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Após demonstrar as características e os motivos pelos quais as escritoras Beat optaram pelo gênero memórias, resta nomear as memorialistas consideradas/pensadas ao longo desta pesquisa. Elas pertencem à segunda e à terceira geração de escritoras Beat pelo fato de suas memórias contraporem as narrativas masculinas de estrada e contarem suas próprias histórias. São elas: Bonnie Bremser (Brenda Frazer), Diane di Prima, Joyce Johnson, Hettie Jones, Carolyn Cassady, Joan Haverty, Edie Parker e Helen Weaver.

Entre as memórias mais ―conhecidas‖ estão: Troia. Mexican Memoirs (1969) de Bonnie Bremser; Memoirs of a Beatnik (1969) e Recollections of my Life as a Woman (2002) de Diane di Prima; Minor Characters (1983) e Missing Men (2004) de Joyce Johnson; How I Became Hettie Jones (1990) de Hettie Jones; Off the Road (1990) e Heartbeat (1976) de Carolyn Cassady; Nobody‟s Wife: the Smart Aleck and the King of the Beats (2000) de Joan Haverty; You‟ll Be Okay: My Life with Jack Kerouac (2007) de Edie Parker; e The Awakener: A Memoir of Kerouac and the Fifties (2009) de Helen Weaver.

Em Troia.Mexican Memoirs,Bremser narra sua fuga para o México com seu marido Ray e a filha Rachel. Como Ray estava sendo procurado pela polícia, Bonnie precisa cuidar de sua família, assim, convencida pelo marido, ela se prostitui para conseguir dinheiro. Suas memórias relatam sua dor, seu sofrimento e sua luta em busca de autoconhecimento. Na próxima seção, essas memórias serão comentadas mais detalhadamente.

Memoirs of a Beatnik de di Prima, publicada em 1969 pela Olympia Press, reeditada pela Last Gasp em 1988 e publicada em 2013 no Brasil pela editora Campos com tradução de Ludimila Hashimoto, foi um livro encomendado pela editora a di Prima com o intuito de ser uma história pornográfica. Nessas memórias, entre cenas de sexo ficcionais e não-ficcionais, Diane conta o começo de sua boemia em Nova York e seu envolvimento com os homens Beat. Entre orgias, estupros e sexo consensual, ela

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caracteriza a Geração Beat. Por outro lado, em Recollections of my Life as a Woman, publicado em 2001 pela Viking Press, di Prima descreve sua infância e seu relacionamento conturbado com sua mãe. Diferentemente do erotismo de suas primeiras memórias, em Recollections Diane demonstra como é ser mulher no contexto sociocultural dos anos 1940 e 1950.

Joyce Johnson ganhou o National Book Critics Circle Award em 1983 com sua memória Minor Characters, publicada em 1983 pela Houghton Mifflin Company. Além de narrar seu relacionamento com Jack Kerouac, Johnson escreve sobre as outras escritoras Beat e como é ser mulher nos anos 1950. Em Missing Men,publicada em 2004 pela Penguin Books, Joyce descreve desde sua infância, seu relacionamento com sua mãe e seus casamentos (primeiro com Jim Johnson e depois com Peter Pinchbech) até seu contato com a Geração Beat.

Em How I Became Hettie Jones, publicada em 1990, pela E. P, Dutton, Hettie Jones narra seus esforços para ser mãe e escritora. Sua memória inicia ainda na sua infância e no seu relacionamento com sua mãe descrevendo como era pertencer à

―Silent Generation‖. Ao relatar seu casamento com LeRoi Jones, Hettie destaca as dificuldades que ela enfrentou no decorrer da Geração Beat para tornar-se escritora e manter uma revista e uma editora enquanto era mãe e Beat.

