4.9. Fauna
4.10.5. O Paleogeno na Antártica e no Sul da América do Sul
Segundo Reguero (2002), com o fracionamento do Gondwana, a Antártica manteve-se situada em uma posição polar desde o Mesozóico, enquanto as outras massas de terra austrais, provenientes do Gondwana, se divergiram e originaram os demais continentes do Hemisfério Sul. A presente cobertura pelo gelo sugere uma continuidade territorial, e uma uniformidade de processos, que não corresponde a sua evolução geológica. Esta apresenta-se bastante distinta, se compararmos o Continente Antártico, ou seja, a região Leste, e a Península Antártica, a porção Oeste, que foi ligada à América do Sul no início do Paleogeno (figura 15).
Estudos realizados na Península Antártica, em uma ilha situada ao Norte da Antártica (Ilha Seymour), entre 1988 e 1996, resultaram na descoberta de vegetais e vertebrados terrestres nas formações Cross Valley e La Meseta, depósitos que abrangem do neo-Paleoceno até o neo-Eoceno (figura 20). Foram encontrados mais de 30 taxons de vegetais continentais terrestres e vertebrados. Entre os vertebrados, mais especificamente os grupos de mamíferos encontrados, sugerem uma ligação paleobiogeográfica entre as faunas de Antártica e Patagônia durante o Paleogeno (REGUERO, 2002).
Figura 20: Final do Cretáceo, aproximadamente 75 milhões de anos. Paleogeografia da região Sul do continente sul-americano e do continente antártico. Note a ligação entre os dois continentes com a Austrália, que se ligava ao Sul da Antártica (REGUERO et
al., 2002).
A fauna da Formação La Meseta é dominada por grandes ungulados esparnoteriodôntidos e pequenos marsupiais polidolopinos (REGUERO et al., 1998). É diferente da fauna paleogênica da Patagônia, com uma grande proporção de taxons endêmicos, principalmente compostos pelos minúsculos marsupiais. Isto revela diferenças marcantes entre as faunas das duas regiões, Patagônia e Antártica, indicando que algumas barreiras climáticas, geográficas e/ou topográficas, isolaram estas populações em algum momento durante o Paleogeno.
Entre os fatores ambientais em altas latitudes, que podem se tornar uma barreira, a temperatura parece ser o mais significativo. As baixas temperaturas, observadas na região Antártica no início do Paleoceno, e novamente ao final do Eoceno (DINGLE et al., 1998), parecem justificar o desenvolvimento de uma biota característica.
4.10.5.1. Flora
A flora do Eoceno, em diferentes áreas da Península Antártica, mais especificamente ilhas Rei George e Seymour, indicam a presença de habitats densamente florestados, que a dominavam (figura 21) (CASE, 1988; GANDOLFO, 1998). Na costa pacífica da Península Antártica foram encontrados elementos florais de características tanto antárticas quanto neotropicais, sugerindo temperaturas médias entre 10 e 14°C para eo/meso-Eoceno (HAOMIN, 1994).
Os megafósseis paleogênicos de vegetais, encontrados em três áreas na Ilha Seymour, mostram que as condições ambientais terrestres mudaram drasticamente do neo-Paleoceno ao neo-Eoceno. A flora do final do Paleoceno indica uma floresta paratropical em um clima quente e úmido (GANDOLFO et al., 1998). Askin (1997) reportou que as comunidades vegetais, de final do Cretáceo e início de Paleoceno, foram dominadas por uma floresta de coníferas de clima úmido, na região da Ilha Seymour.
Com base em características morfológicas de 88 espécimens, coletados na Formação La Meseta, Gandolfo et al. (1998) descreveram as florestas como mesófitas misturadas, indicando um clima sazonal chuvoso e frio, para o final do Eoceno. Amostras fósseis das famílias Dilleniaceae, Hydrangeaceae, Nothofagaceae, Betulaceae, Myrtaceae, Myricaceae, Lauraceae e Grossulariaceae mostram que as médias de temperatura ficavam entre 11 a 13°C, com a média para o mês mais frio variando de -3 a 2°C. Estas paleofloras também sugerem que primavera e verão, para o final do Eoceno, eram chuvosos, e que o período mais frio, onde existia congelamento das águas, durava muitos meses.
