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4.2 Lei Anticorrupção e Lei da Lavagem de dinheiro

4.2.2 Panorama nacional

Esse cenário internacional acabou por influenciar, no âmbito nacional, a criação da Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei 9.613/1998), que foi alterada pela nova Lei 12.683/2012, que criminalizou, no nosso país, o crime de lavagem de capitais; e ainda, influenciou a criação da Lei Anticorrupção (Lei 12.846/2013), o qual trouxe o instituto da responsabilização objetiva da pessoa jurídica no âmbito civil e administrativo, dentre outras normas e institutos jurídicos.

22A Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção foi assinada na cidade de Mérida, no México, em 9 de dezembro de 2003.E nessa mesma data, passou-se a comemorar, no mundo inteiro, o Dia Internacional de Luta contra a Corrupção.

Antes de adentrarmos ao estudo das principais mudanças advindas com a entrada em vigor da nova Lei da Lavagem de Dinheiro, é interessante que tenhamos uma breve ideia do que se entende por lavagem de dinheiro, para que possamos compreender a necessidade de se criar uma lei especial para tipificar esse crime.

Segundo Adrienne Giannetti Nelson de Senna (2003, p.8-10), a respeito da definição de lavagem de dinheiro:

Conjunto de operações comerciais ou financeiras que busca a incorporação na economia de cada país, de modo transitório ou permanente, dos recursos, bens e valores que se originam ou se vinculam a crimes antecedentes - narcotráfico, contrabando de armas, corrupção, terrorismo, sequestro, dentre outros.

A lavagem de dinheiro, conhecido também como “branqueamento de capitais”, é um ato ilícito praticado para favorecer, ou até acobertar, a prática de outras condutas ilícitas; assim, tem como objetivo transformar em lícitos, valores e bens patrimoniais que foram adquiridos de forma ilícita.

O artigo 1º23 da antiga Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei nº 9.613/1998) especificava, em seus incisos, os possíveis crimes (antecedentes) que o agente poderia se utilizar para obter bens, valores e direitos, para incorrer no crime de lavagem de dinheiro.

Os crimes previstos no referido artigo eram: tráfico ilícito de substâncias entorpecentes ou drogas afins; terrorismo e seu financiamento;

contrabando e tráfico de armas, munições ou material destinado à sua produção;

23O Art. 1o da Lei de Lavagem de Dinheiro (9.613/1998), com a nova redação dada pela lei nº 12.683/2012, prevê que: “Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal. Pena: reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e multa. §1o Incorre na mesma pena quem, para ocultar ou dissimular a utilização de bens, direitos ou valores provenientes de infração penal: I- os converte em ativos lícitos; II- os adquire, recebe, troca, negocia, dá ou recebe em garantia, guarda, tem em depósito, movimenta ou transfere; III- importa ou exporta bens com valores não correspondentes aos verdadeiros. §2o Incorre, ainda, na mesma pena quem: I- utiliza, na atividade econômica ou financeira, bens, direitos ou valores provenientes de infração penal; II- participa de grupo, associação ou escritório tendo conhecimento de que sua atividade principal ou secundária é dirigida à prática de crimes previstos nesta Lei. §3º A tentativa é punida nos termos do parágrafo único do art. 14 do Código Penal. §4o A pena será aumentada de um a dois terços, se os crimes definidos nesta Lei forem cometidos de forma reiterada ou por intermédio de organização criminosa. §5o A pena poderá ser reduzida de um a dois terços e ser cumprida em regime aberto ou semiaberto, facultando-se ao juiz deixar de aplicá-la ou substituí-la, a qualquer tempo, por pena restritiva de direitos, se o autor, coautor ou partícipe colaborar espontaneamente com as autoridades, prestando esclarecimentos que conduzam à apuração das infrações penais, à identificação dos autores, coautores e partícipes, ou à localização dos bens, direitos ou valores objeto do crime.

extorsão mediante sequestro; crime contra Administração Pública; crime contra o sistema financeiro nacional; crime praticado por organização criminosa e crime praticado por particular contra a administração pública estrangeira.

Porém, com o advento da nova lei de Lavagem de Dinheiro (Lei nº 12.683/2012), tais incisos foram revogados, deixando de ser um rol taxativo, tornando-se um rol exemplificativo, ou seja, toda e qualquer infração penal (crime ou contravenção penal) antecedente pode ocasionar no crime de lavagem de dinheiro.

