes restrições ao uso agrícola. É uma região que possui solos rasos na sua maior extensão. Essa “restrição” às atividades agrícolas contribuiu para a produção de uma clara identidade pecuária a este território.
Além da cultura e da restrição do solo, o clima também se torna um fator decisivo para a ocupação e exploração do espaço. A temperatura média anual nesta área varia entre 16 e 18 °C. A precipitação situa-se entre 1500 e 1600 mm e a hipsometria fica dentre 100 e 450 m (SEPLAG, 2009). O clima atual desta área é considerado úmido, não se observando a configuração de uma estação seca, o que remete a um aparente paradoxo ecológico já discutido por vários pesquisadores
(HUECK, 1966; LINDMAN, 1906; RAMBO, 1956, apud BEHLING et. al.), pois tais condições climáticas são propícias para uma vegetação florestal e não à predominância de campos.
Estudos palinológicos (BEHLING, 2002; 2007, LINDMAN, 1906, apud BEHLING et. al. 2009) demonstram que esta é uma região que possui um histórico de paleoclimas muito significativo, além de mudanças paleoambientais e paleovegetacionais consideráveis, o que reforça mais uma vez a particularidade do bioma pampa.
Overbeck (2009) afirma que a vegetação característica pode ser dividida em duas categorias de campos, os campos limpos (sem componentes lenhosos) e campos sujos (campos com arbustos) além das áreas de floresta no entorno da Serra do Sudeste, numa espécie de mosaico campo-floresta (Figura 08) (BEHLING et. al. 2009).
Figura 8: Mosaico campo-floresta típico no município de Piratini.
Ao fundo observa-se uma feição geomorfológica característica da Serra do Sudeste.
Fonte: Sell, J.C. Trabalho de Campo (2010).
Nas palavras de Gassmann (2009) esses campos são de uma inacreditável riqueza de espécies cuja explicação atribui-se a sua localização de transição entre o
clima tropical e temperado e, também, à variação de substrato geológico e de altitude (OVERBECK, 2009). Essas condições, principalmente com relação às climáticas, vêm favorecendo a interferência antrópica na paisagem, principalmente quando da inserção das plantações de exóticas nesta área.
O projeto desenvolvido pelo Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2006, que elaborou o mapeamento da cobertura vegetal do Bioma Pampa, segundo Neske (2009), revelou que entre os tipos de formações vegetais ocorrentes nos municípios que constituem o pampa, há o domínio fisionômico de uma estrutura de vegetação em transição. Ou seja, conforme, Weber & Hasenack (apud NESKE, 2009) “são áreas de tensão ecológica com presença de formação herbáceo-arbustiva nativa com uso pecuário e floresta nativa (p.74)”, o que caracteriza uma paisagem típica da Serra do Sudeste. Neske (op. cit.) aborda ainda que, de acordo com o projeto Biodiversidade do RS, a vegetação da Serra do Sudeste do Rio Grande do Sul oferece condições para uma grande diversidade da fauna, onde é possível encontrar “cervídeos, felinos silvestres, avifauna diversa e insetos, destacando-se os meliponídeos (p.75)”. Segundo o projeto, a presença significante na paisagem de áreas com afloramentos rochosos oferece condições necessárias para a ocorrência de muitas espécies endêmicas junto às rochas, principalmente cactáceas. Estas, por sua vez, têm representado um importante atrativo para pesquisadores brasileiros e estrangeiros, que nos últimos anos têm protagonizado intensas atividades, que vão desde pesquisa e comércio informal, até biopirataria com as cactáceas deste bioma.
Assim, embora seja uma das regiões mais ricas em termos de biodiversidade do estado do Rio Grande do Sul, ainda existe um grande desconhecimento sobre os componentes bióticos dessa região (SEPLAG, 2009). Conforme este órgão, a Serra do Sudeste constitui um complexo mosaico de distintas formações que servem de redutos para a ocorrência de fauna e flora ameaçadas ou raras, de grande importância para a biodiversidade.
