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3. ANÁLISE DA OBRA E A SUA RELAÇÃO COM A HISTÓRIA

3.2. Panorama da História do Brasil em Leite Derramado

A partir da análise estrutural da narrativa de Leite Derramado, de Chico Buarque podemos traçar um paralelo entre a Literatura e a História, tomando como pressuposto que a primeira pode ser utilizada como fonte histórica, pois nos permite ter “o acesso à sintonia fina ou ao clima de uma época, ao modo pelo qual as pessoas pensavam o mundo, a si próprias, quais os valores que guiavam seus passos, quais os preconceitos, medos e sonhos” (PESAVENTO, 2003, p.82). Assim, dentro da narrativa literária podemos observar os comportamentos e pensamentos de uma sociedade, em determinada época a partir da análise do discurso de seu narrador.

Ao analisarmos a narrativa, sob a perspectiva histórica, nosso intuito é demonstrar as mudanças ocorridas na trajetória da sociedade brasileira a partir do sec. XX e início do sec. XXI, apontando as mudanças ocorridas nesse período. Temos como ponto de partida a trajetória da vida de Eulálio Assumpção, protagonista-narrador, no romance. A partir das lembranças e memórias deste centenário, que apresenta uma visão de si, de suas ideias e valores de vida, pode-se vislumbrar a sociedade do Rio de Janeiro do sec. XX.

O narrador tem descendência aristocrática, pertencia à elite do Rio de Janeiro. Em seus relatos se diz participante diretamente de episódios importantes da História do Brasil, trazendo também o depoimento daqueles que participaram diretamente de tais episódios.

Neste romance, é exposto um panorama a aristocracia brasileira a partir da decadência das famílias ditas tradicionais, que com a mudança do cenário econômico ocorrida, nos anos de 1930 em diante, muitas delas que pertenciam à classe dominante não se adequaram ao novo cenário, e consequentemente foram perdendo tanto seus bens quanto seu prestigio social.

A partir das descrições feitas por Eulálio, podemos observar como era a vida dessa aristocracia, pois são projetadas muitas características que nos dão uma visão dos espaços e da temporalidade dos acontecimentos. Já no início da narrativa podemos destacar o orgulho do narrador ao falar de seus bens à enfermeira:

Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. [...] poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósia importadas da França. (BUARQUE, 2009, p. 5-6)

Podemos observar a partir desse excerto uma característica típica da primeira metade do sec. XX, que é a valorização dos modelos estrangeiros, atitude comum da sociedade brasileira naquele tempo, a qual via a Europa como “a civilização”. Assim, as famílias de grandes posses espelhavam-se nas tendências europeias para a construção e decoração de suas casas, como também em suas vestimentas:

[...] com meu dinheiro você compraria um corte em lojas de fazendas, para a modista copiar um croqui de revistas francesas. Mulheres mais abonadas faziam como mamãe, que todo ano acompanhava meu pai a Europa e trazia vestuário para as quatro estações. [...] numa emergência necessitasse um modelo exclusivo podia recorrer a umas madames francesas que os negociavam em casa, recém-importados de ateliês de alta-costura. (BUARQUE, 2009, p.83-84)

Com o constante desenvolvimento industrial ocorrido a partir de 1930, muitas propriedades foram desapropriadas para a construção de novos prédios, mais modernos e muitas fazendas para a passagem de rodovias. Os relatos de Eulálio nos fazem relembrar destes momentos na História de nosso país, pois segundo ele sua família que possuíra muitos bens, aos poucos os foi perdendo com a evolução do país, pois não se adequou aos novos meios da sociedade que se desenvolvera: “[...] bem em cima do nosso próprio terreno levantaram um centro médico de dezoito andares, e com isso acabo de me lembrar que o casarão não existe mais. E mesmo a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia” (BUARQUE, 2009, p. 7).

Em uma passagem em que relembra momentos com seu pai, nos demonstra um fato que acontecia muito durante o século passado, onde os pais dos jovens os apresentavam a vida sexual logo cedo, através das prostitutas, era uma tradição das grandes famílias:

[...] jamais falaria das putinhas que se acocoravam aos faniquitos, quando meu pai arremessava moedas de cinco francos na sua suíte do Ritz. Meu pai muito compenetrado, e as cocotes nuinhas em postura de sapo, empenhadas em pinçar as moedas no tapete, sem se valer dos dedos. A campeã ele mandava subir comigo ao meu quarto, [...] (BUARQUE, 2009, p. 7)