O grande problema enfrentado pelas autoridades policiais e judiciárias encontra-se justamente na questão de se provar a prática desse crime, pois ela se utiliza de mecanismos eficazes de ocultação que dificulta a investigação do delito, e ainda, tornando-se mais penoso a recuperação dos valores e bens provenientes dessas práticas econômico-financeiras ilícitas.

Nesse sentindo, Ulrich Sieber (2008, p.271) diz que a lavagem de dinheiro “proporciona novas oportunidades de execução de crimes que ultrapassam fronteiras, levando o direto penal a seus ‘limites territoriais’ e exigindo novos modelos de um direito penal transacional eficaz”.

Portanto, conforme mencionado em capítulos anteriores, devido ao fenômeno da globalização, houve um aumento e intensificação das relações internacionais, ocasionando a ruptura das convicções tradicionais no âmbito das relações fronteiriças dentre os países (MASI, 2014, p.39).

Esse contexto influenciou no aparecimento de riscos globais que possuem consequências inesperadas e desastrosas, e diante dessa “criminalidade da globalização” (MASI, 2014, p.55), o Direito penal clássico não se mostra capaz de resolver satisfatoriamente essa criminalidade hodierna.

Assim, a Lei de Lavagem de Dinheiro, além de tipificar a lavagem de dinheiro, positivou políticas de cumprimentos as quais devem ser respeitadas tanto pelos administradores (pessoas físicas) como pelas empresas (pessoas jurídicas) para evitar a prática desse crime, o que demonstra verdadeiros deveres de compliance.24

Interessante tecermos a ideia de que a atuação do Poder Público por si só não é suficiente para combater ou até mesmo prevenir, de modo eficiente, à

24A lei não utilizou expressamente o termo “compliance”, mas optou pela utilização da expressão

“mandamento normativo-legal objetivo”.

lavagem de dinheiro, já que se faz necessário também a cooperação das empresas privadas (BADARÓ; BOTTINI, 2013, p. 34).25

Sendo assim, a nova Lei da Lavagem de Dinheiro (12.683/2012) veio com o intuito de justamente tirar essa total responsabilidade das mãos do Poder Público, com isso, alterou a redação do art. 9º da Lei 9.613/1998, aumentando o rol de sujeitos os quais deverão cumprir obrigações como forma de assistir o Poder Público ao combate às essas práticas ilícitas.

Nesse sentindo, Giovani Agostini Saavedra (2011, p. 13) diz:

(...) as instituições financeiras e as empresas de capital aberto passaram a ter o dever de, respectivamente, colaborar com as investigações de lavagem de dinheiro (os chamados “deveres de compliance”) e de criar sistemas de controles internos que previnam as práticas de corrupção, de lavagem de dinheiro e de outras condutas que possam colocar em risco a integridade do sistema financeiro.

A Lei 12.683/2012 alterou os incisos I, X e XII e incluiu os incisos XIII, XIV, XV, XVI, XVII e XVIII, no rol do art. 9º26 da Lei 9.613/1998, aumentando número de pessoas que estão sujeitas ao mecanismo de controle desta referida lei.

25Os autores entendem que essa colaboração das instituições privadas à atuação do poder público, é umas das estratégias para combater o crime de lavagem de dinheiro.

26O Art. 9o da Lei de Lavagem de Dinheiro (9.613/1998), com a nova redação dada pela lei nº 12.683/2012, prevê que: “Sujeitam-se às obrigações referidas nos arts. 10 e 11 as pessoas físicas e jurídicas que tenham, em caráter permanente ou eventual, como atividade principal ou acessória, cumulativamente ou não: I- a captação, intermediação e aplicação de recursos financeiros de terceiros, em moeda nacional ou estrangeira; II– a compra e venda de moeda estrangeira ou ouro como ativo financeiro ou instrumento cambial; III- a custódia, emissão, distribuição, liquidação, negociação, intermediação ou administração de títulos ou valores mobiliários. Parágrafo único.

