4 PARA UMA FILOSOFIA DO FUTURO EM
4.2 Para uma defesa da comunidade humana
Devemos perceber que, para além do fator cultural, a existência de um deus e de uma religião se dá por conta de uma ignorância. A dúvida e a aparente falta de sentido para a vida fazem o homem ter medo, esperança e depender de um ser que existe apenas para a satisfação do seu criador, ou seja, o homem vê em Deus uma saída para seus problemas e a legitimidade de sua existência se dá justamente quando esse problema – duvida ou necessidade – aparece. “No fim voltamos ao início. O homem é o início da religião, o homem é o meio da religião, o homem é o fim da religião” (FEUERBACH, 2009, p.190). Porém, na medida em que essas dúvidas vão sendo sanadas e essas necessidades são satisfeitas através de alternativas mais efetivas, a existência divina perde força e fundamento. Ou seja, quanto mais se sabe sobre a natureza e o funcionamento das coisas, menos se é necessário voltar-se a um ser sobrenatural e, dessa forma, o temor a um deus se dá ou ao que ainda não se sabe ou sob uma forma ética78.
Feuerbach presenciou o auge e a esperança depositada na ciência do século XIX e percebe o quanto os paradigmas estavam em constante mudança por conta das novas invenções cientificas, ao passo que antigos dogmas religiosos eram postos em dúvida por conta das novas descobertas. Feuerbach percebe que a humanidade é a grande responsável pela sua própria evolução intelectual. “Quatro
78 Como por exemplo, as incertezas sobre a morte, que levam os religiosos a acreditarem numa vida
post mortem e essa vida só pode ser alcançada se o crente possuir uma vivencia de acordo com os princípios éticos da religião adotada.
mãos têm mais poder do que duas, mas também quatro olhos veem mais do que dois” (FEUERBACH, 2009, p.105). O que não era entendido na geração anterior pode ser entendido na próxima; e a limitação do indivíduo não é necessariamente a limitação de todos os indivíduos. A conclusão a que se chega a partir dos escritos de Feuerbach é que o conhecimento não é divino, mas humano. O gênero humano tem a potência da onisciência.
Mas este saber divino que, na teologia, é apenas uma representação, uma fantasia, tornou-se um saber racional efetivo, num saber telescópico e microscópico da ciência natural [...]. Que se pretende ainda mais? Temos, pois, aqui um exemplo concreto da verdade de que a representação humana de Deus é a representação que um indivíduo humano para si faz do seu gênero, de que Deus, enquanto totalidade de todas as realidades ou perfeições, nada mais é do que a totalidade sinopticamente compendiada para uso do indivíduo limitado, das propriedades do gênero repartidas entre os homens e que se realizam no decurso da história mundial (FEUERBACH, 1987, p.49).
A aposta de Feuerbach está na sabedoria humana, na ilimitação intelectual do gênero humano – que fora erroneamente depositado em Deus – Feuerbach crê na comunidade humana79, no homem vivendo em sociedade, em
parceria com o outro. Feuerbach defende um princípio de conhecimento
compartilhado onde se entende que nenhum homem pensa sozinho, qualquer
pensamento é fruto de um pensamento ou conhecimento anterior, o homem só pensa a partir do meio em que está inscrito e esse pensamento, por sua vez, é fluido e permanece em infinita mudança através do tempo. “Mas o que o homem isolado não sabe nem pode sabem-no e podem os homens em conjunto. Assim, o saber divino que conhece ao mesmo tempo todas as singularidades tem a sua realidade no saber da espécie” (FEUERBACH, 1987, p. 49). Ora, se todo o conteúdo da religião advém do pensamento, da imaginação, da vontade e sensibilidade humana, então a sabedoria e a lei divina não passam de uma sabedoria e lei humana. Se pensarmos nessa perspectiva, teremos dimensão da força intelectiva do gênero humano, que é capaz de se realizar e de se reger sem a necessidade de um outro ser – e o vem fazendo, porém, de forma autoenganada e com consequências indesejáveis. A aposta de Feuerbach dá-se, portanto, nesse autorregimento, na
79 “A originalidade do projeto antropológico de Feuerbach se manifesta na concepção de homem
como individualidade sensível, visto dentro da comunidade em contínua relação consigo mesmo e, também, com esta comunidade que o preserva e o confirma (comunidade familiar e comunidade universal) ” (MELO, 2011, p.121).
conciliação do “eu” com o “tu”, na comunidade humana, que agora sem uma perspectiva metafísica, usa a força da sua própria sabedoria, cultura e lei para um bem humano, sempre levando em conta sua base na natureza.
Feuerbach não diviniza, de forma alguma, a humanidade, a comparação com Deus não tem como objetivo fazer do homem um ser divino, mas ao contrário, mostrar que Deus é um ser humano, é toda a humanidade representada em um ser uno. A harmonia do homem com o outro deve se dar a partir de um reconhecimento mútuo da potência da união da humanidade, por conseguinte, da retirada dessa potência do plano metafisico. A finalidade de Feuerbach é mostrar que é o homem que cria as regras, é o homem que conhece, que sente e que vive, mas o homem singular é apenas uma pequena parcela na imensidão da humanidade, dissolvida na infinitude do espaço-tempo. Por isso, Feuerbach insiste na associação humana, na esperança na ciência e na potência criadora do gênero humano.
O homem singular por si não possui em si a essência do homem nem enquanto ser moral, nem enquanto ser pensante. A essência do homem está contida apenas na comunidade, na unidade do homem com o homem – uma unidade que, porém, se funda apenas na realidade da distinção do eu e do tu (FEUERBACH, 1987, p.98). A consciência da infinitude do gênero faz com que o homem não se veja como um escolhido por Deus ou como um ser independente do outro, mas como alguém que, apesar de sua finitude, faz parte de um todo infinito. Ao mesmo tempo, a filosofia feuerbachiana traz consigo a naturalidade da inevitabilidade da morte. Saber da finitude faz com que o homem se dedique plenamente a essa vida e consiga uma melhor harmonia com o outro e com a natureza. “Igualmente sei que sou um ser finito, mortal, que um dia não mais existirei. Mas julgo isso perfeitamente natural e por isso sinto-me inteiramente conciliado com esta ideia. ” (FEUERBACH, 2009a, p. 49).
Somente quando as atitudes do humanitarismo são oriundas de princípios existentes na natureza humana, existe uma harmonia entre o princípio e a consequência, a causa e o efeito, existe perfeição (FEUERBACH, Ludwig. 2009a, p.241).
Todavia, o entendimento e prática dessa relação finitude-infinitude só é possível a partir de um auto-entendimento humano, ou seja, a condição necessária para a prática do pensamento defendido por Feuerbach é a consciência de que o homem não necessita de nada que ele já não possua no mundo, na comunidade e
na natureza. “Todo ser se basta a si mesmo” (FEUERBACH, 2009, p.40). Todo ser bastar a si mesmo não significa que o homem individual não necessite de nada, seja autossuficiente. O que se nota aqui é um pensamento que tem como base o desapego ao divino, ao sobrenatural, não há necessidade de apelar para um outro ser abstrato, uma vez que ele sendo uma criação, não passa apenas de um desdobramento do próprio intelecto. O homem basta a si mesmo na medida em que ao procurar a solução em Deus, está recorrendo a si.