3 INCIVILIDADE NO AMBIENTE DE TRABALHO
3.1 Panorama sobre o Tema
Carter (1999), professor de Direito da Escola de Yale, explica que a civilidade é para estrangeiros e oponentes, ou seja, o conceito não significa que um sujeito é, necessariamente, amigo de outro. Nesse entendimento, é agradável ser civil um com o outro, mas ser civil é mais do que ser agradável, diz respeito a uma etiqueta da democracia, representa os sacrifícios individuais para que uma vida em comum seja possível. Para o autor, a civilidade consiste em um sacrifício necessário para que o convívio entre as pessoas dentro de uma sociedade democrática seja possível. Para ele, a censura moral não é a mesma coisa que a censura política.
À luz das reflexões do dicionário de violência, a civilidade é um método de integração à vida social, que é comprometida na medida em que a própria natureza da sociedade privilegia o individualismo. É necessário, portanto, investigar e minorar as degradações no espaço social para que a autoridade de organizações importantes, como os sindicatos, as igrejas, e as escolas, entre outras, não sejam desvalorizadas (MONTANDON, 2011).
Por sua vez, a incivilidade não pode ser entendida apenas como sintoma de um mal-estar social, pois é também a causa, visto que pequenos delitos (com estatuto jurídico ou não, como, por exemplo, não respeitar uma fila ou deteriorar caixas de correio) abrem espaço para uma corrupção racionalizada e institucionalizada. E é nesse ponto que a hipocrisia e as relações
superficiais ganham espaço nas organizações atuais, transformando o sentimento de bem-estar em insegurança, em muitos ambientes de convívio.
Uma preocupação postulada por Carter (1999) diz respeito ao pensamento costumeiro validado pelo aval de pessoas, as quais escolheram estar ao nosso redor e que, cotidianamente, têm por prática concordar conosco. Desse modo, um insulto, muitas vezes, não é apenas um insulto, mas, sim, reflexo desse pensamento arraigado construído socialmente ao longo do tempo. Nesse sentido, o estrangeiro, de acordo com as nossas convicções, passa a ser visto cada vez mais de forma distante.
Carter (1999), em suas regras em prol da civilidade, diz que a civilidade é composta de duas partes: de generosidade (mesmo quando há um custo para isso) e de confiança (mesmo quando há um risco). O autor ainda afirma que é preciso não mascarar as discórdias, mas, sim, resolver os problemas de maneira respeitosa (expressar-se de uma maneira que o outro perceba que eu o respeito e saber ouvir com a possibilidade de aceitar que o outro está certo e eu, errado). Para ele, a incivilidade representa uma ilusão e isso tem uma grave consequência, qual seja: “a ilusão de que nós viajamos sozinhos na caminhada da vida está arruinando todos nós” (CARTER, 1999, p. 8).
Em geral, as pessoas ainda evitam o diálogo com o Outro, o qual “aparenta não ter nada em comum comigo”. Essa escolha desenvolve um perigoso risco ao que Carter (1999) chama de diálogo democrático. Para o autor, sempre é preciso reconhecer que nossas próprias convicções não são completas, pois é impossível obter todas as informações. Nesse sentido, é fundamental estar aberto a essa possibilidade, ser paciente e dedicar tempo (tido como sacrifício nos dias de hoje) para a reflexão.
Essa reflexão nos remete à visão grega de viver, que significa ter sabedoria no uso do tempo; já a preguiça significa bem-estar. O ócio, portanto, é contemplação e a scholé é o “[...] tempo reservado ao estudo, ao conhecimento de si e dos outros” (MATOS, 2012, p. 54). Nesse entendimento, viver é muito mais do que sobreviver, é a busca do homem virtuoso. A preguiça, nesse contexto, é a condição para a liberdade. Mas não é qualquer preguiça. Não é aquela vinculada ao termo “ociosidade”, com conotação negativa do mundo moderno, de tempo vazio, pobre de experiência, de tédio e desespero. Preguiça não é “matar o tempo”, mas, antes, é fazer algo por prazer. Representa calma, reflexão e flui no horizonte da despreocupação. O preguiçoso
é o verdadeiro leitor. Esse é interessado e ávido por criar e construir e não apenas para aceitar e replicar (MATOS, 2012).
E por que o preguiçoso incomoda e não é visto como referencial? Porque ele é reflexivo, busca se conhecer e não confia nas coisas pré-moldadas advindas do exterior. Esse sujeito almeja a realização plena de si e não vive segundo o ideal da superação infinita de si. Ademais, o mesmo quer emanar significado, deseja sair das amarras do superficial para o profundo, não confunde o ter pelo ser, uma vez que não se deixa ser reduzido a um objeto descartável (DAVEL; VERGARA, 2001; MATOS, 2012).