Sujeitam-se às mesmas obrigações: I– as bolsas de valores, as bolsas de mercadorias ou futuros e os sistemas de negociação do mercado de balcão organizado; II- as seguradoras, as corretoras de seguros e as entidades de previdência complementar ou de capitalização; III- as administradoras de cartões de credenciamento ou cartões de crédito, bem como as administradoras de consórcios para aquisição de bens ou serviços; IV- as administradoras ou empresas que se utilizem de cartão ou qualquer outro meio eletrônico, magnético ou equivalente, que permita a transferência de fundos; V- as empresas de arrendamento mercantil (leasing) e as de fomento comercial (factoring); VI- as sociedades que efetuem distribuição de dinheiro ou quaisquer bens móveis, imóveis, mercadorias, serviços, ou, ainda, concedam descontos na sua aquisição, mediante sorteio ou método assemelhado; VII- as filiais ou representações de entes estrangeiros que exerçam no Brasil qualquer das atividades listadas neste artigo, ainda que de forma eventual; VIII- as demais entidades cujo funcionamento dependa de autorização de órgão regulador dos mercados financeiro, de câmbio, de capitais e de seguros; IX- as pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras, que operem no Brasil como agentes, dirigentes, procuradoras, comissionárias ou por qualquer forma representem interesses de ente estrangeiro que exerça qualquer das atividades referidas neste artigo; X- as pessoas físicas ou jurídicas que exerçam atividades de promoção imobiliária ou compra e venda de imóveis; XI- as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem jóias, pedras e metais preciosos, objetos de arte e antiguidades; XII- as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de luxo ou de alto valor, intermedeiem a sua comercialização ou exerçam atividades que envolvam grande volume de recursos em espécie; XIII- as juntas comerciais e os registros públicos; XIV- as pessoas físicas ou jurídicas que prestem, mesmo que eventualmente, serviços de assessoria, consultoria,

Assim, dentre os sujeitos que já estavam previstos pela lei anterior, a nova lei passou a incluir as juntas comerciais e os registros públicos; as pessoas físicas ou jurídicas que prestem, mesmo que eventualmente, serviços de assessoria, consultoria, contadoria, auditoria, aconselhamento ou assistência, de qualquer natureza; pessoas físicas ou jurídicas que atuem na promoção, intermediação, comercialização, agenciamento ou negociação de direitos de transferência de atletas, artistas ou feiras, exposições ou eventos similares; as empresas de transporte e guarda de valores; as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de alto valor de origem rural ou animal ou intermedeiem a sua comercialização; e as dependências no exterior das entidades mencionadas neste artigo, por meio de sua matriz no Brasil, relativamente a residentes no País.

Além disso, essa nova lei alterou os artigos 1027 e 1128 da Lei 9.613/1998 ampliando o rol de obrigações, incluindo deveres de compliance,

contadoria, auditoria, aconselhamento ou assistência, de qualquer natureza, em operações: a) de compra e venda de imóveis, estabelecimentos comerciais ou industriais ou participações societárias de qualquer natureza; b) de gestão de fundos, valores mobiliários ou outros ativos; c) de abertura ou gestão de contas bancárias, de poupança, investimento ou de valores mobiliários; d) de criação, exploração ou gestão de sociedades de qualquer natureza, fundações, fundos fiduciários ou estruturas análogas; e) financeiras, societárias ou imobiliárias; e f) de alienação ou aquisição de direitos sobre contratos relacionados a atividades desportivas ou artísticas profissionais; XV- pessoas físicas ou jurídicas que atuem na promoção, intermediação, comercialização, agenciamento ou negociação de direitos de transferência de atletas, artistas ou feiras, exposições ou eventos similares;

XVI- as empresas de transporte e guarda de valores; XVII- as pessoas físicas ou jurídicas que comercializem bens de alto valor de origem rural ou animal ou intermedeiem a sua comercialização; e XVIII- as dependências no exterior das entidades mencionadas neste artigo, por meio de sua matriz no Brasil, relativamente a residentes no País.”.

