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Panorama da agricultura orgânica no mundo e Brasil

2.3 As novas ruralidades

2.3.3 Panorama da agricultura orgânica no mundo e Brasil

A agroecologia ou agricultura orgânica representa um conjunto de técnicas e conceitos, que surgiu em meados dos anos noventa e visa à produção de alimentos mais saudáveis e naturais. Tem como princípio básico o uso racional dos recursos naturais e não utiliza produtos tóxicos e adubos químicos solúveis. É uma nova abordagem da agricultura, integrando diversos aspectos agronômicos, ecológicos e socioeconômicos, na produção de alimentos, com capacidade para dar resposta às situações negativas produzidas pela agricultura moderna (ALTIERI, 1994, p. 371-386).

[...] a agroecologia surge como uma importante alternativa para promover o desenvolvimento rural, por se tratar de um sistema de produção que leva em consideração aspectos sociais e culturais dos agricultores, e gera produtos diferenciados, possibilitando a elevação de renda das famílias, além de promover a preservação da saúde dos agricultores, consumidores e ecossistemas (CASTELLANO, 2012, p. 19).

A procura por produtos provenientes de sistemas mais sustentáveis tem potencializado o crescimento de cultivos orgânicos em áreas agrícolas mundiais. O crescimento da produção orgânica e de base agroecológica em todo o mundo é uma resposta à procura da sociedade por produtos mais seguros e saudáveis, originados de relações sociais e de comércio mais justos (BRASIL, 2013, p. 21).

De acordo com dados estimados pelo relatório The World Organic Agriculture, elaborado pelo Research Institute of Organic Agriculture (FIBL) e pela International

Federation of Organic Agriculture Movements (IFOAM) e (FIBL/INFOAM, 2014), o segmento já representa em torno de 10% das áreas agrícolas cultivas no mundo, com 88 países que possuem regulamentação de produção orgânica. Representando em 2012, a área de 37,5 milhões hectares de terras agrícolas orgânicas no mundo (Tabela 2), e valor do mercado atingiu 63,8 bilhões de dólares em 2012, para 15,2 bilhões de dólares em 1999.

Tabela 2 – Crescimento mundial das áreas agrícolas orgânicas – 1999 a 2012 (em milhões de hectares)

Ano Hectares (milhões)

1999 11,0 2000 14,9 2001 17,2 2002 19,8 2003 25,7 2004 29,8 2005 29,0 2006 30,1 2007 30,5 2008 34,4 2009 36,3 2010 36,0 2011 37,4 2012 37,5

Fonte: FIBL-IFOAM-SOEL surveys 2000-2014

Segundo o mesmo relatório sobre o mesmo tema, a Austrália e a Argentina são os dois países que mais se destacam (Tabela 3). Conforme os dados, o Brasil em 2012 ocupou a 12º posição com somente 705.233 hectares, atingindo um valor de mercado de 750 milhões de dólares (representando 1,88% da área ocupada no mundo). Considerando a dimensão geográfica e seu potencial de consumo os índices são ainda baixos, sem ter evoluído, significativamente, tanto na área de produção como no consumo.

Tabela 3 – Países com as maiores áreas ocupados pela agricultura orgânica - 2012

Países Hectares Austrália 12.001.724 Argentina 3.637.466 EUA 2.178.471 China 1.900.000 Espanha 1.593.197 Itália 1.167.362 Alemanha 1.034.355 França 1.032.941 Uruguai 930.965 Canada 833.883 Brasil 705.233

Contudo, estes dados são diferentes para o principal instituto de estatística agropecuária nacional.

Segundo dados do Censo Agropecuário 2006, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil conta com 4,93 milhões de hectares de área destinada ao cultivo de produtos orgânicos (IPD ORGANICOS, 2011 p. 8).

O que pode revelar que o Brasil não possui estatísticas consolidadas tanto no que ser refere área plantada como na produção de orgânicos, diferente das estatísticas do agronegócio convencional.

