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Panorama Geral

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Estudar a coisa julgada no processo coletivo tem por pressuposto o exame desse instituto à luz do quanto sobre ele se construiu na dinâmica do processo individual. E assim deve ser porque o processo coletivo, quanto à coisa julgada, busca seus conceitos mais importantes no processo individual, com todas as evoluções que quanto ao instituto da coisa julgada a doutrina já realizou, desde as suas origens mais remotas localizadas no direito romano.

Aliás, desde que os romanos forjaram a noção de res judicata os juristas se esforçam por compreender, em toda a extensão e complexidade, seu conceito. O presente capítulo se dedica a esse estudo, sempre com olhos voltados para o lançamento das bases essenciais da construção que se pretende fazer no Capítulo 04, em que estudaremos a coisa julgada nas ações coletivas.

Com efeito, o processo, como tantas vezes já afirmado em doutrina, é o instrumento através do qual o Estado presta a tutela jurisdicional, resolvendo a crise jurídica55

que lhe foi levada pelo jurisdicionado.

Em palavras mais simples, o processo é uma espécie de máquina transformadora, que busca tornar certas relações jurídicas incertas: essa a função precípua do processo de conhecimento, que mais de perto nos interessa no presente estudo.

Entretanto, essa certeza jurídica não é obtida instantaneamente e de inopino.

Necessário é observar um passo a passo, que naturalmente conduzirá essa máquina rumo a seus produtos finais. Esse passo a passo recebe a denominação de procedimento5657, o qual,

por sua vez, é composto por sucessivos atos processuais.

O procedimento e os atos processuais que o integram podem, pois, para fins didáticos, ser entendidos como o modo de ligação entre os dois principais pontos do processo: o ponto inicial, que consiste em um ato da parte, que é a demanda, e um ponto final, consubstanciado em um ato do Estado-juiz, qual seja, a sentença.

55 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil II. 2. ed., São Paulo: Malheiros,

2002.

56 Como ensina autorizada doutrina, o procedimento é a manifestação extrínseca do processo, ao passo que a

manifestação intrínseca seria a relação jurídica processual. Procedimento é, assim, comportamentos coordenados em vista de um fim predeterminado.

57 DINAMARCO, Candido Rangel. Processo = Relação Jurídica Processual + Procedimento. 2. ed., São Paulo:

Segundo o professor SANTOS (2008):

Até agora, a doutrina não conseguiu encontrar formulação definitiva para o vocábulo (processo),embora grandes avanços tenham sido realizados a partir dos estudos de Elio Fazzalari (ver Instituzioni di diritto processuale civil, p. 80-86). Segundo ele, o processo pode ser traduzido pela idéia de ‘procedimento em contraditório’. Não sem fazer observações ao entendimento do jurista italiano, os processualistas pátrios têm dito que a noção de processo envolve as de procedimento e de relação processual. O procedimento é a forma pela qual se sucedem os atos processuais, é o caminho pelo qual o processo segue; a relação processual, por sua vez, é o vínculo jurídico que une o juiz e as partes, estabelecendo, entre eles, conforme sua qualidade, poderes, faculdades, deveres, ônus e sujeições. Assim o processo é o somatório desses dois elementos, ou seja, é o instrumento exteriorizado e materializado por um procedimento e que, além disso, é animado por uma relação jurídica processual”.58

Toda essa concatenação lógica de atos processuais tem por fim, portanto, viabilizar o ato final, no qual o juiz, após a realização de cognição exauriente, diz o direito aplicável ao caso, resolvendo a crise jurídica submetida pelas partes: eis aí a sentença.

Não é demais destacar que a Constituição da República assegura, a todos os litigantes, o devido processo legal, com oportunidade de exercício do contraditório e da ampla defesa. Isso, sem dúvida, legitima a decisão final que o juiz profere, porquanto dela puderam as partes envolvidas efetivamente participar, expor suas razões, produzir as provas dos fatos alegados etc.. Além disso, a observância do devido processo legal tem o objetivo de proporcionar decisões ponderadas, seguras e, na medida do possível, mais justas.

