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Palavra e imagem: dois ramos da mesma árvore

No documento UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE (páginas 28-34)

Neste capítulo abordamos a ilustração como recurso

recorrente em literatura e onipresente em literatura infantil, e a relação palavra/imagem.

A figura 4, introdutória a este capítulo, traz uma ilustração produzida para o livro ilustrado infantil O Peixe e o Papel do escritor visual Fernando Pires, objeto de estudo de caso da presente pesquisa, a qual foi publicada em uma outra versão. Como será visto adiante em sua entrevista, uma das características desse escritor visual é a exploração dos espaços em branco da página, e essa figura é um exemplo dessa prática.

1.1 Palavra e imagem: dois ramos da mesma árvore

Ilustrações são elementos fundamentais do universo da contação de histórias. Desde os primórdios da civilização, muito antes da criação de qualquer forma de escrita, histórias eram registradas nas paredes de pedra através de desenhos retratando dia a dia dos autores ou ainda utilizados para manifestações de cunho religioso. Mesmo os hieróglifos, ideogramas e caracteres, empregados por várias civilizações, originaram-se de desenhos de animais e outros objetos. A necessidade humana de contar histórias utilizou a imagem muito antes delas serem transmitidas por meio da escrita, como nas pinturas rupestres em cavernas narrando caçadas, como lembra Dondis (1991): A experiência visual humana é fundamental no aprendizado

para que possamos compreender o meio ambiente e reagir a ele; a informação visual é o mais antigo registro da história humana. As pinturas das cavernas representam o relato mais antigo que se preservou sobre o mundo tal como ele podia ser visto há cerca de trinta mil anos. Ambos os fatos demonstram a necessidade de um novo enfoque da função não somente do processo, como também daquele que visualiza a sociedade. (DONDIS, 1991, p. 5).

A autora ressalta a transformação gradual das ilustrações até a palavra escrita, passando pelos hieróglifos e pictogramas: “a evolução da linguagem começou com imagens, avançou rumo aos pictogramas, cartuns auto-explicativos e unidades fonéticas, e chegou finalmente ao alfabeto” (DONDIS, 1991, p.8).

Com a generalização dos meios de comunicação digital, observa-se um fenômeno de nova significação da palavra, a qual passa a transmitir sentimentos através de símbolos compostos por letras e caracteres, chamados de emoticons. Segundo Chartier (2002, p.16), “[...] o texto eletrônico reintroduz na escrita alguma coisa das línguas formais que buscavam uma linguagem simbólica capaz de representar adequadamente os procedimentos do pensamento”. A partir dos emoticons, e explorando os novos recursos tecnológicos dos dispositivos de comunicação, surgiram os, símbolos gráficos que individualmente também transmitem sentimentos ou mensagens completas, e os GIFs, os quais são imagens dinâmicas que através de seu movimento passam os sentimentos que se intenciona transmitir.

15 Certamente podemos esperar em um futuro próximo outras formas de

transmissão de ideias explorando novos recursos tecnológicos, que além de palavra, imagem e movimento possam também impressionar outros sentidos, como o olfato ou o tato.

Maria do Carmo Veneroso reforça a origem comum entre escrita e imagem: “ao buscar na História os caminhos da escrita,

chega-se a um ponto em que se torna quase impossível separar escrita e desenho, de tal maneira eles se relacionam. A imagem pintada, desenhada ou gravada pode ser considerada uma forma de escrita, e a escrita é também um veículo gráfico que comunica através das formas”. (VENEROSO, 2012, p. 76).

Figura 5 - Frank & Ernest. Cartoon de Bob Thaves, 11/06/2003. Fonte: <http://www.frankandernest.com/search/index.php?pm=&pd=&py=&kw= WRITER&submit=Search>. Acesso em 01/06/2019.

