2 Revisão do estado da arte 7
2.5 Qualidade dos resíduos orgânicos: avaliação, classificação e aplicação 50
2.5.1 Parâmetros reguladores da qualidade das lamas das ETARs 52
Ao nível comunitário a utilização das lamas de depuração na agricultura está sujeita ao disposto na Directiva 86/278/CEE que tem por objectivo “regulamentar a utilização agrícola das lamas de depuração por forma a evitar efeitos nocivos sobre os solos, a vegetação, os animais e o homem, incentivando ao mesmo tempo a sua correcta utilização”.
O progresso técnico e científico e a experiência acumulada desde então neste domínio têm levado as autoridades comunitárias a considerar a conveniência de proceder à revisão da directiva, visando o seu aperfeiçoamento. Neste contexto, no último documento de trabalho sobre esta matéria – Working document on sludge, 3rd Draft, 2000 – sugerem-se ou propõem- se alterações em vários domínios, dos quais se destacam no âmbito do presente trabalho, os padrões de qualidade das lamas e dos solos receptores.
Na directiva em vigor os valores-limite são estabelecidos apenas no âmbito dos metais pesados, tanto no que toca à sua concentração nas lamas como nos solos e ainda nas quantidades a introduzir anualmente nos solos através das lamas na base de uma média de 10 anos. Segundo o 3rd Draft (2000) para além das alterações que se sugerem neste mesmo âmbito, propõem-se, também, valores-limite para poluentes orgânicos e para agentes patogénicos.
Em linha com as alterações propostas, o Decreto-Lei n.º 446/91 que transpôs para direito interno a Directiva 86/278/CEE, foi recentemente revogado pelo Decreto-Lei n.º 118/2006, onde são já considerados outros parâmetros de qualidade, designadamente no que concerne à concentração de determinados poluentes orgânicos e à presença de organismos patogénicos, para além dos valores-limite para os metais pesados estabelecidos no diploma anterior.
Metais pesados
Nas três primeiras tabelas seguintes apresentam-se os novos valores-limite propostos para as concentrações de metais pesados nas lamas de utilização agrícola e nos solos receptores, bem como os valores-limite para as quantidades de metais pesados que será permitido incorporar anualmente nos solos na base de uma média de anos.
Nestas tabelas, apresentam-se, para comparação, os correspondentes valores fixados pela directiva em vigor, excepto os relativos ao crómio, que esta inicialmente não definiu e, ainda, os valores fixados pela legislação nacional.
53 Tabela 2.9 – Valores-limite das concentrações de metais pesados nas lamas de utilização agrícola, propostos e vinculativos.
Parâmetro Valores-limite (mg.kg
-1 ms)
Directiva n.º 86/278/CEE 3rd draft Decreto-Lei n.º 118/2006
Cd 20 - 40 10 20 Cr - 1000 1000 Cu 1000 – 1750 1000 1000 Hg 16 – 25 10 16 Ni 300 – 400 300 300 Pb 750 – 1200 750 750 Zn 2500 – 4000 2500 2500
Segundo o Decreto-Lei n.º 118/2006, apenas podem ser utilizadas em solos agrícolas as lamas tratadas30 que cumpram os valores-limite constantes dos parâmetros na Tabela 2.9. Quando a concentração de um ou vários metais pesados de uma lama ultrapassa os valores-limite estabelecidos, ela não poderá ser utilizada na fertilização do solo e deverá ter outro destino final que não esse.
Convém referir que os valores-limite das concentrações de metais pesados nas lamas actualmente em vigor no contexto nacional não sofreram alteração relativamente ao diploma anterior, ainda que o 3rd Draft proponha a diminuição das concentrações de cádmio e mercúrio permitidas nas lamas de utilização agrícola.
Tabela 2.10 – Valores-limite para a concentração de metais pesados nos solos propostos e vinculativos.
