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2 OS CURSOS DE EXTENSÃO DA UNICAMP EM PERSPECTIVA: CARACTERIZAÇÃO E EVOLUÇÃO

2.1 UM PANORAMA SOBRE A EXTENSÃO NA UNICAMP

Neste tópico, objetiva-se contextualizar e traçar um panorama acerca do “estado da arte” da extensão universitária na Unicamp. Em outras palavras, tenciona-se se aproximar de uma compreensão mais totalizante e contextual do “fenômeno” extensionista na universidade23, principalmente no que se refere a sua institucionalização. Para isso, também, foi preciso recuperar, em alguma medida, a própria trajetória histórica desta função, procurando identificá-la diante do surgimento e desenvolvimento do “projeto de universidade” da Universidade Estadual de Campinas. Objetivou-se também, ao longo desta etapa, identificar e analisar a inserção histórica dos cursos de extensão – objeto desta pesquisa – a fim de compreender a trajetória desta modalidade extensionista e dimensioná-la diante das outras práticas.

Para isso, metodologicamente, utilizamos de uma diversidade de fontes de dados, tais quais: bibliografias acadêmicas, relatórios, normas e documentos relativos à Unicamp, páginas eletrônicas oficiais da universidade (de seus órgãos, institutos e faculdades), reportagens diversas, bem como materiais de divulgação produzidas por ela. Guiamo-nos, ao utilizar estas fontes, em identificar e analisar informações que se relacionassem a extensão universitária na Unicamp. Em alguns momentos, convém clarificar, abriremos espaço à descrição de outros aspectos relativos à universidade, tais como sua organização e funcionamento, indicadores de pesquisa e ensino, dentre outros. Optamos por assim fazê-lo para que se compreenda, minimamente, diversos outros aspectos da instituição que abriga nosso objeto de pesquisa.

Fundada oficialmente em outubro de 1966, a Universidade Estadual de Campinas é uma autarquia de regime especial – configurando-a como uma instituição pública com autonomia administrativa, política, didática e científica em relação ao Estado – vinculada ao governo do Estado de São Paulo. Seu campus principal localiza-se na cidade de Campinas-SP, mas também possui unidades em Limeira-SP (Faculdade de Ciências Aplicadas, Colégio Técnico de Limeira e a Faculdade de Tecnologia) e em Piracicaba-SP (Faculdade de

23 Cabe ponderar, neste aspecto, que nossa abordagem será parcial e incompleta diante da real totalidade extensionista na Unicamp. Isso porque, em nossa opinião, esta realidade é muito ampla e complexa para apenas um tópico dentre outros em uma dissertação de mestrado.

Odontologia). A universidade conta, atualmente, com 66 cursos de graduação que abarcam cerca de 19.001 alunos. Além destes, possuí também 15.651 estudantes de mestrado e doutorado que pertencem a 163 cursos de pós-graduação. Em relação aos docentes, a instituição conta com cerca de 2.383 deles e com um quadro de funcionários não docentes na ordem de, aproximadamente, 8.000 pessoas.

Sobre sua organização – didática, de pesquisa, administrativa e política –, pode-se dizer que “como um todo orgânico, é constituída [a Unicamp] por Institutos e por Faculdades definidos pelo conjunto de seus Departamentos, pelo Hospital de Clínicas e pelos Órgãos Complementares” (UNICAMP-ESTATUTO, 2015, p.1). Estes órgãos complementares podem ser destinados a assuntos político-administrativos, como a reitoria e pró-reitorias (órgãos superiores de administração), diretorias e coordenadorias de administração e recursos humanos, financeiros e etc.; ou também podem se constituir enquanto órgãos dedicados ao apoio à pesquisa, ensino e extensão, como a biblioteca central, laboratórios, centros e núcleos de pesquisa e extensão, dentre outros (UNICAMP-ESTATUTO, 2015)24.

Há, também, uma série de conselhos e comissões, em diversos níveis, responsáveis pela elaboração das normas e aprovação das políticas institucionais da Unicamp. Dentro dos Institutos e Faculdades, por exemplo, tem-se diversas comissões ou conselhos de ensino (graduação), pesquisa (pós-graduação) e extensão, majoritariamente composta por docentes, mas com representantes discentes e funcionários; já o órgão deliberativo máximo é chamado de Congregação - “órgão superior do Instituto ou Faculdade, se constitui de membros do Corpo Docente, do Corpo Discente e do Corpo de Servidores Técnicos e Administrativos” (UNICAMP-ESTATUTO, 2015).

