3.1 CARACTERIZAÇÃO DA SOJA NO AGRONEGÓCIO
3.1.1 Panorama Geral do Mercado Brasileiro de Soja
São muitos os fatores que contribuíram para que a soja se estabelecesse como uma importante cultura brasileira. Dentre alguns motivos que cooperaram para seu rápido estabelecimento na Região Sul, pode-se destacar a semelhança do ecossistema do Sul do Brasil com aquele predominante no Sul dos EUA, favorecendo o êxito na transferência e adoção de variedades e outras tecnologias de produção, e também a substituição das gorduras animais (banha e manteiga) por óleos vegetais, mais saudáveis ao consumo humano. O uso cada vez mais frequente de tecnologia e o grau de profissionalização da atividade, produz diretamente resultados no potencial agrícola do país (CISOJA, 2012)
Segundo a Embrapa, o primeiro registro de cultivo de soja no Brasil ocorreu em 1914 no município de Santa Rosa, RS. Foi, no entanto, somente a partir dos anos 40 que ela adquiriu alguma importância econômica, merecendo o primeiro registro estatístico nacional em 1941 no Anuário Agrícola do RS: área cultivada de 640 ha, produção de 450t e rendimento de 700 kg/ha. Nesse mesmo ano instalou-se a primeira indústria processadora de soja do país (Santa Rosa, RS) e, em 1949, com produção de 25.000t, o Brasil figurou pela primeira vez como produtor de soja nas estatísticas internacionais.
O uso da terra para o plantio na mesma área, no verão, a disponibilidade de mão de obra, bem como o parque de máquinas, impulsionaram a expansão da cultura na Região Sul do Brasil. Daí em diante iniciou o plantio em escala comercial, com a utilização mais intensa de insumos (agrotóxicos e fertilizantes), período conhecido como “Revolução Verde”.
A sojicultura se constitui em uma das principais fontes catalisadoras de recursos do agronegócio brasileiro, sendo responsável pela matriz produtiva da economia de grande parte do território brasileiro. Seu crescimento econômico tende a se converter em benefícios para os demais setores da economia, por meio da expansão da atividade econômica e geração de emprego e renda (BRUM; MÜLLER, 2008, p. 210).
A soja é produzida em quase todo o território brasileiro. Ela está presente em 18 das 27 unidades federativas e apresenta peculiaridades regionais, como o tamanho das propriedades em que é cultivada e o ritmo de crescimento da produção.
Figura 2: Evolução do plantio da soja no Brasil – 2000-2007
Fonte: FOCUS, 2010.
A expansão do plantio de soja é um dos maiores exemplos do potencial e vocação agrícola brasileira. Até a década de 80, as lavouras da oleaginosa se concentravam nos Estados do Sul – Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Graças ao desenvolvimento de cultivares adaptados ao solo e ao clima das diferentes regiões brasileiras, a soja se espalhou também pelo Centro-Oeste, nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e no Distrito Federal, além de parte do Nordeste – principalmente no Oeste da Bahia e no Sul do Maranhão e do Piauí.
Gráfico 1: Evolução da área plantada de soja no Brasil (Safras 1976/77 a 2010/11)
Fonte: CONAB, 2012. - 5.000,0 10.000,0 15.000,0 20.000,0 25.000,0 30.000,0 Á re a pl ant ada e m m il/h a Ano Safra
Verificando o Gráfico 1 fica visivelmente comprovado o expressivo aumento na área plantada do produto soja. OGráfico mostra a expansão da área de soja plantada no Brasil nas duas últimas décadas. Como se observa, na safra 2010/11 foram cultivados 24,2 milhões de hectares dessa cultura e, nas últimas dez safras, a área plantada aumentou 10,2 milhões de hectares, ou seja, 73,1%.
Entre as décadas de 60 e 90 o plantio da soja concentrava-se no Sul do país. Com os órgãos de pesquisa desenvolvendo cultivares adaptadas ao solo e clima do Centro-Oeste, porém, a cultura expandiu-se e a Região Centro-Oeste surgiu como uma nova opção produtiva da soja a partir da década de 70, quando houve uma mecanização na agricultura. O cerrado, antes visto como um solo pobre, ganhou então um novo olhar, pois surgiram insumos que corrigiam as alterações ou deficiências de substâncias, tornando o solo apto para a cultura.
