3. A PRODUÇÃO DE PAPEL ARTESANAL, CICLO DE VIDA, AGRICULTURA
3.1 PAPEL ARTESANAL E O CONCEITO DE CICLO DE VIDA
Na perspectiva abordada na Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), dentro dos conceitos da ISO 14040 vistos anteriormente, Caldeira-Pires et al (2002, v.19, n. 2, p.149-178) define a ACV como: Compilação dos fluxos de entrada e saída e avaliação dos impactos ambientais associados a um produto ao longo do seu ciclo de vida.
Os mesmos autores definem ciclo de vida como:
Estados consecutivos e interligados de um produto, desde a extração de matérias-primas ou transformação de recursos naturais, até a deposição final do produto na natureza.
Como se vê a proposta da ACV é otimizar os recursos gerados dentro de cada sistema de produção analisando o processo do berço ao túmulo, visando a correta utilização dos recursos materiais e humanos em prol do meio ambiente. Ainda segundo Caldeira-Pires et al. (2002):
O conceito fundamental dessa técnica é o do ciclo de vida, que surge com a consciência de que qualquer produto, processo ou atividade produz impactos no ambiente desde o momento em que são extraídas as matérias-primas indispensáveis à sua existência até que, após a sua vida útil, seja devolvido à natureza.
Sabe-se que a ACV também pode analisar um processo do ―berço ao berço‖, apesar da concepção ―do berço ao túmulo‖ como descrito acima ser a mais comum.
Na perspectiva desse trabalho apresenta-se a viabilidade de um ciclo contínuo e integrado de produtos e produções onde o que é descarte para uma cadeia de produção se transforma em matéria- prima para outro ciclo produtivo. Desta forma, os parâmetros usados na Avaliação do Ciclo de Vida de um produto se entrelaçam ao ciclo de vida de outros
produtos, gerando uma cadeia de otimização de recursos e de desperdício zero. Neste sentido há um outro olhar para o que se concebe como resíduo, lixo e material inservível, sendo no presente caso, especificamente os resíduos de colheitas que podem se transformar em matéria prima para a produção de papel.
Segundo Caldeira-Pires et al (2002), apesar da ACV ter sido desenvolvida pensando no impacto ambiental das indústrias sua aplicação na agricultura já foi testada em alguns trabalhos. Também ressalta a necessidade do desenvolvimento de uma metodologia especifica para a ACV na agricultura:
Apesar de a ACV ter sido inicialmente desenvolvida para determinar o impacto ambiental de indústrias e de seus processos de produção, mais recentemente tem sido realizados estudos de ACVs da produção agrícola, principalmente para sistemas produtivos de colheitas únicas ou processos de produção de alimento à escala industrial (Ceuterik, 1996, 1998, Wegener Sleeswijk et al.,1996, Audsley et al., 1997, Mattsson et al., 2000, Haas et al., 2001).Mattsson et al. (2000) utilizaram a ACV para desenvolver um método de avaliação da qualidade do uso da terra para três cultivos de oleaginosas, entre as quais a soja produzida no Brasil. Erosão do solo, matéria orgânica, estrutura do solo, pH, acumulação de metais de pesados, impactos sobre a biodiversidade causados pelos cultivos e estoques de fósforo e potássio do solo foram considerados como bons indicadores. Os autores consideram que o uso do solo raramente tem sido levado em conta na ACV, já que não existe disponibilidade dos métodos de determinação desse impacto ambiental. Ademais, também ressaltam as dificuldades de obtenção de informações, mesmo se tratando de cultivos importantes. Em estudo comparando os impactos ambientais relevantes de fazendas de pecuária em três níveis tecnológicos (intensivo, sistema orgânico e extensivo), Haas et al. (2001) concluem que a ACV pode ser uma importante e eficiente ferramenta para produtores e técnicos visando à análise de pontos fracos das unidades de produção do ponto de vista ecológico, assim como para a criação de programas agro- ambientais. Eficientes medidas podem ser desenvolvidas para o estabelecimento de sistemas de produção agrícolas ambientalmente seguros. O estudo confirmou a conveniência da ACV para a comparação de sistemas de produção, mas ressalta a necessidade de desenvolvimento de uma metodologia de ACV específica para a agricultura.
No presente trabalho aborda-se o conceito ―do berço ao berço‖ cuja proposta encontra respaldo na chamada Ecologia Industrial. Sabe-se que até meados dos anos 1950 o conceito de indústria era totalmente oposto ao de ecologia. Até então não se imaginava ser possível associar dois sistemas aparentemente opostos em principio: ecologia e indústria.
Em 1950, esta associação, ―ecologia industrial‖ foi pensada pelos ecologistas que começaram a enxergar que o sistema industrial poderia ser de certa forma um ecossistema ao invés de estar em oposição a este (ERKMAN, 1997, pp.1-10).
Tendo se deparado com as conseqüências da poluição industrial no meio ambiente os ecologistas não podiam mais deixar que as fábricas ficassem de fora dos campos de pesquisa. Eles observaram então, que o sistema industrial, assim como os ecossistemas naturais, poderiam ser descritos sob a ótica de distribuição de materiais, energia e fluxos de informação. E além do mais o sistema industrial inteiro se baseia em recursos e serviços
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providos pela biosfera, da qual obviamente não poderia estar dissociado (ERKMAN, 1997, pp.1-10).