Abstraindo-se das unidades em específico, a maior instância de decisão e normatização da Unicamp é o Conselho Universitário25 (CONSU), órgão deliberativo supremo da universidade, cuja função é “elaborar a política acadêmica, científica, cultural e

24É possível consultar a maioria destes órgãos pelo link: http://www.unicamp.br/unicamp/administracao 25Para mais informações, como atas, pautas e composição atual, consultar: http://www.sg.unicamp.br/consu/; O CONSU, além disso, tem por função aprovar ou não assuntos pertinentes à mudanças nos diversos estatutos e regimentos da instituição; de deliberar sobre a criação e extinção de cursos de graduação e pós-graduação, bem como da criação de institutos e faculdades; de constituir os membros das comissões anexas ao CONSU, como as Câmaras de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) e a Câmara de Administração; de aprovar convênios e contratos com entidades públicas e privadas; de autorizar as diversas mudanças realizadas pelos institutos e faculdades da Unicamp; de aprovar a escolha da equipe de pró-reitores; dentre outros. É composto pelo reitor da Unicamp, pró-reitores, diretores dos institutos e faculdades, representantes do corpo docente, discente e

representantes dos servidores, bem como por alguns membros externos à Unicamp – representantes da prefeitura de Campinas, do governo do Estado, de associações patronais e de associação de trabalhadores.

de prestação de serviços à comunidade” da Unicamp, além de aprovar ou não assuntos pertinentes a pesquisa científica, ao ensino, a extensão, a administração, ao seu corpo de funcionários e estudantes, ao orçamento, dentre outros (UNICAMP-ESTATUTO, 2015). Este conselho constitui-se pelo seu plenário (onde ocorrem as discussões e votações das diversas pautas), pela Câmara de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) e pela Câmara de Administração. Cabe destacar, no que se refere aos nossos objetivos, que a CEPE tem como incumbência deliberar sobre as propostas de criação dos cursos de extensão, elaborar a normatização destes e coordená-los quando envolvam mais de um instituto ou faculdade. Além do mais, compete a esta câmara estabelecer normas para captação de recursos externos e dar parecer a convênios entre a Unicamp e entidades externas. Já a Câmara de Administração delibera acerca de assuntos pertinentes às políticas administrativas da Unicamp (criação de cargos e suas normas, estatutos administrativos, planos orçamentários, dentre outros).

Ainda que não tenhamos tocado na temática extensionista em específico, destacamos estes pontos relativos à organização político-administrativa e acadêmica da Unicamp pois são essenciais para se compreender como a extensão universitária é institucionalizada e praticada nesta universidade. Assim, o órgão responsável pela coordenação e fomento da extensão, em âmbito geral, é a Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PREAC)26. Dentro dela, há diversos órgãos de apoio à extensão – um deles é a própria Escola de Extensão, responsável pelo gerenciamento e estímulo aos cursos – responsáveis por assuntos e temas específicos relativos a esta função universitária. Dentro desta pró-reitoria, também, há a elaboração de diversos projetos extensionistas, bem como editais institucionais de fomento à extensão27.

Além do mais, Institutos e Faculdades também a praticam, e podem elaborar suas próprias políticas e diretrizes – desde que obedecendo as regras gerais estipuladas por instâncias superiores como CONSU e CEPE – de acordo com suas comissões de extensão. Nos Institutos e Faculdades, é bom ressaltar, há também a figura do Coordenador de Extensão, responsável por, além de coordenar as atividades, fomentar e elaborar politicas extensionistas internamente, além de fazer a interlocução entre a unidade, a PREAC e outros

26Site institucional da PREAC: http://www.preac.unicamp.br/?page_id=1571

27Especificaremos esta questão mais adiante. Por hora, estamos destacando, de forma genérica, como a extensão é institucionalizada na Unicamp.

coordenadores de extensão de outras unidades (UNICAMP, Deliberação CEPE A-5/2002, 2002). No que se refere aos cursos, como veremos detalhadamente a posteriori, são propostos e executados por docentes destas unidades, depois de processos de aprovação em suas comissões internas e na CEPE, sendo divulgados e administrados posteriormente pela EXTECAMP e pelas secretarias de extensão das unidades.

Considerando o que descrevemos até agora, pode-se dizer que a extensão é uma função institucionalizada na Unicamp, pois conta com um aparato político, administrativo e decisório que perpassa diversas comissões internas aos Institutos e Faculdades, bem como pela figura do Coordenador de Extensão; é, também, pauta de deliberação e regulação nas instâncias superiores da universidade; e possui uma pró-reitoria destinada a ela, além de diversos órgãos extensionistas. Porém, até aqui, não é possível dimensioná-la ou compreender as concepções e práticas efetivamente realizadas, e nem especificar aspectos relacionados aos cursos de extensão.

