2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1 Papel profissional e o perfil de competências
A definição do papel profissional do treinador de esporte das categorias de formação constitui tarefa desafiadora, na medida em que essa discussão permanece pouco explorada no ambiente acadêmico, coexistindo, no imaginário social, entendimentos diversos sobre os reais propósitos e responsabilidades desse profissional.
Jones (2006a) é um dos autores de renome no contexto internacional que têm alertado para a necessidade de uma definição mais clara do papel do treinador. Em sua análise, apesar do aumento do interesse acadêmico, a atividade do treinador permanece mal definida e superficialmente teorizada. Jones (2006a) argumenta que nenhuma estrutura conceitual existente na atualidade lida adequadamente com a realidade complexa na qual os treinadores trabalham e que essa indefinição justifica a insatisfação desse grupo em relação aos programas de formação e desenvolvimento profissional.
Buscando ilustrar as dificuldades encontradas na definição do papel do treinador, recorremos a dois exemplos presentes na realidade dos treinadores das categorias de formação. Uma análise superficial nos permite identificar, grosso modo, pelo menos dois perfis de treinador, os quais apontam para diferentes papéis profissionais.
O primeiro, em nossa percepção hegemônico, é caracterizado pelos treinadores que reconhecem as categorias de formação como a base do sistema esportivo, sendo sua principal tarefa preparar e revelar jovens atletas para compor o quadro de equipes adultas. As categorias de formação não têm sentido em si mesmas, seu sentido é construído por sua
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vinculação e subordinação aos propósitos e aos valores do esporte profissional. Diante desses elementos, os treinadores constroem suas práticas sustentados em categorias de valores, tais como o talento, o sucesso, o fracasso, a vitória, a derrota, a meritocracia.
O segundo perfil, contra-hegemônico, é caracterizado pelos treinadores que, apesar de reconhecerem a inserção das categorias de formação no contexto do sistema esportivo, procuram ampliar o alcance de suas intervenções na direção de propósitos e responsabilidades que extrapolam a revelação de jovens atletas para equipes adultas. Acreditam que o processo de formação esportiva pode estar vinculado a um processo de formação humana, de educação para a vida, no qual seja possível formar o atleta em estreita relação com a formação da pessoa. Sustentam a prática desses treinadores categorias de valores como o empenho, a dedicação, mas sobretudo a ética, o respeito e a solidariedade.
Em nossa percepção, esses dois perfis profissionais convivem em permanente tensão no contexto esportivo, em conflito constante pela significação do que venham a ser os propósitos das categorias de formação, o que dificulta a definição consensual do papel profissional do treinador.
A discussão acerca do papel do treinador também tem sofrido influência decisiva das reflexões sobre as competências profissionais dos treinadores, as quais dão indicativos das demandas de seu trabalho e da natureza de suas tarefas profissionais.
Assim como as pesquisas sobre treinadores de maneira geral, as pesquisas sobre suas competências têm crescido nos últimos anos. Contudo, no contexto nacional há uma carência de informações em relação ao assunto (EGERLAND, 2009; EGERLAND, NASCIMENTO e BOTH, 2010). No contexto internacional, apesar do incremento, as pesquisas têm oferecido um conjunto de sugestões sobre as competências necessárias aos bons treinadores, mas ainda não demonstram um quadro conclusivo sobre o tema.
Os estudos sobre as competências dos treinadores de esporte têm indicado que a atividade profissional desse grupo de trabalhadores é permeada e abrange um conjunto de capacidades, habilidades, conhecimentos e atitudes (BALBINO, 2005; BOTA e COLIBABA-EVULET, 2001; MARQUES, 2000; MESQUITA, 2000).
Mesquita (2000), em reflexão acerca das capacidades dos treinadores esportivos, afirma que para ser competente o treinador precisa desenvolver um conjunto de capacidades,
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as quais podem ser classificadas em três domínios, quais sejam: as capacidades conceituais, as capacidades comunicativas e as capacidades técnicas.
As capacidades conceituais dizem respeito ao domínio de conhecimentos sobre a modalidade, sobretudo daqueles produzidos no âmbito das Ciências do Esporte. Na análise de Mesquita (2000), para ser um bom treinador, não basta ter sido jogador e fazer como se viu fazer. O treinador constitui o elo fundamental entre os conteúdos do treino e os atletas, o que exige um corpo de conhecimentos sustentado pelas ciências, o qual não se restringe ao domínio do jogo e engloba necessariamente o conhecimento das especificidades biológicas, motoras, psicológicas e sociais dos atletas.