Para Carter (1999, p.33), a incivilidade “[...] é geralmente usada por aqueles que estão no poder e querem se preservar no poder [...]”, sendo que, nas sociedades democráticas, muitos atos incivis são sutis e usados na forma de “brincadeiras” ou “esquecimentos” (como, por exemplo, não chamar pelo nome pessoas com que encontra várias vezes ao longo de anos na empresa, como um servente) no intuito de enquadrar o indíviduo, por exemplo, na sua classe social ou em outro aspecto com o objetivo de desmerecê-lo a fim de atingir seu status.
Mas, por que a cegueira dos súditos em tantos casos, “[...] e o que ela oferece?” (ENRIQUEZ, 2001, p. 57). Dentre as várias razões que fundamentam o “desconhecimento”, o autor explica que os homens e os grupos funcionam à base da idealização, da ilusão e da crença. Contudo, as instituições (criadas e dirigidas pelos homens) têm como alvo o próprio homem, pois, “o controle do ser humano, como ser social é a preocupação constante dos homens de poder”. E isso representa arquitetar a seguinte questão: “[...] como impedi-los de perceber o que lhes acontece, como submetê-los, tornando-os satisfeitos em sua submissão, ou pelo menos prontos a aceitá-la”? (ENRIQUEZ, 2001, p. 68).
Em uma discussão mais abrangente e detalhada, o professor Benet Davetian (2009), do departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade de Prince Edward Island, no Canadá, explica que uma teoria multicultural sobre civilidade precisa considerar como os conceitos de autoridade, respeito, tempo, contexto e espaço são relacionados por uma cultura. Para Davetian (2009), o processo de civilização não é uma evolução homogênea, pois representa um processo de formação de hábitos em um contexto geográfico, econômico, político e filosófico próprio.
Em seu livro, Davetian (2009) discute, inicialmente, a genealogia da cortesia e da civilidade ocidental. De maneira comparativa, o autor estuda três nações, França, América e
Inglaterra, desde a época medieval até a contemporaneidade. Seu intuito é apresentar e discutir os fundamentos históricos do tema, sua dependência com a moral, a educação e os valores políticos e, ainda, evidenciar que a natureza da civilidade é profundamente conectada às emoções humanas.
O trabalho de Davetian (2009) é de grande valia, pois desenvolve uma topologia da civilidade em um âmbito macro, todavia, de maneira comparativa, levando-nos a uma compreensão histórica ampla e ainda nos desafia a pensar os pormenores da civilidade e da incivilidade no contexto organizacional atual. O autor adotou como referência uma vasta revisão da literatura com observações e estudos nos seguintes locais: América: New York (Manhattan, Queens, Brooklyn, Long Island), Vermont, New Jersey, Connecticut, Maine, Utah, North Carolina, Texas, Virginia, Nebraska, and California; Inglaterra: Central, West, and East London, Wimbledon, Croydon, Brighton, Eastbourne, Southampton, Worthing, Canterbury, Littlehampton, Birmingham, Manchester, Glastonbury, and Liverpool; e França: Paris e subúrbios, Calais, Dieppe, Versailles, Lyon, Marseilles, Boulogne, Lille, Grenoble, Bordeaux, Rouen, Aix-en-Provence. Discutiu ainda, de maneira detalhada, os seguintes itens à luz de conteúdos oriundos da América, Inglaterra e França: (1) família e filhos; (2) a noção de self e de autoestima; (3) educação; (4) conversação; (5) amizade; (6) namoro; (7) ética no trabalho; (8) burocracia estatal e cidadania; (9) rituais de polidez.
Esclarecendo o uso dos conceitos, Davetian (2009) afirma que “civility” é uma palavra derivada do latim (civilitas) que significa “the city”, como “politeness”, que é oriunda do grego, e também significa “the city”. Ou seja,
no sentido clássico, civilidade e polidez não são apenas atos de cordialidade/amabilidade, mas representam indicações de como a vida deve ser vivida da melhor maneira possível nas cidades em que os cidadãos são dependentes entre si e também do Estado para o estabelecimento das relações funcionais com interações sociais complexas (DAVETIAN, 2009, p. 9).
Nesse sentido, é possível estudar civilidade em uma perspectiva privada e também pública, em um nível micro e macro.
