CAPÍTULO 2: REENCANTAMENTO PELA NATUREZA E SUA APROPRIAÇÃO
2.5 Paisagens transformadas e homogeneizadas: reflexos do reencantamento
A reorganização dos territórios motivada pela aproximação das áreas verdes também altera as paisagens do lugar, tornando-as homogeneizadas, a exemplo da constante presença dos loteamentos, condomínios horizontais fechados e estabelecimentos turísticos e de lazer que possuem quase a mesma estética nos distritos. Vimos que o mercado vende a imagem de natureza intocada, mascarando a ideia de que para a mesma ser habitada, precisa ser urbanizada e transformada. A sociedade não quer e nem tem condições de viver próximo a uma natureza sem o mínimo de urbanização. Assim, a sociedade apropria-se dessas áreas naturais e reproduz o que já foi produzido, artificializando a natureza, tornada mero artefato.
Aquela natureza que já não era mais pura e intocada sofre um novo processo de transformação pelo homem, com os lugares sendo constantemente adaptados e reconstruídos para abrigar uma sociedade de consumo faminta pelo “verde”. A ânsia e a euforia por este ambiente mitificado fazem com que uma parcela dos membros da sociedade com maior poder aquisitivo acredite que pode (e deve) proteger e ao mesmo tempo ficar próxima à natureza.
Este tipo de consumismo acelera a destruição das paisagens naturais, substituindo-as pelas paisagens de concreto e tijolo, alterando a paisagem do local de uma forma geral e, consequentemente, alterando as percepções e o cotidiano dos citadinos. Como consequência, uma nova organização espacial é formada: novas territorialidades exclusivas, novos cotidianos e relações sociais, novas formas e funções, causando contradições no espaço, influenciando todo o local onde o processo acontece. Dessa forma, os simulacros 30 de natureza tornaram-se mercadoria e apenas
30 Segundo JUNQUEIRA (2004, p. 9), os “simulacros são unidades sociais [...] que perdem o referencial
[...] e passam ao sistema operacional dos signos característicos da sociedade de consumo. O sentido não é mais dado pelo real, mas pela sua operacionalidade segundo o código geral dos signos. Este código opera no nível inconsciente. Os sujeitos sociais não percebem este desligamento, e justamente nesta inconsciência é que repousa a eficácia do código”. Isso significa que os simulacros são formados
alguns podem adquirí-la. Assim, a estrutura social é também revelada pela paisagem. Portanto, o reencantamento pela natureza é ideológico e econômico. O mercado a reencanta para reorganizar o território e maximizar os lucros, com o seu consumo. O “domínio” é para poder mitificá-la, valorizá-la e vendê-la. A beleza é um dos atributos que favorece a mercantilização da vida contemporânea. “É essa a razão simbólica que se impõe na estetização das paisagens pelo consumo” (LUCHIARI, 2001, p.21). As ideologias ambientalistas ajudam a moldar o imaginário dos citadinos, incentivando-os a consumir a ideia de meio ambiente natural, que só existe em relação à sociedade. Na perspectiva de Milton Santos:
[...] hoje tudo tende a ser objeto, já que as próprias coisas, dádivas da natureza, quando utilizadas pelos homens a partir de um conjunto de intenções sociais, passam, também, a ser objetos. Assim a natureza se transforma em um verdadeiro sistema de objetos e não mais de coisas e, ironicamente, é o próprio movimento ecológico que completa o processo de desnaturalização da natureza, dando a esta última um valor (SANTOS, 2008, p.65).
Podemos perceber que é o próprio movimento ambientalista que se apropria das áreas verdes, valorizando-as e transformando-as em objeto de desejo de apenas alguns consumidores, contribuindo para a mercantilização das mesmas e para o processo de privatização e reorganização dos espaços, como vimos até agora.
Hoje, não temos apenas a natureza transformada pelo homem, mas temos, sim, ações para criar um mundo simbólico a partir da dominação. Estas ações produzem um
simulacro, uma natureza artificial. As paisagens naturais que nos restam são apenas
parte desse todo criado, espetacularizado. É o homem atingindo a utopia de que consegue produzir, de “criar” a natureza (SANTOS, 2008). Assim, o capitalismo contemporâneo “esverdeado” explora somente a natureza como um recurso, afetando toda a lógica socioespacial da cidade.
pelos signos que a sociedade valoriza. Na sociedade de consumo contemporânea, é a natureza que é mitificada e valorizada, sendo passível de ser transformada em simulacros.
LUCHIARI (2000, p. 36) ainda enfatiza que “a valorização estética das paisagens naturais tem acelerado o processo de produção de paisagens urbanas, e alimentando uma construção permanente e contraditória do conceito de meio ambiente”.
O que a autora analisa é que com a intensa valorização da paisagem natural, a paisagem “verde”, bucólica, vai transformando-se em outra, em uma paisagem urbana, pois, uma vez que a paisagem é construída socialmente, ela vai sendo urbanizada para receber a demanda de quem a procura, transformando-se. O recurso natural, que porventura ali existisse, foi substituído por uma paisagem urbana (LUCHIARI, 1999). Dessa forma, “os recursos naturais podem se esgotar, mas a paisagem é transformada em outra, em outra, em outra, ainda que numa lógica perversa, destituída de beleza e de riqueza natural” (LUCHIARI, 1999, p.129).