Considerando que a atividade do treinador pressupõe o contato diário com grupos significativos no contexto esportivo (país, dirigentes, comissão técnica, árbitros, atletas), revela-se também fundamental o desenvolvimento de capacidades comunicativas. Assim, no relacionamento com os atletas e os demais atores do sistema esportivo, o treinador deve ser capaz de transmitir informações e conhecimentos de maneira clara e objetiva. Para tanto, no relacionamento com os atletas, Mesquita (2000) descreve que os treinadores devem saber falar, desenvolvendo inclusive a capacidade de comunicação não verbal, mas também devem saber ouvir.
Mesquita (2000) aponta também a necessidade de desenvolvimento de capacidades técnicas, referenciadas em competências pedagógicas relativas à organização e condução do processo de treino. Ainda na análise de Mesquita (2000), as estratégias de intervenção e as condições de prática proporcionadas pelos treinadores têm influência decisiva no desenvolvimento dos atletas. A materialidade dessas capacidades revela-se no exercício das funções do treinador, na sua capacidade de gerir o treino, de informar e motivar os atletas, de escolher e colocar em prática métodos eficazes de treinamento, de intervir em situações de conflito, entre outras.
Em reflexão sobre as exigências da profissão de treinador, Marques (2000) destaca que o sucesso desses profissionais não deve ficar na dependência da intuição e da inspiração e que é fundamental a apropriação de um conjunto de conhecimentos e competências referenciadas na experiência prática, nos conhecimentos científicos e na capacidade de reflexão sobre as demandas do treinamento. Conhecimentos e competências
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nos domínios da organização, da Administração, da Economia, da Ciência e da Pedagogia. Um profissional capaz de gerir recursos e estratégias, de coordenar equipes de especialistas e de regular um conjunto de competências que extrapola as exigências de orientação das sessões de treino e competições.
Na mesma direção de Mesquita (2000) e Marques (2000), Bota e Colibaba-Evulet (2001) indicam um amplo conjunto de aptidões, habilidades e conhecimentos necessários ao treinador de esporte. Na percepção desses pesquisadores, a profissão de treinador exige o desenvolvimento e o constante aperfeiçoamento de uma série de capacidades profissionais referenciadas nas habilidades de demonstrante, de metodologista, nas aptidões de pedagogo, psicólogo, fisiólogo, bioquímico, matemático, pesquisador, dirigente, entre outras.
Na descrição de Marques (2000) e de Bota e Colibaba-Evulet (2001), chama a atenção o uso indiscriminado de uma série de termos (capacidade, aptidão, conhecimento, habilidade) para indicar o perfil de competências do treinador de esporte, sem o devido cuidado com a acepção de cada um, inviabilizando assim a definição de um conjunto coerente de competências. Esse sincretismo é, de certa forma, compreensível na medida em que as definições dos autores sobre a profissão de treinador oscilam entre uma profissão sustentada pela vocação – o que pressupõe o sacrifício, a abnegação, a paixão e a fidelidade – e uma profissão de conhecimentos – o que pressupõe apropriação de conceitos advindos das Ciências do Esporte.
Balbino (2005), em pesquisa a respeito de treinadores esportivos, investigou as competências de oito treinadores de equipes profissionais com passagens por seleções nacionais e com resultados expressivos em competições internacionais nas modalidades em que atuavam (futebol, voleibol, handebol, basquetebol).
Corroborando e ilustrando as proposições dos autores supracitados (BOTA e COLIBABA-EVULET, 2001; MARQUES, 2000; MESQUITA, 2000), Balbino (2005) constata que os treinadores possuem um conjunto de competências para dirigir o processo de treinamento. Na análise do autor, a ação pedagógica dos treinadores ultrapassa as situações concretas do cotidiano de treinamento, ou seja, superam as tarefas de planejamento e intervenção sobre as dimensões técnicas, táticas e físicas.
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Na compreensão de Balbino (2005), as demandas do trabalho dos treinadores extrapolam a intervenção sobre os comportamentos observáveis da dimensão física dos atletas e exigem a apropriação de um conjunto de competências para que esses profissionais possam lidar com situações complexas, tais como a mediação dos relacionamentos interpessoais dentro da equipe, a coordenação de equipes multidisciplinares (comissão técnica), a explicitação e o convencimento sobre os propósitos do treinamento, o estímulo ao empenho individual e coletivo, o tratamento com dirigentes e imprensa esportiva, entre outras exigências.