Essa ligação íntima entre imagem e palavra prevalece na infância, como ocorria nos primórdios (ou na “infância”) da Humanidade, e a escrita torna-se gradualmente independente e eventualmente dispensável com o amadurecimento do leitor. O cartoon da figura 5, de Bob Thaves (2003), utilizando a poderosa arma do humor, sintetiza de forma inteligente a origem comum de

palavra e imagem (“Não tenho certeza se se sou um artista ou um escritor”).

16 Até a invenção da imprensa, atribuída no Ocidente a Johannes

Gutenberg por volta de 1439, livros eram manuscritos e destinavam-se a entidades religiosas, governamentais ou a poucas famílias ricas, em um mundo em que a alfabetização estava restrita a alguns componentes desses grupos. A partir desse marco iniciou-se uma socialização maior dos livros, e considera-se que o primeiro livro

ilustrado infantil, primeiro livro didático ilustrado e a primeira cartilha do mundo cristão ocidental tenha sido Comenius Orbis Sensualium Pictus (O Mundo Visível Ilustrado), publicado em 1658 em Nuremberg pelo educador checo John Amos Comenius (fig. 6), e ainda difundido na Europa reformista por mais de dois séculos após sua publicação.

Figura 6 - Capa e ilustração da primeira edição de Comenius Orbis Sensualium Pictus, Nuremberg, 1658. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Orbis-pictus-001.jpg. Acessado em 04/06/2019.

17 Miranda (2011), publicou algumas imagens de Comenius

Orbis Sensualium Pictus traduzidas para a língua portuguesa (fig. 7). Nesse mesmo artigo, ele destaca a importância da obra:

Ainda hoje há um debate intenso a respeito de seus alicerces teórico-metodológicos. Porém, o que podemos afirmar é que "Orbis Pictus" desmistifica que o uso da imagem na educação escolar e na produção do conhecimento seja algo pensado apenas na moderna sociedade industrial. O estudo desta obra aponta para a necessidade de pensarmos que imagem, aprendizagem e conhecimento componham uma articulação histórica e que tenham história material. (MIRANDA, 2011, p.197).

Figura 7 - Páginas de Comenius Orbis Censualium Pictus traduzidas para a Língua Portuguesa no artigo de Miranda (2011). Fonte: <

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73072011000300014>. Acessado em 07/06/2019. O emprego da imagem com forte significação textual, como

ocorria nas pinturas rupestres, longe de significar algum primitivismo intelectual, persiste na modernidade em obras surpreendentes como em Unflattening (traduzido e publicado com o título Desaplanar), tese de pós-doutorado apresentada à Universidade Columbia por Nick Sousanis em 2014 no formato visual e verbal de arte gráfica (fig. 8).

18 Figura 8 - Capa e página de Desaplanar, tese de pós-doutorado em formato de arte gráfica. Nick Sousanis, 2014.

Entre várias classificações possíveis, como por exemplo obra acadêmica, arte gráfica ou texto visual e verbal, Desaplanar pode ser considerado um livro ilustrado para adultos. Para aprofundar o estudo e a reflexão acerca da convivência e a complementaridade entre imagem e palavra, o livro utiliza-se justamente dessa interação entre o visual e o verbal. Diz o autor: “[...] atentamos aos modos como

empregamos as modalidades visual e verbal para destilar algo tangível da vastidão das experiências dos sentidos. O verbal marcha de modo linear, passo a passo, uma sequência distinta de palavras, como as contas de um rosário. O visual, por outro lado, apresenta-se todo-ao-mesmo-tempo, simultâneo, disperso, relacional. (SOUSANIS, 2014, p. 58). Prossegue Sousanis: “[...] por conta de suas estruturas distintas,

19 não há correspondência direta entre palavra e imagem.[..:] A palavra

é hierárquica e ramificada, enquanto que a imagem é interconectada, sem pontos de partida ou chegada, rizomática, [...] enquanto a imagem é, a palavra é sobre” (grifo nosso). (SOUSANIS, 2014, p.58).

