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CAPÍTULO V SÍNTESE E AVALIAÇÃO

2. Palavras avaliatórias

Como foi dito no início deste volume, nossa atitude no estudo das religiões é sem preconceitos. Procuramos colher o maior número possível de dados referentes à religiosidade primitiva, fornecidos por estudiosos de renome, competentes e dignos de confiança. O historiador honesto não pode condenar todas as religiões por avaliá-las à luz de sua própria religião; o historiador honesto há de reconhecer que em cada religião existem certas verdades; sua apreciação será imparcial, averiguando a satisfação que cada religião oferece aos seus seguidores; sua avaliação procura os valores intrínsecos de cada religião. Entretanto, o historiador cristão, apesar de empreender sua busca com honestidade, com impar­ cialidade, aprecia o cristianismo à luz das outras religiões e reconhece que a Verdade última está em Jesus Cristo, revelação de Deus aos homens, pois crê na Palavra de Deus como inspirada pelo próprio Deus.

“Uma das regras básicas do estudo fenomenológico das religiões é evitar o julgamento de outras crenças com critérios próprios.” Essa regra, entretanto, é difícil de ser colocada em prática. Nosso pensamento cien­ tífico crítico, nossa experiência total de vida, nossas reações emocionais e volitivas estão moldadas por nossos pressupostos cristãos e pela maneira de pensar ocidental. N a maioria das vezes, não temos consciência desses pressupostos; eles passam despercebidos. Temos um a noção personalista de Deus (Deus como pessoa), que outras religiões não possuem; somos monoteístas (um só Deus), quando outras religiões possuem uma infi­ nidade de deuses; fazemos distinção perfeita entre criação e Criador, enquanto outras religiões admitem o panteísmo (Deus nas plantas, animais e objetos); como cristãos, valorizamos a existência da igreja, quando outras religiões não a possuem.7 Estes são apenas alguns pressupostos cristãos que, inconscientemente, tendem a influenciar o historiador cristão na sua avaliação da religiosidade existente em outra cultura e em outra civi­ lização.

Tanto quanto possível, tentaremos evitar um julgam ento parcial e desonesto da religiosidade primitiva, mesmo porque, comprovadamente, ela está fundamentada na crença no Ser Supremo.

Os estudiosos comprovaram a crença no Ser Supremo como marco genuíno e característico da religião primitiva incontaminada. Desde os seus primórdios, o ser hum ano reconhece a existência e a atividade de

um Ser Supremo. Vimos no segundo capítulo que, embora recebendo diversos nomes, algumas vezes não pronunciados, o Ser Supremo ê o Senhor do universo, o Criador da natureza e do homem, o sustentador de tudo. São reconhecidos determinados atributos do Ser Supremo: eter­ nidade, onisciência, bondade, moralidade, onipotência, poder criador, além de legislar a ordem moral e vigiar o ser humano, recompensando-o ou castigando-o. O Ser Supremo é venerado com orações e cerimônias solenes.

Os bantos, povo africano classificado entre os mais primitivos, designam Deus como “Aquele que faz, o Organizador, o Criador” ou ainda como “o Poderoso, o Senhor, o Grande”; noutras partes, referem-se ao Ser Supremo como “O do alto, O da luz, O do céu, O do Sol”. A noção de um Ser Supremo do universo está presente em todo o continente negro, embora não haja o mesmo conceito em todos os lugares. Enfatizam-se três fatos relacionados à idéia de Deus entre os bantos: 1.°) Em região alguma dos bantos julga-se que Deus pode ser influenciado por meio de cerimônias mágicas, que se destinam aos espíritos e aos gênios somente; 2.°) Em parte alguma Deus não é representado de forma material nem se supõe que habita num a caverna ou noutro local sagrado; Deus não tem fetiche; 3.°) Em parte alguma Deus é blasfemado.8

Essa noção primitiva de Deus corresponde exatamente à revelação das Escrituras Sagradas, a Bíblia, que apresenta Deus como Criador do universo, onipotente, eterno, que está acima de tudo e de todos e a tudo sustenta. Gênesis, capítulo primeiro, mais parece um hino de louvor a Deus, a quem todas as coisas e criaturas devem sua existência. O Novo Testamento concorda com as afirmativas do Gênesis, quando diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus, Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por inter­ médio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3). “O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele” (Cl 1.15,16).

