No entanto, não se deve falar somente das exigências didáticas e pedagógicas. O livro didático tem, também, que cumprir várias outras exigências para se inscrever nesse processo de avaliação e escolha, ou seja, o autor da obra deve percorrer todos os trâmites que envolvem a conquista de um lugar nesse campo pedagógico, observando as leis que constituem o contrato tácito entre ele e o seu leitor. Essas leis são de natureza não somente pedagógicas mas, também, sociais, técnicas e políticas.
Nesse caso temos que analisar o papel do editor na emergência do livro no processo de ensino-aprendizagem, tendo em vista as condições sociais, políticas e pedagógicas que permitam a inscrição de sua obra nas páginas do Guia do Livro Didático.
5.2 O PAPEL DO EDITOR NO PROCESSO DE EMERGÊNCIA DO LIVRO
121 abertura de bibliotecas e instalações de livrarias e tipografias – que propiciarão a formação de um público leitor (DUTRA, 1999: 477).
Historicamente, o desenvolvimento do mercado de livros didáticos, no Brasil, se deu paulatinamente à medida que o poder público se dispôs efetivamente a pagar os custos da manutenção de um sistema de escolarização universal.
Desse modo, a expansão desse mercado específico aconteceu de maneira lenta, acompanhando as esparsas medidas governamentais em prol da qualidade e gratuidade dos manuais escolares. Isto significa dizer que a editoração do livro didático está sujeita as condições que configuram o campo educacional num dado momento histórico.
Por conseguinte, a criatividade editorial deverá exercer-se dentro dos limites, os quais são impostos por regulamentos e diretrizes que estabelecem como devem ser feitos compêndios, manuais e cartilhas.
O procedimento editorial dirigido a produção e distribuição de uma obra didática segue as mesmas etapas das demais: escolher, fabricar, distribuir; no entanto, se investe de características peculiares que são próprias do campo educacional, no qual se inscreve a obra.
O editor terá sempre como Norte, em suas escolhas, preliminarmente, o atendimento às exigências das autoridades escolares. Dentro desses parâmetros, deve escolher dentre os eventuais originais apresentados aqueles que possam satisfazer aos professores, por onde passa, em maior ou menor nível – de diretores de escola, coordenadores de área até ao professor da sala de aula –, decisão sobre a adoção e a recomendação do consumo ou não da obra pelos alunos. E, finalmente, deve fazer livros que agradem também aos alunos – e a seus pais – já que seu feedback pode ser decisivo para reverter a decisão ou confirmá-la nos anos seguintes.
(BRAGANÇA, s/d; s/p)
Como já foi visto, desde 1996, os livros do PNLD são submetidos a uma avaliação trienal. As obras aprovadas por comissões autônomas ligadas a universidades são incluídas no "Guia do Livro Didático, acompanhadas de resenhas críticas. A partir desse catálogo professores escolhem com quais obras irão trabalhar, e o MEC as adquire. Desse modo, é lógico pensar que as editoras fazem de tudo e mais um pouco para ter seus títulos aprovados, garantindo assim pelo menos três anos de faturamento em vendas. Na disputa por um lugar nas escolas públicas, o editor deve percorrer várias etapas, cumprindo em todas elas uma série de regras que vão desde as exigências burocráticas e técnicas até as excelências didáticas e pedagógicas.
As regras estabelecidas pelo PNLD estão minuciosamente detalhadas no edital de convocação para inscrição do livro didático, publicado no Diário Oficial da União e disponibilizado no sítio do FNDE na Internet. O edital também determina os critérios de exclusão das obras do processo de seleção, inscritas pelas empresas detentoras de direitos autorais, como se vê a seguir:
8.1. A inscrição das coleções implica aceitação, pelo participante, de forma integral e irretratável dos termos deste Edital, bem como da legislação aplicável, especialmente em matéria de direito autoral, não cabendo impugnações posteriores [...]
8.4. O FNDE/MEC poderá, a qualquer tempo, desde que devidamente comprovado por razões de interesse público decorrente de fato superveniente, revogar, total ou parcialmente, o presente processo (MEC, Edital... 2005: 11-2).
Primeiramente, a obra inscrita passa por um processo de triagem, realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), responsabilizado pela coleta de amostras e pelas análises das características físicas dos livros, de acordo com especificações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), normas ISO e manuais de procedimentos de ensaio pré-elaborados. Nessa etapa, a obra pode ser assim classificada:
1.8. Livros Caracterizados – Livros que contenham todos os elementos essenciais ao volume, discriminados neste Anexo. 1.9. Livros Descaracterizados – Livros que não contenham qualquer identificação de um ou mais elementos definidos neste Anexo (MEC, Edital...2005: 14).
Analisando as características que no edital são estabelecidas como critérios de exclusão da obra, na etapa de triagem, alguns pontos devem ser ressaltados para se pensar o discurso didático da obra analisada neste estudo.