Como palavra e imagem convivem em nosso objeto de estudo, o livro ilustrado infantil? Um complementa o outro? A palavra é dominante e a imagem é um importante acessório, ou vice-versa? A literatura traz inúmeras variações dessa convivência. A terminologia da interação imagem/palavra também recebe várias contribuições. Wagner (1996, p.15) define “iconotexto” como “[...] um artefato no qual os signos verbal e visual se misturam para produzir uma retórica que depende da co-presença de palavras e imagens”, e “ [...] é um termo apropriado que podemos aplicar a imagens que mostram palavras ou escrita, mas também a textos que trabalham com imagens”. Sipe (2008) emprega o termo “sinergia”, ressaltando que a apreciação do livro ilustrado depende dela depende diretamente dessa interação, e que imagem e texto ficariam incompletos um sem o outro: “ [...] esse termo [sinergia] refere-se ao fato de que ilustrações e o texto verbal do livro combinam-se em conjunto para produzir um efeito que é maior que a soma das suas partes. O efeito total do livro ilustrado depende das interações percebidas entre o texto e as ilustrações”.

W. T. J. Mitchell define o termo “imagemtexto” (imagetext) para designar obras sintéticas compostas (ou conceitos) que combinam imagem e texto. Seu livro Iconology: image, text, ideology (1987) traz uma longa discussão sobre a interação imagem/texto e suas diferenças. Influenciado pelas ideias de Freud e Marx, emprega o termo “imagemtexto” para definir uma relação dialética, de tese e antítese, entre imagem e palavra no capítulo cujo nome já sugere a natureza dessa interação segundo o autor: Imagem versus Texto. Diz Mitchell:

A dialética da palavra e da imagem parece ser uma constante no tecido dos signos que uma cultura tece em torno de si mesma. A história da cultura é, em parte, a história de uma luta prolongada pelo domínio entre signos pictóricos e lingüísticos, cada qual reivindicando para si certos direitos de propriedade sobre uma "natureza" à qual apenas ela tem acesso. Em alguns momentos, essa luta parece se estabelecer em uma relação de livre troca ao longo de fronteiras abertas; em outras ocasiões as fronteiras são fechadas e uma paz separada é declarada. Entre as versões mais interessantes e complexas dessa luta está o que poderia ser chamado de relação de subversão, em que a linguagem ou a imagem olha para o próprio coração e encontra ali à espreita seu oponente. (MITCHELL, 1987, p. 43).

Nikolajeva e Scott (2000, p.225) classificam a interação imagem/palavra de acordo com seu grau de predominância ou aparente concordância. Em relação à predominância, as autoras denominam “interação simétrica” aquela onde “palavra e imagem

20 contam a mesma história, essencialmente repetindo a informação em

diferentes formas de comunicação”. Na “interação amplificativa”, as imagens ampliam mais plenamente o significado das palavras quando o texto predomina, ou as palavras expandem o significado das imagens quando estas últimas predominam, “de modo que as diferentes informações nos dois modos de comunicação produzem uma dinâmica mais complexa”. No extremo da interação amplificativa, palavra ou imagem passam a ter um papel simplesmente complementar. Em relação à aparente concordância entre imagem e palavra, “dependendo do grau de informação diferente apresentada, uma ‘dinâmica de contraponto’ pode se desenvolver onde palavras e imagens colaboram para comunicar significados além do alcance de qualquer uma delas isoladamente”. O extremo dessa dinâmica de contraponto é a “interação contraditória”, na qual palavras e imagens aparentam estar em oposição umas às outras. Essa ambigüidade desafia o leitor a mediar entre as palavras e imagens para estabelecer uma verdadeira compreensão do que está sendo representado. As autoras ressalvam que essas classificações não são absolutas, e “[...] a relação entre palavras e imagens em um livro de imagens nunca será completamente simétrica ou completamente contraditória [...]”, mas que essas categorias são úteis para estudarmos a interação palavra/imagem em livros ilustrados.

A convivência palavra/imagem nos livros pode ser

categorizada de acordo com o processo através do qual essas duas entidades foram criadas e integradas: livros com ilustração, livros-ilustrados, e livros de imagens.

No documento UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE (páginas 28-34)