A Embrapa cita vários fatores que contribuíram para que a soja se estabelecesse como uma importante cultura, primeiro no Sul do Brasil (anos 60 e 70) e, posteriormente, nos Cerrados do Brasil Central (anos 80 e 90).Dentre os fatores que contribuíram para seu rápido estabelecimento na Região Sul, pode-se destacar:
semelhança do ecossistema do Sul do Brasil com aquele predominante no Sul dos EUA, favorecendo o êxito na transferência e adoção de variedades e outras tecnologias de produção;
estabelecimento da “Operação Tatu” no RS, em meados dos anos 60, cujo programa promoveu a calagem e a correção da fertilidade dos solos, favorecendo o cultivo da soja naquele Estado, então o grande produtor nacional da oleaginosa;
incentivos fiscais disponibilizados aos produtores de trigo nos anos 50, 60 e 70 beneficiaram igualmente a cultura da soja, que utiliza, no verão, a mesma área, mão de obra e maquinaria do trigo cultivado no inverno;
mercado internacional em alta, principalmente em meados dos anos 70, em resposta à frustração da safra de grãos na Rússia e China, assim como da pesca da anchova no Peru, cuja farinha era amplamente utilizada como componente proteico na fabricação de rações para animais, para o que os fabricantes do produto passaram a usar o farelo de soja;
substituição das gorduras animais (banha e manteiga) por óleos vegetais, mais saudáveis ao consumo humano;
estabelecimento de um importante parque industrial de processamento de soja, de máquinas e de insumos agrícolas, em contrapartida aos incentivos fiscais do governo, disponibilizados tanto para o incremento da produção quanto para o estabelecimento de agroindústrias;
facilidades de mecanização total da cultura;
surgimento de um sistema cooperativista dinâmico e eficiente, que apoiou fortemente a produção, a industrialização e a comercialização das safras;
estabelecimento de uma bem-articulada rede de pesquisa de soja envolvendo os poderes públicos federal e estadual, apoiada financeiramente pela indústria privada (Swift, Anderson Clayton, Samrig, etc.); e
melhorias nos sistemas viário, portuário e de comunicações, facilitando e agilizando o transporte e as exportações.
Com relação à região central do Brasil, considerada a nova e principal fronteira da soja, podemos destacar as seguintes causas para explicar o espetacular crescimento da sua produção:
construção de Brasília na região, determinando uma série de melhorias na infraestrutura regional, principalmente vias de acesso, comunicações e urbanização; incentivos fiscais disponibilizados para a abertura de novas áreas de produção
agrícola, assim como para a aquisição de máquinas e construção de silos e armazéns; estabelecimento de agroindústrias na região, estimuladas pelos mesmos incentivos
fiscais disponibilizados para a ampliação da fronteira agrícola;
baixo valor da terra na região, comparado ao da Região Sul nas décadas de 1960/70/80;
desenvolvimento de um bem-sucedido pacote tecnológico para a produção de soja na região, com destaque para as novas cultivares adaptadas à condição de baixa latitude da região;
topografia altamente favorável à mecanização, favorecendo o uso de máquinas e equipamentos de grande porte, o que propicia economia de mão de obra e maior rendimento nas operações de preparo do solo, tratos culturais e colheita;
boas condições físicas dos solos da região, facilitando as operações da maquinaria agrícola e compensando, parcialmente, as desfavoráveis características químicas desses solos;
melhorias no sistema de transporte da produção regional, com o estabelecimento de corredores de exportação, utilizando articuladamente rodovias, ferrovias e hidrovias; bom nível econômico e tecnológico dos produtores de soja da região, oriundos, em sua
maioria, da Região Sul, onde cultivavam soja com sucesso previamente a sua fixação na região tropical; e
regime pluviométrico da região altamente favorável aos cultivos de verão, em contraste com os frequentes veranicos ocorrentes na Região Sul, destacadamente no RS.
Gráfico 2: Evolução da área plantada de soja no Brasil por região (Safras 1976/77 a 2010/11)
Fonte: CONAB, 2012. - 2.000,0 4.000,0 6.000,0 8.000,0 10.000,0 12.000,0 Á re a p lan tad a e m m il/ h a Ano Safra NORTE NORDESTE CENTRO-OESTE SUDESTE SUL
Nas décadas de 80 e 90 observa-se o explosivo crescimento da área de cultivo da soja em Estados da Região Centro-Oeste do Brasil. Em 1980 menos de 15% da área plantada de soja era no Centro-Oeste. Em 1990 esse percentual passou para 32%; em 2000 já era superior a 40%, em 2010 próximo dos 46% e, segundo a Embrapa, com tendências a ocupar maior espaço a cada nova safra. Essa variação elevou o Estado do Mato Grosso de produtor marginal a líder nacional de produção e de produtividade de soja. Atualmente, o Rio Grande do Sul ocupa o quarto lugar no ranking da produção nacional. A despeito de toda a diversificação havida na economia do Estado do Rio Grande do Sul, a agroindústria da soja ainda ocupa uma posição de primeira grandeza.