Davetian (2009) utiliza as obras de Norbet Elias em seu livro, mas o critica por não ter investigado adequadamente as necessidades primárias do indivíduo e como a expressão dessas necessidades ligam-se aos padrões de socialização da cultura na qual o indivíduo se encontrava imerso. Apesar de considerar o trabalho de Elias como sendo de grande valia, ele explica que a análise do autor é sistêmica, com foco na sociedade desenvolvida no Ocidente, contudo, utiliza,
exclusivamente, para a maioria de suas conclusões, textos medievais e renascentistas da Itália e da França, ou seja, sua coleta de dados restringiu-se a sociedades específicas e, consequentemente, comparações e extrapolações ficam limitadas.
Em suas reflexões que perpassam uma linha histórica, Davetian (2009, p. 24) esclarece que, no início da Europa Cristã medieval, a cortesia não era entendida como uma filosofia de bondade generalizada, mas, sim, como um “[...] processo de deferência e adulação destinado a legitimar os direitos dos novos chefes da Europa”. Os códigos de comportamento de “contenção” e “autodisciplina”, portanto, migraram da ordem monástica para a cultura da corte.
A missão dos clérigos no chamado “processo civilizador” era harmonizar a teologia cristã com a aristocracia, diferenciando a raiva considerada como pecado capital e a raiva divinamente justificada e útil para a vida social. Deus, na cultura medieval, foi estabelecido no centro do universo; já no Renascimento, a espécie humana e o mundo natural foram colocados no centro da filosofia social (DAVETIAN, 2009).
O projeto dos pensadores do Iluminismo, período subsequente, influenciou as práticas sobre moralidade e cortesia dos Séculos XVIII, XIX e XX. “O palco estava montado para uma mudança quântica de cortesia como uma virtude cristã para a civilidade como prática social aberta às vicissitudes do tempo e do espaço (lugar)” (DAVETIAN, 2009, p. 90, grifo nosso). Desse modo, a história da Inglaterra, América e França irá configurar diferenças significativas nas relações sociais. Para estabelecer sua discussão comparativa, o autor constrói uma “topologia” da civilidade que inclui:
a maneira que os indivíduos são socializados, o grau em que uma determinada cultura favorece a independência ou a interdependência, o modo como uma cultura relaciona tempo/contexto/espaço, a maneira específica em que a polidez é expressa e, o mais importante, os mecanismos de enfrentamento usados em casos de constrangimento e vergonha (DAVETIAN, 2009, p. 343).
Como categorias indicativas, o autor estabelece: individualism (independência) e communalism (interdependência); Power distance (em que medida uma pessoa se sente obrigada a mostrar deferência para aqueles que estão em uma posição de autoridade ou em posições consideradas dignas de respeito); uncertainty avoidance (em que medida uma pessoa prefere evitar a incerteza e o risco); reflexive vs. communal morality (avaliação moral pessoal versus aderência a uma avaliação moral do grupo); cultural narcissism; personal narcissism; positive or negative politeness rituals (o grau em que os rituais de civilidade estabelecem identificação
mútua ou/e não imposição); high-context (HC) or low-context (LG) cultural communications (a maneira com a qual as pessoas se relacionam com o tempo, contexto e espaço).
A última categoria, por exemplo, a respeito de tempo, exibe duas possibilidades: tempo monocrônico e tempo policrônico. Quanto à primeira possibilidade, os eventos estão previstos para ocorrer um de cada vez, de modo linear, revelando uma preocupação quantitativa em como o tempo é “gasto”, “poupado”, “desperdiçado”. A outra tipologia retrata a ocorrência simultânea de eventos e expressa a necessidade de um grande envolvimento entre as pessoas.
O Quadro 2 ilustra algumas diferenças entre high-context e low-context, mostrando que os comportamentos estarão ligados à maneira como as pessoas se relacionam com o tempo, o contexto e o espaço. E essas ligações são arraigadas nas construções culturais.
Quadro 2 - Categoria Indicativa de High-Context (HC) e Low-Context (LC)
HC LC
Mensagens implícitas (metáforas, necessidade de “ler entre linhas”)
Mensagens abertas e explícitas
Foco interno de controle (auto-culpa) Foco externo de controle (culpando terceiros por ruídos)
Muita codificação não verbal Linguagem corporal contida
Reações reservadas (internas) Reações superficiais (exteriores) Laços sociais fortes (relações de longo prazo. As
relações são mais importantes do que as tarefas)
Laços sociais fragmentados (relações de curto prazo. As tarefas são mais importantes do que as
relações).