Diante desses elementos, Balbino (2005) afirma que a ação pedagógica dos treinadores transcende a metodologia, ou seja, a ação pedagógica dos treinadores vai além dos conhecimentos e do trabalho com métodos de treinamento para desenvolver as capacidades técnicas, táticas e físicas dos atletas, uma vez que está pautada no desenvolvimento de um conjunto mais amplo de competências – competências essas diretamente relacionadas à melhoria do desempenho esportivo –, mas que assumem significados para a formação geral dos atletas, já que estão referenciadas em valores humanos.
No âmbito desse debate, concordamos com Rosado e Mesquita (2011) quando afirmam que, apesar das dificuldades de caracterização da atividade profissional dos treinadores, é amplamente aceita a natureza multifacetada de suas competências, as quais, nas palavras dos autores, oscilam entre as competências de um professor e as de um estrategista de jogo, passando pelas competências de liderança, de gestão de pessoas, entre outras.
Nesse ponto, consideramos relevante destacar que as reflexões sobre o papel dos treinadores de esporte e, especialmente, sobre suas necessárias competências fazem parte de um movimento mais amplo de profissionalização, de busca de um novo estatuto profissional para esse grupo. Ou seja, uma tentativa de definição dos propósitos, das responsabilidades e de um conjunto de competências que estão na base da atuação profissional desses sujeitos e que possam orientar a formulação de processos formativos.
Apesar de reconhecer os avanços desse processo, sobretudo na valorização do trabalho dos treinadores, na busca de reconhecimento social e na melhoria do processo de
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formação e do exercício da profissão, consideramos importante problematizar duas limitações presentes no debate sobre o papel e as competências dos treinadores e que são fundamentais aos propósitos da presente pesquisa.
A primeira delas, vinculada mais claramente com a discussão das competências, é consequência da reivindicação de um estatuto científico ao trabalho do treinador, da exigência de formação universitária para a profissão, de aproximação com o campo das Ciências do Esporte e da valorização dos conhecimentos produzidos por essas ciências na formação e no exercício desses profissionais.
Evidentemente, não se trata de negar a relevância dos conhecimentos científicos na atuação profissional dos treinadores; sobre isso vale destacar que os avanços no campo da preparação física de atletas são resultados de pesquisas nas áreas da Fisiologia do Exercício, da Bioquímica, da Biomecânica, entre outras áreas sustentadas por conhecimentos de natureza científica.
Contudo, temos percebido que a reivindicação de um novo status profissional aos treinadores, por via da definição de um conjunto de competências profissionais, tem sido forjada pela aproximação com o ambiente acadêmico, sobretudo pela valorização dos conhecimentos teóricos de natureza científica em detrimento dos conhecimentos práticos obtidos por meio da experiência, ancorados em uma tradição de saber fazer.
O discurso amplamente propalado é de que não basta ter experiência com a modalidade para se tornar um bom treinador, ou seja, não basta ter sido jogador, não basta ter vivência prática com a modalidade, é fundamental ter conhecimentos científicos que possam sustentar e qualificar a atuação profissional dos treinadores. E, nesse intuito, os conhecimentos das Ciências do Esporte têm sido apresentados como alternativa e em oposição aos conhecimentos práticos obtidos por meio das experiências com a modalidade, sem os quais os treinadores continuarão atuando com base na tradição, pautados por conhecimentos no nível do senso comum.
Mais uma vez, não se trata de negar a pertinência do conhecimento científico na formação dos treinadores, mas de evidenciar que o movimento de supervalorização desses conhecimentos, sobre o qual a universidade exerce poder decisivo, tem contribuído para desqualificar os conhecimentos e competências obtidas por meio da experiência, o que em
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nosso entendimento representa um retrocesso ao processo de formação e desenvolvimento profissional de treinadores.
Assim como diversos autores no campo da formação de treinadores, defendemos a necessidade de qualificar o trabalho dos treinadores por meio da incorporação de conhecimentos científicos produzidos no contexto das universidades. Contudo, temos constatado que os conhecimentos práticos obtidos nas experiências com a modalidade – seja observando, jogando ou trabalhando – exercem função primordial na constituição da base de saberes e das identidades dos treinadores, criando o núcleo gerador de sentido à atuação desses profissionais e, portanto, não devem ser negligenciados e desqualificados.
