2. O PATRIMÔNIO URBANO DOS BAIRROS CENTRAIS DA CIDADE
2.1. PANORAMA HISTÓRICO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
A cidade do Rio de Janeiro foi fundada em 1575, no local situado entre o Morro Cara de Cão e Morro do Pão de Açúcar, e depois foi transferida pelos portugueses para o Morro do Castelo, por sua localização estratégica, em relação à segurança, controle e proximidade do porto. No século XVIII a Cidade teve uma grande expansão, e tudo o que hoje chamamos Área Central do Rio de Janeiro, foi ocupada ao longo do século XIX.
Até o século XIX, a Cidade do Rio de Janeiro era pequena, e as classes sociais estavam misturadas, uma pequena elite convivia com a população escrava. Com a chegada da família real em 1808, implantou-se uma escala de valores em relação às práticas desenvolvidas pelos grupos sociais. A nobreza, para se diferenciar das outras classes sociais existentes, buscou morar nos bairros de São Cristóvão e da Glória. Com a implantação dos bondes em 1870, esses grupos conseguiram ocupar a Zona Sul e a Tijuca, ao passo que as classes menos privilegiadas ocuparam a Zona Oeste a partir da implantação dos trens (ABREU, 2006). Desde o século XIX até o século XX, a Cidade do Rio de janeiro desenvolveu as funções comerciais, financeiras, administrativas e empresariais como Capital, o que
Página| 30 trouxe a especulação imobiliária que acarretou na divisão de funções dentro da Cidade que, com o plano de melhoramento da cidade, proibiu a função residencial no Centro da Cidade (LIMA e MESENTIER, 2017).
Na segunda metade do século XIX, o município da cidade adotou posturas que foram restringindo as habitações coletivas e proibindo a existência dos cortiços no centro, multando-os após interdição. Os cortiços foram fechados até obtivessem uma licença, outorgada pela prefeitura para a realização de obras, melhoramentos sanitários e de higiene; porém, essa licença de obras costumava ser negada pelas autoridades municipais, alegando que os cortiços estavam em uma área proibida para sua existência, o que levou à eliminação destes (ABREU, 2006; VAZ, 1995). A industrialização e as reformas urbanas promoveram a separação entre as classes sociais e entre as atividades, definindo áreas centrais, industriais, residenciais diversas em função das classes sociais.
No final do século XIX, aboliu-se a escravidão e a monarquia caiu. Devido ao fato de que a cidade do Rio de Janeiro era pensada como exemplo da modernização, criaram-se projetos para o melhoramento da região portuária: a articulação entre a ferrovia e o porto, a retificação do litoral e a construção de um cais, aprovado em 1899. Nessa época, com o grande apogeu da cidade, as grandes mansões passaram a sediar órgãos públicos e as casas de cômodos começaram a ser divididas em cubículos, dando origem a novos cortiços. Também as grandes propriedades de terras foram divididas em lotes para a construção de habitações. Assim, o solo urbano tornou-se nessa época uma mercadoria de alto valor econômico, mudanças provocadas pelo esforço do poder municipal, de empreendedores imobiliários, empresas estrangeiras e concessionárias de serviços, que sonhavam em ver a cidade, com o status de capital (SAMPAIO, 2016; FARIA, 2016; LIMA e MESENTIER, 2017).
Em 1889, com o início da República, implantaram-se políticas higienistas, a partir das obras de renovação urbana, que tinham como objetivo “limpar” os grupos sociais de baixa renda que moravam em cortiços considerados insalubres. A partir de 1893, começaram a ser demolidos os cortiços. Na época, o prefeito Barata Ribeiro demoliu o Cortiço Cabeça de Porco que abrigava 4000 pessoas. A partir de 1906, a Reforma Pereira Passos também incentivou a demolição de cortiços, sobre justificativas higienistas com a liderança de Osvaldo Cruz (ABREU, 2006; VAZ, 1995).
Em 1902, foi nomeado pelo presidente da República Rodrigues Alves, o prefeito Pereira Passos, que implantou um grande projeto de reformas urbanas, que rompeu com os processos anteriores de urbanização colonial, consolidando a capital federal como cidade burguesa. Esse processo urbano foi chamado “bota abaixo” pois, com a construção de grandes vias urbanas e projetos de alinhamento, muitas edificações foram demolidas e, uma numerosa população foi desalojada com a finalidade de modernizar a cidade (SAMPAIO, 2016).
