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esde a idade do bronze na Grécia, as leis, o direito e a justiça foram atributos das classes dominantes. Primeiro, do wánax cuja palavra seria inspirada por Zeus, correspondendo à justiça divina, infalível e indiscutível. Depois, com a ascensão da aristo-cracia no período homérico, a classe dos guerreiros tornou-se a depositária da tradição mítico-religiosa, que lhe outorgava o mo-nopólio da justiça. Nesses dois momentos, os aedos foram uma peça importante na construção e manutenção das justificativas ideológicas para a dominação. A tradição oral conferia àquelas classes, como complemento e prolongamento de sua “grandeza cavaleiresca”, a autoridade sobre o cumprimento das leis. Os reis e nobres eram detentores de uma justiça que se originava nos deuses, a themis. Todavia, no ambiente urbano, o universo da tradição oral começou a ser questionado, e superado. No lugar da antiga themis, exigia-se a igualdade da dike.

Leis iguais para todos os cidadãos da polis, fixadas em um código escrito, eram vistas como a forma de se estabelecer uma

“medida justa” que norteasse a vida em comunidade. Leis es-critas significavam eliminar o monopólio da tradição oral e da classe aristocrática no que diz respeito à justiça. Era a transfor-mação do direito fundado nos valores “homéricos” e baseado na oralidade em um direito comum, válido para todos, baseado em 7. A palavra na polis

leis escritas e em alguma isonomia. A dike passou a ser a medida para os atos dos homens; agir de acordo com ela era manter-se nos “justos limites”, era possuir uma nova forma de arete. Mais do que a fixação do direito em códigos escritos, o avanço da dike correspondeu a uma transformação no universo mental dos gre-gos. A antiga arete dos heróis homéricos foi substituída por uma nova moral da ação, orientada pela busca da “medida justa”. No lugar da autoridade dos poetas e da tradição oral, impôs-se a uni-versalidade das leis escritas e o sentimento do dever cívico.

Com a ampliação do mundo urbano, os poetas não desapare-ceram. Eles ainda tinham prestígio junto à classe aristocrática, pois eram eles que cantavam os feitos memoráveis e davam re-nome aos filhos dos senhores. Eram esses poetas que glorifica-vam as conquistas guerreiras e os feitos atléticos das elites de seu tempo, como no caso de Píndaro, cujos hinos comemoram

“o momento da vitória”, para o qual o “homem agonístico” vivia (Jaeger, 1979). Quem era tema dos poetas era “divinizado”, era envolvido por uma aura heroica. Também nesse caso, a polis se apropriou dos ideais aristocráticos, uma vez que os atletas que retornavam vitoriosos das Olimpíadas recebiam as honras de he-róis da cidade.

Nos banquetes aristocráticos dos séculos 7 a 5 a.C., tornou-se comum a recitação de poemas de exaltação dos valores nobres e da tradição, que ficaram conhecidos pelo nome de Livro de Teógnis. Esses poemas trazem a valorização de uma arete vol-tada aos jovens, pretendendo lhes ensinar como se diferenciar dos homens comuns, por seu porte físico e por maneiras nobres.

Tais manifestações, no entanto, eram expressões de uma classe

que perdia seu domínio econômico e sua influência política, mas ainda buscava manter seu status, inspirando-se num nostálgico

“passado glorioso”. Mas a palavra cantada perdeu parte de sua força religiosa e influência política. Ela já não era identificada por todos como sendo a verdade provinda dos deuses. Indiscutivel-mente, um princípio de racionalização influenciava progressiva-mente a vida coletiva.

Por toda a Grécia, os conflitos sociais, as crises locais e a tira-nia tornaram-se contestações do poder aristocrático. Para evitar que Atenas fosse palco de uma revolta popular ou da ascensão de um tirano, no início do século 6 a.C., Sólon foi escolhido como legislador da cidade. Membro da aristocracia, Sólon era conside-rado um homem sábio e justo; coube-lhe a função de empreender reformas que trouxessem estabilidade à cidade. Para Sólon, as-sim como para os demais aristocratas, a usurpação do poder por um nobre apoiado pelo povo, a “tirania”, era o mais temível dos males. Num ambiente de crescente tensão, promover reformas sociais tornava-se mais que necessário. E caberia aos cidadãos em geral submeter-se às leis propostas pelo “justo legislador”.

Sólon extinguiu a escravidão por dívidas e cancelou as dívidas existentes, procurando libertar os atenienses que se encontras-sem cativos, inclusive no exterior. Além disso, ele classificou a população de acordo com sua produção de cereais, dividindo os habitantes de Atenas em quatro categorias. O princípio ideal que norteava as reformas de Sólon era a busca de um justo equilíbrio.

O “legislador de Atenas” colocou em primeiro plano a importân-cia do limite e a necessidade de os cidadãos tomarem consciênimportân-cia de sua responsabilidade para com a comunidade. Agir contra as

leis da polis era agir injustamente, era ultrapassar seus limites in-dividuais, incorrer em hybris; e para aqueles que agissem “além da medida”, a vingança de Zeus seria inclemente. Aí, o temor aos deuses e o dever cívico sobrepõem-se, criando uma moral que creditava às pessoas a responsabilidade por seu destino.

No processo de adequação à vida na comunidade urbana, na busca de normas ideais que pudessem reger a vida de seus habi-tantes, a polis seguiu um sentido de racionalização que levou à institucionalização da política, à difusão da moeda, à origem da prosa e da filosofia. No mundo em que o logos, a racionalidade, avançava sobre os espaços antes ocupados pelo pensamento mí-tico, o poeta perdeu ou se absteve de seu papel de porta-voz dos deuses, passando a falar em seu próprio nome. Já não eram as Musas do Olimpo que falavam através de suas palavras, mas sua voz interior que falava a partir de si para o mundo. No universo coletivo da polis, emergiu o indivíduo.

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