Comprometimento Elevado Baixo Comprometimento
Relação com o tempo mais flexível (o processo é mais importante do que o produto)
Relação com o tempo altamente estruturada (o produto é mais importante do que o processo) Fonte: Elaborado pela autora com base em Davetian (2009)
Sobre espaço, Davetian (2009) cita o seguinte exemplo: se uma pessoa está acostumada a manter uma determinada distância de outra pessoa, e se uma pessoa começa a se posicionar muito próximo, essa pessoa sente que seu espaço foi invadido e vai julgar, então, que esse outro foi longe demais e “não tem vergonha”. Isso significa que “os mal-entendidos e conflitos ocorrem em decorrência das não correspondências entre as concepções de contexto, de tempo, e de
espaço, podendo criar uma dissonância considerável na civilidade, na compreensão e na simpatia” (DAVETIAN, 2009, p 384, grifo nosso). Dessa forma, os conflitos são fruto não apenas do que é dito e feito, pois a maneira como algo é dito ou algo é realizado tem um papel preponderante.
O pesquisador ainda afirma que o modo como uma pessoa vive tem se tornado mais importante do que o modo como a pessoa sente. Isso porque “distinção” não se pode comprar por meio de um título de nobreza, mas é possível analisar por intermédio do que a pessoa pode “ter”, como roupas, carros, restaurantes frequentados etc. Assim, o estudo das emoções é muito útil para a compreensão de diferentes concepções acerca de determinado assunto. A concepção francesa de liberdade, por exemplo, é definida, levando em conta a necessidade de evitar um retorno ao despotismo monárquico; já a noção inglesa é conectada à necessidade de liberdade para o pensamento político e religioso pluralista e, para os americanos (Estados Unidos, antigo Novo Mundo), a ideia de liberdade associa-se a um desejo por independência em relação aos outros impérios (DAVETIAN, 2009).
Portanto, as regras que regem a expressão emocional variam de uma cultura para outra, dependendo da interação entre os valores e o que é considerado desejável no nível pessoal e coletivo, porém podem existir, por exemplo, significativas variações dentro de uma mesma sociedade a partir de distintos grupos étnicos (DAVETIAN, 2009).
Na América, é possível notar menor formalidade nas relações, enquanto, na Inglaterra, os indivíduos são mais “fechados”. Na França, as pessoas sentem que não é uma lei universal gostar de todo mundo, o que nem seria natural, afinal, “um homem que é amigo de todos não é amigo de nenhum” (ditado popular), portanto, essa faceta definiria a autenticidade na relação (DAVETIAN, 2009).
No que diz respeito ao trabalho, os americanos sentem-se mais preocupados em relação à “segurança no emprego” do que os franceses e os ingleses. Para Davetian (2009), essa questão se relaciona ao papel do Estado na França e na Inglaterra, que são mais envolvidos no bem-estar social dos seus cidadãos. Sobre a relação no trabalho, é interessante evidenciar que o quadro francês se diferencia. A França é uma cultura de alto contexto, em que a ênfase na confiança é um requisito importante, enquanto Davetian (2009) sugere que a Inglaterra seja uma cultura de contexto moderado e a América, de baixo contexto. Os franceses costumam trabalhar 35 horas por semana e tirar de cinco a sete semanas de férias remuneradas. A estrutura corporativa na
França ainda é significativamente hierarquizada. Além disso, os tomadores de decisões franceses levam mais tempo para a tomada de decisão nas organizações do que americanos e ingleses.
Essa tipologia indica algumas reflexões, tais como: uma cultura de baixo contexto é mais propensa aos rituais de incivilidade que têm potencial para uma escalada de atos agressivos graves; todavia, culturas de alto contexto tendem a favorecer os rituais públicos de polidez negativa que visam a assegurar certo espaço de privacidade (e civilidade) entre estranhos e entre pessoas de diferentes níveis sociais, no intuito de limitar os contatos prematuros ou mesmo os conflitos (DAVETIAN, 2009). No primeiro caso, o risco é a naturalização dos atos agressivos; já no segundo caso, o problema pode se encontrar na indiferença em relação ao Outro. O autor aponta que não se pode concluir que as sociedades individualistas ofereçam mais liberdade individual do que as sociedades onde há maior interdependência entre as partes. Isso porque o indivíduo pode ser libertado de ter que manobrar apresentações complexas de si mesmo de acordo com hierarquias de etiqueta, mas, ao mesmo tempo, está sendo constrangido pela ansiedade que o acompanha ao ter que usar uma “máscara social transparente” (DAVETIAN, 2009).