Página| 31 Entre o ano 1904 e o 1908, a Reforma Pereira Passos promoveu a uniformização do alinhamento das ruas, abertura de avenidas, recuos das edificações, retirada de vendedores ambulantes, canalização de rios, saneamento da cidade. Paralelamente, a reforma promoveu a destruição dos casarões coloniais, cortiços e moradias populares (ABREU, 2006). Construíra-se o túnel de João Ricardo, derrubou-se o Morro do Castelo, abriram-se as Avenidas Rio Branco e Pereira passos. Estas modernizações foram as desculpas para demolir os cortiços que a cidade tinha. A política foi chamada de “bota abaixo” (VAZ, 1995).
Estas políticas higienistas, que levaram à expulsão dos moradores de baixa renda, na verdade, acarretaram o início do processo de favelização (LAB HAB, 2009). Com a demolição dos casarões, aquelas populações que pretendiam permanecer na Cidade usaram como alternativa a ocupação dos espaços disponíveis que estavam em situação irregular, para suas moradias. Deu-se início ao processo da favelização, intensificado pela possibilidade de emprego no serviço doméstico e na construção civil (LAB HAB, 2009). Até o século XIX, os bairros do Centro histórico da Cidade do Rio de Janeiro possuíam uma densidade populacional alta de classes variadas, porém, hoje, a população possui baixos recursos econômicos e, pela falta de conservação das edificações, as condições da moradia foram se agravando (LAB HAB, 2009).
Na primeira década do século XX, as políticas higienistas levaram a expulsão dos moradores de baixa renda, e acarretaram o início do processo de favelização (ABREU, 1986). Além das restrições legais de reforma e construção de cortiços, estas obras de renovação urbana, que levaram o aumento do valor da terra, acabaram erradicando boa parte deles, deixando disponíveis novos terrenos porém com um preço alto, o que aprofundou a crise habitacional (ABREU, 2006; VAZ,1994)
A cidade se expandiu devido à construção de estruturas de transportes públicos. As funções começaram a se multiplicar e melhoraram os equipamentos urbanos. Entre a década de 20 e 50; instalaram-se os trens e bondes que serviram como vetores de expansão para a Zonas Norte, com o trem, e a Zona Sul, com o bonde. Em 1920, com o primeiro centenário da independência do Brasil, para atrair turistas, e pela necessidade da Cidade do Rio de Janeiro se expandir, foi derrubado o Morro do Castelo, onde moravam várias famílias pobres (ABREU, 2006; LAB HAB, 2009). Com isso, o uso habitacional do Centro da Cidade diminuiu subitamente. Nesta época, também, foi lançada a lei do inquilinato que desestabilizou o mercado afetando os moradores. As populações começaram a desejar ter uma casa própria, entre as décadas de 30 e metade de 40 incentivados por várias políticas habitacionais, que promoviam moradia nas periferias, gerando uma expansão da cidade, porém certos empecilhos levaram algumas destas populações a ocupar os morros mais próximos aos locais de
Página| 32 trabalho por não ser capazes de acessar a habitação formal, constituindo-se assim as favelas (VAZ,1994).
Paralelamente, em 1930, o Brasil passa da economia mercantil exportadora, para a economia industrial, o que atraiu um imenso número de migrantes para a cidade e causou um grande aumento da população (ABREU, 2006; LIMA e MESENTIER, 2017). Em 1930, também, lança-se o primeiro plano diretor para a Cidade do Rio de Janeiro, chamado Plano Agache, que previa a reurbanização da área resultante da demolição do Morro do Castelo. O plano foi influenciado pelas teorias de planejamento mundial de 1920, ano em que Le Corbusier visitou a cidade do Rio de Janeiro. Os prefeitos Carlos Sampaio e Paulo Frontin retomaram as demolições de moradias pertencentes a camadas populacionais de baixos recursos e retomaram a construção de grandes obras públicas, o que levou os moradores expulsos a construírem suas moradias nos subúrbios da cidade devido à facilidade de transporte públicos na Cidade do Rio de Janeiro (ABREU, 2006; LAB HAB, 2009).
