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5 A CONTRIBUIÇÃO DE VARRÃO PARA OS ESTUDOS DE MORFOLOGIA

5.2 PARTES DO DISCURSO 436

5.2.4 Palavras com flexão de caso e tempo

A presença do particípio como uma classe à parte dos verbos explica-se pelo modelo de língua que os gregos (e os latinos) possuíam. O grego, por ser uma língua de casos, mantinha paradigmas específicos para a declinação dos nomes, artigos e pronomes e para a conjugação dos verbos. O particípio era formado a partir de um verbo e recebia flexão de tempo, mas também sofria declinação de gênero, número e caso. Isso é melhor explicado por Varrão, quando divide as classes de palavras baseando-se nos seus contrastes flexionais.

5.3 ESQUEMAS

A palavra ordo aparece algumas vezes no LL quando varrão sugere uma forma de acomodar as palavras em uma espécie de tabela. No livro X ela é usada para descrever as linhas horizontais e verticais de uma tabela que representa a declinação do adjetivo albus. O autor compara a disposição dessas linhas com a disposição das linhas de um tabuleiro de jogo:

Ad hunc quadruplicem fontem ordines deriguntur bini, uni transversi, alteri derecti, ut in tabula solet in qua latrunculis ludunt (...). (LL X, 22)

Para esta fonte quádrupla, dois tipos de linhas são dispostas, as horizontais e as verticais, como costuma haver num tabuleiro em que se joga com peças.

Depois, apresenta a disposição do adjetivo albus nessas linhas:

Similiter in verborum declinationibus est bivium, quod et ab recto casu <declinantur in obliquos et ab recto casu> in rectu<m>, ita ut formulam similiter efficiant, quod sit primo versu hic albus, huic albo, huius albi, secundo haec alba, huic albae, huius albae, tertio hoc album, huic albo, huius albi. (LL X, 44)

De forma parecida as declinações das palavras seguem o caminho duplo, pois a partir do caso reto são declinadas em oblíquos e a partir do caso reto em reto, e assim constroem esquema semelhante, que é na primeira linha formado por hic albus – huic albo – huius albi; na segunda, haec alba – huic albae – huius albae; na terceira, hoc album – huic albo – huius albi.

O esquema, portanto, fica assim:

hic albus huic albo huius albi haec alba huic albae huius albae hoc album huic albo huius albi

Seria uma tentativa de arranjar as palavras em paradigmas. Nas linhas verticais (derecti) estão dispostas as palavras declinadas conforme o gênero (masculino – feminino – neutro) e nas horizontais (transversi) conforme o caso (nominativo – genitivo – dativo).

Chamamos hoje de coluna e linha, respectivamente.

Uma forma gramatical, segundo Taylor (1978, p. 72), é definida pela interseção da coluna com a linha. Na matriz completa de Varrão, haverá seis casos e seis gêneros – pois as formas de singular e plural são contadas separdamente –, i.e., seis colunas e seis linhas, resultando em uma tabela simétrica.

5.4 ESTILO

A LL apresenta algumas diferenças se comparada com a Tékhne grammatiké de Dionísio Trácio em sua estrutura e disposição dos conteúdos. A descrição da língua latina não

parece com a descrição do grego feita por Dionísio. O texto de Varrão é repleto de explicações e exemplos que ilustram os conteúdos gramaticais. Segundo Robins (1983, p. 37),

“Varrão não apenas adaptou ao estudo do latim as ideias dos seus predecessores e contemporâneos gregos, mas também soube tirar delas proveito de modo inteligente”.

Taylor (1996, p. 4) compara o estilo de Varrão com o de outros autores da antiguidade, afirmando que o autor estava mais preocupado com o conteúdo do seu texto do que com a forma:

We can safely conclude that Varro, unlike ancient historians for example, never bothered to add the literary polish to his works that we might otherwise expect. No wonder then that Varro´s prose style, according to Norden’s (1915:195) classic definition, is all but unworthy of being called a style at all. He takes notes or excerpts, arranges and selects his materials, and then immediately dictates without concerning himself too much with the style. The formula in Latin is notare, formare, dictare.

Nós podemos seguramente concluir que Varrão, diferentemente, por exemplo, dos historiadores da antiguidade, nunca se preocupou em adicionar a seu trabalho o polimento literário que poderíamos esperar em outros casos. Não é de se admirar então que o estilo de prosa de Varrão, segundo a definição clássica de Norden (1915:195), pode ser tudo, menos digno de ser chamado um estilo em si. Ele toma notas ou excertos, organiza e seleciona seus materiais, e imediatamente dita sem se preocupar muito com o estilo. A fórmula em latim é notare, formare, dictare

‘anotar, compor, ditar’.

Se pensarmos no modelo de texto gramatical que começa com a Tékhne grammatiké de Dionísio Trácio e que é utilizado ainda hoje (divisão em capítulos, começando com a fonética etc.), Varrão se distancia muito dessa maneira de escrever e elencar os conteúdos. Vamos além: a gramática de Varrão não está pautada em assuntos como classes de palavras ou paradigmas flexionais e derivacionais, mas o foco principal é a querela analogia x anomalia. A obra está, assim, mais próxima de um ensaio linguístico do que de uma gramática.

Varrão utiliza o método in utramque partem dicere nos livros em que trata da disputa de analogistas e anomalistas, descrito por Cícero no De oratore (I, 62 e III, 21-27).

Trata-se de um exercício filosófico que se dá através de uma disputa dialética. Varrão, ao

combater os argumentos dos analogistas no livro VIII e depois fazer o mesmo com os argumentos dos anomalistas no livro IX, retoma a maneira de tratar de assuntos divergentes criada pelos gregos440.

Como destaca LIMA (2009, 611), “esse exercício, como podemos ver no texto da Retórica de Aristóteles (I, 1), tinha ainda uma aplicação na arte da composição de discursos públicos, uma vez que possibilitava uma antecipação dos argumentos que poderiam ser utilizados pelo adversário”.

440 Cícero faz confusão ao indicar em suas obras a autoria de tal método. Em algumas passagens, diz que o inventor teria sido Arcésilas, filósofo grego e um dos fundadores da Segunda Academia platônica; em outras, afirma que Platão (ou o próprio Sócrates) o criou; em outras ainda, a autoria é atribuída a Aristóteles. O que Cícero afirma com convicção é que Aristóteles estabeleceu o in utramque partem dicere como exercício filosófico. (LIMA, 2009, p. 611)

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