Caminhando, então, nesse sentido, podemos analisar como a extensão aparece nos objetivos gerais da Unicamp. Em seu Estatuto, no Artigo 2°, a Unicamp é uma universidade que se propõe a

I. ministrar o ensino para a formação de pessoas destinadas ao exercício das profissões liberais, técnico-científicas, técnico-artísticas, de magistério e aos trabalhos desinteressados da cultura; II. promover e estimular a pesquisa científica e tecnológica e a produção de pensamento original no campo da Ciência, da Tecnologia, da Arte, das Letras e da Filosofia; III. estudar os problemas sócio- econômicos da comunidade com o propósito de apresentar soluções corretas, sob a inspiração dos princípios da democracia; IV. pôr ao alcance da comunidade, sob a forma de cursos e serviços, a técnica, a cultura, e o resultado das pesquisas que realizar; V. valer-se dos recursos da coletividade, tanto humanos como materiais, para integração dos diferentes grupos técnicos e sociais na Universidade; VI. cumprir a parte que lhe cabe no processo educativo de desenvolver na comunidade universitária uma consciência ética, valorizando os ideais de pátria, de ciência e de humanidade (UNICAMP-ESTATUTO, 2015, p.1)

Como é possível notar, os objetivos gerais da universidade dão ênfase ao ensino e à pesquisa. A extensão ocorreria em dois sentidos. Primeiro, pela apresentação de soluções “corretas” a problemas socioeconômicos. Depois, ela se daria através da realização de cursos e serviços. Em ambos os casos, prevalece uma perspectiva de estender o conhecimento produzido internamente à sociedade. Pode dizer que, considerando este documento em específico, a extensão reveste-se de um carácter de transmissão de conhecimento

unidirecional, que caminha no sentido universidade-sociedade. Além do mais, prevalece também a ideia geral de prestação de serviços e assistencialismo.

Como já comentamos, os institutos e faculdades são responsáveis pelo ensino, pesquisa e extensão em suas respectivas áreas do conhecimento e de formação profissional. Em específico, seguindo o estatuto, os primeiros devem produzir pesquisa científica e produção de pensamento original; ministrar o ensino do ciclo básico para toda a universidade e os cursos de graduação que lhes são destinados; ministrar a pós-graduação; ministrar cursos de especialização, aperfeiçoamento e extensão; colaborar tecnicamente e cientificamente com outras unidades e Universidades, bem como firmar convênios de assistência a entidades públicas e privadas.

As faculdades, por sua vez, também tem como principal responsabilidade desenvolver pesquisa científica e ministrar os cursos de graduação e pós-graduação que lhes competem. Além do mais, se assemelham também na questão da extensão, pois podem ministrar cursos de especialização, aperfeiçoamento e extensão e colaborar tecnicamente e cientificamente à assistência a entidades públicas e privadas. Instituto e Faculdade se diferenciam pois a este último compete o auxílio aos colégios técnicos, e ao primeiro, a formação científica básica e geral. Isto decorre do projeto didático e científico original da Unicamp, que projetou um núcleo científico – os institutos – que subsidiasse as demais unidades de ensino e pesquisa, sobretudo as faculdades, responsáveis pela pesquisa científica relacionada a temas mais técnicos e profissionais (MENEGHEL,1994; CASTILHO, 2008)28.

Sobre a extensão, tanto institutos quanto faculdades estão autorizados a ministrar cursos de extensão, aperfeiçoamento e especialização, além de prestar assistência a entidades públicas e privadas externas. Ao que parece, prevalece também a mesma concepção elencada anteriormente ao nos referirmos aos objetivos da Unicamp, no sentido da unilateralidade da transmissão e do ideal de disseminação do conhecimento científico. Destaca-se, no entanto, a atenção dada, nas letras do Estatuto, ao contato com entidades organizadas e não com a “comunidade” ou “sociedade” de maneira geral, indicando uma concepção próxima a de prestação de serviços. Nota-se, também, forte predomínio da função pesquisa, primeira

28 Não a toa, a título de exemplo, ao examinar os institutos e faculdades existentes na Unicamp, percebe-se que as engenharias se organizam em Faculdades, sendo, no projeto constitutivo da universidade, “abastecidas” pelos institutos de química, matemática, estatística, computação, geociências, física e biologia.

responsabilidade citada no documento ao apresentar os objetivos e finalidades destas unidades.