Entretanto, essa busca pela justiça, pela decisão perfeita, deve encontrar limites, sob pena de um processo judicial jamais se encerrar, perpetuando os litígios indefinidamente e jamais se atingindo o fim precípuo da Jurisdição, que é pacificar os conflitos de interesse que turbam a paz social. Em determinado momento, pois, a decisão do Poder Judiciário deve ser tida por imutável, não se permitindo às partes retornarem com demandas que visem rediscutir aquilo que já foi objeto de resolução.

Como bem destaca o Professor RUBENSTEIN (2007)59, a imutabilidade de uma decisão é um tema central em qualquer sistema judiciário, pois que tangencia tormentosos questionamentos, tais como: a partir de que condições estamos preparados para aceitar que o resultado de um processo é imutável? Quando estamos habilitados a dizer que a justiça realmente foi feita?

58 SANTOS, Nelton dos. Código de Processo Civil Interpretado. Antônio Carlos Marcato, coordenador. 3. ed.,

São Paulo: Atlas, 2008.

59 RUBENSTEIN, William B. Finality inc Class Action Litigation: Lesson from Habeas. New York Universiy

A resposta a esses complexos questionamentos talvez seja: NUNCA. Todavia, para um sistema judiciário que pretende ser racional e atingir a sua finalidade de dar solução a litígios, essa é uma resposta absolutamente inaceitável. Em algum momento, pois, o conflito deve se encerrar e a solução ditada pelo Poder Judiciário deve ser definitiva. Alguma hora deve cessar a busca pelo valor justiça, a fim de se assegurar outro valor igualmente importante: a segurança jurídica.

Surge aí a coisa julgada. Para GUERRA FILHO (2008):

A coisa julgada, para um teórico do processo do porte de James Goldschimidt, em sua obra clássica Der prozess als rechtslage (cf. §§ 14 e 15), é o próprio objetivo que com o desenrolar do procedimento deverá ser alcançado, em se tratando de um processo judicial. Realmente, o ato que cumpre a finalidade própria da jurisdição, isto é, a sentença, reveste-se, em determinado momento, de uma autoridade conferida pela lei, adquirindo com isso a estabilidade para garantir a ‘segurança’ nas relações sociais, ameaçadas pelas controvérsias submetidas à apreciação do órgão judicial. Por uma questão de ‘justiça’, as decisões judiciais estão sujeitas a serem modificadas, uma vez impugnadas e levadas ao conhecimento do órgão superior. A essa possibilidade de revisão, no entanto, se contrapõem limites, fixando um número razoável delas e estipulando um prazo rígido dentro do qual se pode solicitá-la. Uma vez que a sentença não está mais sujeita a alterações, pelo esgotamento da possibilidade de se recorrer contra ela, ocorre o trânsito em julgado e ela adquire a autoridade de coisa julgada (autorictas res judicata).60

Irrepreensível a lição transcrita. De fato, a coisa julgada é um fenômeno que se liga à própria finalidade da jurisdição, na exata medida em que a estabilização da ordem jurídica torna-se impossível de ser obtida se os conflitos entre as pessoas se eternizarem. Daí porque, conforme já anotava ilustre processualista61, a possibilidade de que essa decisão final e imutável seja injusta é um mal menor comparado com a perpétua incerteza das relações do mundo jurídico.

No presente capítulo, como antes já exposto, buscaremos estudar a fundo essa ficção jurídica denominada coisa julgada. Afinal de contas, conquanto a coisa julgada nas ações coletivas tenha regime diferenciado, seu arcabouço teórico foi todo construído à partir das construções doutrinárias e dos conceitos da coisa julgada no processo individual, sendo, pois, indispensável o estudo destes para que possamos bem compreender a sua aplicação nos processos coletivos.

60 GUERRA FILHO, Willis Santiago. Notas fenomenológicas sobre a relativização dos limites subjetivos da

coisa julgada em conexão com o litisconsórcio necessário. In: NASCIMENTO, Carlos Valder do; DELGADO,

José Augusto (Org.). Coisa Julgada Inconstitucional. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2008. p. 65-83.

61 COSTA, Lopes da. Manual Elementar de Direito Processual Civil. 3. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1982, p.

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