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PARÁFRASE E POLISSEMIA

No documento marcospaulodearaujobarros (páginas 52-54)

Dentre os processos para abordar os fenômenos de reformulação e movimento de sentido, a Análise do Discurso, a partir dos trabalhos de Eni Orlandi, trabalha com as noções de paráfrase e polissemia, equivalendo, à primeira noção, a ideia de “mesmo” do discurso, reformulação do anteriormente dito de outra maneira em outro lugar; e, à segunda noção, o “diferente” no discurso, ou seja, o que aparece de novo em relação ao sentido já existente visto a incorporação de outros sentidos. Desse modo, nos deteremos, a partir daqui, sobre a noção de paráfrase para a AD. Para Michel Pêcheux, em seus primeiros trabalhos sobre a Análise do Discurso, os processos metafóricos correspondem ao deslizamento de sentido dentro do discurso. A noção de paráfrase tem grande importância no que se refere à gênese do sentido daquilo que é dito, pois, para o autor, “a produção do sentido é estritamente indissociável da relação de paráfrase entre sequências tais que a família parafrástica destas sequências constitui o que se poderia chamar a ‘matriz do sentido’” (PÊCHEUX, 1997, p.169).

A matriz do sentido, de acordo com Pêcheux, remete-nos ao que apresentamos, anteriormente, e entendemos por Formação Discursiva (lugar de constituição do sentido), pois toda formulação de discurso deve pertencer a uma FD para que se estabeleça o sentido adequado ao que se diz. Então, Pêcheux explica que o “efeito de sentido” se dá a partir dessa relação existente no interior da família parafrástica: entre as reformulações (paráfrase) e as Formações Discursivas (PÊCHEUX, 1997, p.169), concedendo à formação discursiva o status de espaço de reformulações que possibilita esse movimento do discurso. Desse modo, a AD mantém uma relação firme com a paráfrase. A partir da afirmação de Pêcheux de que uma palavra, uma expressão ou uma proposição, não possuem sentido literal, e sim adquirem sentido quando inseridas numa formação discursiva, ou, ainda, palavras distintas podem possuir o mesmo sentido dentro de uma formação discursiva dada, privilegia-se, assim, o papel da paráfrase na teoria do discurso. “A partir de então, a expressão processo discursivo passará a designar o sistema de relações de substituição, paráfrases, sinonímias, etc., que funcionam entre elementos linguísticos – ‘significantes’ – em uma formação discursiva dada”

(PÊCHEUX, 1997a, p.161).

Neste caso, como aponta Maingueneau (1997), a importância do processo parafrástico na AD se dá, precisamente, pelo fato de que, em uma formação discursiva, o sentido é apreendido pelo deslizamento de uma fórmula à outra, no interior de classes de equivalência.

Frente ao sistema de relação de substituição, Pêcheux convenciona chamar esse processo de esquecimento nº2, ou seja, o “esquecimento pelo qual todo sujeito-falante seleciona no interior da formação discursiva que o domina, isto é, no sistema de enunciados, formas e sequências que nela se encontram em relação de paráfrase” (1997b, p.173). Dessa maneira, podemos dizer que em toda formação discursiva reside uma gama de possibilidades enunciativas nas quais atua o processo parafrástico. Pêcheux define dois tipos de esquecimento: o nº1 é formulado com base na noção de sistema inconsciente. “O esquecimento nº1, que dá conta do fato de que o sujeito-falante não pode, por definição, se encontrar no exterior da formação discursiva que o domina” (PÊCHEUX, 1997b, p.173). O esquecimento nº2 é observado no corpo do texto.

