Capítulo 1 | Peirce e Bateson
IV. Para além de dedutivismos e indutivismos
Mas, espera aí um pouquinho... tudo muito bom, tudo muito bem, tudo muito lindo de morrer, esse delírio todo sobre a obliquidade epistemológica que vem à tona dessa dança triádica! No ápice da festa, dirigismos outros vêm se impor e tomar o controle dos circuitos decisórios acadêmicos. Fuém, fuém, fuém... “E agora, José? O dedutivismo chegou, e a festa acabou” 82. A “nova ordem mundial”, que tem se estabelecido na mão grande, e se mantém a portas fechadas, não simpatiza nem um pouco com esse discurso de “ciência feliz” ou de
“gaio saber”; antes, seu lema hipnotizante é bem outro: “Queremos eficiências, e que sejam lucrativas, e é para já”. E para completar essa era de predação, que só sabe ver aquilo que lhe é explorável e útil e rentável, há ainda o consentimento dos indutivistas. Nesse contexto, ninguém se atreva a propor uma pesquisa “inútil” e “delirante”, ou cabeças vão rolar.
Logo, em obediência a tal dedutivismo, ainda tão entranhado como paradigma instrumental e transmissivo da comunicologia, a investigação doutoral aqui proposta sobre epistemologias, aprendizagens, conceitos, rastros, ideias, monstros etc., deveria ser podada segundo as taras formulariomaníacas já estabelecidas pelos dispositivos de avaliação e financiamento. A pesquisa assumiria então esse feitio: perguntaria, por exemplo, sobre como otimizar os métodos de produção de narrativas, aplicando categorias de personagens com base em algum autor francês, ou um americano tal, com o objetivo de tornar os produtos audiovisuais brasileiros tão competitivos, no mercado internacional, quanto os argentinos, por assim dizer; ou perguntaria sobre que tipo de design de interface gráfica é possível projetar para que os consumidores das novas tecnologias tresdê possam imergir numa experiência de usuário “more-friendly”, ao usarem controle remoto para acessar grupos de ícones funcionais que surgem em sequência na tela, ou quando estiverem se divertindo em ser algum avatar assassino do último videojogo sensacional lançado nas lojas. E por aí vai.
Quiçá menos grave, embora amiúde conivente com as hordas dedutivistas, são as tribos indutivistas do metiê científico da comunicação, mais preocupadas em se garantir uma
82 Talvez José Luiz Braga também possa vir em nosso socorro, “Comunicação, disciplina indiciária”, in: Revista Matrizes, 1, 2008, pp. 77:
“Ao lado destes riscos, de dispersão e de derivação centrífuga, outros direcionamentos de estudos de caso podem resultar em reduzida contribuição para desenvolvimentos na constituição da área de conhecimento. Um desses «desvios» ocorre quando o caso estudado serve apenas para confirmar uma teoria: fala-se abstratamente «sobre um objeto», com base em teorias aprioristicamente escolhidas, mostrando que este se conforma às perspectivas expressas por estas.
Outro desvio ocorre quando o caso é trabalhado apenas na apreensão empírica da coisa singular – evidenciando seu funcionamento
«descritivamente», sem fazer inferências, ou fazendo apenas inferências técnicas. Detalham-se «todos» os ângulos percebidos, intuitiva ou sistematicamente levantados, sem estabelecer ordens de relevância, ou apenas de modo impressionístico, não expressamente justificado. Embora isso possa ter utilidade prática, não representa avanço de conhecimento. Aqui, não há tensionamento do objeto por perspectivas teóricas nem destas pelo objeto. Trata-se de riscos opostos: na primeira alternativa, não se dá suficiente atenção ao caso em sua singularidade empírica; na segunda, não se faz o esforço de avançar das constatações empíricas para o desenvolvimento teórico”.
No rastro das presenças imaginárias – Capítulo 1 | Peirce e Bateson
vaidosa carreira acadêmica, com gordo currículo de publicações que quase ninguém lê – sejamos adultos e honestos! –, ou, se alguém tenta ler, desiste no início, às vezes já no resumo.
