DOCTORATE THESIS Marcelo Gonçalves do Valle
3.1 Panorama e Dinâmica da Biotecnologia em Regiões Industrializadas
A natureza interdisciplinar que perpassa a biotecnologia, assim como sua imbricação ao conhecimento científico fronteiriço, são fatores que têm estimulado a formação de arranjos cooperativos de pesquisa, tais como redes, clusters e sistemas locais de inovação. A orquestração destes arranjos permite o equacionamento de um conjunto de demandas necessárias ao desenvolvimento da biotecnologia, tais como recursos humanos qualificados, acesso facilitado a máquinas, equipamentos e ativos dedicados, compartilhamento de ativos tangíveis e intangíveis, disponibilidade de recursos financeiros (seed money e capital de risco), bem como uma
articulação mais consistente entre universidades, empresas, institutos de pesquisa, agentes financeiros e institucionais, dentre outros.
A ocorrência destes fenômenos em vários países e regiões tem contribuído para a dinamização e crescimento deste campo, conforme expresso pelo Quadro 3.1, que destaca indicadores referentes a seu desenvolvimento entre os anos de 1998 e 2003.
Quadro 3.1 – Evolução da Biotecnologia entre 1998 e 2003 nos Estados Unidos, Canadá e Ásia e União Européia 1998 2003 Taxa de Crescimento (%) Estados Unidos União Européia
Canadá Ásia Estados
Unidos
União Européia
Canadá Ásia Estados
Unidos União Européia Canadá Ásia Receita (US$ milhão) 16.647 875 500 ND* 35.854 7.465 1.729 1.505 115 754 246 - Investimento em P&D (US$ milhão) 6.737 646 191 ND 13.567 4.233 620 217 101 556 224 - Empresas de Capital Aberto 316 68 62 ND 314 96 81 120 (-1) 41 31 - Empresas Privadas 995 1110 100 ND 1159 1.765 389 547 16 59 289 - Total de Empresas 1311 1178 162 ND 1473 1.861 470 667 12 58 190 - ND: Não disponível
Fonte: Ernest & Young (2004)
Não obstante as dificuldades metodológicas de se analisar de forma agregada países e regiões, como Ásia e União Européia, as informações contidas no Quadro 3.1 revelam uma sensível elevação da receita derivada da biotecnologia, com destaque para a União Européia, cujo crescimento percentual foi de 754% no intervalo de cinco anos. Também os investimentos em P&D se elevaram de forma expressiva, com percentuais de 101%, 556% e 224% para os Estados Unidos, União Européia e Canadá, respectivamente. De acordo com Tunon (2003), isto ilustra não apenas uma expectativa favorável quanto às perspectivas da biotecnologia, mas também uma tentativa, sobretudo da União Européia, em reduzir os hiatos técnicos, competitivos e econômicos que distinguem a dinâmica da biotecnologia nos Estados Unidos.
No que concerne às empresas, o Quadro 3.1 revela ainda que o número de empreendimentos não se alterou substancialmente nos Estados Unidos, o que pode ser atribuído a sua primazia no aproveitamento de possibilidades comerciais advindas da biotecnologia, que ocasionou um crescimento mais vertiginoso do número de empresas em períodos anteriores. Ademais, a ocorrência de um robusto processo de fusões e aquisições, se não elevaram quantitativamente o número de empreendimentos, culminaram em firmas mais sólidas e de porte mais elevado do que as companhias de outros países, em que a aplicação comercial da biotecnologia constitui fenômeno mais recente e o crescimento do número de empresas tende a se manifestar de modo mais vigoroso. Ainda que não se disponham de dados relativos aos países asiáticos no ano de 1998, seu desempenho verificado em 2003 reflete tendência similar aos países da União Européia e Canadá. A receita da biotecnologia estimada nesta região alcançou a cifra de
US$ 1.505 milhão e os investimentos foram da ordem de US$ 217 milhões, despendidos por um total de 667 empresas, das quais 120 eram de natureza pública e as 547 restantes pertenciam ao setor privado (Ernest & Young, 2004).
A partir destas informações disponíveis no Quadro 3.1 é apresentada a Figura 3.1, que aponta dados comparativos entre estes países/regiões no ano de 2003 com base no número de empresas, investimentos e receita advinda da biotecnologia.
