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Panorama da graduação de enfermagem no Brasil

1 MARCO TEÓRICO

1.2 Enfermagem

1.2.1 Panorama da graduação de enfermagem no Brasil

Iniciarei a discussão sobre o panorama das escolas de enfermagem no Brasil com um resgate histórico sobre o nascimento dos primeiros cursos, a fim de contextualizar a situação atual.

A história da implementação dos cursos de enfermagem no Brasil se mescla com a história da profissão. No final do século XIX, havia poucos hospitais, as mulheres pariam em casa e a enfermagem era exercida essencialmente por religiosas e leigos (BARREIRA et al., 2011).

Com o advento da Primeira República, iniciava o processo de laicização da enfermagem (BARREIRA et al., 2011). A primeira tentativa de sistematizar o ensino de enfermagem no Brasil ocorreu em 1890, com a Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras (atual Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO). Mas foi em São Paulo, na Escola de Enfermeiras do Hospital Samaritano, que se implementou o primeiro modelo Nightingale de ensino no Brasil (BARBOSA; BAPTISTA, 2008).

Em 1922, nasceu a Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, trazendo características do modelo anglo-americano e do modelo Nightingale ao Brasil. Foi a primeira escola de enfermagem organizada e dirigida por enfermeiras e sua missão era formar enfermeiras para trabalhar na área de saúde pública. Em 1931, foi nomeada Escola de Enfermagem Anna Nery e era considerada escola-padrão (BARBOSA; BAPTISTA, 2008).

Somente em 1933, dez anos após a criação da primeira escola de enfermagem, é que surgiram outras escolas no Brasil: uma em Belo Horizonte (Escola de Enfermagem Carlos Chagas), de caráter católico, e outra em Anápolis (Escola de Enfermagem Florence Nightingale), de caráter evangélico (BARBOSA; BAPTISTA, 2008).

Entre 1949 e 1959, o número de escolas de enfermagem cresceu no Brasil, passou de 23 cursos em 1949, para 38 em 1959. Vale ressaltar que, nesse período, foram criados 11 cursos de orientação católica, o que demonstra uma forte aliança do governo com a Igreja (BARBOSA; BAPTISTA, 2008).

Na década de 1960, depois do golpe de 1964, diminuiu o crescimento do número de cursos de enfermagem, pois o foco do governo ditatorial era o desenvolvimento econômico, ficando a saúde e a educação como áreas secundárias no planejamento (BARBOSA; BAPTISTA, 2008).

Em 1972, o Plano Decenal de Saúde para as Américas estabeleceu como meta aumentar o quantitativo de enfermeiros, aumentando o número de vagas disponíveis e o número de escolas, o que implicou na criação de 44 cursos de graduação em enfermagem pelo Brasil. A partir da década de 1980 é que se visualiza com clareza o processo de mercadorização da universidade, apresentado por Santos (2004), momento em que ocorreu um aumento expressivo do número de universidades privadas,

incentivadas pelo Estado, para ampliação do acesso ao ensino superior. Só nesse período foram criados mais 28 cursos de enfermagem, sendo 21 privados. Na década de 1990 surgiram 94 novos cursos de enfermagem, 67 deles privados (BARBOSA; BAPTISTA, 2008).

E esse crescimento exponencial não foi proporcional nas regiões do país. De acordo com o estudo de Teixeira et al. (2013), no Brasil, em 2013, estavam registrados 888 cursos de enfermagem, concentrando 71,2% desses nas regiões Sul e Sudeste, destacando-se os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná. De 2001 a 2011, houve um aumento 393% no número de cursos de enfermagem em instituições privadas e de 122% em instituições públicas. O crescimento médio de vagas/ ano, nesse mesmo período, foi de 9.580 vagas/ano. Esses fatos refletem o crescimento acelerado, com a abertura indiscriminada de novos cursos, sem o controle da demanda específica de cada região.

Em 2011, os cursos presenciais disponibilizaram 45,69% das suas vagas para curso de enfermagem no período noturno. Outro dado que chama a atenção são as 19.680 vagas em Educação a Distância (EAD), distribuídas em 240 polos, a maioria deles no sudeste. Os cursos noturnos e na modalidade EAD podem ser importante estratégia para a democratização do ensino, já que permitem acesso ao curso superior para quem trabalha durante o dia ou mora em locais afastados de centros educacionais. No entanto, também há fragilidades, como no caso do EAD, já que o contato físico é primordial para o ensino do cuidar e, dos cursos noturnos, que oferecem seus estágios durante o dia, o que pode gerar uma evasão daqueles discentes com trabalho diurno (TEIXEIRA et al., 2013).

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) se manifesta contra os cursos de enfermagem a distância, justificando-se com números: em 2012, havia no Brasil 1.856.686 profissionais inscritos no Cofen, dos quais 346.968 eram enfermeiros (18,7% do total). Isso gera um coeficiente de 1,78 enfermeiro para cada 1000 habitantes, quantidade compatível com a recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que varia de um a quatro enfermeiros para cada 1.000 habitantes (COFEN, 2017).

O projeto de lei nº 2.891, de 2015, está em tramitação na Câmara Legislativa, a fim de incluir na lei nº 7.498, de 1986, que regulamenta o exercício da enfermagem, a obrigatoriedade de formação exclusivamente em cursos presenciais (BRASIL, 2015).

Sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) 2010, dos 888 cursos de enfermagem no Brasil, 546 tinham notas consolidadas nessa avaliação. Dessas notas, 43% destas com notas 1 e 2, 36% eram nota 3 e 21% eram notas 4 e 5. Sabe-se que a avaliação de um curso é um fenômeno complexo, com críticas constantes a esse processo. No entanto, ter quase a maioria dos cursos de enfermagem sem atingir os critérios mínimos de qualidade é algo a que devemos atentar (BRASIL, 2015).

De acordo com o site do Ministério da Educação (e-mec), em maio de 2019, no estado do Rio de Janeiro, havia 49 instituições oferecendo o curso de graduação em enfermagem. Só na cidade do Rio de Janeiro, são vinte instituições ativas que oferecem o curso presencial. Essas vinte IES ofertam 49 cursos de graduação em enfermagem, no qual 47 são privados. Apenas três cursos de enfermagem possuem nota 5 no Enade, todas públicas (BRASIL, 2019).