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6 EXEMPLOS DE GESTÃO NO BRASIL E NO MUNDO

6.4 A GESTÃO BRASILEIRA

6.4.2 Panorama das águas subterrâneas no Brasil

O nível de gestão estadual de recursos hídricos é variado. A Agência Nacional de Águas (ANA) enquadrou os estados em diferentes tipologias de gestão na implementação do Progestão, um programa de pagamento por resultados visando o fortalecimento da gestão de

recursos hídricos dentro do estado. Segundo a metodologia utilizada no programa, os estados foram classificados de acordo com uma matriz que considerava a complexidade de gestão e a estrutura institucional. Ao todo são quatro tipologias: A, B, C, D; sendo a A, apresentando uma baixa complexidade associada a uma estrutura institucional básica, e o D, uma alta complexidade de gestão está relacionado e uma estrutura institucional mais avançada (ANA, 2013).

Não há de se falar em tipologia melhor ou pior, mas sim, em adequação das mesmas à complexidade do processo de gestão. Em alguns casos, estruturas bá sicas (Classe A) serão suficientes e, portanto, mais adequadas para enfrentamento de realidades que se resumem a situações de menor complexidade. Em outros, estruturas mais avançadas (Classe D) serão mais adequadas, haja vista as exigências impostas por situações de maior complexidade.

Assim como é inadequada a formatação de estruturas básicas para gestão de situações de maior criticidade, também o é a utilização de estruturas avançadas diante de realidades pouco complexas. No primeiro caso, mais grave, pela ausência das competências e recursos institucionais esperados; no segundo, pelo aumento do s custos de transação envolvidos e eventual desperdício de esforços e recursos na montagem de arcabouços institucionais superestimados (ANA, 2013).

O gráfico da Figura 16 ilustra bem o que o parágrafo anterior quer dizer. A Figura 17 apresenta o mapa do Brasil com os estados classificados de acordo com essa matriz para a implementação do programa.

Fonte: ANA (2013), adaptado

Como se nota, o Brasil apresenta ao todo apenas onze federações com tipologia C e D. Esses estados possuem comitês de bacias em quase todas as suas unidades de gerenciamento.

Muitos, inclusive, como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Ceará possuem planos de bacia em mais de 70% das unidades (ANA, 2017).

É interessante perceber que dessas federações, apenas três não possuem dispositivos específicos para águas subterrâneas - Rio de Janeiro, Bahia e Espirito Santo – (ANA, 2016). As demais possuem leis especificas e em alguns casos decretos de regulamentação – Pernambuco, São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal – e os outros destinam um capítulo dentro da política estadual sobre águas subterrâneas.

Fonte: ANA (2016), adaptado

Uma dificuldade encontrada na composição desse trabalho foi quanto a uso das águas subterrâneas no país. De maneira geral, a informação mais presente está relacionada ao uso das águas subterrâneas para o abastecimento humano, contudo não se tem um levantamento nacional a respeito de outros usos, especialmente para a irrigação e indústria, que, como se viu em capítulos anteriores, são os principais usos das águas subterrâneas.

Com relação ao abastecimento, o Relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil (ANA, 2017), mostra que 42% das cidades brasileiras (39 milhões de habitantes) são

abastecidas preponderantemente por águas subterrâneas. 12% das cidades utilizam fossa séptica como destinação final dos esgotos (ANA, 2017), o que pode representar um risco aos aquíferos caso elas estejam inadequadamente construídas e mantidas.

Aos demais usos, é possível citar a gestão de São Paulo, que produziu um relatório em 2013 sobre águas subterrâneas, relatando as potencialidades e demandas hídricas para o recurso em específico. O levantamento foi elaborado a partir do cadastro de 17.822 poços e mostrou que o principal uso era para a indústria (37%), seguido do abastecimento público (23%), uso doméstico (16%), irrigação (9,0%) e outros usos (16%). Detalhe, a maioria dos poços (62%) se estavam localizados na bacia do Paraná e outros 26% no embasamento cristalino, ou seja, 82% dos poços estão concentrados em apenas dois domínios hidrogeológicos (SÃO PAULO, 2013).

