1 A AVALIAÇÃO EM LARGA ESCALA E A EDUCAÇÃO DE QUALIDADE:
1.3 Panorama da rede estadual de ensino do Amazonas
De acordo com informações retiradas do site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Estado do Amazonas é formado por 62 municípios. Possui uma ampla extensão geográfica, tornando-se um desafio a ser considerado por governantes. A rede estadual de ensino é constituída por 696 escolas, sendo 230 na capital e 466 no interior. No ano de 2013 atendeu a um público de 433.874 alunos na Educação Básica. Dentre eles, 38 são alunos da Educação Infantil, 93.587 são dos anos iniciais do Ensino Fundamental, 168.970 dos anos finais do Ensino Fundamental e 171.279 alunos do Ensino Médio (BRASIL, 2015a). A Secretaria de Estado de Educação, com sede em Manaus, é dirigida pelo Secretário de Estado da Educação, que conta com apoio de um Secretário Executivo e quatro Secretários Adjuntos, que são: de Gestão, Pedagógico, da Capital e do Interior. Todos eles auxiliam nas respectivas atribuições, tendo em vista a melhoria educacional. Para atender as demandas educacionais da rede, além de proporcionar um melhor acompanhamento das escolas estaduais, há duas secretarias adjuntas: a da Capital, formada por sete Coordenadorias Distritais, que acompanham o trabalho das escolas situadas na sede; e a do Interior, composta pelas Coordenadorias Regionais. Ambas tem como atribuição, coordenar e controlar as atividades desenvolvidas nas escolas, promovendo a execução das políticas e diretrizes voltadas à educação.
Além das atribuições acima elencadas, a Secretaria Adjunta do Interior tem como objetivos: (i) repassar as informações administrativas e pedagógicas da SEDUC, referentes às ações que serão realizadas nas Coordenadorias Regionais e nas Escolas Estaduais do Interior; (ii) coletar informações de cunho pedagógico e administrativo, bem como as necessidades e dificuldades existentes nas escolas, facilitando o atendimento junto a SEDUC; (iii)
encaminhar e acompanhar documentos enviados das Escolas Estaduais à Secretaria Executiva Adjunta do Interior, a fim de facilitar e acelerar os trâmites dos setores e viabilizar o atendimento; (iv) avaliar a gestão escolar e acompanhar o processo de ensino e aprendizagem nas escolas estaduais, informando e divulgando os resultados dos índices educacionais no que tange ao IDEB e SADEAM; e (v) acompanhar o processo de matrícula, bem como a atualização das informações e dados estatísticos online junto ao Sistema Integrado de Gestão Escolar do Amazonas (SIGEAM).
Vale lembrar, que a SEDUC, por meio das coordenadorias, é o órgão responsável pela gestão da educação, através do acompanhamento do trabalho desenvolvido pelas escolas, portanto, deve monitorar e orientar os gestores escolares na adoção de práticas de gestão que contribuam para melhoria da qualidade do ensino. Nesta perspectiva, a SEDUC desenvolve alguns programas, dentre eles, alguns federais, que auxiliam as escolas no desenvolvimento de ações capazes de contribuir para a melhoria da aprendizagem e, consequentemente, melhorar o desempenho dos alunos nas avaliações externas. Além disso, visando preparar o gestor escolar para o enfrentamento dos desafios que se coloca no exercício da função, realiza, anualmente, o Encontro de Gestores, com oficinas e palestras de orientação, momento no qual os gestores apropriam-se também dos resultados das avaliações externas e são orientados sobre como interpretá-los. Todas as ações estão focadas na gestão de resultados.
Dentre os programas federais desenvolvidos nas escolas estaduais do município de Borba, destacamos o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), que visa garantir que todos os estudantes matriculados na rede pública de ensino, estejam efetivamente alfabetizados até aos oito anos de idade, ao concluir o 3º ano do Ensino Fundamental. Ainda destacamos o Programa Mais Educação, com atividades lúdicas, esportivas e reforço escolar nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. É importante esclarecer que este programa é uma estratégia do Governo Federal para induzir a ampliação da jornada escolar na perspectiva da Educação Integral.