Em 1937, formou-se a comissão que elaborou o Plano Diretor e o Plano de melhoramento da Cidade, que recomendava a ampliação do sistema vial, a disponibilização de terrenos para a construção de edifícios altos, alargamento de ruas e prolongamento de ruas existentes, que foram chamados Planos de Alinhamento (PA). Nesses terrenos foram construídas torres que modificaram visivelmente a morfologia da Cidade (VAZ, 1995).
Nessa época, o valor da terra na Área Central aumenta, devido às reformas urbanas, demolição dos casarões antigos, abertura e retificação e grandes avenidas; desmonte de morros, políticas higienistas, saneamento e embelezamento da cidade (ABREU, 2006).
O patrimônio da Área Central do Rio de Janeiro recebeu proteção legal, a partir de 1938, quando ocorreram os primeiros tombamentos. A área tem bens protegidos nas três esferas de tutela: Federal, Estadual e Municipal, sendo grande parte na área mais antiga, formada pelos bairros Saúde, Gamboa e Santo Cristo. E estão protegidas no contexto normativo da Área de Preservação Ambiental Cultural- APAC-SAGAS (Saúde, Gamboa e Santo Cristo), APAC-Cruz Vermelha e APAC-Corredor Cultural (SAMPAIO, 2016; FARIA, 2016).
Os bens tombados da Cidade do Rio de Janeiro hoje são monumentos ainda de 1938, e não contemplam a proteção dos bens modestos, onde moram as camadas de baixa renda, em questão. Os primeiros tombamentos de bens modestos em nível local, na Cidade do Rio de Janeiro ocorreram em 1965. Em 1940, com a abertura da Pereira Passos, provocaram-se mais demolições de antigas residências e a expulsão dos moradores da área local (SAMPAIO, 2016). Ainda, a partir de 1950, o uso do automóvel se desenvolveu e, com isto, a cidade teve uma nova etapa de expansão, incentivado pela
Página| 33 construção de conjuntos habitacionais nas periferias e a abertura de rodovias, que geraram cirurgias no antigo tecido urbano (MESENTIER, 1992).
Em 1960, Rio de janeiro perde a sua condição de cidade Capital, que é transladada para Brasília, o que deslocou serviços, investimentos e implicou em certo esvaziamento da Área Central. Em 1965, ocorreram os primeiros tombamentos na Cidade de Rio de Janeiro, no Estado da Guanabara, passaram a ser praticados como política, a partir da década de 80, na esfera municipal, com uma legislação competente. Registraram-se, além áreas de preservação, bens que foram tombados em nível municipal e estadual, com critérios menos elitistas, cujo referente foi a Carta de Veneza de 1964 (SAMPAIO, 2016).
Depois do desaquecimento industrial de 1960, o turismo foi abordado pelo governo da Cidade como uma alternativa econômica importante para ela, porém, os grupos locais, que viam o poder público como antagonista, ofereceram grande resistência a este, quanto aos grupos externos da Cidade (CASTRIOTA, 2009. p.151).
Em 1970, propôs-se um novo centro de negócios para a Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Em 1976, estabeleceram-se projetos de alinhamentos que proibiram o uso habitacional na Cidade (ABREU, 2006). Intervenções de revitalização urbana, em áreas históricas, iniciaram-se ao final da década de 70, quando se inicia um debate, em que se percebe a necessidade de revitalizar o Centro, e se reconhece mais, amplamente, o valor do patrimônio urbano edificado, que passa a receber atividades ligadas ao lazer cultural (MESENTIER, 1992). Então já a partir de 1960, os investimentos da Cidade se deslocaram para a Barra da Tijuca, que foi habitada a partir de 1980. Isso agravou o deslocamento e a cidade atravessou um processo de desindustrialização, que deixa grandes vazios urbanos e a cidade perdeu seus focos de poluição, o que permitiria o retorno da função habitacional no centro, mas não aconteceu. Em 1980, a Cidade se expandiu no sentido Oeste, agravando a perda da população no Centro. Porém, nessa mesma década, as cidades brasileiras sofreram uma crise, que levou a falta de investimentos nos espaços públicos, devido à diminuição das ações públicas, falta de infraestrutura e aumento da população de rua (MESENTIER, 1992).