Constantemente nos discursos do narrador, percebemos o preconceito ao negro que existia na época, até mesmo ao se referir a Matilde sua esposa, não admitia dizer que ela era de pele escura. Uma questão que era disseminada por influência direta de seu ambiente familiar, pois sua mãe, como relata diversas vezes, sempre lhe perguntava se “a menina não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase acastanhada” (BUARQUE, 2009, p. 20). E

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também quando relembra momentos com Balbino, o escravo de seu avô, apreendemos um pouco sobre sua personalidade, quando ainda era um adolescente:

Estava claro para mim que o Balbino queria me dar a bunda. Só me faltava ousadia para a abordagem decisiva, e cheguei a ensaiar umas conversas de tradição senhorial, direito de primícias, ponderações tão acima de seu entendimento, que ele já cederia sem delongas […] No entanto, garanto que a convivência com Balbino fez de mim um adulto sem preconceitos de cor. (BUARQUE, 2009, p. 20)

E também em sua fase adulta, quando fica mais evidente esse preconceito, apimentado pelo ciúme da esposa:

[...] e na sala me deparei com Matilde de maiô, dançando com o preto Balbino, Sim, o preto Balbino, eu não acreditei, mas era ele. Não reagiram ao me ver, os dois continuaram a dançar e a me olhar e a me sorrir como se nada fosse. Balbino vestia uma calça roxa muito justa, sua bunda maior que a da irmã, e ver minha mulher nos braços daquele crioulo foi para mim a pior infâmia. (BUARQUE, 2009, p. 115-116)

A partir daí podemos ver como os negros continuavam sendo vistos e tratados no decorrer da história, pois apesar de ter findado a época da escravatura, a sociedade continuou durante muito tempo, carregando em si os preconceitos.

Segundo as fontes históricas dos portos do Rio de Janeiro do sec. XX, as embarcações citadas durante o decorrer da narrativa como o “Arlanza”, o “Lutétia”, o “Cap. Polonio”, de fato existiram, e faziam parte dos grandes transatlânticos que navegavam nas águas brasileiras para a Europa durante todo o sec. XX. Os mesmos eram todos luxuosos, assim como descreve o narrador, e muito frequentados pela elite brasileira em suas viagens à Europa.

[...] com um janeiro de 1929 escrito a mão no verso, que mostra uma pequena multidão no cais no porto, com um navio de três chaminés ao fundo. Da multidão veem-se apenas as costas das vestes copas de chapéus, porque todo mundo estava virado para o Lutétia na baía. (BUARQUE, 2009, p. 24)

A questão dos nomes de família no século passado tinha grande importância, pois carregavam em si um auto grau de significação, já que a partir do nome se advinha muito respeito e admiração. Por isso, os nomes permaneciam na família por séculos, através de seus filhos, netos e assim por diante. É o que vemos em Eulálio, que tem seu nome tradicional adquirido a partir de uma sequência de Eulálios Assumpção, como ele mesmo diz: “O Eulálio do meu tetravô português, passando por trisavô, bisavô, avô e pai” (BUARQUE, 2009, p. 31). As famílias do século passado assim como é apresentada pelo narrador, estavam diretamente envolvidas na política, segundo ele, seu pai foi um político importante. A partir daí

faz referências aos presidentes Rodrigues Alves que chegou ao cargo em 1902; Venceslau, que governou o país nos anos de 1914 a 1918;

[…] meu pai, político importante, além de homem culto e bem-apessoado. Saiba o doutor que meu pai foi um republicano de primeira hora, íntimo de presidentes, sua morte brutal foi divulgada até em jornais da Europa, onde desfrutava imenso prestígio e intermediava comércio de café. […] E voltarei para puxar seus pés, e vocês vão dormir na rua. (BUARQUE, 2009, p. 53)

Um momento que recorda é a Revolução Militar de 1964, período esse que corresponde a ditadura militar que oprimiu muitos cidadãos brasileiros. Durante esse momento na história do país muitas pessoas foram torturadas e até mortas por se juntarem ao comunismo e ficarem contra o regime, o que ocorre com o neto de Eulálio. Neste momento, surgem também os ditos Padres vermelhos, citados na narrativa, que adotavam uma postura liberalista, ficando ao lado dos pobres, durante o regime militar.

O garoto não largava o livro de História, [...] chegou ao ginásio em condições de discutir, de igual para igual com seus professores, a situação periclitante do país. E um dia veio me comunicar que se tornara comunista. [...] mas em vez do comunismo, veio a Revolução Militar de 1964, [...] ele cismou de ser um herói da resistência. (BUARQUE, 2009, p. 126)

Em toda a narrativa são muitas as referências históricas citadas pelo narrador como a quebra da Bolsa de Valores em Nova York que afetou a economia de muitos países, inclusive do Brasil e de seus investidores; a visita do Rei Alberto da Bélgica; Copa do Mundo de 1950, campeonato em que a seleção Brasileira ficou em segundo lugar, lembra também da Belle Epoque, momento importante na história da Europa.

