4.2 Análises dos grafites dos muros: resistência, sagrado, memória
4.2.6 Palimpsesto, autoria e Identidade cultural
O fato de um artista colocar sua arte em cima da arte do outro artista do grafite, além de caracterizar uma intersemiose, acaba caracterizando algo similar ao Palimpsesto. Nesse contexto, cada muro pode ser considerado um palimpsesto de histórias, memórias, tintas, riscos, textos. O fator tempo, unindo-se às chuvas, ao sol, aos quais os muros e paredes são expostos, ajudam a contar a história daquele lugar, a construir uma memória sobre aquela rua. Dessa forma curiosa de se narrar e contar histórias de um local, podemos citar o muro de Berlin que, até hoje, no que restou da muralha, conta um pouco da história daquele lugar, com uma visão carregada de sensibilidades, formando uma narrativa visual dinâmica e viva, oferecendo novas interpretações e interações sensíveis e simbólicas.
Assim, fica evidente a nossa tentativa de traçar um paralelo entre o palimpsesto e as artes murais.
Um palimpsesto é um pergaminho cuja primeira inscrição foi raspada para se traçar outra, que não a esconde de fato, de modo que se pode lê-la por transparência, o antigo sob o novo. Assim, no sentido figurado, entenderemos por palimpsestos (mais literalmente hipertextos), todas as obras derivadas de uma outra obra anterior, por transformação ou por imitação. Dessa literatura de segunda mão, que se escreve através da leitura o lugar e a ação no campo literário geralmente, e lamentavelmente, não são reconhecidos. Tentamos aqui explorar esse território. Um texto pode sempre ler um outro, e assim por diante, até o fim dos textos. Este meu texto não escapa à regra: ele a expõe e se expõe a ela. Quem ler por último lerá melhor. (GENETTE, 2006, p. 5)
Imagem 47 – Grafite em muro da Rua Deputado Jader Madeiros, Tambauzinho,
João Pessoa, PB Fonte: Kalyne Almeida.
Imagem 48 – Grafite em muro da Rua Deputado Jader Madeiros, Tambauzinho,
João Pessoa – Detalhe da assinatura „Anark‟ Fonte: Kalyne Almeida.
Nesta imagem, há uma interferência aleatória, não havendo uma coordenação ou até mesmo uma preocupação em reconfigurar uma obra. Mas o que temos percebido é que essa “ação” entre artistas de rua não é tão avulsa, pois o „pichador‟ insere seu texto quando percebe que ali é um local próprio para isso. Dessa forma se torna uma espécie de diálogo Intersemiótico também. Não há uma mácula na obra, mas ao mesmo tempo há. Existe um certo respeito pela obra, um diálogo, mas não há uma ligação estética, nem conceitual. Nas imagens que se seguiram, podemos ver nesse muro na Rua Deputado Jáder Medeiros, zona Leste da capital paraibana, mais um grafite do artista de pseudônimo “Múmia”, onde, além das características de agregar imagem e textos, percebemos um detalhe que, a princípio, pode passar despercebido. Uma intervenção de “pixe” ou “pixação”42
, como eles mesmos costumam se expressar, dentro do espaço ocupado pelo grafite, que ironicamente se autoassinala como “Anark”.
Ora, sabe-se que a pichação, possivelmente, pelo olhar social, antecede o que ficou conhecido como grafite, e que na verdade os dois se confundem em vários casos. Como já falado, ambas tendem a alimentar discussões acerca dos limites da arte, sobre arte livre versus arte-mercadoria, liberdade de expressão versus depredação, dessa forma existe um diálogo permanente entre eles.
A despeito desse diálogo, a pichação, diferentemente do grafite – que ganhou a atenção das galerias de arte e o mainstream –, correu o risco de ficar relegada apenas à categoria de vandalismo com direito a uma advertência nas latas de spray que diz “Pichação é crime”, seguindo a já citada Lei Federal, sendo assim um ataque ao patrimônio público ou privado. Mas como podemos perceber, a convivência entre “grafiteiros” e “pichadores”, neste caso, é harmônica – pelo menos quanto à expressão no mesmo suporte dialogando entre si, como vimos na imagem acima. Muitos grafiteiros foram ou ainda se consideram pichadores43, ou quando nem admitem que seja feita nenhuma diferenciação entre si, usando rótulos denotativos e preconceituosos.
42Pixe / pixação é a forma como os pichadores/grafiteiros, comumente, escrevem a palavra “Piche”,
uma espécie de abreviação de pichação.
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O grafiteiro Marquinhos Perfect, de João Pessoa, afirma isso. Preferimos colocar esta fala, proferida numa rede social, em anexos. Também, OsGêmeos, grafiteiros de São Paulo, discutem essa relação e afirmam terem vindo da pichação, mostrando, em suas falas, uma abertura consciente para uma convivência entre as expressões ou até uma agregação de uma a outra.
Por sua vez, os exclusivamente pichadores costumam interferir nos grafites, cometendo palimpsestos que coabitam em uma harmonia, compondo um cenário único da arte de rua e sua diversidade em uma amálgama que ocupa e reivindica de volta os espaços públicos.
Imagem 49 – Grafite em muro num trecho da Avenida Presidente Epitácio Pessoa, João Pessoa, referenciando o profeta Gentileza.
Fonte: Kalyne Almeida.
Imagem 50 – Mesmo muro na Avenida Presidente Epitácio Pessoa, sendo que antes da pintura da foto anterior
O fator tempo também pode ser percebido nas artes expostas nas ruas. Devido a sua exposição à chuva e ao sol, como já falado neste trabalho, o concreto torna-se um suporte para recriação de textos e imagens, como se pode perceber na arte acima. Esta arte, feita por Giga Brow em 2012, na ocasião de um mutirão do Coletivo Graffiti Paraíba, apenas hoje, mais de dois anos depois da intervenção, percebemos outras imagens abaixo e, com o passar do tempo, essas imagens aparecerão ainda mais. O que remete à lembrança é que existe algo com um vulto por baixo da nova arte.
Imagem 51 – Grafite na Avenida Epitácio Pessoa. Giga Brown, 2012. Fonte: Fotografia do Coletivo Graffiti, 2012.
Imagem 52 – Detalhe do grafite de Giga Brow da Avenida Presidente Epitácio Pessoa, João Pessoa
Fonte: Kalyne Almeida.
O que o tempo faz com uma obra? Talvez ele se encarregue de completar as ideias, de compor outro cenário e de nos (re) apresentar quem somos.
Na imagem acima, podemos ver o poema do profeta Gentileza, compondo a imagem do artista paraibano Giga Brow. Tal grafite foi pintado por volta de 2011 e ainda hoje está num muro localizado na Avenida Presidente Epitácio Pessoa, na cidade de João Pessoa, capital da Paraíba. Aqui podemos perceber um traço peculiar do artista.
Giga Brow geralmente envolve a imagem com algum poema. O escolhido para esta imagem foi um dos poemas do Profeta Gentileza: “O amor é o remédio de todos os males”. Gentileza viveu na década de 70 e 80 no Rio de Janeiro, sempre poetizando nos muros frases de paz, gentileza e respeito.