Do ponto de vista teológico, Gênesis apresenta os fundamentos sobre os quais a teologia cristã posterior se edifica: a fonte de toda criação é Deus; a ordem espiritual precede e transcende a ordem material; Deus atua dentro da ordem criada e não à parte dela; a criação é boa; a palavra de Deus inicia toda a nova criação; o homem foi feito à imagem de Deus; a criação foi progressiva.9

Quanto à crença no Ser Supremo, os povos primitivos são os quê mais se aproximam da doutrina cristã de Deus, como Criador e iUltift* tador do universo. Por incrível que pareça, a religião que poderi* (flf

considerada como a mais afastado do cristianismo, na verdade, está mais próxima dele, em sua forma e em sua estrutura, do que as grandes reli­ giões asiáticas. Tanto se aproximam que, quando o missionário chega pela primeira vez em seu meio, os primitivos afirmam: “É isto que está- vamos esperando.”10

Alguns dos elementos fundamentais das religiões primitivas se encontram no cristianismo. Podemos citar: o am or à terra; consciência profunda da delibidade hum ana e da necessidade de um poder maior para ser feliz; convicção profunda de que não estamos sozinhos no universo e que existe um m undo espiritual do qual procede toda bênção e toda ajuda; convicção de que existe outro mundo além da morte. Nem todos os grupos primitivos apresentam essas convicções, mas elas podem ser vistas em muitas sociedades pré-literárias.11

Ligados à religiosidade primitiva estão os mitos, muito impor­ tantes num contexto em que não havia a escrita. Os mitos transmi­ tem as crenças de uma a outra geração. Os mitos são histórias sagra­ das e exemplares que oferecem ao homem religioso modelos para sua conduta; eles auxiliam o homem a fazer o contato com o sobrenatu­ ral. Os mitos surgiram da incapacidade do ser hum ano compreender a existência de seres espirituais, a criação do universo, a origem da vida hum ana, vegetal e animal, o governo dos astros, fenômenos me­ teorológicos e outros fatos.

De uma tribo pigméia tem-se conhecimento de um mito da cria­ ção que pouco difere da narrativa bíblica do Gênesis. Conta-se que, depois que o Deus supremo criou os homens, viveu entre eles; cha­ mava-os de filhos e eles o chamavam de Pai. Não se fala de uma es­ posa junto a Deus, mas da criação do homem. Deus éra bom para. os homens, pois viviam neste m undo sem muito trabalho e esforço, sem necessidade e sem temor.

Os animais não eram seus inimigos e os produtos alimentícios iam ao seu encontro. A existência era paradisíaca. Deus não era visível aos homens, mas vivia e conversava com eles.

No mito ainda se conta que Deus havia dado um mandamento aos homens, de cuja observância ou infração dependeria seu futuro. Em caso de violação de sua vontade, as penas seriam: a criação se co­ locaria contra o homem; os animais e plantas se converteriam em seus inimigos; haveria fadiga, miséria, enfermidade e morte, como conse­ qüência da separação de Deus. Apesar da ameaça, o homem primor­ dial não passou na prova, transgrediu o m andamento e começou a sentir as conseqüências da desobediência. O homem subiu o rio. E n­ tretanto, Deus não deixou o homem desamparado; providenciou-lhe

instrumentos e armas para se defender. N a opinião dos informantes pigmeus, a maior catástrofe que afetou a humanidade foi a separação de Deus da família humana. Com isso, termina o primeiro ato da his­ tória da humanidade.12

O segundo ato da história da humanidade começa com a busca intensiva do homem ao Deus Pai desaparecido. Os homens não se se­ param de Deus queixando-se de que ele os haja abandonado na difi­ culdade, mas, ao contrário, testem unham como todas as fibras de seu coração se sentem atraídos por ele.

