As relações sociais que caracterizam o comportamento do cidadão brasileiro frente às questões que envolvem o exercício da sua cidadania têm ao longo da história, configurado como um dos principais temas estudado pelas ciências sociais no Brasil. Com o intuito de se compreender o processo de formação histórico-cultural que caracteriza a participação política do brasileiro, optamos por fazer uma incursão histórica e analítica acerca das principais teses no campo das ciências sociais que explicaram o processo de constituição do sistema social e político brasileiro.
Na literatura sociológica, encontramos nas teses dos cientistas sociais clássicos como Holanda ([1936], 1971); Faoro ([1958] 2008); Freyre, ([1933] 2006) e Junior, (1969) a despeito de suas distintas matrizes de reflexão, um determinado grau de convergência, um ponto crucial que marca a cultura do povo brasileiro e, consequentemente, a caracterização desse cidadão. Nesse sentido destacamos as relações de proximidade da pessoa do governante com cidadão nas obras de Holanda ([1936] 1971) e Freyre ([1933] 2006) e do ponto de vista de Faoro ([1958] 2008) e Junior (1969) uma relação verticalizada entre Estado/sociedade, no qual o primeiro, nega autonomia ao segundo.
Esta estrutura social é ponto de partida para percebemos que a distinção entre os assuntos de interesse de natureza privada e pública, tratados à luz do papel do Estado, funda-se em um processo complexo, de relações dialéticas, fazendo com que, a indistinção entre as esferas pública e privada seja vista como um traço relevante que caracteriza de modo sui generis o comportamento do cidadão brasileiro (ALBUQUERQUE, 2004; MARTINS, 1994; SALES, 1994).
Holanda ([1936]1971) diz que essa indistinção é perniciosa na formação do cidadão, considerando que
O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre nações “desenvolvidas” são sociedades paradigmáticas que devem ser seguidas pelos países “subdesenvolvidos”, sociedades seguidoras. (RAMOS, [1970] 2009).
o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. A indistinção fundamental entre as duas formas é prejuízo romântico que teve seus adeptos mais entusiastas durante o século décimo nono. (...) A verdade bem outra, é que pertencem a ordens diferentes em essência. Só pela transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade (HOLANDA, [1936] 1971, p. 101).
Dessa perspectiva, Holanda ([1936] 1971) atribui um peso relevante a cultura, ponderando que ela contribui decisivamente na modelagem do Estado. Consideramos que este processo de construção da identidade brasileira se completa ao admitir que o Estado, uma vez modelado culturalmente, reproduz por meio de suas instituições políticas o comportamento político dos indivíduos em um movimento dialético.
Freyre ([1933] 2006) em sua obra de maior envergadura, Casa Grande & Senzala, defende duas teses consagradas em seu pensamento: primeira, que a iniciativa privada que fizera o Brasil tinha um caráter aristocrático, senhorial, como elemento chave dentro da sociedade; segunda, e a mais relevante e polêmica na obra freyriana, que a aristocracia, vista como classe, se miscigenara com o índio e o negro, criando esse espaço de confraternização na sociedade. Sobre essa característica, o supracitado autor diz que:
A história social da casa-grande é a história íntima de quase todo brasileiro: de sua vida doméstica, conjugal, sob o patriarcalismo escravocrata e polígamo; de sua vida de menino; do seu cristianismo reduzido a religião de família e influenciado pelas crendices da senzala [...] Nas casas-grandes foi até hoje onde melhor se exprimiu o caráter brasileiro; a nossa continuidade social (FREYRE, [1933] 2006, p. 75).
Analisando sob o prisma da colonização, essa tese defende que a forma nas quais as relações de produção material que ocorreram nesse contexto histórico ensejaram o surgimento de uma “classe”11 aristocrática que, além de seu poder econômico, exerceu força política sob a camada social que estava sob seu domínio, influenciando diretamente no comportamento social e político daqueles que estão sob sua “proteção”.