O gênero Nothofagus (figura 21) possui uma grande importância como indicador de paleoclima. Era o gênero predominante de angiospermas, durante o Paleogeno, para o Norte do continente Antártico e Sul da América do Sul. As espécies modernas deste gênero estão agora restritas ao Sul da América do Sul, onde encontram um clima temperado frio (REGUERO et al., 2002).
Baseado em análises morfológicas, Romero (1986) concluiu que, durante Paleoceno e início do Eoceno, as florestas da Patagônia eram úmidas e paratropicais, com médias de temperatura entre 20 e 25°C. Mas durante o meso-Eoceno estas áreas florestais se tornaram subtropicais, com uma mistura de elementos neotropicais e artárticos. Durante o Eoceno as gramíneas começaram a se tornar mais abundantes, sugerindo que ambientes de campo aberto passassem a tomar destaque na paisagem da época, em latitudes médias (45°S).
4.10.5.2. Fauna de mamíferos
Entre os mamíferos terrestres os Sparnotheriodontidae, um grupo extinto de ungulados da América do Sul, e os marsupiais da Família Polydolopidae, foram os táxons dominantes em Antártica e Sul da América do Sul. Entretanto estes grupos não possuíam uma dominância no restante do continente sul-americano, durante o Palegeno. (REGUERO et al., 1998). O grupo mais abundante da fauna para a América do Sul, no Paleogeno, foi aquele dos marsupiais (GOIN et al., 1999).
Os ungulados são representados por somente dois taxons na Formação La Meseta. O esparnoteriodôntido (figura 21) mais antigo, encontrado na Patagônia, data do final do Paleoceno, ou início do Eoceno. O mesmo grupo pode ser encontrado no Brasil durante o meso-Paleoceno de Itaboraí, indicando uma possível migração para o Sul.
Figura 21: A - Reconstrução do ambiente e da comunidade de vertebrados do meso- Eoceno na Península Antártica, baseada em evidencias paleontológicas da Formação La Meseta, Ilha Seymour. B - As silhuetas indicam as espécies de vertebrados, invertebrados e vegetais. 1: Sparnotheriodontidae gen. et sp. nov. (placentário), 2:
Anthropornis nordenskjoeldi (pinguim), 3: Delphinornis larseni (pinguim), 4:
Gondwanatheria Sudamericidae (mamífero), 5: Polydolops daily (marsupial), 6:
Lyreidus antarcticus (caranguejo), 7: Cuccullaea (biválvio), 8: Eutrephoceras
(nautilóide), 9: Ratitae (ave), 10: Trigonostylops sp. (placentário), 11:
Marambiotherium glacialis (mamífero), 12: Xenartro (placentário), 13: Polyborinae
indet (falconiforme), 14: Araucária (gimnosperma), 15: Nothofagus (faia) (REGUERO
et al., 2002).
Os xenartros antárticos (figura 21) representam os primeiros registros de Pilosa em todo o Planeta (VIZCAÍNO & SCILLATO YANÉ, 1995), dividindo características plesiomórficas (primitivas) com os mais antigos representantes do grupo, tanto Tardigrada como Vermilingua.
Os primeiros registros de Tardigrada na América do Sul são do meso-Oligoceno de Patagônia e Bolívia. E o mais velho Vermilingua sul-americano data do Mioceno, encontrado na Patagônia (REGUERO et al., 2002).
O Sudamericidae antártico (figura 21) representa o registro mais recente do grupo, apresentando semelhanças com Sudamerica ameghinoi, do Paleoceno de Punta Peligro, na Patagônia. Os Gondwanatheria constituem uma ordem muito peculiar de mamíferos, com posição taxonômica controversa, talvez placentários. Possuíam uma abrangência
biocronológica especialmente no final do Cretáceo, paleobiogeograficamente registrados em Patagônia, Madagascar e Índia (KRAUSE et al., 1998), portanto endêmicos do Gondwana.