Antes de tudo, temos que conceber que, nesta etapa do processo ao menos, o papel do editor é tão importante quanto o do autor, uma vez que sua liderança requer conhecimentos burocráticos, técnicos e, até mesmo, didáticos e pedagógicos.
Se esse editor não for um pedagogo ou um professor, deve recorrer à orientação de um especialista nos assuntos educacionais. Ademais, temos que considerar que os protocolos de leitura criados pelo editor, estão enquadrados dentro de uma faixa muito estreita de possibilidades de inovações gráficas e dependem, em muito, dos conhecimentos das possibilidades e limites técnicos de editoração, relativos aos processos e aos materiais a serem empregados na impressão dos exemplares.
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Nesta etapa de triagem serão excluídas as coleções didáticas que apresentarem livros consumíveis, assim definidos pelo anexo I do edital:
livros com lacunas ou espaços que possibilitam a realização das atividades e exercícios propostos ou que utilizem espaçamento entre as questões e textos que induzam o aluno a respondê-los no próprio livro, inviabilizando a sua reutilização (MEC, Edital... 2005: 14).
Este critério de exclusão tem implicações não só nos protocolos de leitura determinados pelo material de impressão e artes gráficas, como também nos protocolos de leitura estabelecidos pelo autor, de natureza didática e pedagógica.
De acordo com os critérios de exclusão definidos no edital, podemos citar várias outras características que sujeitam as possibilidades de emergências da obra didática no campo educacional, tais como coleções que apresentam livros multidisciplinares, multisseriados, suplementares; livros consumíveis convertidos em não-consumíveis; livros apresentados em mais de um volume para uma única série, ano, ciclo, ou volume; livro do aluno que adote sinal gráfico referencial ou textos que induzam à obrigatoriedade do uso do caderno de atividades ou outros materiais didáticos; livros que apresentem encartes e/ou cadernos de atividades que constituam volume em separado e livros não acompanhados do manual do professor;
Com tais características excludentes, conclui-se, portanto, que uma coleção didática, no caso aqui em estudado, deve apresentar um volume para cada ano de escolaridade (5º ao 8º), acompanhados do livro do professor, com a finalidade de instrumentalizar, exclusivamente, o ensino de língua portuguesa e, além disso, adotando protocolos de leitura que não infrinjam as normas pré-estabelecidas no anexo I do edital.
Os livros classificados como caracterizados são encaminhados à Secretaria de Educação Básica (SEB/MEC), onde serão submetidos a uma avaliação pedagógica. Esta avaliação é feita por especialistas selecionados, conforme critérios divulgados no edital, os quais elaboram as resenhas dos livros aprovados, que passam a compor o guia de livros didáticos. Este material é disponibilizado na internet e, ao mesmo tempo, é enviado às escolas cadastradas no censo escolar. Na escola, a obra didática é submetida à avaliação dos educadores, cuja escolha é registrada em formulários previamente elaborados pelo FNDE.
Depois de cumprir as exigências da política centralizadora e preencher o perfil exigido pelos professores, a obra chega ao final do processo de escolha, passando às duas últimas etapas: fabricar e distribuir.
Todavia, o controle continua após o processo seletivo, seguindo os trâmites estabelecidos no PNLD. O FNDE inicia o processo de negociação com as editoras, tendo em vista que a aquisição é realizada por "inegibilidade de licitação", prevista na Lei 8.666/93. ―– Concluída a negociação, o FNDE firma o contrato e informa os quantitativos e as localidades de entrega para as editoras, que dão início à produção dos livros, com supervisão dos técnicos do FNDE‖ (http://www.mec.gov.br).
Conclui-se, conforme Bragança, que o editor como líder do processo editorial, deve acompanhar tudo, verificando os cálculos precisos de custos para o orçamento final, com olho na viabilidade comercial do projeto, que, em grande parte, vai depender do preço final de cada exemplar.
O processo de editoração do livro didático exige sofisticadas e complexas estruturas administrativas, técnicas e operacionais; envolve profissionais altamente capacitados e especializados, nos seus vários níveis e departamentos; além disso, envolve também numerosos consultores e assessores.
Dadas as características peculiares do mercado brasileiro de livros escolares, que por suas dimensões se coloca entre os maiores do mundo, uma edição nacional, exige um grande investimento inicial que demorará um bom tempo para começar a dar retorno; portanto, a concorrência neste setor se dá, em grande parte, entre as empresas com grande poder econômico
Descrevemos, no processo editorial dos manuais escolares, de um modo abrangente, as condições atuais, as quais configuram o campo educacional, onde emerge a obra didática, ou melhor, desenhamos em linhas gerais a cena englobante, na qual se circunscreve a cena genérica do discurso didático.