Tal substituição de paisagens pode ocorrer devido ao fato de as pessoas estarem tão acostumadas e condicionadas à vida urbana, que mesmo querendo viver longe do “caos” das grandes cidades, não conseguem mais abrir mão de certos aspectos característicos da vida urbana, procurando viver e divertir-se em áreas verdes, porém, com toda a infraestrutura típica das cidades: deseja-se fugir do “caos” urbano instaurado nos grandes centros, e nesse caso, as paisagens bucólicas é que são valorizadas. É nesse sentido que a reflexão sobre natureza e sociedade se faz muito importante.
Há que se ter cuidado para não considerar apenas a estética das paisagens. Se o olhar for direcionado somente para a aparência, para a beleza e para a forma e não houver entendimento dos processos que criam esta paisagem artificial e fragmentada, então ela estará sendo encarada de maneira superficial e alienada.
O reencantamento pelas paisagens naturais incentivado pelo mercado verde e pela materialidade estética (natureza – símbolo, vendida já urbanizada), faz com que a sociedade aliene-se, conforme analisado por SANTOS (1992). Alienando-se do objeto o sujeito também se aliena. Para que isso não aconteça, os processos históricos formadores da paisagem devem ser considerados, além de bem compreendidos e criticados para que tal paisagem não seja somente produto de alienação. Muitas vezes, a paisagem não é real, a exemplo da paisagem vista pelos turistas estrangeiros no
Brasil, por exemplo. Ela pode ser uma paisagem espetacularizada, um cenário montado para que seja admirado durante a estadia do visitante.
Dessa forma, deve-se analisar o processo de criação de cada paisagem para saber qual é o seu verdadeiro conteúdo (as espacialidades, a sua dinâmica, se houve ou não processo de expulsão e segregação da população local etc). Suas mudanças não podem ser analisadas independentemente das práticas sociais. Ao termos uma melhor compreensão dos processos formadores das paisagens, também entenderemos melhor as interações ou a indissociabilidade entre sociedade e natureza (GOMES, 1994; SANTOS, 2008).
Assim, vemos que a paisagem não é somente materialidade, ela também contém processos e relações sociais, sujeitos e subjetividades, que nos ajudam a compreender melhor os lugares onde está inserida. Segundo SANTOS (2008, p.103): “A paisagem é o conjunto de formas que, num dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza”.
É muito importante levar em consideração a paisagem não somente por aquilo que nossos olhos vêem, mas também pelas relações que ali existiram e existem hoje. SANTOS (2008, p.104) continua:
A paisagem existe através de suas formas, criadas em momentos históricos diferentes, porém coexistindo no momento atual. No espaço, as formas de que se compõe a paisagem preenchem, no momento atual, uma função atual, como resposta às necessidades atuais da sociedade.
Tais processos e relações sociais envolvidos serão responsáveis pelo dinamismo de alteração das paisagens, alterando as formas-conteúdo dos espaços.
Os “condomínios” e as formas de turismo e lazer privatizadas nos distritos podem exemplificar tais processos e alterações. Tal forma de urbanização fez com que o local sofresse diversas alterações, criando novas territorialidades exclusivas, impactando o meio ambiente e acirrando a segregação.
A alteração das paisagens dos distritos devido à urbanização, agora caracterizada por empreendimentos “murados”, com cercas elétricas, guaritas, grandes casas nas partes mais altas do município, além de diversos bares e restaurantes de
estilo rústico em meio a algumas áreas verdes remanescentes, faz com que o lugar abrigue uma paisagem homogeneizada. Segundo TREVISAN (2006, p.51):
A homogeneização dos cenários e as maneiras de se referir ao lugar são percebidas nas estratégias de vendas, por exemplo, de lotes nestes lugares. São imagens de natureza bucólica e confortável, de práticas de esporte livre na natureza, são slogans repetitivos que fazem referência à qualidade de vida e até felicidade que a natureza pode proporcionar, ou esta é usada como sinal de sofisticação.
Assim, a paisagem dos distritos fica sempre igual, com as novas formas de habitar, com as propagandas em outdoors vendendo a natureza e a qualidade de vida, os bares e restaurantes também com apelo natural, além dos stands de venda dos futuros empreendimentos imobiliários, que ajudam a valorizar ainda mais o espaço pesquisado.
Vemos então que a sociedade de massas modela o comportamento dos indivíduos para garantir a permanência do “sempre igual” (SANTOS, 1992). Homogeneizando-se culturas através da globalização, teremos ideologias e comportamentos também homogeneizados, resultando lugares e paisagens sempre iguais. Aqueles que não têm possibilidade de acesso não se sentem parte do lugar, sendo segregados dessa nova forma de consumo, pregada como uma nova forma de vida.
Quando essas paisagens são valorizadas, tornam-se atraentes, podendo ser consumidas de maneira alienada, caso não se dê atenção aos processos sociais mascarados atrás das belezas naturais. Portanto, o consumo das paisagens é material e simbólico, sendo preciso analisar quais os processos sociais que as tornaram o que são hoje.