Existem também os programas estaduais, como o Reforço Escolar “Criando Oportunidades” e Programa Ciência na Escola (PCE). O primeiro oferece condições de aprendizagem aos alunos que apresentam dificuldades nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, beneficiando alunos matriculados no Ensino Fundamental, constituindo-se em um importante mecanismo na recuperação do desempenho do aluno, através de uma proposta dinâmica e inovadora. O segundo, objetiva contribuir para que estudantes e professores, a partir do 6º ano do Ensino Fundamental desenvolvam projetos de pesquisas científicas em suas escolas, garantindo assim a transformação do pensar e fazer científico do cidadão. Para
incentivar as escolas no alcance das metas do IDEB, o governo do Estado através do Decreto nº 27.040, de 05 de outubro de 2007, instituiu o Prêmio Escola de Valor destinado a beneficiar as instituições da rede pública estadual de ensino que atingirem as metas estipuladas, com premiação inicial de R$ 30.000,00, conferida anualmente. Convém destacar que as metas educacionais do estado do Amazonas são estipuladas pela Secretaria de Educação, com objetivo de acompanhar o desempenho de cada unidade de ensino, além disso, servem de incentivo às escolas e profissionais da educação na busca de melhores resultados. Todas as metas constam como anexo no documento legal que passa por revisão a cada ano.
No ano de 2008, é lançado o Decreto nº 28.164, de 17 de dezembro, que regulamenta o Prêmio de Incentivo ao Cumprimento de Metas da Educação Básica, destinado aos profissionais da educação que alcançarem as metas definidas pelo IDEB e IDEAM. A lei estabelece o pagamento de 14º e 15º salários aos profissionais da educação que atingiram as metas. Já para os alunos, determinou-se a premiação no valor de R$ 500,00 ao estudante que corresponder aos critérios estabelecidos, sendo determinado um aluno por escola. A escolha baseia-se nos seguintes critérios: (i) obtenção da maior média, observado o limite mínimo de 9,5 (nove e meio); (ii) assiduidade, o aluno deverá ter 95% (noventa e cinco por cento) de frequência; (iii) não possuir nenhuma advertência, ou seja, não deverá ter registro de ocorrência negativa na escola.
Em 2011, o Decreto nº 31.488, de 02 de agosto de 2011, que altera o Prêmio Escola de Valor e Prêmio de Incentivos ao Cumprimento de Metas da Educação Básica e modifica a legislação correspondente, aumentou o valor do prêmio para R$ 50.000,00. As escolas que não conseguem alcançar a meta estabelecida, mas apresentam crescimento superior a 0,8% em relação ao ano anterior, recebem a premiação de R$ 20.000,00 por crescimento absoluto. A Lei também institui o pagamento de 14º, 15º e 16º salários aos profissionais que atingirem as metas estabelecidas. Essa política de bonificação objetiva mobilizar as escolas na busca por melhores resultados, oferecendo prêmios de incentivos aos profissionais e unidades de ensino que apresentarem crescimento dos indicadores educacionais, já mencionados neste trabalho. No entanto, tal política, além de fomentar a competição entre as unidades de ensino, poderá contribuir para que a prática docente seja voltada para o que se cobra nos testes padronizados. Dessa forma, Casassus (2009) chama atenção para o perigo de treinar os alunos para os testes, visto que, essa estratégia promoverá a redução do currículo, fazendo com que “os professores ocupem o tempo a exercitar os alunos a escolher uma resposta entre as apresentadas” (CASASSUS, 2009, p. 75). Tal atitude torna-se um perigo para a educação, pois, ao focar na
melhoria do desempenho dos alunos, se perde de vista aspectos pedagógicos importantes no processo de ensino e aprendizagem.