Este e muitos relatos similares encontrados em muitos povos do mundo coincidem em seus pontos essenciais com o relato de Gênesis. W. Schmidt, citado por Koppers, após estudo detalhado sobre a crença no Ser Supremo entre os primitivos, afirmou que há de se aceitar uma revelação de Deus ao homem primitivo.13

O ser hum ano criado à imagem e semelhança de Deus, cremos, tinha a capacidade de compreender a revelação de Deus acerca de si mesmo. Viveu feliz durante um período de seu Criador, mas escolheu o pior caminho e sofreu suas conseqüências. Desobedeceu, pecou e afastou-se de Deus. O Pai, no entanto, veio ao seu encontro, não o abandonou, mas providenciou o caminho para sua salvação, já anun­ ciada desde os primórdios da humanidade (Gn 3.15).

A razão pela qual os mitos e as crenças foram transmitidas de geração a geração, a ponto de chegarem até aos nossos dias (nas socie­ dades primitivas contemporâneas) deve-se à organização social da fa­ mília. Como as populações tão simples puderam conservar suas tradi­ ções religiosas, de que temos um esboço ainda que imperfeito? C erta­ mente através da família, que entre os primitivos da África e nos de­ mais povos é o suporte da vida religiosa e que faz corpo com ela: nas­ cimento, educação da criança, iniciação da adolescência, matrimônio, morte e sepultura — todas as fases da vida familiar são consagradas pela religião; apóiam-se mutuamente, fortificam-se ou enfraquecem-se simultaneamente. Se a família e a religião estão bem constituídas, a tribo progride; se elas se desagregam, a tribo desaparece.14

A organização da família, nas sociedades rudimentares, constitui um a preocupação fundamental; os laços familiares são estreitados sob a autoridade do chefe, o patriarca, que possui seus direitos e deveres, in­ clusive religiosos. A família é monogâmica, quanto mais primitiva for a tribo; depois, em algumas tribos, ela se tornou poligâmica, embora sujei­ ta a determinadas leis e objetivando mais produtos, mais relações, mais alianças e maior autoridade. H á a tendência de o patriarca se transfor­

mar em tirano, nas famílias poligâmicas, minimizando a mulher e sa­ crificando a criança. Entretanto, não se pode falar em promiscuidade gregária e inconsciente.15

Segundo a concepção cristã, a família é tida em alta conta. Tan­ to o Antigo como o Novo Testamento exaltam a unidade, a santida­ de e a responsabilidade da família no que diz respeito à transmissão das verdades sagradas. O povo de Israel sempre deu prioridade à or­ ganização familiar e foi no seio da família que os valores espirituais do povo foram conservados, quando ainda não havia a lei escrita. Moisés, grande servo de Deus, enfatizou a importância de am ar ao Senhor Deus de todo coração e de transmitir suas palavras aos filhos, assentado em casa, andando pelo caminho, na hora de deitar e na ho­ ra de levantar (Dt 6.4-7). O sábio Salomão deu vários conselhos aos pais quanto à necessidade de conduzir o filho no bom caminho: “Ins­ trui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhe­ cer pão se desviará dele” (Pv 22.6). Paulo exalta a fé não fingida da mãe e da avó de Timóteo, fato que levou aquele jovem a ser um gran­ de cooperador no reino de Deus (lTm 1.5).

Desde os primórdios da hum anidade até os nossos dias, quando a família vem sendo tão bombardeada com novos conceitos morais, é imprescindível a atuação da família cristã, vivendo um a fé não fingi­ da, ensinando os filhos no bom caminho da salvação e conservando os valores morais e espirituais contidos nas Escrituras Sagradas.

Se a família primitiva perpetuou os mitos, isso se deve também à utilização de símbolos. Os símbolos, como os mitos, unem o intelecto e as emoções, fazem a união dos valores sociais e pessoais presentes na religiosidade e ajudam as pessoas a compartilharem suas crenças. Toda religião possui seus símbolos. Um deles é o pilar, cujo significado sim­ bólico é a união da terra e do céu, do material e do sobrenatural, do homem e Deus. Está presente em todos os cantos da Terra e em todas as culturas, das mais primitivas às mais modernas. Levantar um a colu­ na era um costume antigo, significando que o grupo ali instalado pos­ suía existência e progresso no local, devido à sua ligação com Deus. Tal aconteceu com Jacó, após o seu sonho da escada que subia ao céu; co­ locou a pedra em que reclinara a cabeça por coluna, derramou azeite por cima e reconheceu que Deus ali se manifestara (Gn 28.18,19).