27O Art. 10 da Lei de Lavagem de Dinheiro (9.613/1998), com a nova redação dada pela lei nº 12.683/2012, prevê que: “As pessoas referidas no art. 9º: I- identificarão seus clientes e manterão cadastro atualizado, nos termos de instruções emanadas das autoridades competentes; II- manterão registro de toda transação em moeda nacional ou estrangeira, títulos e valores mobiliários, títulos de crédito, metais, ou qualquer ativo passível de ser convertido em dinheiro, que ultrapassar limite fixado pela autoridade competente e nos termos de instruções por esta expedidas; III- deverão adotar políticas, procedimentos e controles internos, compatíveis com seu porte e volume de operações, que lhes permitam atender ao disposto neste artigo e no art. 11, na forma disciplinada pelos órgãos competentes; IV- deverão cadastrar-se e manter seu cadastro atualizado no órgão regulador ou fiscalizador e, na falta deste, no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), na forma e condições por eles estabelecidas; V- deverão atender às requisições formuladas pelo Coaf na periodicidade, forma e condições por ele estabelecidas, cabendo-lhe preservar, nos termos da lei, o sigilo das informações prestadas. §1º Na hipótese de o cliente constituir-se em pessoa jurídica, a identificação referida no inciso I deste artigo deverá abranger as pessoas físicas autorizadas a representá-la, bem como seus proprietários. §2º Os cadastros e registros referidos nos incisos I e II deste artigo deverão ser conservados durante o período mínimo de cinco anos a partir do encerramento da conta ou da conclusão da transação, prazo este que poderá ser ampliado pela autoridade competente. §3º O registro referido no inciso II deste artigo será efetuado também quando a pessoa física ou jurídica, seus entes ligados, houver realizado, em um mesmo mês-calendário, operações com uma mesma pessoa, conglomerado ou grupo que, em seu conjunto, ultrapassem o limite fixado pela autoridade competente. ”.

28O Art. 11 da Lei de Lavagem de Dinheiro (9.613/1998), com a nova redação dada pela lei nº 12.683/2012, prevê que: “As pessoas referidas no art. 9º: I- dispensarão especial atenção às

estimulando as empresas a se organizarem adotando medidas de conformidade com regulamentos e com a legislação vigente, criando um ambiente favorável para realização de negócios de forma honesta; e que quando não respeitadas sofrerão penalidades previstas no art. 1229 da referida lei.

Dessa forma, ao prever essas obrigações de que pessoas físicas ou jurídicas devem adotar regulamentos internos que estejam em conformidade com a legislação, e ainda, devendo comunicar a autoridade fiscalizadora antes de realizar qualquer operação financeira, podemos dizer que a Lei de Lavagem de Dinheiro, acabou por trazer a ideia de Criminal Compliance para a realidade brasileira, pois tais obrigações demonstram uma noção de prevenção da prática do crime de lavagem de dinheiro.

Dentre as obrigações já existentes nos artigos 10 e 11, os sujeitos previstos no art. 9º, com a nova lei, passaram a ser responsáveis, principalmente,

operações que, nos termos de instruções emanadas das autoridades competentes, possam constituir-se em sérios indícios dos crimes previstos nesta Lei, ou com eles relacionar-se; II- deverão comunicar ao Coaf, abstendo-se de dar ciência de tal ato a qualquer pessoa, inclusive àquela à qual se refira a informação, no prazo de 24 (vinte e quatro) horas, a proposta ou realização: a) de todas as transações referidas no inciso II do art. 10, acompanhadas da identificação de que trata o inciso I do mencionado artigo; e b) das operações referidas no inciso I; III- deverão comunicar ao órgão regulador ou fiscalizador da sua atividade ou, na sua falta, ao Coaf, na periodicidade, forma e condições por eles estabelecidas, a não ocorrência de propostas, transações ou operações passíveis de serem comunicadas nos termos do inciso II. §1º As autoridades competentes, nas instruções referidas no inciso I deste artigo, elaborarão relação de operações que, por suas características, no que se refere às partes envolvidas, valores, forma de realização, instrumentos utilizados, ou pela falta de fundamento econômico ou legal, possam configurar a hipótese nele prevista. §2º As comunicações de boa-fé, feitas na forma prevista neste artigo, não acarretarão responsabilidade civil ou administrativa. §3º O Coaf disponibilizará as comunicações recebidas com base no inciso II do caput aos respectivos órgãos responsáveis pela regulação ou fiscalização das pessoas a que se refere o art. 9º.”.

29O Art. 12 da Lei de Lavagem de Dinheiro (9.613/1998), com a nova redação dada pela lei nº 12.683/2012, prevê que: “Às pessoas referidas no art. 9º, bem como aos administradores das pessoas jurídicas, que deixem de cumprir as obrigações previstas nos arts. 10 e 11 serão aplicadas, cumulativamente ou não, pelas autoridades competentes, as seguintes sanções: I- advertência; II- multa pecuniária variável não superior: a) ao dobro do valor da operação; b) ao dobro do lucro real obtido ou que presumivelmente seria obtido pela realização da operação; ou c) ao valor de R$