O que se pode observar nas escolas, enquanto pesquisadora e profissional é a mobilização dos gestores e professores através do redirecionamento das ações: planejamento, projetos e intervenções pedagógicas com foco nos resultados. É importante relatar que toda essa movimentação dos profissionais da escola justifica-se devido à pressão da SEDUC-AM para que as unidades de ensino apresentem melhorias dos resultados educacionais. Quanto ao Prêmio Escola de Valor, percebe-se que a preocupação dos gestores escolares não é de conquistar o prêmio, mas atender as cobranças da Secretaria de Educação no que tange ao desempenho dos alunos nas avaliações em larga escala.
A divulgação dos resultados das avaliações externas ocorre na Mostra de Gestão Escolar, que acontece anualmente com objetivo de socializar com a comunidade os resultados obtidos pela instituição nas avaliações em larga escala. Neste dia, além das metas, é apresentado todo o trabalho realizado na escola, destacando alguns dados como: valores, visão de futuro, missão, projetos desenvolvidos, índices de aprovação, reprovação e abandono escolar. Tal ação ocorre na própria escola e conta com a participação dos gestores, professores, funcionários, alunos, pais e comunidade.
Diante do cenário apresentado e da necessidade compreender as ações dos gestores frente às avaliações externas, este trabalho tem como objetivo analisar como os gestores das quatro escolas analisadas promovem a apropriação dos resultados entre os professores e comunidade e se os dados fornecidos por essas avaliações estão sendo utilizados para o direcionamento de ações pedagógicas que primem pela melhoria da qualidade do ensino oferecido. Deve-se considerar a importância do papel do gestor escolar, como agente articulador da qualidade educacional. Convém destacar que esse profissional precisa estar preparado para atender as novas demandas educacionais e os desafios que poderão surgir no exercício da função. No cotidiano da escola, emergem variadas situações, as mais complexas, que na maioria das vezes são fatores sociais que ultrapassam os muros da instituição, comprometendo a rotina e o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem.
Assim, nossa análise está voltada para a gestão escolar com foco na apropriação dos resultados educacionais. No entanto, vale salientar que para o gestor desempenhar sua função com eficácia é imprescindível à constituição de uma equipe gestora capaz de auxiliá-lo nas suas inúmeras atribuições, pois são importantes aliados na promoção de uma educação de qualidade. Dessa forma, entendemos que a equipe gestora é formada pelo gestor, principal
responsável pela dinâmica da escola, gestor auxiliar, supervisor pedagógico e orientador educacional, constituindo um núcleo diretivo e orientador da escola.
Considerando a importância do trabalho do gestor para o progresso da unidade de ensino, se faz necessário registrar que o processo de escolha dessa figura central nas escolas estaduais amazonenses se dá por meio de análise de currículo, havendo apenas duas exigências da SEDUC – o profissional deve ser efetivo e possuir formação em nível superior. A pessoa indicada envia o currículo para a Secretaria de Educação através das coordenadorias, que recebem as orientações para o processo de posse, em caso de aprovação. Todavia, esse processo de escolha não leva em conta a formação e competência técnica para o desempenho da função, fatores aprendidos na prática cotidiana da escola, o que pode dificultar e comprometer o processo pedagógico e sua principal missão da escola, a aprendizagem de todos os alunos, já mencionada neste trabalho.
Outro ponto que merece ser destacado, é que as escolas estaduais do município de Borba, não tem apoio pedagógico. Ou seja, os professores indicados pelos gestores para esta função passaram por um processo de entrevista, mas, até abril de 2016, não foi autorizado à lotação deste profissional. Tudo isso dificulta o trabalho do gestor escolar que, além das suas múltiplas atribuições, precisa acompanhar o trabalho pedagógico realizado na escola, bem como oferecer todo o suporte necessário para a efetivação da aprendizagem. Nesse panorama, as ações da Secretaria de Educação objetivam melhorar os índices das unidades de ensino, promovendo equidade e qualidade no processo de formação integral do aluno. As escolas que compõem o aporte desta pesquisa estão sob a jurisdição da coordenadoria regional localizada no interior do estado, descritas na próxima seção.