Em outra ocasião, ao empreender a grande reforma deuteronô- mica, o rei Josias colocou-se junto à coluna e fez o concerto perante o Senhor, conclamando o povo a obedecer a seus m andamentos e esta­ tutos (2Rs 23.3). A igreja é chamada de coluna e firmeza da verdade (lTm 3.15). O próprio templo é uma evolução do símbolo da coluna.

Além da coluna ou pilar, outros símbolos são comuns entre nôt até hoje: sangue — símbolo da vida; água e fogo — símbolos da puri­

ficação (batismo cristão); árvore — símbolo de crescimento etc. Dentre

eles, destaca-se a palavra, símbolo para transmitir as crenças; an tip -

mente, utilizava-se a palavra falada; hoje, a palavra escrita está muitíssimo divulgada. A Palavra de Deus, a Bíblia, para nós, cristãos, é a maior fonte

de comunicação, inspirada pelo próprio Deus e que nos transmite toda

a verdade espiritual necessária para nossa vida (2Pe 1.21; 2Tm 3.16,17). O próprio Jesus Cristo, Deus encarnado, é chamado de Verbo, Palavra, significando a grande e máxima revelação de Deus aos homens (Jo

1.1,11-14).

A crença no nosso Deus Criador, como apresentado pelas Escri­ turas Sagradas e como encontrado entre os mais primitivos povos da humanidade, foi se degenerando por influência do animismo ou fetichismo, da magia e do totemismo. Em algumas sociedades primárias, a crença num Ser Supremo é encontrada junto a práticas mágicas e totêmicas. A supressão progressiva do culto a um Ser Supremo e até o seu desapare­ cimento em tribos de cultura mais avançada, mas de moralidade mais duvidosa e de espírito mais depravado, tem a ver com o desenvolvimento paralelo, assustador e anormal, das superstições animistas ou mágicas.16 São os aspectos degenerativos da religiosidade primitiva que a afastam do cristianismo, isto é, distinguem-na dele. As diferenças básicas entre ambos são as seguintes: muitos deuses; nenhum a revelação na história (por ser pré-histórica); eficácia mágica do sacrifício e dos ritos; confusão entre magia e religião; deuses e homens pertencendo a um único sistema cósmico e dependendo m utuam ente um do outro.

Por influência da magia, aparece a figura do xamã, com a função de assegurar as relações entre o mundo dos espíritos e o homem; pode-se dizer que é equivalente ao feiticeiro da África ou ao mago da Babilônia. Em seus êxtases, o xamã é capaz de entrar em contato com o Ser Supremo, com os espíritos benéficos e maléficos e com os espíritos dos antepas­ sados, para traduzir suas mensagens aos homens. Para tanto, ele imita animais, cobre-se com disfarces. Sua principal função é curar os enfermos e dominar os maus espíritos e as almas que perturbam os parentes.

A figura do xamã pode ser equiparada ao pai-de-santo entre os umbandistas, um a vez que lhe são atribuídas as mesmas características e funções. N a realidade, existe a influência da idéia do xamã dos primi­ tivos africanos sobre a figura do pai-de-santo, uma vez que a religiosidfld# mágica foi trazida pelos africanos para o Brasil.

Uma outra influência mágica que atingiu diversas religiões, ineltk, sive as seitas mágico-religiosas do Brasil, são os fetiches. Q ualquif Qttflf

estranha pode tornar-se um fetiche; para tanto, precisa receber o poder mágico do xamã ou do pai-de-santo. Entretanto, o fetiche apareceu em sociedades posteriores às mais primitivas e demonstra uma deterioração da religião. Além dos fetiches da um banda, encontramos ainda hoje os talismãs e amuletos que as pessoas supersticiosas usam para afastar o azar, o mau-olhado ou para dar sorte.

Ainda em relação aos fetiches, encontramos os objetos abençoados no seio das seitas neopentecostais: são as rosas abençoadas, a água santi­ ficada e outros amuletos, muito comuns onde aflora a religiosidade popular de gente simples e carente. '

A crença na comunicação com os antepassados, presente no tote­ m ism o e envolvida tam bém em práticas m ágicas, reaparece ou simplesmente se perpetua em religiões posteriores, inclusive no espiritismo e na umbanda. Diversas tribos primitivas acreditam em muitos espíritos e na sua atuação neste mundo; essa idéia aparece nos orixás, cada qual com seus símbolos, vestimentas e exigências.