Convém notar que, em seu Artigo 17°, o Estatuto coloca os cursos de extensão, aperfeiçoamento e especialização no rol das práticas de ensino dos institutos e faculdade da Unicamp. Isso corrobora a ideia de que este tipo de extensão, aos olhos da universidade, seria uma projeção da função ensino em detrimento a uma modalidade extensionista integrada à função extensão. Nos artigos 33° e 34°, define-se este tipo de atividade (UNICAMP- ESTATUTO, 2015, p.5):

Artigo 33. A Universidade poderá oferecer cursos de Especialização e Aperfeiçoamento, que terão como objetivo, os primeiros, preparar especialistas em setores restritos das atividades acadêmicas e profissionais e, os últimos, atualizar e melhorar conhecimentos e técnicas de trabalho.

Artigo 34. Os cursos de extensão visarão a difundir conhecimentos e técnicas de trabalho para elevar a eficiência e os padrões culturais da comunidade.

Como é possível notar, estes cursos restringem-se a especialidades acadêmicas e profissionais, com ênfase na atualização de técnicas de trabalho. Além deste caráter mais utilitário, os cursos têm a atribuição de difundir conhecimentos para elevação de “padrões culturais” da comunidade. Neste ponto, prevalece também a concepção de que a extensão seria um repasse unidirecional de conhecimento e, das críticas freirianas abordadas no primeiro capítulo, pode-se dizer que esta concepção possuí certo grau de messianismo, visto que confia na capacidade da ciência e da técnica em elevar os padrões de eficiência da comunidade externa.

O Estatuto prossegue, até seu Artigo 38°, tratando especificamente da extensão. Transcrevemos alguns trechos literalmente (UNICAMP-ESTATUTO, 2015, p.5):

Artigo 35. Além das funções propriamente universitárias de ensino e pesquisa, que enriquecem, de forma genérica, o acervo cultural da comunidade em que se desenvolvem, promover-se-á, o quanto possível, a extensão daquelas funções, com o objetivo de contribuir, especificamente, para o progresso material e espiritual. Artigo 36. A extensão poderá alcançar o âmbito de toda a coletividade ou dirigir-se a pessoas e instituições públicas ou privadas, abrangendo cursos e serviços, que serão realizados à vista e no cumprimento de planos específicos.

§ 1º. Os cursos de extensão serão instituídos com o propósito de divulgar e atualizar conhecimentos e técnicas de trabalho, podendo desenvolver-se em nível universitário ou não, de acordo com o seu conteúdo e o sentido que assumam em cada caso.

§ 2º. Os cursos de mestrado profissional, de especialização e de aperfeiçoamento, poderão ser ministrados como cursos de extensão para todos os efeitos, sendo que os dois primeiros deverão, para efetivar-se, ser aprovados pela Câmara de Ensino, Pesquisa e Extensão, instruída por parecer da Comissão Central de Pós-Graduação.

§ 3º. Os serviços de extensão, incluindo assessoria, serão prestados sob formas diversas, com o atendimento de consultas, realização de estudos e elaboração ou orientação de projetos em matérias científica, técnica e educacional, ou participação em iniciativas dessa natureza, ou de natureza artística e cultural.

Artigo 37. Os cursos e serviços de extensão serão planejados e executados por iniciativa dos Institutos e das Faculdades ou solicitação de interessados, mediante aprovação da Câmara de Ensino, Pesquisa e Extensão.

Neste fragmento, a extensão aparece como projeção do ensino e da pesquisa, alinhando-se a uma concepção de extensão mais próxima a difusão e transmissão de conhecimento científico – sem dialogicidade – messiânica e assistencial, como já constatamos. Destaca-se, contudo, a incorporação da palavra “coletividade”, abrindo o leque, mesmo que de forma genérica, do “alvo” extensionista. É possível observar, também, a concepção de extensão enquanto prestação de serviços, em conjunto com o já destacado ideal de projeção do ensino via cursos. Apesar disso, menciona-se também a extensão enquanto atividade cultural e de apoio educacional mediante a elaboração de estudos e assessorias diversas.

Em suma, no que se refere ao Estatuto, não são incorporados conceitos de extensão que ressaltem questões tais quais a dialogicidade, a indissociabilidade de ensino- pesquisa-extensão, o compromisso social da universidade, dentre outros. Nesse aspecto, foge a própria definição elaborado pelo Forproex, por exemplo. Dá-se privilégio à função pesquisa, tida como, a nosso ver, a principal função destacada pelo documento. Inclusive, apesar de a extensão ser reconhecida enquanto função, está inserida dentro de um tópico mais abrangente destinado a questão do ensino – em outras palavras, os artigos aqui expostos encontram-se em um tópico dedicada a regular a função ensino, sendo que à extensão não se destina um tópico em específico.