Em geral, inicialmente, podemos dizer que a paráfrase seria o ato de dizer a mesma coisa de outra maneira, a reformulação da forma de um discurso já proferido, ou melhor: “duas frases estão em relação de paráfrase se a soma de suas partes constitui o mesmo sentido por identidade ou equivalência lexical” (PÊCHEUX, 1997a, p.275). Por essa razão, a paráfrase ganha a titulação de “mesmo” no processo discursivo. Sobre a noção de paráfrase, Pêcheux diz, também, que se trata, especialmente, de estudar o outro no interior do mesmo. Para ele, as relações entre estruturas sintáticas fazem com que um conteúdo proposicional estável (por construção discursiva) possa ser investido de sentidos diferentes. Nesse caso, o fato de estudar o “diferente” no processo discursivo abre a possibilidade de estudo dos processos polissêmicos do discurso. Portanto, a noção de paráfrase implica diretamente na noção de polissemia.

Falar a mesma coisa com outras palavras, ou parafrasear, seria, para alguns, “(...) colocar-se em uma posição de exterioridade relativa face à sequência de seu próprio discurso” (MAINGUENEAU, 1997, p.96); seria retirar o compromisso de proferir as mesmas palavras já ditas anteriormente; seria assumir uma construção lexical e sintática diferenciada para dizer a mesma coisa; ou seria, também, não usar os mesmos termos ditos por outro para ocasionar uma ilusão de autenticidade. Entretanto, na perspectiva discursiva, falar de outra maneira, como consequência, resulta na evocação de outros sentidos no que é dito, pois, a parafrasagem aparece em AD como uma tentativa para controlar em pontos nevrálgicos a polissemia aberta pela língua e pelo interdiscurso. Fingindo dizer diferentemente a ‘mesma coisa’ para restituir uma equivalência preexistente, a paráfrase abre, na realidade, o bem-estar que pretende absorver, ela define uma rede de desvios cuja figura desenha a identidade de uma formação discursiva (MAINGUENEAU, 1997, p.96). Como exemplo desse processo,

Mateus Andrade (2007) propõe a expressão “CD pirata”, chamado muitas vezes também de “CD genérico”. Segundo Andrade (2007), percebemos que o termo “genérico” traz consigo o sentido adquirido numa formação discursiva dada: a farmacêutica. O uso da palavra “genérico” apresenta um deslizamento de sentido entre formações discursivas. O sentido da palavra “genérico”, aplicado frequentemente para medicamentos similares e com preço mais acessível ao consumidor, presta, com eficácia, o sentido à explicação do “CD pirata”, que também é similar e tem valor mais barato.

Assim, essa tentativa de dizer a “mesma coisa” de outra maneira (no caso chamar de “CD genérico”) implica, diretamente, na reestruturação de sentidos existentes na expressão original (“CD pirata”), entendendo, desta forma, que não há paráfrase discursiva neutra; toda ela, a partir da reformulação, reflete o processo polissêmico. Observamos, no entanto, que a atribuição de “genérico” ao “CD Pirata” também sobrepõe novos sentidos ao próprio remédio genérico, na medida em que reforça um sentido compartilhado por alguns grupos sociais de que os genéricos seriam inferiores. Ou seja, os deslocamentos de sentido se dão numa dupla direção, ora voltado para o objeto de designação e ora para o designador.

A polissemia pode ser entendida, como percebemos pela própria expressão, como as nuanças dos vários sentidos pré-existentes no interior de um objeto simbólico. Mais precisamente, refere-se à multiplicidade de sentidos existentes e os movimentos desses sentidos no interior de uma palavra, expressão ou proposição dada, quando parafraseada em determina circunstância. Na visão de Orlandi (1999), os conceitos de paráfrase e polissemia podem ser observados levando-se em conta que os processos parafrásticos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória. Assim, devemos pensar que a “paráfrase é a matriz do sentido, pois não há sentido sem repetição, sem sustentação no saber discursivo” (ORLANDI, 1999,p.38); já no processo polissêmico “o que temos é deslocamento, ruptura de processos de significação” (ORLANDI, 1999, p.36), ou seja, uma variante de sentido, traços múltiplos de sentidos contidos num objeto simbólico. Logo, a “polissemia é justamente a simultaneidade de movimentos distintos de sentido no mesmo objeto simbólico” (ORLANDI, 1999, p.38).

No documento marcospaulodearaujobarros (páginas 52-54)