A crença na reencarnação ou na transmigração das almas também se perpetua em outras religiões, inclusive no espiritismo e umbanda.

Todas essas práticas mágico-religiosas, sendo um a degeneração da religiosidade pura da fé no Criador Supremo são condenadas pelas Escri­ turas Sagradas, a Bíblia. O povo de Israel foi proibido de segui-las, havendo a ameaça do castigo aos desobedientes (Dt 18.10-14). N o Novo Testa­ mento, aqueles que se envolviam em práticas mágicas precisaram se converter ao Senhor e abandoná-las (At 19.18,19). ,

A idéia de tabu relaciona-se com a idéia de pecado. À pessoa que transgredisse o tabu estabelecido pela tribo sofreria conseqüências. Rela­ cionadas ou não à religiosidade, percebe-se um a legislação entre os povos primitivos quanto à vida do homem, à compaixão pelos necessitados, à omissão de morte injustificada, à moralidade sexual e quanto a outros aspectos. Em muitas tribos essa legislação se acha vinculada à atuação de um Ser Supremo junto ao povo.

O tabu, relacionado ao totemismo, designa os limites, nos costumes religiosos e sociais, que separam certas pessoas, certas coisas e certas ativi­ dades e impõem regras para a aproximação dos mesmos ou para o seu isolamento. No terceiro capítulo, há exemplos de proibições do tabu, clas­ sificadas em alguns tipos distintos.

N a realidade, concordamos com Durkheim, que afirmou não existir sistema religioso sem proibições. Os livros da lei, da Bíblia, trazem todo o sistema de leis e normas que deveriam ser seguidos pelo povo de Israel. A própria idéia de tabu é observável quando o povo de Israel vencia nas guerras; a exemplo, citamos o caso de Jericó, considerada anátem a ao

Senhor: deveria ser totalmente destruída, com exceção de Raabe e fi miliares e da prata, ouro e metais (tesouro do Senhor). Acâ, ha oett- sião, foi morto com todos os seus familiares e bens, por ter se apode­ rado do anátema (Js 6.17-19; 7.24-26).

Se a transgressão ao tabu é imediatamente castigada, no caso do pecado o castigo por vezes é demorado. N o Novo Testamento, a doutrina do pecado é esclarecida com profundidade, por todos os es­ critores que tratam do assunto. A mensagem do arrependimento e fé é levada a todos que desejam fazer parte do reino de Deus (Mc 1.4, 14,15; A t 2.37-40). Q apóstolo Paulo trata da questão do pecado co­ mo domínio do material, carnal, sobre o espiritual (Rm 3.23; 8.7; ICo 6.12; Ef 2.3).

Dada a incapacidade de o homem viver sem. a transgressão à lei, desde os primórdíos da humanidade, ele busca uma reconciliação com o Ser Supremo através das orações, das cerimônias solenes, dos ritos e dos sacrifícios. Já vimos que, quanto mais primitiva for a tribo, mais pura é sua religiosidade, com a veneração ao Ser Supremo sem sacri­ fícios sangrentos, mas marcada pela simplicidade da súplica, do lou­ vor e do agradecimento, presentes nos gestos e nas cerimônias relacio­ nadas ao fruto do campo. ;

A forma predominante de culto nas tribos bem primitivas são os ritos agrários, com destaque para a oferta das primícias: os primeiros frutos e os primeiros animais. No culto a Deus, as primícias são a ele ofertadas como reconhecimento do seu domínio, como agradecimento por sua providência e como forma de conservar a vida dos animais e das plantas, a fim de que a tribo sempre disponha de alimento suficiente. Sacrifícios sangrentos, isto é, oriundos da morte dos animais, são obser­ váveis em culturas posteriores às mais primitivas; numa degeneração do rito original aparece o sacrifício de pessoas, presente em diversas reli­ giões do passado e enfaticamente condenado pela moràlidade universal e, principalmente, pelas Sagradas Escrituras, a Bíblia.

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