Por esses motivos, preferimos nos aproximar da discussão sobre as competências dos treinadores buscando compreender seus saberes, independentemente da origem social desses saberes, não apenas aqueles socializados na universidade, mas também os advindos da socialização pré-profissional, bem como da socialização profissional ao longo da carreira. A segunda limitação, presente no debate sobre as competências dos treinadores, traz consequências à definição do papel profissional desses sujeitos. Tal limitação pode ser caracterizada pelo inflacionamento das competências necessárias à atuação do treinador, envolvendo a ampliação das tarefas e funções sob sua responsabilidade. Afinal de contas, qual é o papel dos treinadores das categorias de formação? Gestor de pessoas? Líder de equipes multidisciplinares? Estrategista de jogo? Professor?
Apesar de concordarmos com o caráter multifacetado das competências dos treinadores, é forçoso reconhecer que no contexto da formação de jovens esportistas o papel do treinador deve estar mais bem delineado. Os treinadores devem ter clareza do cerne de sua atividade profissional, o que não exclui a possibilidade de seleção de um conjunto de competências profissionais, mas exigindo a definição dos propósitos e responsabilidades desse grupo.
Reconhecemos que o tema é espinhoso e de difícil equacionamento, na medida em que põe à prova diferentes concepções sobre o papel das categorias de formação esportiva. Apesar disso, temos defendido que o papel do treinador deve estar orientado para a dimensão pedagógica presente em seu trabalho, já que sua atuação profissional assume um caráter eminentemente educacional, sobretudo na relação com os atletas.
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Wikeley e Bullock (2006), por exemplo, defendem que o treinamento seja observado como uma obra educativa, já que concerne aos treinadores colaborar com as aprendizagens de grupo e de indivíduos. Os treinadores são educadores, visto que trabalham com a finalidade de alcançar níveis mais elevados de desempenho. As autoras afirmam ainda que o trabalho do treinador guarda relações com a docência, uma vez que sua atuação está pautada no processo de ensino-aprendizagem e o sucesso do treinamento depende da qualidade das relações estabelecidas entre o treinador e o atleta.
Na mesma direção, Jones (2006a) aponta que existem mais similaridades que diferenças entre o trabalho de professores e treinadores, já que ambos devem lidar com situações complexas e problemáticas, com desafios que são localizados e só podem ser acessados no terreno profissional. No coração do treinamento está o ensino e a aprendizagem, bem como as inúmeras formas pelas quais os treinadores buscam desenvolver e melhorar seus atletas. Para Jones (2006a), no treinamento, assim como na docência, os treinadores lidam com uma quantidade elevada de conhecimentos tácitos, boa parte deles inexplorada, o que exige a mobilização de saberes das mais diversas naturezas.
Apoiado nesses pressupostos, Jones (2006a) reivindica aos treinadores o papel de educadores e reconhece o treinamento como um processo pedagógico complexo, o qual pode ser amplamente beneficiado pela aproximação com as teorias pedagógicas, assumindo definitivamente seu caráter educativo.
Em resumo, com base na análise da produção acadêmica sobre o papel e as competências dos treinadores, bem como no olhar atento para a atual realidade do treinamento nas categorias de formação, é possível percebermos um quadro indefinido, em construção, no qual convivem – em permanente tensão – diferentes projetos sobre o que de fato representam os propósitos, as responsabilidades e as demandas do trabalho dos treinadores.
No contexto desse debate, no que diz respeito ao papel profissional, estamos alinhados ao grupo que reconhece o treinamento como um ambiente educacional por excelência e que, consequentemente, reivindica aos treinadores o papel de educadores, ou seja, que são convocados a orientar suas intervenções com base na dimensão pedagógica de seu trabalho, explicitando os valores por trás de sua prática. Indo um pouco mais adiante,
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acreditamos que não se trata de qualquer reflexão pedagógica, mas daquela ancorada no entendimento do esporte como fenômeno sociocultural, patrimônio cultural da humanidade, que se constitui enquanto direito social no âmbito dos preceitos da sociedade democrática e republicana brasileira, fonte potencial de formação para o exercício da cidadania.
Por fim, no que diz respeito ao debate sobre as competências, reconhecemos o caráter complexo e multifacetado do trabalho dos treinadores, exigindo a apropriação de um conjunto amplo de competências. Em contrapartida, alertamos que esse debate tem sido forjado com base na valorização dos conhecimentos teóricos produzidos no contexto das Ciências do Esporte em detrimento dos conhecimentos práticos obtidos nas experiências no terreno profissional, o que nos parece um retrocesso, na medida em que as experiências profissionais são fontes potenciais na obtenção dos saberes e na constituição das identidades dos treinadores.