O avanço de alguns grupos de discussões sobre ciência e sua responsabilidade na construção do conhecimento juntamente com a inserção do homem na natureza, numa relação de pertença, estão incorporando na construção de suas produções científicas a reflexão sobre a inflexibilidade da fragmentação dos sistemas vivos. Esta atitude vem no sentido de evitar que a fragmentação continue tentando justificar o todo que compõe a vida. Este fato se dá, devido ao entendimento de que a natureza se constitui no todo, e que a sua partição compromete os fluxos dos quais a vida depende, sem se importar com os níveis de vida dentro dela.
Esta questão de certa forma traz à tona uma discussão que se reflete numa pesquisa com “inteligência geral” e de forma natural. O presente estudo, pode contribuir com a diminuição da popularidade do reducionismo na medida em que a sua na tureza seja mais bem entendida. Neste sentido, MAYR (2005) contribui dizendo que a redução, ao deixar de considerar a interação dos componentes, não consegue negar que a soma das partes que representa o todo pode ser ignorada na construção do conhecimento que envolve a vida. Se o conhecimento não for posto a uma análise epistemológica, certamente, como temos observado com certa constância, continuaremos trabalhando no sentido oposto da natureza.
A casualidade dual de todos os organismos talvez seja a mais profunda diferença entre o mundo inanimado representado pelo físico, e o mundo vivo representado pelo biológico. Ou seja, para o mundo físico quem rege são as leis naturais como a gravitação, leis da termodinâmica, dentre várias outras leis naturais descobertas pelas ciências físicas. No entanto, os organismos vivos estão sujeitos a um segundo conjunto de fatores causais, o seu programa genético, resultado de bilhões de anos de seleção natural a cada geração. Desta forma, as leis estruturais e o programa genético funcionam simultaneamente e em harmonia (MAYR, 2005).
Assim, o que surge nesta pesquisa, e que poderá contribuir sensivelmente nas práticas agroecológicas, e provavelmente será a continuação dos meus estudos futuros, é o “Papel biológico”. Se este termo, com o seu significado de resgatar a vida, estiver vinculado a todos os movimentos que envolvem os processos de intervenção na natureza, toda a ação de manejo seguirá no sentido do resgate da
vida, sem se importar com o seu nível. Assim, esta “vida” pode ser a mais insignificante no nosso ponto de vista, porém para um sistema, ela está representada por fazer ser fundamental para ciclos de vida de outros organismos.
Assim, e reforçando o supra citado, a aplicação de visão mecanicista aos sistemas biológicos vela a inteligibilidade da vida (CANGUILHEM, 1971,1977 citado por LEFF, 2003)6. Para LEFF (2003), a natureza, a matéria e o ser se organizam em ordens ontológicas distintas, que não têm consciência de si – o homem não tem consciência de seus processos inconscientes. O significado da racionalidade ambiental vem a integrar os potenciais de produção da natureza aos valores humanos e às identidades culturais, os quais podem ser traduzidos em práticas produtivas com “Papel biológico”. Desta forma, os fundamentos epistemológicos e ontológicos do saber ambiental adquirem sentido para conceber as estratégias capazes de reconstruir, pelo menos, parte da natureza (LEFF, 1994 citado por LEFF, 2003)7.
A análise do “Papel biológico” é feita no sentido de resgatar a vida dentro de cada sistema, principalmente de produção agrícola, tendo como resultado a sua finalidade natural no processo de produção, e conseqüentemente no produto resultante. Se uma determinada vida existe dentro de um sistema, é porque faz parte das suas interações, e sem a sua presença, por menor que seja, pode ser causa de desequilíbrios provenientes do próprio método de interpretação utilizado pela ciência convencional.
Ainda, segundo MAYR (2005) é importante separar cuidadosamente os termos “Função biológica” de “Papel biológico”. A “Função biológica” é usada na biologia para descrever o funcionamento fisiológico de um órgão ou de outras características biológicas inerente a uma vida, sem explicar a sua finalidade num sistema, “podendo ser traduzidas em explicações físico-químicas; ela se deve a causações imediatas” (MAYR, 2005, p. 65).
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CANGUILHEM, G. La connaissance de l avie. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1971.
CANGUILHEM, G, Ideologie et rationalité dans l’histoire des sciences de la vie. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin. 1977.
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LEFF, E. Sociologia y ambiente: formación socioeconómica, racionalidad ambiental y transformaciones del conocimiento. In: LEFF, E. (coord.) Ciencias sociales y formación ambiental. Barcelona: GEDISA/CIIH-UNAM/PNUMA, 1994.
O “Papel biológico” será usado nas características que interferem no ciclo de vida de um organismo, pois o que será valorizado neste trabalho são os aspectos relacionados à finalidade das estruturas e atividades dos organismos existentes, ou que deveriam existir dentro de um sistema de produção agrícola. Portanto, a minha preocupação neste trabalho, será com o “Papel biológico” e não com a “Função biológica”.
De certa forma, o termo “Papel biológico” surge nesta pesquisa, também, com a intenção de tratar de forma diferente o termo “Sustentabilidade”, que ao meu ver, não retrata, no sentido que vem sendo trabalhado, o resgate da vida dentro dos sistemas, quaisquer que sejam elas. A construção deste trabalho tenta trazer para o contexto, a importância da vida independentemente do seu nível de atuação na construção e manutenção da natureza. A palavra sustentabilidade dá margem para ser utilizada no discurso demagogo da construção de uma sociedade igualitária, que, na verdade, como supra citado desconhece os seus efeitos danosos à vida da qual dependem, mesmo que esteja sob os seus pés, ou fora do seu campo de visão. Outrossim, a sustentabilidade, por mais que pressuponha necessariamente as diversas dimensões interagindo entre si, na maioria das vezes tem sido recortada, sendo considerada de forma desconectada das outras dimensões que a compõem.
5 MÉTODO E METODOLOGIA