Nessa mesma década de 80, criaram-se os primeiros projetos urbanos de recuperação das áreas centrais degradadas, dos quais o primeiro foi o Corredor Cultural, voltado para a preservação do patrimônio cultural do Centro da Cidade. Consequentemente, a partir de 1990 são executadas intervenções urbanísticas que tinham o objetivo de reverter o processo de decadência do Centro (MESENTIER, 1992). Desde 1987, o Centro da Cidade recebeu, também, proteção patrimonial na esfera municipal, que se soma à área protegida em nível Federal, para o entorno dos bens tombados no Morro da Conceição. Eram necessárias medidas de proteção, que impedissem a descaracterização e a perda
Página| 34 dos conjuntos urbanos, ainda que a área estivesse fora do interesse do mercado imobiliário, e grande parte de seus terrenos na área plana, pertencer ao poder público (FARIA, 2016).
Até 1990, a proibição do uso habitacional no Centro da Cidade do Rio de Janeiro gerou um decréscimo residencial e se privilegiou a implantação de comércios e escritórios e, com isso, se aprofundou o deslocamento das populações para as periferias. Com a eliminação do uso habitacional, a densidade populacional diminuiu e, com isto, se construiu um novo centro, em detrimento do patrimônio construído (SANT’ANNA, 2004).
Na década de 90, a Cidade do Rio de Janeiro recebeu intervenções, que tinham por objetivo dinamizar, intensificar e reforçar as áreas centrais e seu patrimônio. Assim, como transformar o perfil popular, que a área possuía, trocando-as por funções consideradas economicamente e simbolicamente importantes. Porém, as habitações populares nunca foram alcançadas pela dinâmica aplicada no núcleo principal (SANT’ANNA, 2004. p. 159 e 161), neste contexto criou-se o Programa Novas Alternativas, em 1994.
Em 1994, foi elaborada a Lei do Centro, que passou a considerar adequada a função habitacional na Área Central e, no mesmo ano, foi definido o programa Novas Alternativas, lançado em 1996 e aplicado a partir de 1998. Em 1994, permitiu-se, novamente, a moradia no Centro, estratégia pensada para combater o seu esvaziamento no Centro e revitalizar a área (SAMPAIO, 2016. p.10).
Por conta da Copa do Mundo, no ano 2014, e as Olimpíadas de 2016, o estado fez um grande investimento urbano, para facilitar o usufruto da Cidade pelo turismo, implantando o Porto Maravilha, que tiveram como legado a pressão imobiliária sobre a região portuária, com a implementação da venda do
potencial construtivo CEPAC35 dos terrenos vazios, e o patrimônio começou a ser visto como um entrave
para o aproveitamento da área valorizada (FARIA, 2016). O contraste de escalas é uma das características mais expressivas da região portuária do Rio de Janeiro. Há grandes estruturas implantadas na malha urbana da área aterrada junto ao porto, onde existem galpões e grandes vazios urbanos, em contraste com os casarões, ocupando as ladeiras estreitas e tortuosas dos morros da região. A tradição cultural, berço de ranchos e blocos carnavalescos, ainda se mantém vivas. Depois da construção de torres que foram implantadas pelo projeto Porto maravilha, os empreendimentos não foram ocupados como se previa, o turismo saiu da cidade após os eventos finalizarem. Está ficou sobre dimensionada e, paradoxalmente, com vários bens culturais perdidos.
Muitos desses imóveis preservados estão vazios ou subutilizados, inclusive no ano 2010, registraram-se imóveis públicos, no mínimo 250, de propriedade do Estado, de valores patrimoniais, com potencial para o uso habitacional, conforme o levantamento que existe no Plano de Reabilitação e
Página| 35 Ocupação dos Imóveis do Estado do Rio de Janeiro, na Cidade do Rio de Janeiro, feito pelo Lab. Hab., lançado pela Subsecretaria de Habitação (LABHAB, 2009).
Paralelamente à existência de imóveis subutilizados na Área Central, existe um déficit habitacional alto, no Estado do Rio de Janeiro, sendo que a maioria da demanda, pela moradia, está na área urbana. Cabe destacar que os moradores de baixa renda precisam da Área Central para subsistir devido à concentração das fontes de emprego, e à necessidade de acesso à infraestrutura urbana: hospitais, pontos de circulação, comércios e lazer, entre outros serviços que se encontram concentrados no Centro da Cidade (LABHAB, 2009). As moradias patrimoniais da Área Central do Rio de Janeiro permaneceram, até hoje, na condição de informalidade pela sua irregularidade fundiária, mas muitas se conservam caracterizadas. Assim, as áreas têm um leque de obras patrimoniais que foram registradas e protegidas por lei. Estes bens foram cuidados durante anos por estas classes pobres (SAMPAIO, 2016; SANTOS, 1986).