A partir dos anos 90 a agricultura brasileira passou por um processo de modernização, contribuindo para que a cultura da soja passasse por uma reestruturação ao longo da sua cadeia devido à introdução de novas tecnologias. Esse processo aumentou a participação da cadeia agroindustrial da soja para a economia do Brasil, tornando-a essencial para o crescimento da renda, emprego e das divisas da exportação.
A cultura foi a grande responsável pela mecanização nas lavouras brasileiras, pela modernização do sistema de transportes, pela profissionalização e incremento do comércio internacional, por expandir a fronteira agrícola brasileira, pelo fomento às pesquisas no setor agrícola, pela industrialização dos produtos e pela interiorização da população.
Gráfico 3: Evolução da produção de soja no Brasil (Safras 1976/77 a 2010/11)
Fonte: CONAB, 2012. - 10.000,0 20.000,0 30.000,0 40.000,0 50.000,0 60.000,0 70.000,0 80.000,0 Pr o d u ção e m m il to n e lad as Ano Safra
No período de análise (Gráfico 3) o Brasil passou por um processo de incremento da produção pelo emprego de tecnologias mais avançadas e pelo aumento das áreas plantadas, fazendo com que o setor alcançasse um maior crescimento e dinamismo.
O Brasil é o segundo maior produtor-processador mundial da soja em grão do mundo, e o segundo exportador mundial de soja, farelo e óleo, garantindo ao país um papel de grande potencial para o produto. Apesar das vantagens brasileiras para a produção, como a grande disponibilidade de recursos naturais favoráveis do país, o Brasil apresenta desafios que, se ultrapassados, poderiam resultar em uma maior potencialidade do complexo de soja brasileiro, sendo fundamental para um mercado inserido numa concorrência agressiva e altamente excludente.
Os desafios estruturais envolvem toda a cadeia de logística e, no caso brasileiro, há a predominância do uso de rodovias na matriz de transporte da soja, o que resulta em uma menor viabilidade pela pouca exploração do potencial das hidrovias. Assim, o investimento público em infraestrutura rodoferroviária e portuária é essencial para a redução dos custos de escoamento. A redução da capacidade ociosa da indústria da soja, ao buscar formas de integrar as indústrias de processamento às de produção, à criação de novas rotas de escoamento do produto e à redução da carga tributária, são os principais desafios enfrentados pelo mercado da soja brasileira. A solução destes fatores, além de permitir um aumento da produtividade agrícola, iria criar uma maior estabilidade do complexo da soja no mercado internacional.
Segundo a Embrapa (2004), foi a partir da década de 60, impulsionada pela política de subsídios ao trigo, visando à autossuficiência, que a soja se estabeleceu como cultura economicamente importante para o Brasil. Nessa década, a sua produção multiplicou-se por cinco (passou de 206 mil ton, em 1960, para 1.056 milhões de ton, em 1969), e 98% desse volume era produzido nos três Estados da Região Sul. Essa concentração da produção é explicada pelo fato de ser o único espaço possível para o plantio de soja no país até os anos 70, por se tratar de um cultivo de climas temperados e subtropicais. A evolução tecnológica foi determinante ao progresso do agronegócio no Brasil em relação à soja, que permitiu que este produto se espalhasse ao longo de Estados da Região Norte e Nordeste do país.
Gráfico 4: Evolução da produção de soja no Brasil por região (Safras 1976/77 a 2010/11)
Fonte: CONAB, 2012.
Segundo Trennepohl e Paiva (2010), era preciso repensar o binômio trigo-soja, sustentado pelos subsídios estatais e pela conjuntura favorável do mercado internacional, que mostrava sinais de esgotamento. Os recursos naturais, violentamente agredidos pelo cultivo intensivo e sem rotação, estavam perdendo sua capacidade de produção (erosão dos solos, desertificação, assoreamento dos rios, envenenamentos, etc.), os recursos financeiros do Estado estavam se tornando insuficientes para continuar sustentando a gama de subsídios e favores existentes e o mercado internacional mostrava-se menos promissor.