Figura 3.1 – Participação Percentual em Receita, Investimentos e Número de Empresas de Biotecnologia em 2003
Fonte: Ernest & Young (2004)
De acordo com a Figura 3.1, observa-se predomínio dos Estados Unidos na geração de receitas a partir da biotecnologia, respondendo por 77% do montante global. A União Européia agrega 16% desta e Canadá e Ásia aditam por 4% e 3%, respectivamente. Quando confrontados com dados sobre investimentos, nota-se uma situação peculiar. Apesar de ser o maior investidor em biotecnologia, o percentual de investimento em P&D norte-americano é inferior ao de sua receita (73% e 77%). Esta situação se repete nos casos de Ásia e Canadá (3% e 1%) e (4% e 3%) respectivamente. O contraponto é observado na União Européia, que responde por 23% dos investimentos globais mas retém apenas 16% das receitas da biotecnologia.
Com efeito, a análise do número de empresas torna este fenômeno mais característico. A União Européia concentra o maior número de empresas – com destaque para Alemanha, Grã- Bretanha e França, com 41% do total, seguido por Estados Unidos (33%), Ásia (15%) e Canadá (11%). Constata-se pois que a União Européia se insere em um contexto atípico, no qual detém o
15 11 41 33 1 3 23 73 3 4 16 77 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Número de Empresas Investimentos Receita Estados Unidos União Européia Canadá Ásia
maior número de empresas e a segunda maior taxa de investimento, mas suas receitas (16%) se mostram aquém do que sugeririam tais indicadores.
Dentre as possíveis justificativas para este fenômeno, aponta-se a tendência de concentração de investimentos no desenvolvimento científico, em detrimento do tecnológico (Bonacelli & Salles-Filho, 1996). Junto a isto, Szaro (2004) destaca as limitações técnicas e gerenciais de muitas empresas que surgiram nos países europeus ao longo da última década, comprometendo suas perspectivas de realização de lucros. Além disso, é razoável supor que o número de empresas não é o único – e nem necessariamente o principal – determinante na composição do investimento ou na receita derivada da biotecnologia. Os Estados Unidos concentram 77% da receita e 73% dos investimentos em P&D, enquanto possui 33% das empresas de biotecnologia. A União Européia, por sua vez, agrupa o maior número de empresas (41% do total), mas reponde por 16% da receita e 23% dos investimentos. O Canadá tem 11% das empresas, enquanto sua receita e investimento são respectivamente de 4% e 3% do total. Finalmente, a Ásia conta com 15% das empresas, mas sua receita e investimentos são da ordem de 3% e 1% dos percentuais globais.
Nestas condições, sugere-se que outras variáveis – como o perfil e porte das empresas, setores de atuação, trajetórias tecnológicas, curvas de aprendizagem e o ambiente institucional – são variáveis igualmente relevantes na consignação do dinamismo e crescimento econômico do campo da biotecnologia. Em razão da própria dinâmica da biotecnologia, a capacidade de empresas em se inserirem em alianças estratégicas ou redes e consórcios internacionais de P&D é fundamento importante na determinação de seu grau de competitividade. A Figura 3.2 ilustra as alianças internacionais realizadas entre empresas de biotecnologia no ano de 2003.
Figura 3.2 – Alianças Internacionais entre Empresas de Biotecnologia em 2003
Fonte: Ernest & Young (2004)
A Figura 3.2 denota novamente a proeminência dos Estados Unidos na conjuntura mundial da biotecnologia e evidencia a excelência das empresas norte-americanas, que se convertem em consortes desejáveis no empreendimento de alianças cooperativas, arranjos, redes e joint ventures. Cumpre frisar que a hegemonia norte-americana é ainda mais ampla do que o sugerido pela Figura, em decorrência do fato que uma mesma aliança, quando realizada por dois ou mais países, é contabilizado por todos eles, ocasionando um problema de múltipla contagem. A este respeito, Ernest & Young (2004) destacam que o total de alianças efetivamente concertadas em 2003 totalizam 421, das quais 317 contaram com ao menos uma empresa norte- americana, elevando sua participação para 75% de todos os arranjos celebrados naquele ano. Uma vez apresentadas considerações genéricas acerca da dinâmica e panorama da biotecnologia, procede-se a uma breve exposição dos padrões de organização da biotecnologia
51 11 11 16 17 20 23 38 43 54 59 74 113 317 0 50 100 150 200 250 300 350 Outros Bélgica Itália Suécia Austrália Dinamarca Holanda França Japão Canadá Suíça Alemanha Inglaterra Estados Unidos
em distintos países e regiões, de modo a evidenciar determinados insights de seus sistemas de inovação neste campo.35