Concordamos, portanto, com Davetian (2009), quando o autor explica que podemos aprender muito sobre civilidade estudando suas contrapartes, tais como, a agressão, a incivilidade e as grosserias (rudeness).
Para Dominique Picard (2007), professora de psicologia social na Universidade de Paris XIII, as boas maneiras para saber viver em sociedade são como a gramática para um determinado idioma. A autora discute a importância de se respeitar tudo o que concerne à vida privada dos outros, como, por exemplo, as opiniões, as relações familiares, a intimidade, dentre outras. Essa autora também discorre sobre a questão de dar atenção ao espaço territorial do outro, que assume uma dimensão material e outra simbólica (estima a determinado objeto).
A questão central do relacionamento interpessoal fundamenta-se no fato de que a identidade de um sujeito não tem origem em sua genética, mas é uma construção social a partir do contato com os outros. Isso porque a necessidade básica de qualquer sujeito é a necessidade de existência. Nesse sentido, o “bom dia”, “obrigado”, “me desculpe” e “por favor” (em francês s’il vous plaît, ou seja, “se isso te agradar”, porque o outro é livre para escolher) guardam significativas representações (PICARD, 2007).
Picard (2007) comenta que, de certa maneira, o saber viver seria uma aproximação entre o teatro e a vida. No teatro, o público acredita no personagem na medida em que esquece a convenção e crê na autenticidade e espontaneidade do ator, ou seja, essa comparação alusiva à forma de aproximação entre o ser de fato (vida) e o parecer ser de maneira natural (teatro) agrega interesse, riqueza e sutiliza ao tema. Ainda, Picard (2007, p. 50) afirma que “[...] não há teatro sem cenário e sem situação, e não há ator social sem um contexto espaço-temporal”.
Desse modo, a autora explica que os comportamentos são ajustados aos contextos, mas entendemos que esse ajuste não pode ser fixo, pois, em todo momento, há o risco da formatação do pensamento único, como, por exemplo, nas escolas de gestão (o modelo de trabalho dos gerentes e subordinados é estruturado). Assim, não se pode esquecer o papel fundamental do contexto espaço-temporal mencionado.
Na ótica de Picard (2007), a civilidade pública é, sem dúvida, mais rigorosa do que a privada, uma vez que demanda mais cuidado por parte do sujeito, tendo em vista que há o espaço público fechado (edifício público ou transporte público) e o espaço público aberto (rua, jardim, praça) que demandarão regras específicas de conduta. Nesse sentido, ser anônimo, muitas vezes, é sinônimo de conforto, pois a exposição é menor.
Pode-se dizer que a civilidade no âmbito do trabalho demanda maior cuidado e atenção do sujeito, pois ele se relaciona com pessoas distintas e, potencialmente, conhece cada uma em níveis diferentes, mas também pode existir um perigo de acomodação do agente no trato interpessoal se, por exemplo, esse conhece um colega de trabalho há mais tempo.
Dessa forma, apenas um conjunto de regras de comportamento (politesse) não será suficiente, mas é preciso saber empregá-las e refletir sobre elas (savoir-vivre) (PICARD, 1998). Um exemplo são os rituais, uma criação humana grupal e cultural que funciona como uma forma de proteção contra a ansiedade gerada a partir da falta de referências, destarte, o risco da ambiguidade de comunicação tende a diminuir entre os sujeitos. Todavia, a eficácia de um ritual, muitas vezes, não é instrumental, mas é virtual e simbólica para seus praticantes.
Dentre os rituais, destacam-se os de confirmação e manutenção da ordem (exemplos: troca de presentes em datas comemorativas, reunir amigos e/ou familiares para refeições), e os de transição e regulação (passagem de uma situação para outra. Exemplos: casamento, início de um novo trabalho, entrar na adolescência etc.), que visam, respectivamente, a expressar os valores
compartilhados no sentido de reforçá-los para perpetuação e intervir quando uma mudança interna ameaçar o equilíbrio do sistema (PICARD, 2007).
Vale compreender que a polidez não se restringe apenas a comportamentos mecânicos, mas também engloba ações complexas inerentes à vida social. Para a etologia, os rituais se relacionam aos códigos de comunicação empregados em situações de agressão ou de sedução. Para a sociologia durkheimiana, os rituais servem como guias de comportamento inspirados pelas instituições sagradas; já para a psicanálise freudiana, os rituais são usados como uma forma