Nessa direção, Faoro (1993), fazendo uma leitura do pensamento de Gilberto Freyre, diz que “a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em política, constituindo a aristocracia rural mais poderosa da América” (FAORO, 1993, p. 20)
11
A categoria classe não é usada de acordo com a terminologia marxista de estratificação social, no sentido adotado aqui a aristocracia é estamento.
(grifo nosso). Temos nessa interpretação, a importância da iniciativa privada como força geradora de riqueza e, ao mesmo tempo, como conseqüência de seus desdobramentos, ante um processo complexo de co-relações de força, a constituição dentro do espaço político institucional de um instrumental que estrutura o sistema de desigualdade social, fomentando a construção da cidadania brasileira. Temos, dessa maneira, uma forma peculiar de integração entre a sociedade civil e a sociedade política12.
As bases de estruturas de poder, as raízes de uma relação tutelar clássica entre o Estado e sociedade no Brasil, encontram-se cristalizadas na formação deste “cidadão protegido” pelo governante, desde o período colonial até os dias de hoje. Holanda ([1936] 1971) diz que essa relação tutelar engendrou a criação do conceito do “homem cordial”, aquele que se relaciona com outro por meio de laços de afinidades pessoais, baseado numa relação mútua de lealdade. Contudo, faz-se mister destacar que embora o termo cordial nos remeta a algo pertencente ao coração e este por sua vez a algo de bom, de “bondoso”, de “afetuoso”, de “afável”, no pensamento de Holanda, [1936] (1971) o “homem cordial” é aquele movido pelo sentimento, independente de qual seja a natureza desse sentimento (HOLANDA, [1936] 1971).
Essa visão nos impele para uma compreensão de que as condições de escolha subjetiva preponderantes de uma herança cultural, as normas e valores estruturados na sociedade brasileira pelas instituições políticas, são os responsáveis pelo fato de não haver distinção no tratamento da res pública pelos administradores do Estado entre o que é da esfera do público e do privado, utilizando-se como critério para a nomeação de agentes públicos elementos de natureza subjetiva, de afinidade pessoal, em detrimento de critérios de natureza meritocrática exigidos pelo Estado moderno, fazendo da própria gestão pública um assunto de interesse particular.
A esse respeito Holanda ([1936] 1971) diz que
A escolha dos homens que irão exercer funções públicas faz-se de
acordo com a confiança pessoal que mereçam os candidatos, e muitos menos de acordo com suas capacidades próprias. (...) é
possível acompanhar, ao longo da história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos
12 Dentre os vários significados possíveis para elucidar o conceito de sociedade civil e sociedade política, nos amparamos naquele que é mais comum na linguagem política atual, ou seja, baseado na dicotomia existente entre Sociedade/Estado, sendo a sociedade civil a própria sociedade e a sociedade política associada ao Estado. Nesse sentido podemos dizer que “a sociedade civil é a esfera das relações entre indivíduos, entre grupos, entre classes sociais, que se desenvolvem à margem [da sociedade política] das relações de poder que caracterizam as instituições estatais”. (BOBBIO; MATTETUCCI; PASQUINO 1998, p. 1210)
fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal. (HOLANDA, [1936] 1971, p. 106). (grifo nosso)
Para os agentes públicos formados em um ambiente patriarcal era difícil compreender a distinção entre o domínio privado e o público. A introdução de uma nova dinâmica nas relações sociais de caráter impessoal, imperativo do desenvolvimento urbano no molde capitalista, traria conseqüências negativas para a formação do cidadão brasileiro. As práticas implantadas pela Metrópole lusitana em sua colônia americana custariam muito caro para a consolidação, anos mais tarde, da democracia que, segundo o referido autor,
De todas as formas de evasão da realidade, a crença mágica no poder das idéias pareceu-nos a mais dignificante em nossa difícil adolescência política e social. Trouxemos de terras estranhas um sistema complexo e acabado de preceitos, sem saber até que ponto se ajustam às condições de vida brasileira e sem cogitar das mudanças que tais condições imporiam. Na verdade, a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós. (...) A
democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal entendido. (HOLANDA, [1936] 1971, p. 119). (grifo nosso)
Portanto, percebemos que a simples adoção dos ideias dominantes do mundo ocidental avançado de então, pode ser interpretada como um equívoco que trouxe conseqüências danosas para a formação do cidadão brasileiro; tensionado entre a tradição da herança cultural ibérica e a necessidade de modernizar-se segundo padrão ideológico dominante, atendendo as novas exigências da ordem socioeconômica do mundo capitalista ocidental.