O Centro da Cidade do Rio do Janeiro vem atravessando um processo contínuo de empobrecimento, cujos moradores são abrigados num tecido urbano degradado, sem investimentos imobiliários (FARIA, 2016). As práticas ideais da preservação do patrimônio edificado, apresentadas pelos teóricos do patrimônio, são atravessadas pela realidade que interfere, impossibilitando aplicações plenas (carência de recursos, desinteresse pelos moradores, falta de consenso sobre o destino do imóvel, desinteresse político, dentre outros). A dinâmica urbana dessa área se encontra profundamente comprometida pelos problemas de mobilidade, em nível metropolitano. Os terrenos vazios são, ainda, ocupados de forma irregular em sobrados demolidos internamente para este fim. Desponta também uma demanda por habitação social, evidenciada pelas ocupações de prédios antigos em condições degradadas. Tais situações apontam para as interfaces que as políticas urbanas estabelecem com a conservação do patrimônio e demonstram a necessidade de políticas integradas (BORDE e SAMPAIO, 2012).
Podemos afirmar que, o resultado das intervenções urbanas foi uma cidade de “palimpsesto”36
onde, por causa do valor da terra ao longo do tempo, partes da Cidade são apagadas e outras mantidas para que novas possam existir. Assim, justapõem-se paisagens urbanas diferentes: modernização, com prédios mal conservados e vazios urbanos. Porém, ao longo do tempo, os conjuntos de imóveis históricos se conservaram autênticos e representam a permanência de tipologias urbanas habitacionais próprias:
36 Manuscrito no qual o texto primitivo foi apagado por raspagem ou outro procedimento, para reescrever um novo texto, devido à impossibilidade de compra de um papel novo devido a que este tenha um custo alto. Cabe destacar que nesta técnica os textos apagados não podem ser plenamente eliminados, deixando resquícios que permitem saber que houve uma preexistência no suporte físico, no caso o papel. Usa-se este termo para descrever as camadas de intervenções na cidade, as quais se elaboram em um suporte físico de alto valor, a terra, e as intervenções deixam em evidência resquícios de preexistências. Estas são, no caso, o patrimônio edificado que expressa a história anterior a qual está sendo construída.
Página| 36 cortiço, casa de cômodos, vila de fundos, sobrado à frente do lote, casarão unifamiliar ou pequeno edifícios de apartamentos; tipologias que são úteis até os dias de hoje por estimular a vida comunitária (SANT’ANNA, 2004). O valor patrimonial da área se deve à sua antiguidade, estando ocupada desde o século XVII, e por isto, tem um valor simbólico considerável, constituindo-se um relato histórico materializado.
O esvaziamento do centro das cidades é uma tendência mundial disparada pelas políticas urbanas, consequentes da revolução industrial, vinculadas a teorias sanitaristas e à chegada da modernidade, que promoviam a rejeição da cidade antiga porque a consideravam insalubre, retrógrada e inadequada para o uso habitacional, incompatível com o capital que se tentava atrair. Porém, as tendências mundiais atuais promovem o desenvolvimento sustentável das cidades, a atração das populações para as áreas Centrais, e a igualdade social. A falta de ações de conservação urbana e de fomento à habitação social e às atividades econômicas tradicionais da área contribuíram para um quadro de preservação somente no papel.
A continuação será apresentado o Mapa 2 com o objetivo de mostrar a evolução do crescimento da Área central da cidade do Rio de Janeiro, deixando em evidencia que áreas da cidade são mais antigas e quais áreas tiveram uma ocupação posterior a raiz da eliminação dos morros que deixaram espaço livre para a implantação de novas edificações.
Século XVIII Século XIX Início Século XX Meados Século XX
Mapa 2: Evolução do crescimento da Área central da cidade do Rio de Janeiro. Fonte: própria com base em INSTITUTO MUNICIPAL DE ARTE E CULTURA.
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