Em Off the Road, publicada em 1990 no Reino Unido pela Black Spring Press e nos Estados Unidos pela William Morrow Company, em 1991 pela Penguin Books e em 2007 pela Black Spring Press, Carolyn Cassady relata como era a vida das mulheres Beat que não estavam na estrada com os homens, ou seja, seus papeis como mães, chefes de família, esposas e escritoras. Para isso, ela narra sua vida doméstica mundana e seu relacionamento com seu marido Neal Cassady e seu amante Jack Kerouac. Em Heartbeat, publicada em 1976 pela Creative Arts Book, Carolyn narra seu triângulo amoroso com Cassady e Kerouac. Em abril de 1980, o escritor e diretor John Byrum adaptou essa memória no roteiro fílmico Heart Beat, produzido por Orion Pictures e distribuído por Warner Bros. Pictures. No Brasil, o filme foi lançado em setembro de 1980 com o nome Os Beatniks.

A memória de Joan Haverty Nobody‟s Wife, publicada em 2000 pela Creative Arts Book Company, após a sua morte, conta sobre sua infância, adolescência e seu relacionamento (casamento e divórcio) com Kerouac. Em sua memória, Joan retrata sua experiência com Kerouac sem se subordinar a ele, como por exemplo, quando ela decide ter um filho que Jack ordenou que fosse abortado. Haverty não se considerava

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escritora nem almejava essa carreira, mas ao escrever suas memórias, ela conta como decidiu ―não ser esposa de ninguém‖ e contrariar as regras da sociedade em que vivia.

Assim como Haverty, Edie Parker teve seu livro de memórias publicado após a sua morte, em 2007 pela City Lights Books. Em You‟ll be Okay Parker escreve sobre sua infância e adolescência e, ainda, sobre seu relacionamento com Jack Kerouac.

Parker demonstra como era difícil conviver com Kerouac e seus amigos, pois enquanto eles se divertiam, era ela quem dava suporte econômico para a boemia deles. Isso faz com que ela decida se afastar de Kerouac e tornar-se independente.

Por fim, a memória de Helen Weaver, The Awakener, publicada em 2009 pela City Lights Books, descreve as dificuldades encontradas por ela ao construir uma carreira como tradutora. Apesar de seu livro iniciar com seu envolvimento com Jack Kerouac, ela foca na sua vida e se esquece da figura de Kerouac após expulsá-lo de seu apartamento por não deixá-la dormir devido às inúmeras festas que ele dava no apartamento dela. Weaver precisava dormir, pois trabalhava no dia seguinte, mas ela acordava várias vezes durante a noite com o barulho causado pelas festas que Kerouac fazia.

Por meio desses breves comentários sobre onze memórias das escritoras Beat, é possível perceber algumas características já mencionadas. Em relação ao conteúdo e estilo das memórias, Encarnación-Pinedo (2016, p. 69) esclarece que:

No nível de conteúdo, elas lidam com temas subversivos frequentes na literatura da Geração Beat – mesmo que, com frequência, elas fizessem isso pela perspectiva feminina. Isso inclui, para nomear alguns, o retrato de sexo homossexual e heterossexual explícitos, drogas como um meio para expandir os sentidos, problemas com a lei, alienação do estado, de valores dominantes e de costumes, senso de uma comunidade de artistas alternativo contra uma grande força opressiva, etc. Em relação ao seu estilo, elas assimilam e menosprezam a estética Beat ao mesmo tempo, principalmente por meio do uso de uma voz narrativa irônica e desafiadora.35

Assim, com tom questionador, as memórias Beat relatam as responsabilidades envolvendo maternidade e sustento da casa; o foco na descrição de suas vidas como mulheres e escritoras Beat; a reconstrução do passado; o convívio com os homens Beat;

etc.

35First of all, at the level of content, they both deal with subversive themes frequent in the literature of the Beat Generation – even if they often do so from a female perspective. These include, to name a few, the portrayal of explicit heterosexual and homosexual sex, drugs as means to expand the senses, problems with the law, alienation from the state and dominant values and mores, sense of an alternative community of artists against a larger oppressive force, etc. Regarding their style, they assimilate and mock Beat aesthetics at the same time primarily through the use of an ironic and defiant narrative voice

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No próximo capítulo, serão feitas algumas considerações sobre conteúdo, estilo e linguagem no livro de memórias de Bonnie Bremser Troia. Mexican Memoirs.

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