Portanto, de encontro com diversas concepções que afirmam que o homem somente contribui para a perda de biodiversidade, Overbeck (2009) e Bencke (2009) defendem que diversos fatores, naturais e antrópicos contribuem e/ou condicionam a composição da vegetação dos campos. Além do fogo e do pastejo, cabe salientar, a geada, as secas e o pisoteio por animais (domésticos ou silvestres). De acordo com
os autores (op. cit.) o fogo e o pastejo são considerados, freqüentemente, os principais fatores para manutenção dos campos, visto que, na ausência destes, os campos são sujeitos ao adensamento de arbustos e, quando próximos, de vegetação florestal, devido inclusive, ao clima ser propício a formações florestais. Tal fato configura uma fortíssima interação histórica entre a apropriação da natureza, a identidade cultural do gaúcho e a sustentabilidade da paisagem atual, num processo nitidamente caracterizado como co-evolutivo (GUZMÁN, 2000).
Bencke (op. cit.) afirma que a perturbação humana, principalmente com relação à fauna e flora, faz-se necessária neste ecossistema, visto que diversas espécies apenas encontram-se ali por já terem desenvolvido adaptações que necessitam de um determinado nível de perturbação para fazerem-se presentes.
Sendo assim, pode-se afirmar com base em Bencke (op. cit.) que tanto a ausência de perturbação quanto o seu excesso, podem ser prejudiciais a biodiversidade de determinados ecossistemas, visto que ambas levam a redução da diversidade/riqueza, devido à perda da heterogeneidade.
Com relação à manutenção da biodiversidade, é importante salientar a importância das propriedades baseadas no modelo da agricultura familiar. Este modo de produção tende a ser considerado menos degradante que os monocultivos, visto que aquele modo de exploração apresenta uma reduzida dependência externa dos sistemas de produção e um maior uso de fontes energéticas renováveis, permitindo a conservação da diversidade biológica e cultural.
A produção familiar e as formas de exploração desses agroecossistemas, desenvolvidas, em alguns casos, pelos saberes tradicionais locais, manteve na região uma relação mais intensa com a natureza do que com o mercado, proporcionando uma interdependência entre produção e recursos naturais, amenizando os processos de degradação ambiental.
Dado o grau de dependência do homem para com o meio natural nesta paisagem, nota-se uma necessidade vital de convivência que vá para além da coexistência. Nesse sentido, embora qualquer interferência humana cause algum tipo de alteração, é preciso considerar que algumas delas podem ser capazes de romper com os limites de resiliência da paisagem, os quais são descritos por Romero e Jiménez (2000) como a capacidade que a paisagem tem para absorver os transtornos e recuperar com rapidez seu estado de equilíbrio.
Até então, as atividades econômicas presentes, baseadas na pecuária, possibilitaram, embora com alteração, a manutenção da paisagem, a exemplo do predomínio do campo sobre a formação florestal, além da conservação da cultura local. Em contrapartida, nunca na história desse bioma, a inserção de uma monocultura [como a de árvores] foi capaz de produzir tamanhas alterações na paisagem, dificultando sua capacidade de recuperação, visto que atividades desta natureza não possibilitam nem a manutenção dos campos e, tampouco o avanço das formações florestais nativas. Assim, a sua inserção altera profundamente tanto os elementos bióticos, abióticos quanto os antrópicos, suprimindo a diversidade ambiental e cultural do lugar.
3.3 - Contexto e caracterização do município de Piratini, RS.
Dentro da área de abrangência do Pampa, optou-se por investigar os conflitos atualmente presentes no município de Piratini. (Fig. 09). Em que pese o seu processo histórico-cultural ligado à pecuária extensiva13, o município de Piratini tem sido palco de profundas transformações na base produtiva atual, buscando alternativas à estagnação econômica promovida por aquela tradicional atividade.
13 Piratini destacou-se como capital da República Riograndense, em fins do século XIX, durante a
Revolução Farroupilha, assumindo uma grande importância política na convergência dos interesses de grandes pecuaristas ligados à economia do charque.
Figura 9: Mapa de localização da área de estudo. Fonte: IBGE, adaptado por SELL, J. (2010)
Muitas das características abordadas anteriormente com relação à paisagem do Bioma Pampa podem automaticamente ser transferidas para a realidade do