Em um comparativo um tanto brusco, podemos citar dois momentos de total discrepância da vida de Eulálio, e de certo ponto a vida socioeconômica brasileira. O primeiro que relembra os tempos de riqueza familiar, quando possuía muitos bens, patrimônios e um nome respeitável; em outro momento a fase de total falência, esse paradoxo podemos dizer fez parte da trajetória social brasileira.

Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado porque na baixada hoje em dia faz muito calor. (BUARQUE, 2009, p. 5)

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Outrora no passado sua família possuía muitas riquezas e um nome que carregava em si grande respeito, os “Assumpção” com ênfase na pronuncia do ‘p’, que os diferenciava do simples “Assunção”, que segundo o narrador um escravo de seu avô adotara como sobrenome, pois o admirava.

E quando nos mudamos para o subúrbio, pude dividir com você a minha cama de casal [...] mesmo vivendo em habitação de um só compartimento, num endereço de gente desclassificada, na rua mais barulhenta de uma cidade- dormitório [...] para caminhar até o alpendre no quintal, onde fazia minha higiene num banheiro com paredes chapiscadas e chão de cimento. [...] à guisa de chuveiro havia um cano caprichoso, que ora pingava água a conta-gotas ora a soltava em jatos sobre a latrina. (BUARQUE, 2009, p. 137)

A partir dos excertos apresentados podemos observar que Chico, como escritor literário, a partir de informações exteriores, consegue criar um mundo dentro da narrativa que leva os leitores a recordarem de acontecimentos ocorridos na sociedade, mesmo não tendo vivido no tempo em que transcorre a narrativa.

Esse recurso linguístico leva o leitor a fazer um panorama da história social brasileira através da visão deste narrador centenário, que já está em seus últimos dias de vida, tentando reviver um passado que para ele fora glorioso. Percebemos através das constantes idas e vindas entre passado e presente, as mudanças ocorridas na sociedade por meio das descrições feitas pelo narrador-personagem. Assim, o autor de Leite Derramado, nos traz um panorama da história brasileira, a partir da visão de um personagem centenário que traz, em suas memórias, os momentos vivenciados durante a trajetória de sua vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao iniciarmos o estudo do nosso objeto de pesquisa, o romance Leite Derramado, observamos que havia muitas vertentes que poderiam ser analisadas, o que em uma primeira instância dificultou o nosso trabalho. Mas ao definirmos nosso objeto, procuramos apontar as possibilidades de relacionar a Literatura e a História, a partir da tessitura linguística da obra.

Dessa forma, a preocupação, neste trabalho, foi, a partir de algumas reflexões acerca da relação entre a literatura e a história, verificar como se estabelece esta relação na obra de Chico Buarque. Apoiando-nos na concepção de história como um processo social e como área de estudos, e a literatura como uma forma de expressão artística da sociedade que possui uma história, pareceu-nos plausível tomar a obra literária como fonte de apropriação do conhecimento histórico.

Para isso, fizemos um estudo comparativo entre os acontecimentos relatados, dentro do texto ficcional, pelo narrador personagem e os momentos históricos do nosso país no tempo da diegese, procurando de certa forma criar um paralelo entre a realidade e a ficção.

Constatamos que Leite Derramado carrega, em sua tessitura, marcas de um Brasil de outrora, como também do tempo presente da narrativa, através da representação de aspectos culturais e sociais, pois seu narrador-personagem apresenta as características da sociedade e do homem da época em que ocorreram os fatos.

A partir desse estudo comparativo, conseguimos concluir que a Literatura pode ser utilizada como uma fonte histórica para se resgatar o passado, mas tendo consciência de que para isso, é preciso tomar certas precauções, pois como dissemos no decorrer do trabalho, o escritor literário não tem nenhum compromisso com o “real” (verdadeiro), o que ele nos mostra é uma visão particular que pode ser acrescida de sua criação.

Por outro lado, ao apresentarmos, neste trabalho, a possibilidade de se estabelecer relações entre a história e a literatura, trouxemos também algumas reflexões teóricas e metodológicas sobre as possibilidades de se empregar as fontes literárias na pesquisa histórica.

Por fim, espera-se que este trabalho através de sua análise e estudos comparativos possa contribuir para uma reflexão crítica sobre a obra Leite Derramado, de Chico Buarque e também demostrar o crescimento e amadurecimento deste renomado compositor que se aprofunda na narrativa ficcional, enriquecendo assim a literatura brasileira.

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