Júnior (1969) fundamenta sua tese de formação do cidadão brasileiro tendo como base a expansão do modo de produção capitalista para os países periféricos da America Latina. Sua reflexão analítica considera as relações sociais a partir das bases de produção material, utilizando-se de categorias marxistas para sua explicação. Segundo este autor, o Brasil de então,
Reduz-se em suma a duas classes: de um lado os proprietários rurais, a classe abastada dos senhores de engenho e fazenda, doutro a massa da população espúria dos trabalhadores do campo, escravos e semi-livres. Da simplicidade da infra-estrutura econômica – a terra, única força produtiva, absorvida pela grande exploração agrícola – deriva da estrutura social: a reduzida classe de proprietários, a grande massa que trabalha e produz, explorada e oprimida. (...) mas elas [as classes sociais] não são contudo bastante profundas para se caracterizarem em situações radicalmente distintas. Trabalhadores escravos ou pseudo- livres; proprietário de pequenas glebas mais ou menos dependentes, ou simples rendeiros, todos em linhas gerais se equivalem. Vivem do
seu salário, diretamente de suas produções ou do sustento que lhe concede o senhor; suas condições materiais de vida são praticamente a mesma (JÚNIOR, 1969, p 28).
Essa estrutura social brasileira desenhada por Júnior (1969) demonstra uma peculiaridade da forma na qual o sistema capitalista baseado no “trabalho-livre” se manifestou no Brasil: Em duas classes não totalmente antagônicas. Visto que na classe trabalhadora encontramos também pequenos proprietários que não são incluídos, nem muito menos se reconhecem como pertencentes à classe detentora dos meios de produção.
Faoro ([1958] 2008), em sua obra Os donos do poder, aponta que a sociedade brasileira não se organiza originalmente em classes senão de forma secundária. A divisão social, portanto, se dá em dois grandes grupos, isto é, de um lado temos o estamento burocrático e, do outro, a parte que “sobra” da sociedade, incluindo na parte que “sobra” as camadas proprietárias ou não. O estamento, na visão de Faoro, é uma camada não econômica, embora considere que pode acontecer freqüentemente uma coincidência ou superposição de status econômico e social dos membros desse grupo (FAORO, [1958] 2008).
Nessa direção, Campante (2003) diz que “o estamento é uma camada organizada e definida politicamente por suas relações com o Estado, e, socialmente, por seu modus vivendiestilizado e exclusivista” (CAMPANTE, 2003, p. 154). Baseando-se no modelo
analítico weberiano, Raymundo Faoro utiliza-se do conceito de patrimonialismo para fundamentar sua tese da formação do cidadão brasileiro. Essa abordagem traz em seu bojo a concepção de realidade histórica e social. A implantação da cultura ibérica é a base por meio da qual se deu o processo de construção da nossa cidadania. Embora este processo se desenvolvesse complexa e dialeticamente, percebemos, na força do conceito utilizado por Faoro, a forte influência institucional do Estado português na formação do cidadão brasileiro.
Patrimonial e não feudal o mundo português, cujos ecos soam no mundo brasileiro atual, as relações entre o homem e o poder são de outra feição, bem como de outra índole a natureza da ordem econômica, ainda hoje persistente, obstinadamente persistente. Na sua falta, o soberano e o súdito não se sentem vinculados à noção de relações contratuais, que ditam limites ao príncipe e, no outro lado, asseguram o direito de resistência, se ultrapassadas as fronteiras de comando (...) Dominante o patrimonialismo, uma ordem burocrática, com o soberano sobreposto ao cidadão, na qualidade de chefe para funcionário, tomará relevo a expressão (FAORO, [1958] 2008, p. 33).