Tulhas e tijolos de superfluidade detalhista estéril, quase autista. Nesse âmbito, a investigação aqui proposta seria formatada assim: perguntaria sobre que estruturas de actantes é possível identificar nos filmes ou quadrinhos de vampiros e lobisomens para, em seguida, encaixá-los em tabelas classificatórias, com frequência em desdobramentos dicotômicos; ou perguntaria acerca das dimensões plásticas e figurativas dos robôs e ciborgues que surgem nos seriados televisivos de ficção científica, a partir de uma análise do discurso da obra do diretor tal. Tão logo preenchidos quadrados e esquemas, todos se dão por satisfeitos, e publicam mais livros e artigos reexplicando uns aos outros que o coco vem do coqueiro. O escândalo da preguiça acrítica. Meros “funcionários do aparelho”, diria Vilém Flusser83. Venha alguma empresa de televisão a fechar seu negócio, ou mesmo bastando tirar do ar algumas telenovelas, e muitos grupos de pesquisa em comunicação não mais teriam “objeto epistemológico” algum para enfiar em suas sacrossantas tabelinhas.
Essa atrofia cognitiva, a que os deslumbrados midiáticos acham por bem submeter outros a aceitar e servir, é resultado da invasão e da infecção de certo pensamento mercadológico que vem se disseminando como gás onipresente nos alvéolos da academia, e que aspira convencer todos a acreditarmos que sua mundividência é uma “epistemologia”
digna de respeito. Seria mais justo chamá-la de imundividência pseudoepistemológica. Ou, para sermos retoricamente simpáticos e mais diplomáticos, poderíamos dizer que a única modalidade de teoria do conhecimento que essa mundividência, produtivista e rendimentista, tem a oferecer é aquela de como aplicar rapidinho o que se ouve em palestras motivacionais para ganhar mais dinheiro produzindo palavras de ordem consumistas e entretenimento espetacular redundante, na aplicação e usufruto dos meios técnicos de comunicação.
Passando a régua e fechando a conta: é como se, enquanto os dedutivistas vão decidindo e determinando quais laranjas podem ou não, devem ou não serem chupadas por todos os outros, os indutivistas vão classificando e tabelando os bagaços chupados das laranjas decididas pelos dedutivistas. Já a epistemologia oblíqua, mediante o continuum da abdução-dedução-indução, anseia plantar e colher, e até caçar, suas próprias laranjas, maçãs, uvas e cajus, chupando e devorando todas elas durante o percurso da deuteroaprendizagem.
83 FLUSSER, Vilém. (1983) Filosofia da caixa preta. Ensaio para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Hucitec, 1985. 52pp. Também na edição portuguesa Ensaio sobre a fotografia. Para uma filosofia da técnica. Lisboa: Relógio D’água, 1998. 96pp; com uma cuidadosa apresentação de Arlindo Machado, pp. 09-18.
No rastro das presenças imaginárias – Capítulo 1 | Peirce e Bateson
Peirce e Bateson podem nos ajudar a superar toda essa idiotia ou dedutivista, ou indutivista. Já em sua época, uns 150 anos atrás, Peirce tentou combater as invasões bárbaras do utilitarismo. Bateson tomou plena consciência dessas patologias institucionais e epistemológicas durante os oito anos em que organizou e participou das Josiah Macy’s Conferences on Cybernetics 84, décadas de 1940 e 1950, nos Estados Unidos. Essas famosas conferências que oportunizaram o encontro de algumas das mentes mais brilhantes do século XX, oriundas de diversas áreas do saber, maiormente medicina, informática, biologia, sociologia e antropologia, tiveram um financiamento não tão secreto das Forças Armadas norte-americanas. Desde lá, os militares estadunidenses sonham em projetar armas de guerra remotamente controladas. Pois bem, pouco a pouco, tanto Bateson quanto outros cientistas se posicionaram contrariamente ao dirigismo militar sobre o desenrolar dos debates cibernéticos. Alguns dos “metálogos” que Bateson escreveu por essa época, em conversa com uma filha quase imaginária85, estão impregnados de alusões e insinuações antimilitaristas típicas de sua “Segunda Cibernética”.