Porém, o conceito só começa a expressar efetivamente um embasamento teórico nos trabalhos de ecologistas como Odum, E., Odum, H., Margalef e Hall. Até o efetivo embasamento teórico a expressão costumava ser usada tanto para descrever o ambiente econômico de companhias regionais quanto para servir de slogan ―verde‖ para algumas indústrias em reação à criação da Agência Americana de Proteção ao Meio Ambiente (ERKMAN, 1997, pp.1-10).
Segundo Odum, E. (1988, p 180-181)
O volume crescente de resíduos tóxicos que afeta a saúde humana, seja por causa do contato direto, seja pela contaminação de alimentos e água potável, está assumindo proporções de crise. [...] A menos que os resíduos altamente tóxicos, subprodutos atuais das sociedades industrializadas de alta energia, sejam reduzidos, contidos ou isolados de alguma outra forma dos sistemas globais de manutenção da vida, os resíduos tóxicos ameaçarão diretamente a saúde e constituirão um fator limitante importante para a humanidade.
A preocupação das ações desenfreadas das indústrias emergentes em todo mundo torna- se crescente entre os ecologistas a partir da primeira metade do século XX. Durante muitos anos, a partir de 1950, a ecologia industrial foi manifestada intuitivamente, tendo sido infrutífera na maioria dos países, à exceção do Japão que já em 1970 cria mecanismos para promover a ecologia industrial. A expressão reaparece e começa a ter força no inicio dos anos 1990 entre um grupo de engenheiros industriais ligados à Academia Nacional de Engenharia nos Estados Unidos (ERKMAN, 1997, pp.1-10).
E desde então tem sido adotada nos mais diversos países na busca desta integração do desenvolvimento industrial com a preservação do meio ambiente.
Essa dissociação entre a indústria e o meio ambiente também é apontada por alguns autores como a responsável pela geração de uma montanha sem fim de resíduos e lixo. Dentro desta perspectiva alguns argumentam que a única solução para minimizar esse excesso de descartes seria o re-design dos processos, produtos, insumos e dos conceitos usados pelas indústrias até então (MCDONOUGH, & BRAUGART, 2002).
Dentre esses autores encontram-se McDonough & Braungart (2002) que apresentam o argumento da origem de todo caos atual em relação à grande geração de lixo e resíduos ter se dado basicamente na revolução industrial e no fato de sermos um mundo capitalista e consumista. Para eles o problema básico foi simplesmente a falta de design no processo revolucionário de industrialização dos produtos (MCDONOUGH, & BRAUGART, 2002).
Conforme visto o que se denomina de revolução industrial foi uma série de evoluções e industrializações em processos produtivos manuais iniciados com as confecções de têxteis na Inglaterra. Os processos produtivos anteriormente manuais foram a passos largos se tornando mecanizados onde os insumos eram mais valiosos do que os trabalhadores. Como as matérias- primas eram abundantes, não havia nenhuma preocupação com a preservação e a otimização dos recursos. Os produtos eram concebidos numa visão de ―caminho sem volta‖, onde se pensava na utilização única dos insumos e como conseqüência gerava-se montanhas de resíduos sem utilidade. Não havia concepção do processo industrial como um todo, como um sistema orgânico, nem tampouco o design dos produtos que eram mecanizados e o único raciocínio era maior produção para gerar maior venda e com isso obter maior lucro. (MCDONOUGH, & BRAUGART, 2002).
No fundo, a revolução industrial era basicamente uma revolução econômica com o desejo de aquisição de capital e de status em torno das coisas e objetos que podiam ser adquiridos com a crescente circulação de dinheiro e com a perspectiva de vida moderna. Esta concepção de vida moderna se materializava na troca das amplas casas do campo pelas moradias nas cidades cada vez mais inchadas. (MCDONOUGH, & BRAUGART, 2002).
Todo esse processo iniciado deste então se reflete hoje nos dados veiculados recentemente onde pesquisa da Organização das Nações Unidas - ONU68 aponta que em 2008 pela primeira vez na história do mundo o número de pessoas que vivem em áreas urbanas ultrapassará o número de habitantes da zona rural:
Duzentos anos atrás 3% da população mundial vivia em cidades. Há um século, na esteira da Revolução Industrial, a porcentagem tinha subido para 13% - ainda uma minoria em um planeta essencialmente rural. Em algum momento deste ano (2008), de acordo com estimativas das Nações Unidas, pela primeira vez na história o número de pessoas que vivem em áreas urbanas ultrapassará o de moradores do campo. Segundo o mesmo estudo, nas próximas décadas praticamente todo o crescimento populacional do planeta ocorrerá nas cidades, nas quais viverão sete em cada dez pessoas em 2050. A população rural ainda deve aumentar nos próximos dez anos antes de entrar em declínio gradativo. A atual migração para as cidades é de tal ordem que se pode compará-la, de forma alegórica, a um novo salto na evolução. O Homo sapiens cedeu lugar a seu sucessor, o Homo urbanus.69
Tais dados corroboram a presente proposta de viabilizar fontes de renda alternativas para a população rural e com isso estimular a permanência do homem no campo. Tema a ser desenvolvido no próximo item.
68 Revista VEJA, n. 2056 de 16 de abril de 2008, pagina 106 a 113., editora Abril 69 Idem
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3.2 AGRICULTURA FAMILIAR E O APROVEITAMENTO DE RESÍDUOS