Parâmetro
Valores-limite (mg.kg-1 ms)
Directiva
86/278/CEE 3rd draft Decreto-Lei n.º 118/2006
6<pH<7 5≤pH>6 6≤pH<7 pH≥7 pH≤5,5 5,5<pH≤7 pH>7 Cd 1 – 3 0,5 1 1,5 1 3 4 Cr - 30 60 100 50 200 300 Cu 50 – 140 20 50 100 50 100 200 Hg 1 – 1,5 0,1 0,5 1 1 1,5 2 Ni 30 – 75 15 50 70 30 75 110 Pb 50 – 300 70 70 100 50 300 450 Zn 150 - 300 60 150 200 150 300 450
Relativamente à legislação em vigor, os valores-limite de concentração de metais pesados nos solos indicados na última coluna da Tabela 2.11, são aplicáveis apenas a solos com culturas que não sejam destinadas a consumo humano, como pastagens e forragens, culturas
30 As lamas tratadas por via biológica, química ou térmica, por armazenagem a longo prazo ou por qualquer outro processo, que promova a eliminação dos microrganismos patogénicos que ponham em risco a saúde pública, bem como a redução significativa do poder de fermentação de modo a evitar a formação de odores desagradáveis (Decreto-Lei n.º 118/2006).
54 industriais, culturas florestais e outras. No caso de solos com pH superior a 7,0, destinados a culturas para consumo humano, aplicam-se os valores-limite que figuram na coluna ao lado.
Tabela 2.11 – Valores-limite das quantidades de metais pesados que anualmente são permitidos aplicar ao solo na base de uma média de 10 anos.
Parâmetro Valores-limite (g/ha/ano)
Directiva n.º 86/278/CEE 3rd Draft Decreto-Lei n.º 118/2006
Cd 150 30 150 Cr - 3000 4500 Cu 12000 3000 12000 Hg 100 30 100 Ni 3000 900 3000 Pb 15000 2250 15000 Zn 30000 7500 30000
No que diz respeito às quantidades máximas de metais pesados que anualmente podem ser incorporados no solo, verifica-se que com a excepção da introdução de valor-limite para o crómio (não definido pela directiva, nem anteriormente pela legislação nacional), o documento do 3rd Draft não induziu alterações em termos da revisão da legislação, sendo os valores-limite vigentes para os diferentes parâmetros muito superiores aos valores propostos.
Compostos orgânicos e dioxinas
Na Tabela 2.12 figuram os valores propostos para os compostos orgânicos e para as dioxinas, não previstos na actual directiva, bem como os valores fixados pela legislação nacional. Como se pode observar na referida tabela, estes últimos correspondem a uma transposição dos valores propostos no 3rd Draft.
A análise destes parâmetros é obrigatória nas lamas destinadas à agricultura de ETARs que recebam águas residuais de outras origens para além da doméstica (Decreto-Lei n.º 118/2006).
55 Tabela 2.12 – Valores-limite da concentração de compostos orgânicos e dioxinas nas lamas utilizadas na agricultura propostos e em vigor.
Compostos orgânicos Valores-limite (mg/kg ms) Directiva n.º 86/278/CEE 3rd draft Decreto-Lei n.º 118/2006 PAH hidrocarbonetos policíclicos
aromáticos - 6 6
PCB compostos bifenilos policlorados - 0,8 0,8
AOX compostos organohalogenados
adsorvíveis - 500 500
LAS alquilo benzenossulfonatos leneares - 2600 2600
DEHP di(2-etilhexil)ftalato - 100 100
NPE nonifenóis e nonifenóis etoxilados - 50 50
Dioxinas Valores-limite (ng TE/kg ms) PCDD/F Dioxinas –
policlrorodibenzodioxinas/furanos - 100 100
Outros parâmetros
A utilização agrícola das lamas deverá ser feita sempre na perspectiva de retirar o máximo benefício do seu potencial fertilizante e, ao mesmo tempo, de minimizar o efeito negativo de substâncias nocivas que contenham, como os já referidos metais pesados e os compostos orgânicos, de forma a preservar, tanto quanto possível, a qualidade dos solos e das águas superficiais e subterrâneas. Torna-se, por isso, indispensável proceder à sua análise para verificar se satisfazem os padrões de qualidade atrás mencionados, por um lado; por outro lado, para determinar o valor fertilizante.
De acordo com o Decreto-Lei n.º 118/2006, a análise deve contemplar ainda, obrigatoriamente, os seguintes parâmetros:
- matéria seca; - matéria orgânica; - pH;
- azoto total;
- azoto nítrico e amoniacal; - fósforo total.
A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) e a Direcção Regional de Agricultura (DRA) podem exigir a análise de outros parâmetros, designadamente microrganismos patogénicos, tais como Salmonella spp e Escherichia coli..
56 Como acontece com as lamas, e imposta pelas mesmas disposições legais, nos solos é necessário analisar, para além dos metais pesados já referidos:
- pH; - azoto;
- fósforo.