Ante a inviabilidade das conferências para seus planos de dominar o mundo, os imperialistas americanos encerraram a festa das cibernéticas nascentes, e tudo passou a ser conduzido por alguns poucos engenheiros militares em programas top secret. Nesses anos, vicejaram boatos de “óvnis” e “ébes” caídos em Roswell. Bateson foi arremessado lá na casa do Havaí, para estudar golfinhos e polvos, e para não ter tanto contato assim com os antigos colegas. Não adiantou muito. Retomaremos a contação dessa história no terceiro capítulo.
Haveria algo de indesejável ou impertinente no dialogismo entre Peirce e Bateson?
Falamos aqui em dialogismo no sentido que lhe dá Mikhail Bakhtin86, como a circulação e reverberação entre sistemas de conceitos e de ideias que atravessam o tempo e o espaço e se reavatarizam em acontecimentos difíceis de impedir. No próximo capítulo, rastrearemos alguns monstros que foram acontecendo nos devires e derivas do há-comunicandos entre mediações e interações. E voltaremos a Peirce e Bateson na sequência. Videre et audire licet.
84 DUPUY, Jean-Pierre. Aux origins des sciences cognitives. Paris: La Découverte, 1994. 188pp; em especial, os capítulos 3 e 6. E também SIMONDON, Gilbert. (1958) Du mode d’existence des objets techniques. Paris: Aubier, 1989, pp. 19-49, em especial o tópico “origines absolues d’une lignée technique”; e MCLUHAN, Marshall. (1964) “Cybernetics and human culture”, in: Understanding me. Lectures and interviews.
Massachusetts: MIT Press, 2005, pp. 44-54.
85 BATESON, Gregory, BATESON, Mary Catherine. “Metalogues”, in: (1972) Steps to an ecology of mind. Chicago: C.U.P., 1999, pp. 03-58.
86 BAKHTIN, Mikhail. (1929) Marxismo e filosofia da linguagem. Tr.pt. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 3ª ed. São Paulo: Hucitec, 1986. 196pp.
Em especial, os capítulos 4 e 9. E também (1963) Problemas da poética de Dostoiévski. Tr.pt. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. 366pp. Em especial, a quarta parte, sobre Discurso em Dostoiésvki.
No rastro das presenças imaginárias Capítulo 2 | Imaginação e duplo vínculo
I .Conceito-Rastro-Ideia
§ 001. “Permitam-me concluir advertindo que nós cientistas sociais faríamos bem em conter nossa ânsia por controlar esse mundo que tão imperfeitamente compreendemos. Nosso entendimento imperfeito não deveria fomentar nossa ansiedade, aumentando assim a necessidade de controle. Antes pudessem nossas investigações se inspirar num motivo mais ancestral, embora hoje menos valorizado: a curiosidade com o mundo do qual somos parte. A recompensa por tal empenho não é o poder, mas a beleza.” 87 (Gregory BATESON)
§ 002. “Origem não designa o processo de devir de algo que nasceu, mas antes aquilo que emerge do processo de devir e desaparecer. A origem insere-se no fluxo do devir como um redemoinho que arrasta no seu movimento o material produzido no processo de gênese. O que é próprio da origem nunca se dá a ver no plano do factual, cru e manifesto. O seu ritmo só se revela a um ponto de vista duplo, que o reconhece, por um lado como restauração e reconstituição, e por outro como algo de incompleto e inacabado.” 88 (Walter BENJAMIN)
§ 003. “Após ter sensibilizado Minh‘alma, eu fui explorar a grande porta. E vi que seu interior era profundo e escuro. Como soberbamente fora construída tal porta, sua admirável, excelente edificação, digna de eterna memória, vai agora ser descrita da seguinte forma:
87 BATESON, Gregory. (1959) “Minimal requirements for a theory of schizophrenia”, in: (1972) Steps to an ecology of mind. Chicago: C.U.P., 1999, p. 269.
88 BENJAMIN, Walter. (1916/1925) Origem do drama trágico alemão. Tr.pt. João Barrento. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 34.