Dessa forma, a produção de soja no Estado do Rio Grande do Sul parou de crescer e a década de 80 foi marcada pela estagnação em termos de área plantada, produção e rendimento da cultura. Com isso, o Rio Grande do Sul perdeu espaço para outras unidades da federação, como o Paraná e os Estados do Centro-Oeste (MS, MT, GO), onde a cultura continuou a se expandir e a sua participação na produção nacional caiu de 70% na década de 60 para 15% na safra 2010/11. - 5.000,0 10.000,0 15.000,0 20.000,0 25.000,0 30.000,0 35.000,0 40.000,0 Pr o d u ção e m m il to n e lad ad as Ano Safra NORTE NORDESTE CENTRO-OESTE SUDESTE SUL
Gráfico 5: Produção de soja por região na safra 2010/11
Fonte: CONAB, 2012.
No Brasil, a produção de soja é praticada em todas as regiões do país. Os Estados do Mato Grosso e do Paraná, no entanto, se destacam, sendo responsáveis por 27% e 20% da produção nacional, respectivamente. Segundo a Embrapa, o Estado do Mato Grosso sozinho responde a 8% da produção mundial de soja. Na safra 2010/2011, o Estado produziu mais de 20 milhões de toneladas.
A Região Sul responde por 38% da soja produzida no Brasil. A permanência da agricultura familiar na região, em pequenas propriedades (entre dez e cem hectares) se explica por dois fatores: a rotação da soja com o trigo, que possibilita ganhos com ambas as culturas, e a maior proximidade dos portos de importação de insumos e exportação da produção, que reduz os custos de transporte (FOCUS, 2010).
As características das propriedades produtivas nessas áreas, no entanto, são diferentes. No Sul, as propriedades são menores (de acordo com dados do Censo Agropecuário de 2006, em média, 35 hectares) e a maioria dos produtores vende sua produção por meio de cooperativas. As propriedades na Região Centro-Oeste são maiores (em média 500 hectares) e as cooperativas não estão presentes como nos Estados no Sul. No Mato Grosso, sobretudo, a produção de soja ocorre em propriedades de elevadas escalas (cerca de 20% da produção, de
45,1%
37,9%
8,3%
6,1%
2,6%
CENTRO-OESTE SUL NORDESTE SUDESTE NORTEacordo com o Censo Agropecuário de 2006, se concentra em propriedades com 2,5 mil hectares ou mais).
Dall’agnol (2000) afirma que a soja foi a grande responsável pelo surgimento da agricultura comercial brasileira, acelerando a mecanização das lavouras. Com ela modernizou-se o transporte e se expandiu a fronteira agrícola, colaborando para a tecnicidade e produção de outras culturas, além de patrocinar o desenvolvimento da avicultura e da suinocultura brasileira. A geração de tecnologias contribuiu para que o Brasil aumentasse sua produção de soja, passando a ocupar o segundo lugar entre os maiores produtores de soja do mundo (apud ECOPAR, 2011).
De acordo com o Quado 1, na safra 2000/01 a produção brasileira não passava de 38,5 milhões de ton ao ano. Na safra 2010/11, o país atingiu uma rentabilidade de aproximadamente 75,3 milhões de ton, sendo a Região Centro-Oeste do Brasil a responsável por 45% dessa produção e o Sul 37,9% dessa produção.
Quadro 1: Evolução da área plantada, produção e rendimento da soja no Brasil (Safras 2000/01 a 2010/11)
Ano Área Plantada (mil/ha) Prudução (mil/ton) Rendimento (kg/ha) 2000/01 13.969,8 38.431,8 2.751,0 2001/02 16.386,2 42.230,0 2.577,0 2002/03 18.474,8 52.017,5 2.816,0 2003/04 21.375,8 49.792,7 2.329,0 2004/05 23.301,1 52.304,6 2.245,0 2005/06 22.749,4 55.027,1 2.419,0 2006/07 20.686,8 58.391,8 2.822,7 2007/08 21.313,1 60.017,7 2.816,0 2008/09 21.743,1 57.165,5 2.629,0 2009/10 23.467,9 68.688,2 2.927,0 2010/11 24.181,0 75.324,3 3.115,0 Fonte: CONAB, 2012.
A importância do complexo de soja para o Brasil pode ser dimensionada tanto pelo impressionante crescimento da produção desta leguminosa quanto pela arrecadação com as exportações de soja em grão e derivados (óleo e farelo de soja). A soja, por ser fonte de
proteínas inesgotáveis na alimentação humana e de grande parte dos animais que produzem carne, leite e ovos, oferece, hoje, uma variedade de produtos. Trata-se de uma cadeia produtiva bastante abrangente, pois animais criados com rações produzidas a partir do farelo de soja oferecem outros subprodutos que vão afiançar outras áreas da economia, como o setor de couro, de fertilizantes orgânicos e outros (ROESSING; SANCHES; MICHELLON, 2005 apud ECOPAR, 2011).