20.000.000,00 (vinte milhões de reais); III- inabilitação temporária, pelo prazo de até dez anos, para o exercício do cargo de administrador das pessoas jurídicas referidas no art. 9º; IV- cassação ou suspensão da autorização para o exercício de atividade, operação ou funcionamento. §1º A pena de advertência será aplicada por irregularidade no cumprimento das instruções referidas nos incisos I e II do art. 10. §2º A multa será aplicada sempre que as pessoas referidas no art. 9º, por culpa ou dolo: I–

deixarem de sanar as irregularidades objeto de advertência, no prazo assinalado pela autoridade competente; II- não cumprirem o disposto nos incisos I a IV do art. 10; III- deixarem de atender, no prazo estabelecido, a requisição formulada nos termos do inciso V do art. 10; IV- descumprirem a vedação ou deixarem de fazer a comunicação a que se refere o art. 11. §3º A inabilitação temporária será aplicada quando forem verificadas infrações graves quanto ao cumprimento das obrigações constantes desta Lei ou quando ocorrer reincidência específica, devidamente caracterizada em transgressões anteriormente punidas com multa. §4º A cassação da autorização será aplicada nos casos de reincidência específica de infrações anteriormente punidas com a pena prevista no inciso III do caput deste artigo. ”.

por adotar políticas, procedimentos e controles internos; cadastrar-se no órgão regulador ou fiscalizador, ou ainda no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), devendo prestar informações a estes; e possuem a incumbência de comunicar previamente à instituição financeira antes de fazer qualquer transferência internacional e saque em espécie.

Outra mudança significativa foi em relação à multa pecuniária prevista no artigo 12, inciso II da Lei de Lavagem de Dinheiro, esta multa era calculada no valor de até R$ 200.000,00 (duzentos mil reais), porém, com a nova redação, passou a ser no valor de R$ 20.000.000,00 (vinte milhões de reais).

Ao analisar essas consideráveis mudanças da Lei de Lavagem de Dinheiro, podemos ver que o combate a esse crime passou a ser umas das principais preocupações do nosso país nos dias atuais, devido sua potencialidade de gerar riscos que ultrapassam fronteiras, influenciando não apenas o desenvolvimento da economia, como também, o desenvolvimento da sociedade de um país inteiro, sendo necessária uma lei que além de criminalizar, também previna o crime de lavagem de dinheiro.

Em relação à corrupção, esta se trata de uma expressão polissêmica, pois o seu significado vai depender do comportamento do corruptor, ou seja, do caso em concreto o qual iremos analisar, possuindo, portanto, diversos conceitos.

Dentre os vários conceitos existentes, podemos destacar alguns os quais estão presentes nos dicionários, “desmoralização”, “decomposição”,

“subornação”, “depravação”, “ação ou efeito de corromper”, “destroçar algo”.

Rogério Greco (2010, p.408) entende que a corrupção “pode ser comparada a uma doença, a um vício que impulsiona o sujeito a sempre querer mais e mais”, e que a ganância “seria um dos gens que fariam parte do elemento subjetivo do agente”.

Isso porque o corrupto é insaciável, possui a necessidade de ter sempre mais, sendo que o crescimento de seu patrimônio ilícito o impulsiona a cometer outros atos de corrupção, já que apenas um ato não o satisfaz (GRECO, 2010, p. 408).

Mas o que realmente nos cabe entender a respeito da corrupção, é que se trata de um crime que tem o condão de prejudicar inúmeros indivíduos ao mesmo tempo, causando prejuízos desastrosos, visto que é capaz de desviar milhões ou até bilhões de reais da sociedade.

Nesse sentido, sobre as consequências que a corrupção acarreta para a sociedade, Alex Pimentel (2007, p. 142) leciona que:

(...) além de desfalcar empresas e cofres públicos, são os grandes causadores de problemas gravíssimos como a falta de merenda escolar e ensino de qualidade nas escolas públicas e da falta de medicamentos e equipamentos de assistência médica em hospitais, ocasionadas pelo desvio de dinheiro público.

Portanto, podemos observar que a corrupção traz efeitos devastadores os quais atingem um país inteiro, e nesse viés, a respeito da definição de corrupção, Guilherme de Souza Nucci (2015, p.3) entende que:

Se pudéssemos associar a corrupção a algum fator desgastante para a humanidade, sem dúvida seria a uma praga. Mas uma praga incontrolável, que encampa o mundo inteiro e não deixa nada erguido em bom estado depois de sua passagem.