Os três países que mais se destacam no mercado doméstico de consumo de alimentos orgânicos são o EUA, Alemanha, e França (Figura 4), com um faturamento em torno de 25,59; 7,04; e 4,00 bilhões de Euros, respectivamente. Contudo em relação ao consumo per capita no ano de 2012, os países que mais se evidenciam são Suíça, com 189 euros, a Dinamarca com 159 euros, e o Luxemburgo com 129 euros, Áustria (2011) com 127 euros, Suécia com 95 euros, Alemanha com 86 euros, EUA com 72 euros, Canadá com 62 euros, e a França com 61 euros, segundo o relatório The World Organic Agriculture.

Figura 4 – Países de maior consumo de alimentos orgânicos - 2012 Fonte: FIBL-IFOAM-SOEL surveys 2014

No Brasil, a produção é destinada preferencialmente à exportação, que representa cerca de 10% do total de produtores orgânicos certificados (CASTELLANO, 2012), sendo que os EUA e a Europa são o principal mercado desses produtos (MOOZ, 2014).

Na maior feira do mundo e porta internacional de produtos orgânicos do mundo, a Biofach 2014, da Alemanha, expôs produtos orgânicos brasileiros em que agricultores

22.590 7.040 4.004 2.136 1.950 1.885 1.520 1.065 1.000 998 0 5.000 10.000 15.000 20.000 25.000 EUA Alemanha França Canadá Reino Unido Itália Suíça Áustria (2011) Japão Espanha

familiares e suas cooperativas marcaram presença através de apoio dos Ministérios do Desenvolvimento Agrário (MDA) e das Relações Exteriores (MRE) (BRASIL, 2014).

O mercado interno de produtos orgânicos cresceu 35% de 2012 para 2013, representando um volume comercializado equivalente a R$ 1,5 bilhão no Brasil. Embora ainda se trate de um faturamento tímido, quando comparado aos principais atores deste mercado mundial (RABELLO, 2014).

No âmbito nacional, o interesse pela segurança alimentar e nutricional e preocupação com o meio ambiente, tem-se buscado uma maior cooperação no sistema produtivo desenvolvendo uma maior oferta de produtos orgânicos e de base agroecológica. O pequeno agricultor familiar, ligados a associações e grupos de movimentos sociais, representam 90% do total dos agricultores, e são responsáveis por 70% da produção orgânica (TERRAZZAN; VALARINI, 2009).

[...] entende-se que novas práticas de valorização de processos ecológicos devem passar por um processo gradual de disseminação e de assimilação. Para a transição agroecológica dos sistemas de produção em questão, os primeiros passos consistem em racionalizar o uso de insumos químicos e começar a substituição deles [...]. Para isso, o abandono das antigas práticas e a transição para as novas devem ser graduais e incluídos numa escala de tempo suficiente para que estas sejam ajustadas e adotadas pelos agricultores. Essa é a condição para formular, com base nas adaptações levadas pelos agricultores, políticas agrícolas dedicadas a melhorar a sustentabilidade dos sistemas de produção regionais (GRISEL; ASSIS, 2012, p.155).

Conforme Pinheiro (2012, p. 84) a agricultura orgânica é uma opção aceita por produtores de base familiar para a construção de um modelo mais sustentável e, também, por se tratar de um sistema que pode ser adaptado com maior facilidade à realidade da pequena propriedade.

Neste sentido, utilizando o conhecimento empírico, criatividade, e recursos naturais disponíveis, os agricultores familiares podem desenvolver sistemas agrícolas equilibrados, com menor exigência de insumos externos (GUANZIROLI et al., 2001).

Contudo, mesmo diante de um mercado que cresce exponencialmente, existem vários entraves que dificultam a implantação de uma agricultura orgânica, como o sistema produtivo da agricultura familiar, a certificação orgânica, e a comercialização. Além de um macro sistema que construído para conseguir-se alta produtividade, economia de escala e altos lucros na produção.

O desenvolvimento de um novo modelo alternativo de agricultura trará como resultado uma melhor qualidade para o ecossistema, tanto do solo, clima, da fauna e flora, como uma melhor qualidade de vida para os produtores e consumidores.