Capítulo V- Apresentação e análise dos dados
V.1 Análise dos documentos oficiais
V.1.2 PAPES e o Referencial de Educação para a Saúde
O Programa de Apoio à Promoção e Educação para a Saúde (PAPES) elaborado pelo Ministério da Educação tem por base a definição da OMS (1998) para a Educação para a Saúde. Logo na introdução do documento pode-se ler-se:
“…A Organização Mundial de Saúde (OMS, 1998) define Educação como ‘qualquer combinação de experiências de aprendizagem que tenham por objetivo ajudar os indivíduos e as comunidades a melhorar a sua saúde,
7http://pns.dgs.pt/. Retirado em outubro 5, 2018. Estes programas não serão contudo, neste estudo,
60 através do aumento de conhecimentos ou influenciando as suas atitudes…” (PAPES, 2014, p. 4).
Percebe-se nesta definição uma combinação de experiências de aprendizagem que tenham por objetivo melhorar a saúde dos indivíduos ou da comunidade, através do aumento da sua capacidade de controlarem este estado de saúde. É, igualmente, notório, o reconhecimento de o desenvolvimento do Programa resulta de benefícios das parcerias entre o setor educativo e o da saúde, tendo-se estabelecido um protocolo entre Ministérios a 7 de fevereiro de 2006.
Neste documento, é ainda feito referência à rede Europeia de Escolas Promotoras de Saúde (SHE) que surge no final dos anos 90, e onde as ações de EpS tomam lugar. Na página 4 do documento pode ler- se que “Uma EpS se caracteriza por uma abordagem integral e plena de toda a escola, ao nível da sua cultura, política e prática, o que determina a forma como vê o aluno e a comunidade educativa”.
Estando já a EpS já prevista na Lei de Base do Sistema Educativo de 1986 (no art.º 47, alínea 2 da Lei nº 46/86) o Ministério da Educação tem vindo a definir e a melhorar as medidas das políticas de Promoção e Educação para a Saúde.
Assim, durante alguns anos a Promoção e Educação para a Saúde dependia da adesão, por parte das escolas, da sua pertença à Rede Nacional de Escolas Promotoras da Saúde (RNEPS), sendo que a partir de 2005 a Promoção e Educação para a Saúde passou a fazer parte do Projeto Educativo de Escola (Despacho nº 25.995/2005, de 16 de dezembro).
A Lei n.º 60/2009, de 6 de agosto, estabeleceu que cada Agrupamento de escola e escola deverá ter uma equipa multidisciplinar de educação para a saúde, coordenada por um professor e desde 2012 cabe à Direção-Geral de Educação fornecer as orientações e os instrumentos necessários para que as ações de EpS possam ser implementadas em meio escolar.
61 Assim o PAPES (com início no ano letivo 2014-15) surge neste âmbito, enquanto programa orientador das práticas de EpS nas escolas, disponibilizando materiais de apoio, inclusive o manual produzido pelo
Schools for Health in Europe (SHE) na versão adaptada para Portugal, com
o financiamento e a supervisão desta Rede Europeia. Sendo desde o Despacho n.º 25.995/2005, de 16 de dezembro determinada a obrigatoriedade das escolas incluírem no seu Projeto Educativo a área da Educação para a Saúde, a responsabilidade de implementação do PAPES, passou a ser de cada agrupamento de escolas e escola não agrupada; estando a seu cargo a criação de uma equipa interdisciplinar de educação para a saúde, coordenada por um professor.
As principais finalidades do PAPES passam por promover nas Escolas a literacia em Saúde, atitudes e valores que apoiem comportamentos saudáveis, a valorização desses comportamentos e a criação de condições ambientais para uma Escola Promotora de Saúde.8 Os objetivos estratégicos visam universalizar o acesso à educação para a saúde em meio escolar, qualificar a oferta da educação para a saúde em meio escolar e consolidar o apoio aos projetos em meio escolar. 9
Existindo uma equipa de professores com formação específica em EpS que dinamiza o programa, sob a tutela do Ministério da Educação, está prevista a apresentação do PAPES em 3 encontros regionais destinados a professores coordenadores da Educação para a Saúde, diretores dos agrupamentos de escolas e/ou outros profissionais da educação e da saúde; a sua divulgação através da página eletrónica da Direção-Geral da Educação, bem como a criação de uma conta de correio eletrónico para esclarecimento sobre o PAPES. Cabe também à equipa, a elaboração de uma check-list para ajuda na autoavaliação e monitorização de projetos nas escolas, a elaboração de uma lista de indicadores que facilitem o desenho e a avaliação do projeto e ainda cabe a esta equipa a responsabilidade na formação e e-learning sobre o PAPES. (PAPES, 2014, p.15)
8 PAPES, 2014
62 O PAPES destaca cinco áreas temáticas: a Saúde Mental e Prevenção da Violência; a Educação Alimentar; Atividade Física; Comportamentos Aditivos e Dependências e Afetos e Educação para a Sexualidade (PAPES, 2014, p. 19)
São ainda destacados neste documento, aspetos ambientais da Educação para a Saúde e aspetos psicológicos da Educação para a Saúde. Ora estes conteúdos podem chegar às crianças e jovens de diferentes formas, seja pela sua “infusão” em todas as disciplinas (inclusão na área de conhecimento pelo reconhecimento e competência do docente da importância da educação para a saúde) ou através da criação de uma área específica, seja através de uma nova disciplina ou através da Escola Promotora de Saúde. “Algumas escolas ao abrigo da flexibilidade curricular prevista na reforma do sistema educativo têm criado disciplinas de saúde.” (Gomes, 2009, p. 87) As vantagens da criação de uma disciplina específica, centra-se numa abordagem mais completa de temas relacionados com a saúde.