Holanda (1971) por sua vez, concentrou sua reflexão no conceito de patriarcalismo destacando a herança rural como principal fundamento da formação da estrutura social brasileira.
Toda a estrutura da nossa sociedade colonial teve sua base fora dos meios urbanos. É preciso considerar esse fato para se compreenderem exatamente as condições que, por via direta ou indireta, nos governaram até muito anos de proclamada nossa independência política e cujos reflexos não se apagaram ainda hoje (...). É inegável a existência de uma ação paternalista do Estado a
animar ou embargar, conforme o caso, qualquer iniciativa privada que visasse ao bem comum” (HOLANDA [1936] 1971, p. 41-93) (grifo nosso)
Segundo Faoro (1993, p. 19), Holanda se mostrou “aceitar com reservas o domínio de um estamento na sociedade brasileira e, muitas vezes até arredio ao conceito de Estado patrimonial”. Em uma sociedade estamental, o patrimonialismo se desenvolve, com presença indispensável do Estado, pois é este que gere as riquezas de todo o país, dono de tudo, “conduzindo a economia como se fosse empresa sua” (FAORO, [1958] 2008).
Esta é, portanto, a estrutura de poder patrimonialista estamental plasmada historicamente pelo Estado português, modelo este de administração que foi transplantado para o Brasil, reforçado com a vinda da família real portuguesa no início do século XIX e que, principalmente, serviu de padrão com o qual se organizaram a Independência, o Império e a República do Brasil.
A colonização, se riscarmos o efêmero episódio das capitanias hereditárias, obedeceu à dinâmica patrimonial. O rei concedia terras, de acordo com a velha lei das sesmarias, sem a propriedade plena, outorgando à empresa colonial a proteção de seu estímulo e fomento. Para não repetir o que já foi dito, dê-se um salto de três séculos, para, depois do tempo vencido, encontrar a mesma estrutura (FAORO, 1993, p 25).
Essa característica da estrutura social destacado em Faoro (1993) está enraizada dentro do aparelho de Estado brasileiro que, mesmo passando por um processo de modernização na década de 1930, com a introdução de um sistema burocrático racional- legal na administração pública, não conseguiu extirpar todos os ranços da administração patrimonialista, tais como o clientelismo e o fisiologismo, práticas estas ainda presentes no dias de hoje. Ao contrário, a estrutura burocrática servira para reforçar as velhas práticas patrimonialistas, agora sobre a fachada de um pseudo-aparato moderno.
Portanto, a modernização do Estado não seguiu pari-passu a transformação de uma sociedade tradicional, clientelista, de laços familiares, para uma sociedade onde predominasse o sistema meritocrático, racional-legal, no qual implicaria necessariamente uma transformação na visão política. Temos o brasileiro acostumado a se submeter à relação de subserviência ao Estado como mecanismo utilizado para ter suas demandas pessoais atendidas.
O rompimento ou até mesmo a superação dessa estrutura arcaica, tradicional do Estado e da sociedade brasileira, em nome de uma estrutura “moderna”, na qual o relacionamento com o Estado se daria de forma impessoal, dentro dos limites formais de contrato, exigiria que os brasileiros tivessem um comportamento político não mais baseado numa relação familística e tutelar, mas que fossem livres, e ser livre na concepção da elite brasileira dominante significaria seguir os dogmas apregoados pelo liberalismo, tanto na sua vertente política como econômica.
Isso se tornaria inviável no Brasil do início do século XX, uma sociedade largamente agrária, carente de uma estrutura social que pudesse fornecer as condições necessárias para que essa transformação fosse possível, uma vez que, “o liberalismo político seria impossível na ausência de uma sociedade liberal e a edificação de uma sociedade liberal requer um Estado suficientemente forte para romper os elos da sociedade familística” (SANTOS, 1978, p. 106).
Em outras palavras, o Brasil era um país essencialmente agrícola, cuja economia se baseava na exploração da mão-de-obra escrava – isso até 1888, ano em que a escravidão foi abolida no Brasil – cuja política econômica era a de exportação de bens primários e importação de bens manufaturados, onde no âmbito doméstico a política institucional predominante era a política de troca de favores, base do coronelismo. Estes fatores dificultavam a edificação de uma sociedade democrática liberal e, consequentemente, de uma sociedade constituída de cidadãos livres e conscientes de sua responsabilidade política e social.
