Turismo em Áreas
1.7. PAPEL DA COMUNIDADE LOCAL – TURISMO COMUNITÁRIO
“O envolvimento dos residentes no planeamento dá às comunidades a oportunidade de participar na forma como o seu património cultural é protegido e mostrado aos turistas. O que por sua vez, pode contribuir para o aumento do orgulho e sentimento de pertença” (Gonçalves, 2009:84).
Na era pós-moderna que caracteriza o mundo da actualidade, verificamos que as frequentes mudanças provocam uma reestruturação das organizações, forçadas a adaptarem-se aos novos cenários mundiais em constante mutação. Conhecimento, informação, tecnologia, criatividade e inovação são factores primordiais para a estratégia de desenvolvimento das economias, mormente da economia do turismo.
Esta nova dinâmica pode desencadear um processo de exclusão das populações locais, pois frequentemente o desenvolvimento turístico não leva em consideração aquilo que os residentes pensam e, mesmo quando essas percepções são tidas em conta, por vezes tal é feito de forma superficial. Nesta perspectiva, o desenvolvimento sustentável surge como uma alternativa para fortalecer o turismo, pois promove uma maior integração entre a actividade turística e a sociedade.
De acordo com o exposto no capítulo anterior, o turismo sustentável atribui importância ao envolvimento mais activo da comunidade receptora, não só em termos de benefícios, mas também em termos de participação no processo de desenvolvimento local.
A participação da comunidade no desenvolvimento da sua localidade revela-se de todo importante, sobretudo se tivermos em consideração que será a própria comunidade a responsável por assegurar e manter um ambiente receptivo, animado e hospitaleiro para os seus visitantes. A integração com sucesso do desenvolvimento turístico numa comunidade, ou num destino, será mais bem sucedida do que a imposição do turismo como modelo de desenvolvimento de forma não relacionada (Gonçalves, 2007).
Uma das conclusões resultantes do Congresso de Turismo Cultural realizado nos dias 25, 26 e 27 de Março de 2009, nos Açores, afirma que o turismo sustentável exige pensar globalmente e agir localmente, com base na valorização, viabilidade, metas ambientais e
equidade. “O turismo sustentável tem por base «a articulação do social, do económico e o ambiente», explicou professor do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, José Simões, que acrescentou «assim se alcança valorização, equidade e viabilidade do património».” (Pelicano, 2009).
Vários dos impactos socioculturais possuem a sua génese na actuação de profissionais cujo intuito se centrava exclusivamente na obtenção de um desenvolvimento com fins económicos, onde o turista é visto como o ponto central desse desenvolvimento. Dessa forma, verifica-se que ao focalizar a atenção na criação de benefícios ao cliente, o gestor acaba por negligenciar os aspectos socioculturais da comunidade, os quais são, frequentemente, o diferencial que apela e capta a atenção do visitante.
O desenvolvimento turístico deve ser operacionalizado de acordo com os objectivos estabelecidos para a preservação e manutenção do património, o uso quotidiano dos bens culturais e a própria valorização das identidades culturais locais. O Turismo deve sempre actuar enquanto ferramenta de preservação e fortalecimento das culturas e, desta forma, o património é perspectivado como factor de revitalização turística, onde o local e o genuíno são vistos como o antídoto para a diferenciação dos destinos.
Deste modo, “(...) o turismo, em nova concepção estratégica, deve ser entendido como um conjunto de bens e serviços que promovam o desenvolvimento socialmente justo e economicamente equilibrado em nível local e regional, integrando o desenvolvimento urbano e rural e criando um processo de desenvolvimento económico diversificado. Manter, valorizar e proteger as paisagens naturais e sua diversidade biológica, assim como o património histórico-cultural, é a base essencial para o desenvolvimento responsável do turismo, contribuindo para sua manutenção em longo prazo.” (Salvati, 2002:158).
O turismo deve, pois, garantir o bem-estar da população local, bem como assegurar que as expectativas dos turistas sejam não só alcançadas, como também superadas, para garantir que os mesmos deixam o destino turístico satisfeitos, maravilhados e ansiosos por voltarem. Ao mesmo tempo que se procura garantir o desenvolvimento da comunidade local, o turismo deve assegurar a preservação dos recursos naturais e socioculturais e, desta forma, afirmar a sustentabilidade desse turismo.
Neste sentido, é fundamental desenvolver a construção de um outro modelo de turismo, onde o envolvimento da população local é um dos seus pressupostos. Os residentes são uma componente imprescindível do produto turístico e o facto de se apelar à participação da comunidade local no projecto de desenvolvimento turístico dos destinos contribui para
uma redução dos impactes negativos, ou seja, o envolvimento dos residentes no planeamento dá às comunidades a oportunidade de participar na forma como o seu património cultural é protegido e mostrado aos turistas e, consequentemente, a oposição a esse desenvolvimento será menor.
Considerando estes pressupostos de valorização, algumas iniciativas subjacentes ao desenvolvimento turístico têm despertado um sentimento de orgulho e satisfação nas comunidades relativamente à sua identidade cultural. A vivência histórica das comunidades, ao ser valorizada pelo turismo, enriquece a experiência do turista e, ao mesmo tempo, reforça o sentimento de pertença local.
