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Capítulo 3 FORMADORES DE PROFESSORAS(ES): OS DITOS E NÃO DITOS

II. Papel Formador da Profissional “Pedagoga”

Quando refletimos sobre como gênero está colocado dentro das disciplinas que estes docentes lecionam, percebemos que mesmo que os professores não abram caminho para a entrada destas discussões em suas salas de aula, elas acabam acontecendo de forma natural, já que o contexto de vida e os contextos em que estas alunas atuam, demandam o exame das questões de gênero.

Desta forma, outro eixo norteador nesta categorização é sobre como a inserção da temática empodera profissionalmente as pedagogas em formação, levando em consideração que o os estudos de gênero perpassam seu fazer acadêmico/profissional e a formação para os contextos sociais em que está inserida.

À vista disto, o fazer docente resulta de uma combinação diversa, de interações sociais, aprendizagens e das suas experiências de vida. De acordo com Nóvoa (1995) é necessário a reflexão do que sustenta esse processo de identidade do professor: a adesão, que está ligada a princípios e valores; a ação, que se refere às escolhas de métodos e técnicas de ensino; e a autoconsciência, que remete ao fato do professor refletir sobre sua própria ação de ensinar. Neste segundo processo, é importante salientar que certas experiências marcam a nossa postura pedagógica, por isso, tendo sucesso ou insucesso, elas marcarão nossa maneira de trabalhar.

Arroyo (2013) conversa com tal ideia quando fala que o trabalho, seja ele docente ou em outras áreas, deve ser colocado em um lugar de destaque nos currículos, quanto ao trabalho docente, como princípio de aprendizado dos direitos da docência. Isto é, a experiência

profissional é reconhecida como produtora (ou destruidora) de identidades e imagens, de cultura e também de valores.

Como veremos a seguir, na Tabela 13, os professores entrevistados demonstram suas preocupações com o fato das questões referentes a gênero não somente perpassarem a vida cotidiana das suas alunas e alunos, mas também ao fato da sua profissão estar atrelada de alguma forma a esta temática.

Tabela 13 – Empoderamento Profissional

Docente Material Analisado

P1

“Fora a própria questão dessa professora, como é que a professora que a gente

tem principalmente nessas etapas da educação básica, o corpo docente é

prioritariamente feminino.”

P2

“Por uma questão profissional, e refletir o fato de que ao mesmo tempo você tem uma hierarquia (aquela coisa que vocês sabem melhor do que eu) e dependendo se você sobe na hierarquia do aparato da administração escolar, você

terá sei lá, nas creches... você vai ter mais professoras ou “tias” e a medida que você vai subindo a gradação, a correlação de forças, você vai ter cada vez mais homens e mesmo nas escolas, na direção das escolas, nas secretarias

de educação e aí você vê como isso a medida que aumenta a questão do poder.”

P3

“ [...] E, de fato nos últimos anos, outros professores e professoras também tem colocado nas suas pesquisas, nas suas disciplinas essas questões. Mas, eles [os discentes] sempre colocaram muito isso, uma demanda: "olha, a gente precisa

estudar sobre isso, é um curso feminino, é um curso que tem maioria de mulheres". Então, isso apareceu sem dúvida nenhuma, também aparece uma

resistência, uma certa resistência, dos próprios alunos e alunas em relação a certas temáticas.”

P4

“[...] por exemplo, Pedagogia no Brasil se foi aberto para mulheres, então, por si é um curso “de mulher”, mas não porque existe a visão feminista do curso, senão porque este é um curso que segundo a visão do homem, não é tradicional ou é periférica.”

P5

“ É tem uma questão que é muito séria que elas [alunas] colocam: “ah...como que eu vou lidar com isso na escola, porque os pais dos meus alunos são todos religiosos e tal e blá, blá, blá e eles não...", e eu falei "primeiro você está

passando por um processo de formação que é profissional Então você, como

profissional, tem que se assumir como profissional!"; e o que quer dizer isso? Você tem que ter no mínimo seus conhecimentos, você não pode chegar e passar o achismo, você tem que estar muito bem preparada para você, inclusive

dizer, porque é relevante e importante tratar determinado assunto e determinada temática. Desconstruir essa ideia de ideologia de gênero,

desconstruir essa ideia que a escola vai transformar o filho em gay, essas coisas de quem vive da ignorância.”

P6

“[...] e eu faço questão sempre de abordar essa questão dos papéis de gênero. Inclusive, porque é uma discussão que é essencial para você entender a

questão da valorização do trabalho docente, o quê que é trabalho de mulher.

Então, tudo isso... é porque que às vezes... Eu tenho alunos também, a maioria são mulheres, mas eu tenho alunos também; então, todo o preconceito que eles sofrem, por exemplo, pra poder trabalhar na educação infantil e nos anos iniciais [...]”

P7

“[não dá para] deixar de trabalhar essas questões na vida das pessoas em formação é… porque elas vão estar depois lá, na ponta, lidando com

situações sem que muitas vezes elas tenham de alguma forma lidado, parado para refletir ou investigar um pouco mais sobre as questões que lhes concerne também, como gênero, raça e tal. Então, a disciplina ela é toda

mobilizada nesses aspectos [...]”

Fonte: Elaboração própria, 2018.

Muitas falas demonstram que o ato de empoderamento profissional (e pessoal) passa pelo reconhecimento do fato da profissão estar atrelada diretamente ao sexo biológico feminino, mas também a relações de dominação sociais. Como na fala do P2, que assinala que a sala de aula está majoritariamente composta de professoras mulheres, mas na hierarquização escolar, quem está no poder – em sua grande maioria – são os homens. Não podemos atribuir aos professores (formadores e em formação) o papel de “salvadores do mundo”. No entanto, podemos cogitar que a formação docente atenta às diferenças, às particularidades dos indivíduos, decerto envolve essa ação de (re) pensar os papéis políticos e sociais envolvidos no processo educacional.

Como cita Louro:

o processo desconstrutivo permite perturbar essa ideia de relação de via única e observar que o poder se exerce em várias direções. O exercício do poder pode, na verdade, fraturar e dividir internamente cada termo da oposição. Os sujeitos que constituem a dicotomia não são de fato, apenas homens e mulheres, mas homens e mulheres de várias classes, raças, religiões, idades, etc. e suas solidariedades e antagonismos podem provocar arranjos diversos, perturbando a noção simplista e reduzida de “homem dominante versus mulher dominada”. Por outro lado, não custa reafirmar que os grupos dominados são, muitas vezes, capazes de fazer dos espaços e das instâncias de opressão, lugares de resistência e de exercício de poder. (LOURO, 2014, p. 37)