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Panorama da discussão

No documento RAFAEL GINANE BEZERRA (páginas 30-33)

A fotografia é um objeto paradoxal. Alguns dos usos que lhe são atribuídos pelo senso comum permanecem ancorados na homologia entre imagem e referente. Por outro lado, a emergência e o avanço de novas técnicas, como as que permitem a alteração digital da imagem, reforçam questionamentos de longa data sobre o seu valor de autenticidade.9

Seria este o problema central a ocupar os esforços de reflexão sobre o meio, sua concepção vulgar confrontada por outra que, originada pelas peculiaridades do campo acadêmico e profissional, indaga sobre o caráter do seu vínculo com o real?10

Novas técnicas de produção, manipulação, armazenamento e veiculação demandam a ponderação sobre os aspectos materiais da fotografia. Afinal, trata-se de um objeto que pode trata-ser fracionado em função de trata-seus componentes específicos. Mas estes componentes, isoladamente, não são capazes de esgotar as condições sob as quais a imagem torna-se legível.

Neste caso, o problema central sobre o meio estaria localizado na velha emergência e disseminação de novas técnicas de manipulação da imagem, particularmente aquelas vinculadas à imagem digital.

10 Milton Guran (1992), fotógrafo profissional que incorpora a fotografia ao trabalho no campo da Antropologia, sustenta que a década de 1980 inaugurou a transferência de legitimidade conquistada pelo documento fotográfico ao longo de sua história à montagem que resulta de edição eletrônica. Isto, por sua vez, originou a discussão ainda inconclusa sobre a necessidade de regulamentação legal para reprimir práticas de manipulação e evitar que atividades como o fotojornalismo caiam em descrédito.

11 Elencando os motivos que ainda hoje conferem atualidade e vigor à reflexão de Walter Benjamin sobre

a fotografia, Mika Elo (2007) observa que a postura preponderante nas discussões atuais sobre o meio consiste em combinar o seu caráter de traço do real (índice) aos processos culturais que o originam e o consomem como traço do real. Ou seja, ainda que contempladas analiticamente, técnica e cultura tendem a ser vistas como duas esferas distintas da fotografia.

É sabido que mudanças técnicas no campo fotográfico sempre originaram novos debates. Mas também é notório que muitos destes problemas debatidos atualmente não constituem novidade. A este respeito, particularmente marcante é a tentativa de se definir a especificidade ontológica da fotografia.12

Esta tentativa não se restringe à busca de uma teoria sobre a sua essência, usualmente associada ao esforço para encontrar o seu domínio genuíno entre os demais tipos de imagem. Também está presente na construção de uma história singular da fotografia, que estabelece seqüências cronológicas, fotógrafos e imagens fotográficas imprescindíveis. Mesmo a identificação de subgêneros fotográficos, na medida em que delimita características distintivas e uma trajetória temporal própria, guarda uma parcela de motivação inspirada pela ontologia.13

É secundário ou alheio a esta motivação, contudo, que a fotografia não se restringe ao objeto tomado autonomamente para reflexão. Mesmo que se admita a possibilidade de um “gênio próprio”, para usar a expressão de Barthes, ela também opera como uma peça da sociedade que a originou. Interfere na sua dinâmica e concomitantemente é alterada por ela.

Esta relação de duplo sentido foi explorada por Walter Benjamin (1987) em sua pequena história da fotografia. Nela, a legibilidade do meio não aparece vinculada à sua contextualização cultural ou à ancoragem semiótica. Para ele, a especificidade da fotografia em oposição a outros tipos de imagem tornou-se obrigatória. Para este autor, trata-se de uma questão datada e superada, típica do espírito pós-estruturalista e que, portanto, deveria ter sido abandonada.

13Sensível a este problema, ao esboçar um traçado histórico-evolutivo do fotojornalismo, Jorge Pedro Souza (2004) caracteriza o seu trabalho como resultado de uma visão pessoal, posto que não julga adequado fazer referência a uma história da fotografia. Esta história é sempre problemática na medida em que, para conferir visibilidade a certos fotógrafos – e certas fotografias –, preserva outros tantos na obscuridade. Guardadas as respectivas pretensões, esta mesma discussão é elaborada por Geoff Dyer (2008) em termos intencionalmente alheios aos procedimentos acadêmicos tradicionais. Com o propósito de demonstrar que a tentativa de compreensão do meio não deve descartar uma aproximação subjetiva, orientada por escolhas individuais, ele também caracteriza o seu trabalho como uma história particular da fotografia. Para finalizar, não se deve esquecer que Roland Barthes (2008, p. 15), com duas décadas de antecedência em relação a esses autores, havia abordado este dilema: “Prosseguia assim, não me atrevendo a reduzir as inúmeras fotos do mundo, nem estender algumas das minhas fotos a toda a Fotografia; em suma, eu estava num impasse e, se assim posso dizer, „cientificamente‟ só e desarmado.”

configuração específica entre tecnologia e experiência que demanda a compreensão da sua própria historicidade.

O que a fotografia traz, através da tecnologia, é uma imagem do real que de outra forma escaparia ao olho humano. E esta imagem, além de mostrar – ou atestar –, cobra do espectador a habilidade para ver aquilo que ele não estava acostumado, um mundo que até então lhe era desconhecido. Revisitando a primeira década da sua história, Benjamin constatou a potencialidade da fotografia para reconfigurar a experiência e permitir a emergência de novas formas de subjetividade.

Assim, se as possibilidades de reflexão abertas por esta perspectiva forem consideradas pertinentes, até que ponto seria possível compatibilizá-las com a tentativa de se estabelecer uma ontologia? Sem dúvida, este é um problema importante para o debate sobre o meio. De forma particularmente decisiva, ele incide sobre uma pesquisa que procura incorporar fotografias ao conjunto de dados empíricos que constituem o seu objeto de estudo.

O presente capítulo tem como pano de fundo este problema. Num primeiro momento ele discute as eventuais implicações de uma postura que estabelece a priori a essência da fotografia. Sobre este tema, dada a sua ampla repercussão, toma-se como exemplo e referência o argumento de Philipe Dubois (2007) a respeito do ato fotográfico.14

Analisado criticamente, ele é confrontado com procedimentos elaborados no campo da Historiografia e da Sociologia. Com isto, pretende-se demonstrar que a discussão do potencial heurístico peculiar aos documentos selecionados para uma pesquisa específica é mais adequada do que o estabelecimento de uma teoria geral sobre a fotografia. Aqui, particular atenção será dada aos argumentos

14 A este respeito, é importante ressaltar que o encaminhamento desta discussão não se deve apenas ao fato de que, entre 1993 e 2007, dez edições do livro de Phillipe Dubois foram publicadas no Brasil. Ao participar das últimas duas reuniões do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (INTERCOM), acompanhando as atividades do Grupo de Pesquisa sobre Fotografia, observei a recorrência com que os debates retornavam à questão da especificidade da fotografia. Após ter apresentado um artigo derivado desta pesquisa na 31.ª edição do referido congresso, originalmente fundamentado através das proposições de Dubois, em função dos comentários e sugestões recebidos, é que se consolidou a preocupação em reavaliar o posicionamento teórico e metodológico que orientou este trabalho.

de Ana Maria Mauad (1996), Boris Kossoy (2007) e José de Souza Martins (2008).

Finalmente, delineando uma abordagem inspirada pela combinação teórica e metodológica de argumentos emprestados a Georg Simmel, Siegfried Kracauer e Norbert Elias, pretende-se apresentar um conjunto de orientações que possibilitam conceber a fotografia como um fragmento.

No documento RAFAEL GINANE BEZERRA (páginas 30-33)

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