Nesse sentido, verifica-se que várias práticas culturais, anteriormente esquecidas, têm vindo agora a ser resgatadas, valorizadas e potenciadas face a uma procura pelo genuíno, pela originalidade e pela autenticidade. Os aspectos imateriais simbólicos e expressivos da cultura são também muito procurados, verificando-se um interesse pelas histórias não escritas e não documentadas. O turista cultural valoriza a cultura em toda a sua complexidade e particularidade, movimentando-se em busca de ícones que representam a identidade local e a memória colectiva. Os moradores mais antigos de uma região vêem o seu papel na sociedade ganhar uma maior relevância, pois estes são detentores de um amplo leque de informações sobre a história, a memória e os factos do quotidiano local, que nem sempre estão visíveis ou são conhecidos pela maioria da população. Para além disso, o próprio quotidiano assume-se como um atractivo, pois o turista cultural procura relacionar-se com a comunidade e identificar os saberes e fazeres que constituem a identidade local.
O envolvimento da comunidade é, pois, uma das acções básicas para o desenvolvimento do Turismo Cultural, considerando a importância e necessidade dessa comunidade conhecer, valorizar e preservar o seu próprio património.
“As comunidades receptoras têm reagido de forma diferente ao desenvolvimento do turismo, variando as suas respostas em função do nível de desenvolvimento do turismo, mas também conforme os interesses dos grupos (Costa e Ferrone, 1995). As comunidades raramente possuem uma visão uniforme do turismo, e as reacções podem ir do suporte entusiástico ao seu desenvolvimento, como à oposição total. Quanto maior envolvimento da comunidade for promovido no processo de planeamento e desenvolvimento do turismo, maiores garantias de aceitação, sucesso e sustentabilidade terá o projecto do seu desenvolvimento.” (Gonçalves, 2007:6).
Este conhecimento das considerações da comunidade irá permitir uma previsão mais viável dos impactos negativos do turismo, bem como aumentar a tolerância da comunidade relativamente à actividade e comportamento dos seus visitantes. Considerando que estes desenvolvimentos terão uma incidência significativa na percepção e atitudes dos residentes, um planeamento cuidado da actividade turística e que contemple as necessidades locais é uma ferramenta essencial para um desenvolvimento sustentável do turismo (Fredline e Faukner, 2000).
A participação da comunidade local no desenvolvimento turístico pode ser relacionada com o processo de planeamento e gestão das potencialidades locais que lhe atribui e assegura um papel de agente e não apenas uma das beneficiárias desse desenvolvimento. Deste modo, “(…) participativo não é o processo em que apenas se assegura a oportunidade da participação, mas aquele que a promove em todos os sentidos, porque nela deposita sua própria condição de vitalidade. Isto significa acreditar muito mais nas pessoas do que estamos acostumados, possibilitando e condicionando sua participação qualitativa e não apenas quantitativa.” (Martins, 2003:53)
Através de uma colaboração estreita com outros agentes planeadores desse desenvolvimento, a comunidade procura incrementar, potenciar e dignificar a cultura do turismo no seu seio e, consequentemente, conseguirá gerir e optimizar as potencialidades dos seus recursos. Desta forma, o papel da comunidade transmuta-se e esta passa a ser o agente do seu próprio desenvolvimento. (Martins, 2002)
Este conceito de desenvolvimento sob uma perspectiva de “dentro para fora”, implica que a comunidade deve agarrar as rédeas do seu futuro e, através do conhecimento das suas capacidades, potencialidades e habilidades deve estimular e gerir o seu desenvolvimento, sempre considerando as opiniões e contribuições dos agentes externos. Esta perspectiva significa que, se anteriormente os técnicos e gestores do desenvolvimento procuravam aferir a opinião da comunidade sobre a actividade turística no seu seio, agora é a própria comunidade quem procura a opinião desses técnicos e gestores, embora a responsabilidade da decisão seja da mesma.
Verifica-se assim que esta proposta de desenvolvimento turístico permite aos vários membros da sociedade a sua inclusão em todo o processo de planeamento, operacionalização e gestão, durante o qual eles sentem liberdade e autonomia para expressar as suas ideias e preocupações, identificar os seus interesses e as suas necessidades, reconhecer as potencialidades e benefícios que podem alcançar (Nelson, 2004).
Chegamos, assim, ao conceito de turismo comunitário, onde a população local possui o controlo efectivo do desenvolvimento turístico da sua comunidade, sendo directamente responsável pelo planeamento das actividades e pela gestão das infra-estruturas e serviços turísticos. Desta forma, as estratégias criadas pelo turismo comunitário focam-se na construção de roteiros turísticos que incluem momentos de interacção com a própria comunidade, trocas culturais entre visitantes e visitados, partilha de experiências e vivências, histórias e tradições…
A comunidade local assume-se, consequentemente, como a organizadora, construtora, articuladora e autora do desenvolvimento turístico, facilitando e promovendo um modelo de gestão participativa, onde todos os membros da sociedade se envolvem neste processo garantindo assim que as necessidades e desejos de todas as pessoas sejam considerados e que a cultura local, nos seus aspectos particulares, seja valorizada (Carvalho, 2007).