Assim, percebe-se que, quando a extensão é citada no documento, há forte presença da concepção de prestação de serviços, aliada a uma concepção de transmissão e difusão de conhecimento científico a coletividade, principalmente, neste último aspecto, pela projeção do ensino em forma de cursos de extensão, especialização e aperfeiçoamento – cujo carácter técnico e utilitário predominam nestes. Cabe ressaltar, entretanto, que uma menção direta a integração entre ensino, pesquisa e extensão acontece somente no Artigo 88°: “na Universidade, a carreira docente obedecerá ao princípio de integração de atividades de ensino, pesquisa e extensão de serviços à comunidade” (UNICAMP-ESTATUTO, 2015). Mesmo

assim, nossa análise não foge ao que comentou-se no parágrafo anterior: a extensão é encarada enquanto prestação de serviços.

Historicamente, ao examinarmos a primeira edição do Estatuto da Unicamp, homologado pelo Decreto-Lei N° 52.255, de 30 de Julho de 196929, percebe-se que, no que se refere à extensão, a concepção presente no texto original é muito parecida com a atual (inclusive os artigos destacados anteriormente apresentam mesmo conteúdo literal). Duas diferenças significativas, frisa-se, são a criação da Pró-Reitoria de Extensão e a incorporação da figura do Coordenador de Extensão.

Já vimos, no capítulo anterior, que já na década de 1960, algumas perspectivas acerca deste tema já haviam aflorado no Brasil: prestação de serviços, educação continuada, universidades populares, atividades assistenciais, concepções extensionistas alinhadas à perspectiva estudantil organizada manifestada, em grande medida, pela Declaração da Bahia de 1961 e até mesmo por Córdoba 1918. Neste ponto, cabe ponderar que, na época de criação da Unicamp, a ditadura militar estava instalada e dificilmente uma concepção progressista de extensão estaria em voga. Nesta época, também, debates mais aprofundados acerca da indissociabilidade, dialogicidade e institucionalização da extensão não haviam amadurecido e encontrado seu tempo histórico propício. Porém, mesmo depois do fim do período repressivo no Brasil, o documento máximo que rege a organização da universidade parece não ter se modificado no que se refere à extensão, não incorporando, como dissemos, aspectos relativos a concepção do Forproex (e muito menos à antiga concepção do movimento estudantil).

Voltando ao Estatuto, a concepção extensionista presente neste documento parece estar alinhada à própria “concepção de universidade” pela qual a Unicamp se originou e desenvolveu. Sob uma perspectiva histórica, o “projeto Unicamp” constituiu-se e desenvolveu-se a partir de dois eixos centrais (MENEGHEL, 1994; SANCHEZ, 1996; SEBINELLI, 2004; CASTILHO, 2008): a constituição de uma universidade moderna de pesquisa e ciência, dedicada a produção de conhecimento “desenraizado”; e, ao mesmo tempo, uma universidade conectada ao seu contexto regional no que se refere a formação de mão de obra técnica capacitada e à prestação de serviços às empresas localizadas em uma região economicamente desenvolvida no cenário estadual e nacional. Aliou-se, assim, um ideal de universidade aos moldes do Modelo Humboldtiano – pautado pela realização de

pesquisa científica desinteressada e departamentalizada, com o ensino a reboque, integrada pela reflexão filosófica, e realizada em universidades públicas e estatais (CASTILHO, 2008); com modelo universitário norte-americano, caracterizado por aliar ensino e pesquisa técnica e profissional mais pragmática com núcleo científico forte (SANCHEZ, 1996).

Cabe lembrar que, além destes fatores, o surgimento e desenvolvimento da Unicamp foi possibilitado por sua inserção em uma localidade – hoje, a região metropolitana de Campinas – economicamente desenvolvida em âmbito nacional, caracterizando-se, já na década de 1960, enquanto um polo industrial importante ao Estado de São Paulo e, posteriormente, ao Brasil (SANCHEZ, 1996). A extensão nascente, por consequência, esteve mais conectada com os atores do tecido produtivo local, reconhecendo, nestes, os principais representantes da “sociedade” na qual a universidade deveria atuar e se relacionar (SANCHEZ, 1996; SEBINELLI, 2004). Na própria criação dos primeiros cursos de graduação de engenharia, por exemplo, membros da Comissão Organizadora da Unicamp se reuniram, em 1966, com representantes de indústrias da região30, bem como da FIESP e CIESP, a fim de demonstrar a importância da instalação de uma universidade na região, além de levantar demandas e sugestões relativas a estruturação dos cursos de engenharia (MENEGHEL, 1994).

Assim, esses dois eixos constituintes – pesquisa científica e tecnológica aliada à