A constituição de uma sociedade nesses moldes no Brasil seria uma tarefa complexa, uma vez que
Havia uma contradição clara entre o liberalismo constitucional e a política prática. Corrupção, coerção e irresponsabilidade eram os outputs concretos de um sistema que pretendia ser, de acordo com os ditames da Constituição, representativo, responsável e subordinado ao predomínio imparcial da lei. A agenda liberal precisava ser mudada e o ponto enfatizado foi a luta para que as cláusulas constitucionais se
realizassem efetivamente, mediante o afastamento dos políticos não convertidos ao novo regime (SANTOS, 1978, p. 92).
A elite intelectual brasileira fez do Brasil um Estado Constitucional, moldado de acordo com princípios democrático-liberais e, portanto, legais, mas carecia da legitimidade de uma sociedade igualmente liberal. Essa incongruência em implantar uma estrutura política moderna em um país onde predominava um sistema político baseado em relações paternalistas, patrimonialistas, como demonstrado anteriormente, assentado em uma plataforma social tradicional, caracteriza o comportamento do cidadão brasileiro como uma “cidadania concedida” (SALES, 1994).
Sales (1994) utiliza o conceito de cidadania concedida – o que a princípio poderia sugerir uma contradição em termos – para fazer uma leitura acerca da desigualdade social na cultura política brasileira, cujo propósito, segundo a própria autora é “de realçar características importantes da nossa cidadania pretérita e atual, e que são, ao mesmo tempo, parte constitutiva da construção de nossa cidadania” (SALES, 1994, p. 5).
Por cidadania concedida entendemos a relação social dependente entre um estrato social desvalido de suas condições essenciais de existência e sobrevivência e um estrato social que exerce seu poder e dominação na manutenção dessa estrutura social13. Essa relação de dependência, com papéis bem definidos por ambos os lados é o fundamento da cidadania brasileira na concepção de Sales (1994).
Esta autora diz que
O drama do mando e subserviência, que funda uma cidadania apenas concedida como dádiva ao homem livre e pobre, sofreu mudanças no tempo desde a sua inserção na ordem escravocrata até os dias de hoje. Permanece, mesmo muito tempo depois de abolido o trabalho escravo, o seu vínculo de dependência pessoal para com o senhor de terras. Um vínculo de tal forma arraigado no seu modo de sobrevivência que fica às vezes como idealização do passado, sempre que as condições de sua vida o levam a se desgarrar da dependência pessoal (SALES, 1994, p. 7).
O exercício da cidadania do brasileiro é resultado das forças constituintes da estrutura social. De um lado, há um apelo à modernização das instituições políticas nos moldes da política liberal; de outro, a força da tradição, avessa à mudança e à possível
13 Nesse contexto quando falamos de poder e dominação, seguimos a definição de Weber (2004) no qual entende por poder como “a probabilidade de impor a própria vontade dentro de uma relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade” e por dominação como sendo "a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo, entre determinadas pessoas indicáveis" (WEBER, 2004, p. 33)
perda dos privilégios garantidos pelo governante. A maneira peculiar de lidar com esse conflito de interesses distintos é o que caracteriza o processo de transformação cultural por qual historicamente passou e passa a sociedade brasileira.
A formação do cidadão brasileiro carrega em si os resultados das influências do Estado, contudo sem desconsiderar que os indivíduos podem escolher suas instituições, mas não o fazem em circunstâncias que eles mesmos criaram. É por essa razão que entendemos que, até determinado momento histórico, ou seja, até meados da década de 1960, o exercício da cidadania se dá menos por uma reivindicação da população do que resultado da concessão das instituições governamentais.
Godoy (2009) interpreta esse processo de formação da cidadania assentada numa estrutura social onde predomina uma relação social chamada de “reciprocidade desigual”.
Essa “cidadania concedida” resulta de uma cultura política sob a qual