Olhando agora o Referencial de Educação para a Saúde, este é um documento de 2016, resultado da parceria entre o Ministério da Educação- Direção-Geral da Educação e da Direção-Geral da Saúde, protocolada em 2014. Este referencial é uma ferramenta educativa flexível, no sentido em que pode ser livremente adaptado pelos profissionais que operacionalizam as práticas de educação para a saúde em contexto escolar, nomeadamente enfermeiros e professores. Contudo, fica por compreender até onde vai a autonomia dos profissionais nessa adaptação, percebendo- se, ainda, a forma discreta com que o Ministério sugere a aplicação do programa em causa.
O presente referencial encontra-se organizado por níveis de educação e ciclos de ensino, tendo identificado cinco temas globais: Saúde
Mental e Prevenção da Violência; Educação Alimentar; Atividade Física; Comportamentos Aditivos e Dependências; Afetos e Educação para a Sexualidade. Para cada um destes tópicos definiram-se subtemas e
63 valores e comportamentos face ao que se pretende atingir com as ações desenvolvidas (REpS, 2016, p.7).
Ao nível do eixo da Saúde Mental e Prevenção da Violência, o referencial dá conta da importância de se encararem as crianças e jovens enquanto cidadãos plenos, privilegiando uma intervenção precoce sustentada no poder da comunicação e da relação, potenciando o espaço Escola enquanto lugar de Bem-estar num âmbito alargado. Por este motivo este eixo divide-se em 12 subtemas: Identidade; Pertença; Comunicação; Emoções; Autonomia; Interação; Risco; Proteção; Violência; Escolhas, desafios e perdas; Valores e Resiliência. Estes subtemas representam os alicerces do referido eixo, sendo que a sua abordagem varia de acordo com a faixa etária e o ciclo de estudos a que se refere (REpS, 2016, p.9).
Relativamente à Educação Alimentar, o segundo eixo abordado no referencial, o enfoque direciona-se para questões relacionadas com a sobre e a subnutrição. Na consciência de que a má qualidade na escolha alimentar se relaciona com as crescentes desigualdades socioeconómicas, uma vez que, por exemplo, a obesidade em Portugal parece crescer nas crianças provenientes de famílias com menos escolaridade e com menor capacidade económica, e tendo como suporte as orientações da OMS, nomeadamente a Vienna Declaration on Nutrition and Noncommunicable
Diseases in the Contexto of Health 2020 e a Comissão Europeia no EU Action Plan on Childhood Obesity 2014-2020, segundo o REpS (2016) a
estratégia passa por criar políticas regulamentadoras da oferta alimentar na Escola, bem como integrar toda a comunidade educativa nas escolhas alimentares, não esquecendo contudo as condicionantes demográficas, ambientais e tecnológicas. São oito os subtemas que se incluem neste segundo eixo do Referencial (eixo da Educação Alimentar) a designar:
Alimentação e influências socioculturais; Alimentação, nutrição e saúde; Alimentação e escolhas individuais; O Ciclo do alimento– do produtor ao consumidor; Ambiente e alimentação; Compra e preparação de alimentos; Direito à alimentação e segurança alimentar; Alimentação em meio escolar.
64 O terceiro eixo é o da Atividade Física, cuja abordagem também se alicerça em dados fornecidos pela OMS, e tem como principal objetivo contrariar a atual tendência à inatividade física e ao sedentarismo. Os subtemas incluem por isso, o Comportamento sedentário e a Atividade física e desportiva (REpS, 2016, p.11).
O quarto eixo refere-se aos Comportamentos aditivos e
Dependências, sendo que no âmbito da educação a aposta vai para a
intervenção preventiva através da criação de um ambiente escolar positivo que permita à criança/jovem sentir-se seguro e envolvido para que o início de certos comportamentos aditivos e dependências seja menos provável, uma vez que é na Escola que grande parte destes comportamentos têm início. Os subtemas que aqui se incluem são: Comportamentos aditivos e
dependências (CAD); Tabaco; Álcool; Outras substâncias psicoativas
(SPA); Outras adições sem substância (REpS, 2016, p.12).
O quinto, e último eixo, diz respeito aos Afetos e Educação para a
Sexualidade, e tem como subtemas: Identidade e Género; Relações
afetivas; Valores; Desenvolvimento da sexualidade; Maternidade e Paternidade responsável e Direitos sexuais e reprodutivos (REpS, 2016, p.13).
Pelo que foi exposto, várias são as ligações que se conseguem estabelecer entre os programas apresentados, ainda que os profissionais da saúde se apoiem quase que em exclusivo no PNSE e os profissionais da educação no PAPES e no Referencial de Educação para a Saúde, fica por esclarecer se os programas se completam ou divergem ou mesmo se, se sobrepõem, sobretudo ao nível da prática de educação para a saúde.
Ora as áreas temáticas incluídas no PAPES (2014), articulam-se, ainda que não totalmente, com os programas previstos no PNSE (2015). O QUADRO 2 torna mais evidente esta articulação que, como se observa, é bastante parcial.
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QUADRO 2- Possíveis ligações dos programas de EpS
Fonte: construído com base na análise dos programas