Diante da capacidade do crime de corrupção de não apenas de desviar um valor excessivo, ocasionando desfalques de grandes proporções aos cofres públicos de um país, como também de ocasionar problemas na área da saúde e educação de um país, deparou-se com a necessidade de se combater esse crime, criando-se, assim, a Lei nº 12.846/2013, conhecida como Lei Anticorrupção.

Há uma divergência a respeito da aplicação dessa referida lei, alguns entendem que essa lei compõe o Direito Administrativo Sancionador, uma ciência jurídica autônoma, em que aplica-se sanções mais céleres e eficazes do direito administrativo em detrimento a outros ramos do direito como o Direito Penal, que é lento e garantista; por outro lado, há quem defenda a aplicação dessa lei ser subsidiária ao Direito penal, tendo em vista que este deve-se impor como ultima ratio, assim, afasta-se a criminalização das condutas e impõe-se apenas sanções administrativas (NUCCI, 2015, p. 86-87).

Podemos ver uma grande flexibilização no que tange a aplicação das penas, devido à expansão do chamado Direito Administrativo Sancionador para outros ramos do direito, tentando resolver os ilícitos penais utilizando-se de penas administrativas, tomando o lugar do Direito Penal garantista.

A Lei Anticorrupção (12.846/2013), em seu artigo 1º30, prevê a respeito da responsabilização objetiva31 da pessoa jurídica no âmbito cível e administrativo pela prática de condutas contra a administração pública, nacional e estrangeira.

Observa-se que não foi incluído o âmbito penal nessa responsabilização objetiva, o que nos parece incoerente já que a responsabilidade penal da pessoa jurídica está prevista na Constituição Federal (art.225, §3º), no que diz respeito à responsabilização penal por crimes ambientais, portanto, seria razoável a pessoa jurídica poder ser responsabilizada penalmente também por crimes econômicos, como por exemplo, o crime de corrupção.

O artigo 3º32 da Lei Anticorrupção prevê que mesmo que a pessoa jurídica seja responsabilizada, não irá excluir a responsabilização de seus dirigentes e administradores, e estes responderão na medida de sua culpabilidade, respeitando o princípio da igualdade e da individualização da pena, conforme previsto no §2º desse mesmo artigo.

Verifica-se que esse artigo afasta a aplicação a Teoria da Dupla Imputação, uma vez que não se exige o concurso necessário, ou seja, não há a necessidade que haja a imputação à pessoa física para que a pessoa jurídica seja responsabilizada.

Os atos que são considerados lesivos à administração pública, nacional ou estrangeira, estão previstos no artigo 5º33 da referida lei, os quais acarretarão na responsabilização da pessoa jurídica.

30O artigo 1º da Lei Anticorrupção (12.846/2013) prevê que: “Esta Lei dispõe sobre a responsabilização objetiva administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira. Parágrafo único. Aplica-se o disposto nesta Lei às sociedades empresárias e às sociedades simples, personificadas ou não, independentemente da forma de organização ou modelo societário adotado, bem como a quaisquer fundações, associações de entidades ou pessoas, ou sociedades estrangeiras, que tenham sede, filial ou representação no território brasileiro, constituídas de fato ou de direito, ainda que temporariamente.

31Responsabilidade objetiva é o oposto da responsabilidade subjetiva, em que esta necessita da presença do dolo ou culpa para punir o agente ofensor; já a responsabilidade objetiva não há necessidade da presença do elemento subjetivo.

32O artigo 3º da Lei Anticorrupção (12.846/2013) prevê que: “A responsabilização da pessoa jurídica não exclui a responsabilidade individual de seus dirigentes ou administradores ou de qualquer pessoa natural, autora, coautora ou partícipe do ato ilícito. §1º A pessoa jurídica será responsabilizada independentemente da responsabilização individual das pessoas naturais referidas no caput. §2º Os dirigentes ou administradores somente serão responsabilizados por atos ilícitos na medida da sua culpabilidade”.

33O artigo 5º da Lei Anticorrupção (12.846/2013) prevê que: “Constituem atos lesivos à administração pública, nacional ou estrangeira, para os fins desta Lei, todos aqueles praticados pelas pessoas jurídicas mencionadas no parágrafo único do art. 1º, que atentem contra o patrimônio público nacional ou estrangeiro, contra princípios da administração pública ou contra os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, assim definidos: I- prometer, oferecer ou dar, direta ou indiretamente,

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