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Paixão pela caricatura e determinismo biológico

Para Benjamin, a paixão de Fuchs pela caricatura mostra que ele não compactua com aquilo que se chama “contentamento no belo” (Freude am Schönen). Do ponto de vista da posição da caricatura entre os procedimentos artísticos, Fuchs entende que ela é “em certa medida a forma [...] da qual toda arte objetiva procede”28 – a prova dessa asserção, Fuchs encontra nos museus

etnográficos, nas formas “primitivas” de arte. Por mais problemática que possa ser essa concepção, ela evidencia a importância que Fuchs atribui à caricatura. Evidencia também o interesse de Fuchs pelos “teores drásticos da obra de arte”, o qual Benjamin rastreia por toda sua obra, citando a seguinte passagem, excertada da obra Escultura Tang, de Fuchs:

O grotesco é a máxima intensificação do que é representável sensivelmente [...]. Nesse sentido, as figurações grotescas são, ao mesmo tempo, a expressão da saúde abundante de uma época [...]. Certamente, não se deve contestar que em relação às forças de impulsão do grotesco também há um crasso polo contrário. Épocas de decadência e mentes insanas também tendem às formas grotescas. Nesses casos, o grotesco é a abaladora contraparte do fato de que, para as épocas e os indivíduos em questão, os problemas do mundo e da existência aparecem como insolúveis [...]. Quais destas duas tendências está por detrás de uma fantasia grotesca enquanto força de impulsão criadora, é algo reconhecível ao primeiro olhar.29

Benjamin destaca nessa passagem o modo de apresentação de Fuchs como uma fusão imediata do conceito abordado com valorações extremas e polarizadas – nesse caso, o grotesco em épocas saudáveis versus o grotesco em épocas decadentes: o primeiro, força de impulsão criadora, o segundo, expressão do desespero. Nessa chave, Benjamin identifica na obra de Fuchs uma espécie de “culto da criatividade”. Porém, o conceito fuchsiano de criatividade apresenta “um forte parentesco com o biológico”30, o qual configura, em Fuchs, uma concepção imediatista da arte, não

só da criação artística, mas também da compreensão/recepção da obra de arte e da própria história da arte. No tocante à criação artística, Fuchs concebe o “gênio criador” do ponto de vista de sua “virilidade” vigorosa, em uma concepção que, segundo Benjamin, beira o priapismo. Essa

28 FUCHS, Eduard apud BENJAMIN, “Fuchs”, p. 19. 29 FUCHS, Eduard apud BENJAMIN, “Fuchs”, p. 20. 30 BENJAMIN, “Fuchs”, p. 21.

concepção biologizante da criação artística é parte de uma assinatura de época31, que se resume na

convicção de que “a criatividade seria sobretudo manifestação de uma força transbordante”.32 Em

Fuchs, isso levaria, segundo Benjamin, a “concepções que são aparentadas com as da psicanálise”, que ele, de maneira pioneira, tornaria “frutíferas para a ciência da arte”.33 No que tange à

compreensão/recepção das obras de arte, o imediatismo se manifesta, ainda segundo Benjamin, no fato de a “impressão” – o “impulso inicial óbvio que o observador experimenta da obra”34

constituir, para Fuchs, uma categoria da reflexão sobre a obra, de modo que Benjamin nota que, com frequência, em Fuchs, um juízo sobre determinada obra surge como um salto a partir da apercepção da mesma. Nessa esteira, Benjamin afirma que Fuchs desenvolveu um “estilo particular e apodítico, para não dizer rústico”35, responsável pelo seu insucesso em conseguir suscitar

admiração como escritor. Por fim, “o ímpeto para o mais imediato domínio dos fatos” se estende para a análise fuchsiana: “'Necessário' aparece o decurso da história da arte, 'orgânicas' aparecem as características do estilo, 'lógicas' aparecem até as figurações artísticas mais estranhas”.36

Para Benjamin, é problemática essa “maneira intuitiva e imediata de ver quando pretende dar conta da situação de fato em uma análise materialista”.37 Ele a critica em nota, recorrendo ao

conceito de superestrutura. Em sua visão, a superestrutura, especialmente a arte, não se encontra em relação imediata com a infraestrutura; antes, essa relação passa por uma série de mediações, as quais somente uma análise detida – e, podemos dizer, dialética – pode desvendar para o conhecimento. Benjamin se refere a Marx, que, embora nunca tenha se externado pormenorizadamente “sobre como se deveria pensar a relação da superestrutura com a infraestrutura em casos individuais”, teria visado “uma sequência de mediações, ou transmissões, que se intercalam entre as relações materiais de produção e os distantes domínios da superestrutura, nos quais se encontra a arte”.38 No entanto, os epígonos de Marx, segundo Benjamin, em vez de

perscrutar aquelas mediações/transmissões, teriam em geral se contentado com o estabelecimento de analogias, o que em sua visão sinaliza a marca do espírito guilhermino. Também em Fuchs se verifica o procedimento por analogias, fato que Benjamin rastreia na ideia, frequente em sua obra, segundo a qual épocas de Estados mercantis são marcadas por estilos artísticos realistas.

Seja como for, é pela via da biologia que Fuchs desvia da ordem valorativa do classicismo,

31 Benjamin se refere às “patografias”, especialmente as de Lombroso e Möbius, que “representavam a última palavra na psicologia da arte” . 32 BENJAMIN, “Fuchs”, p. 21. 33 Idem, ibidem. 34 Idem, ibidem. 35 Idem, p. 22. 36 Idem, ibidem. 37 Idem, p. 22-23. 38 BENJAMIN, “Fuchs”, p. 22.

chegando à legitimação, mesmo que em uma chave determinista, de manifestações artísticas relegadas pela tradição, como a caricatura. A obra de arte, nesse escopo, não mais remete à esfera do ideal, como no classicismo, mas, ao contrário, é biologicamente determinada: na sua criação, não se trata de um sábio tocado pela natureza divina, mas de um indivíduo cuja virilidade não pode ser contida e se extravasa em obra; na recepção, não se trata da imersão na obra, mas em um caráter tátil da impressão que ela provoca; por fim, na própria história da arte, figurações extremas e estranhas encontram seu lugar de direito. Tais concepções parecem representar, para Benjamin, uma

força de ruptura com a concepção idealista da arte, que, na esteira do classicismo, prevalecia na história da arte tradicional da época de Fuchs.