2 TEXTO, INTERTEXTUALIDADE E CONCEITOS AFINS
2.4 Paródia, travestimento e pastiche
Em sua Poética, Aristóteles definiu a poesia “como uma representação em verso
das ações humanas” (Genette, 2010, p.24). Para o filósofo grego, essas ações tinham naturezas diferentes e opostas: uma seria mais subjetiva, levando em consideração a dignidade moral e/ou social (elevada ou vulgar); outra seria mais objetiva, tomando os modos de representação (narrativa ou dramática). Desse modo se constituiu o sistema aristotélico dos gêneros poéticos:
i) Tragédia: ação elevada no modo dramático; ii) Épico: ação elevada no modo narrativo; iii) Comédia: ação vulgar no modo dramático;
5Estudando as relações de derivação, Genette (2010) cunhou o termo ‘regime’ para dar conta do
iv) Paródia: ação vulgar no modo narrativo.
Os tipos de paródia, consoante Aristóteles, seriam:
i) Aplicação de um texto nobre, modificado ou não, a outro tema, geralmente vulgar; ii) Transposição de um texto nobre para um estilo vulgar;
iii) Aplicação de um estilo nobre (epopeia) a um tema vulgar ou não heroico.
De todas as origens da paródia que Genette (2010) analisou, a ideia mais defendida é que ela vem da rapsódia. O autor reconhece que o termo causa confusão:
(...) porque a usamos para designar ora a deformação lúdica, ora a transposição burlesca de um texto, ora a imitação satírica de um estilo. A principal razão desta confusão está evidentemente na convergência funcional dessas três fórmulas, que produzem em todos os casos um efeito cômico, geralmente às custas do texto ou do estilo “parodiado”: na paródia estrita, porque sua letra se vê de modo cômico aplicada a um objeto que a altera e a deprecia; no travestimento, porque seu conteúdo se vê degradado por um sistema de transposições estilísticas e temáticas desvalorizantes; no pastiche satírico, porque sua forma se vê ridiculari- zada por um procedimento de exageros e de exacerbações estilísticas. Mas essa convergência funcional mascara uma diferença estrutural muito mais importante entre os estatutos transtextuais: a paródia estrita e o travestimento procedem por transformação de texto, o pastiche satírico (como todo pastiche), por imitação de estilo. (p.36)
Após essa reflexão, Genette (2010) resolve, então, reavaliar a terminologia e propor algumas definições. Em nosso trabalho, abordaremos as noções de paródia (desvio de texto pela transformação mínima) e de travestimento (transformação estilística com função degradante/satírica). Porém, fazemos uma ressalva, seguindo a orientação de Faria (2014):
(...) a diferença entre paródia e travestimento repousa no grau de desvio (deformação) aplicado ao hipotexto. E, embora Genette (2010) marque diferenciações entre função e estrutura em sua taxionomia, o critério de transformação dos dois tipos é, também, insuficiente para, objetivamente, poder diferenciar os tipos de hipertextualidade. (...) Durante a análise e explicações, inferimos que podemos colocar paródia e travestimento burlesco em uma só categoria (...) (p.102)
No exemplo 5, a clássica carta de Pero Vaz de Caminha teve seu conteúdo modificado; porém, conservou seu estilo. Ao contrário do que se pensa, a paródia não consiste, apenas, em ridicularizar outro texto ou provocar humor. Por vezes, ela altera somente a essência, mudando, assim, sua intencionalidade. Neste exemplo, esse
fenômeno intertextual tem como objetivo fazer uma crítica ao Brasil no que tange à política, aos costumes, ao comportamento da sociedade, entre outros aspectos.
(5) Paródia da Carta de Caminha
Olá, meu amado Rei, aqui quem fala é o Pero Vaz. Está me ouvindo bem? Peguei emprestado o celular de um nativo aqui da nova terra. Tudo bem, Capitão Pedro está lhe mandando um abraço. Chegamos na terça, 21 de abril, mas deixei para ligar no Domingo porque a ligação é mais barata.
É, aqui tem dessas coisas. Os nativos ficaram espantados com a nossa chegada por mar, não achavam que éramos Deuses, Majestade. Acharam que éramos loucos de pisar em um mar tão sujo.