Ainda é possível citar o cadastro mantido pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), conhecido como SIAGAS (Sistema de Informações Sobre Águas Subterrâneas), permanentemente atualizado e que informa sobre a quantidade de poços perfurados no território nacional. Segundo o seu site, há mais 300 mil poços perfurados no território nacional (CPRM, 2018). Se for montado uma espécie de curva ABC com o número de poços perfurados por estado, eles podem ser divididos em três grupos, como mostra a Figura 18. É interessante observar que os estados de Pernambuco, Piauí e São Paulo; apesar de realidades socioculturais, econômicas e ambientais diferentes; apresentam aproximadamente a mesma quantidade de poços (quase 10% cada um).

Figura 18 - Curva ABC da Distribuição dos Poços por Estado

Apesar dos números, os dados presentes em cada cadastro variam, podendo conter apenas a localização até dados sobre qualidade e aquíferos perfurados.

A CPRM ainda mantém o RIMAS (Rede Integrada de Monitoramento de Águas Subterrâneas) no qual faz o monitoramento de alguns aquíferos, considerados estratégicos para a entidade. Para a escolha desses aquíferos foram levados em consideração os seguintes quesitos: (i) aquíferos sedimentares, (ii) importância socioeconômica da água, (iii) uso da água para abastecimento público, (iv) aspectos de vulnerabilidade e riscos, (v) representatividade espacial do aquífero e (vi) existência de poços para monitoramento (CPRM, 2004).

Também vale citar que a CPRM mantém com alguns estados parcerias para monitoramento das águas subterrâneas como, por exemplo, em São Paulo, em que sempre houve uma parceria (embora não formal) com o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e a Companhia de Saneamento do Estado do São Paulo (SABESP). Em Minas Gerais, está em fase de formalização entre o órgão gestor e a CPRM para realizar o monitoramento das águas. Nos demais estados, a CPRM sempre procurou conhecer e atender, na medida do possível e dentro dos critérios definidos para o projeto, as demandas apresentadas, respeitando a dominialidade dos estados quanto à água subterrânea.

Além disso, vale a citar bons exemplos de gestão, como é o caso do Sistema Aquífero Guarani (SAG) e as águas termais de Caldas Novas.

Com uma área de 1,1 milhão de km², o SAG abrange quatro países: Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil, sendo que este detém 62% do aquífero no seu território (FOSTER

et al., 2009). Em 2010, foi elaborado um acordo internacional entre os quatro países em prol

da conservação e preservação o SAG, o qual somente em 2017, através do decreto legislativo nº 52, o Brasil veio a aprová-lo. O acordo cita a importância de ações coordenadas entre os países, a necessidade da divulgação das informações entre eles, mas reafirma a soberania dos países sobre suas respectivas porções do aquífero (BRASIL, 2017a). A principal medida do acordo é obrigar aos países membros o compartilhamento das informações e consulta sobre obras e intervenções a serem feitas no SAG.

Em de Caldas Novas (GO), as próprias empresas mineradoras se organizaram para formar uma organização que visasse a proteção e conservação dos aquíferos das fontes termais do município, principal atrativo turístico da região. A Associação das Empresas Mineradoras das Águas Termais de Goiás (AMAT) visa o interesse das mineradoras, todavia, como esse interesse está intimamente ligado as fontes termais, a AMAT desenvolveu um

projeto de recarga artificial dos aquíferos, que tanto a sua elaboração e implementação está sendo financiada pelos próprios empresários. Sousa (2011) relata que o projeto ainda está em fase experimental e por isso não se podem tirar conclusões a respeito dos seus benefícios. Mas o fato é que, como a principal atividade econômica estava sendo ameaça dado ao uso irracional dos aquíferos, os próprios usuários tomaram algumas atitudes.

Ainda citando o trabalho de Sousa (2011), a autora relata que além do projeto de recarga, foi assinado também um Termo de Ajuste Comum entre o Ministério Público, Departamento Nacional de Produção Mineral – atual Agência Nacional de Mineração, a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH). Por esse acordo, as mineradoras e demais usuários das águas termais do município deverão proteger e recuperar as áreas de proteção permanente (APP) situadas às margens dos rios ou de qualquer curso d’água e dentro de seis meses requerer o licenciamento à SEMARH. As empresas ficam proibidas de lançarem os efluentes diretamente nos corpos d’água, as águas termais deverão ser utilizadas apenas para fins balneários, além de implementação de ações de educação ambiental. Entretanto, Sousa (2011) relata a ausência do município no desenvolvimento dessas ações, tendo esse apenas promulgado uma lei visando a regulamentação os limites da infiltração na construção de empreendimentos, a retomada do Balneário Municipal, e um projeto de divulgação das propriedades terapêuticas das águas termais.