A ligação está boa? Pois é, essa terra é engraçada. Tem telefonia celular digital, automóveis importados, acesso gratuito à Internet, mas ainda tem gente que morre de malária e está cheia de criança barriguda de tanto verme. É meio complicado explicar.
Se já encontramos o chefe? Olha, Rei, tá meio complicado. Aqui tem muito cacique para pouco índio.
Logo que chegamos a Porto Seguro, tinha um cacique lá que dizia que fazia chover, que mandava prender e soltar quem ele quisesse. É, um cacique bravo mesmo... Mais para o Sul encontramos outra tribo, uma aldeia maravilhosa e muito festiva, com lindas nativas quase nuas. Seguindo em direção ao Sul, saímos do litoral e adentramo- nos ao planalto. Lá encontramos uma tribo muito grande. A dos índios Sampa. Conhecemos seu cacique, que tinha apito, mas que não apitava nada, coitado. Dizem até que ele apanha da mulher. O senhor está rindo, Majestade? Juro que é verdadeiro o meu relato. Como vossa Majestade pode perceber, é uma terra fácil de se colonizar, pois os nativos não falam a mesma língua.
Sim, são pacíficos sim. É só verem um coco no chão para eles começarem a chutá-lo e esquecerem da vida. Sabem, sabem ler, mas não todos. A maioria lê muito mal e acredita em tudo que é escrito. Vai ser moleza, fica frio.
Parece que há um "Cacicão Geral", mas ele quase não é visto. O homem viaja muito. Dizem que se a intenção for evitar encontrá-lo, é só ficar sentado no trono dele. Engraçado mesmo é que a "indiaiada" trabalha a troco de banana. É, banana!!! Todo mês eles recebem no mínimo 151 bananas. Não é piada, Majestade.!! É sério!! Só vindo aqui pra ver.
Olha, preciso desligar. O rapaz que me emprestou o telefone celular precisa fazer uma ligação. Ele é comerciante. Disse que precisa avisar ao povo que chegou um novo carregamento de farinha. Engraçado... eles ficam tão contentes em trabalhar... A cada mercadoria que chega, eles sobem o morro e soltam rojões.
É uma terra muito rica, Majestade. Acho que desta vez acertamos em cheio. Isso aqui ainda vai ser o país do futuro. (BOND BILAU, 2008)
Nos exemplos 7 e 8 observamos a paródia presente em dois textos verbo-visuais, ambos inspirados pela grande obra de arte da pintura: a Mona Lisa, exemplo 6, de Leonardo da Vinci6.
Figura 1: Mona Lisa (6)
Fonte: Leonardo da Vinci (1503-1506)
O texto 7 transforma o texto-fonte baseado no personagem Coringa do filme
“Batman: o cavaleiro das trevas”7. A pergunta “Why so seriuos?” ficou famosa por ser
usada na fala do personagem, que, a cada vítima capturada, explica por que tem uma cicatriz no rosto que lembra um grande sorriso largo. A intenção, neste caso, seria apenas de humor e/ou lúdica.
Figura 2: Why so seriuos?
(7)
Fonte: Andre Luis Mora (2015)
Já o exemplo 8, apesar de transformar o mesmo texto-fonte do exemplo anterior, fez isso com outra finalidade. Como se trata da propaganda de um produto de limpeza, o idealizador deste texto tomou a pintura da Mona Lisa como forma de convencer o destinatário de que o produto seria tão bom a ponto de ser comparado a uma obra de
arte ou, pensando em outra possibilidade, de insinuar que, quando o produto fosse utilizado, o resultado seria “uma obra de arte”.
Figura 3: Bombril (8)
Fonte: Washington Olivetto e Francesc Petit (1998)
Mesmo com uma abordagem literária e, principalmente, não direcionada a textos verbo-visuais, o estudo de Genette (2010) é fundamental para nossa pesquisa, que segue a corrente da Linguística Textual, porque analisa os fenômenos intertextuais através de relações de transformação e de imitação, incluídas numa categoria maior, denominada
“relação de derivação”. Essas manifestações de intertextualidade são exatamente
aquelas que, frequentemente, estão presentes nos gêneros em quadrinhos – foco de nosso trabalho. Por isso também adotamos esta perspectiva para desenvolver nossa proposta de intervenção pedagógica. A par dela, utilizaremos a proposta de Miranda (2010) para o fenômeno que ela designa como intertextualização, assunto da próxima seção.