… contextualiazar, não mandar…!!
Da AUTO-DESCOBERTA à Descoberta Guiada: A Descoberta Guiada como catalisador de uma aprendizagem talentosa
“O melhor treinador do mundo não é nenhum treinador internacional de grande sucesso, mas sim um jogo de Futebol…” D. Cramer (1972 cit. Gowan, 1982)
“… o melhor método para ensinar um menino a jogar Futebol não é proibi-lo, mas sim guiá-lo…” (Cruyff, 2002, p. 25)
A neurobiologia actual mostra que o cérebro é um sistema dinâmico e modificável (Punset, 2008), possuindo uma imensa capacidade para armazenar informação sobre vários factos e regras, cuja natureza não é conhecida antecipadamente, mas é adquirida pela APRENDIZAGEM através da experiência pessoal ou derivada da cultura (Goldberg, 2008).
No Futebol de Rua a aprendizagem era feita por “imitação dos mais velhos” (Cruyff, 200), desvendamos já, e, muito importante, de modo espontâneo e «descomandado».
Segundo Michels (2001) o Futebol de Rua é o sistema educacional mais natural que existe por, através das várias vivências que proporciona (jogar o jogo todos os dias de forma competitiva em qualquer tipo de campo de rua, normalmente em pequenos grupos heterogéneos cronologicamente), permitir uma aprendizagem do jogo centrada na «desproblematização» diária e na potenciação do erro em direcção ao desenvolvimento do Talento.
De facto, na Rua, as crianças descobriam, sem a presença de adultos, como passar, como fintar, como rematar, QUANDO passar, rematar e fintar, descobriam, enfim, como jogar.
Hoje sabe-se, por Damásio, que o Ser Humano orienta-se tendencialmente para aquilo que faz melhor e, por conseguinte, evita aquilo que faz pior. Nesta medida, as crianças resolvem os problemas do jogo consoante a sua
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capacidade de realização. Ora se uma criança não sabe, ainda, passar a bola, ela não vai passar porque a maioria dos passes que eventualmente faz estão errados. Então, a criança vai optar por outras estratégias que a permita ser eficaz. Na rua, “o miúdo que realizava o um contra um e falhava, se calhar, optava mais pelo jogo de passes. Mas o miúdo mais esperto treinava-se com uma bola a tentar fazer a finta, para que em cinco começasse a passar uma vez, para depois a passar duas, três e quatro, assim sucessivamente (Marisa, 2007).
Daqui se depreende que, também o erro, contribui para a potenciação do Estado de Alma, porque se não consegue, a criança quer conseguir e para conseguir tem de treinar muito e só treina muito porque adora jogar e adora ganhar.
Parece-nos, face ao exposto, pertinente assumir para o «aqui e agora» uma analogia capaz de potenciar entendimento melhor da configuração do erro no processo de ensino aprendizagem: a melhor «vitamina» que se pode dar a um jogador, quando o intuito é fazê-lo aprender, é a «Vitamina V» (de Vitória), porque, querendo ganhar, o jogador não quer errar e não querendo errar o jogador quer treinar. Ou seja, o facto de muitos jogadores terem dificuldades e viverem num mundo de dificuldades, «obriga-os» a serem melhores porque querem ganhar.
Assim, o erro deve, quanto a nós, ser entendido, não como elemento a «banir» do processo de treino mas como meio gerador, por potenciar pesquisa e consequente descoberta de soluções, do Talento, à maneira do que acontecia no Futebol de Rua.
Então, o treinador deve surgir no treino, não como possuindo um conjunto de ideias que quer impor, expressando-as como verdades absolutas, mas como catalisador e regularizador do próprio contexto (M. Gomes, Anexo 4). É que “os melhores jogadores trazem sempre soluções que vêm acrescentar algo” àquilo que são os entendimentos dos treinadores e, por isso, na formação, é muito importante ter a noção de que as ideias do treinador são só o ponto de partida, porque o ponto de chegada são os jogadores e as equipas que determinam (J. G. Oliveira, Anexo 5), em função de uma criatividade que é sempre
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consequência de uma liberdade assente numa organização criativa potenciadora de ajustamento circunstancial. Isto é, uma vez que o contexto, sobretudo no jogo, é uma coisa variável, muito circunstancial, o treinador deve “colorir” o contexto com valores e normas que permitam a existência de princípios de interpretação comuns, que façam com que dois ou três jogadores, num mesmo momento e nas mesmas circunstâncias, interpretem as coisas dentro de uma forma comum. E, nesta medida, “surge, se calhar, um passe e para surgir um bom passe tem que surgir alguém que o receba, alguém que procuro o espaço” (M. Gomes, Anexo 4).
Contudo, contrariamente ao que é nosso entendimento, as metodologias convencionais encontram-se comandadas pela “vertigem do piloto automático” (Maciel, 2008) e, assim, o treinar é muito militarizado no sentido em que o treinador dá as ordens e os jogadores têm que as seguir à risca, contribuído, desse modo, para o que Lobo (2007) denomina de “robotização” dos jogadores. Isto é, os feedbacks, em vez de potenciarem auto-descoberta, dão as respostas para que se salte a etapa de o jogador ter de equacionar as situações que se lhe deparam e, assim, porque não pensam, os jogadores são todos iguais.
Para além disso, hoje há uma tendência muito negativa para «formatar» a formação e, no sentido de a contrariar, os treinadores têm que dar uma liberdade maior aos miúdos, têm que mostrar aos miúdos o que é jogar com qualidade, têm que, depois, fomentar neles essa qualidade, têm que se aperceber muito mais das capacidades e das qualidades individuais que os miúdos têm e têm de os incentivar a desenvolver essas capacidades individuais (J. G. Oliveira, Anexo 5).
Pensemos na seguinte analogia: o treinador, mais do que mandar fazer ditados, deve pedir aos jogadores redacções com temáticas muito diferenciadas. Imagine-se um aluno com grande capacidade para realizar ditados. Qualquer texto sujeito a ditado é estudado, escrito e rescrito pelo aluno, até ao ponto em que o decora. Nada mais fácil: nem um único erro. Mas quando lhe pedem que escreva uma redacção sobre um tema à sua escolha ou sobre uma temática proposta pelo professor, apresentará ele a mesma
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facilidade? Não: fica limitado na sua capacidade de criar e recriar, a partir do novo contexto que lhe foi apresentado. Versatilidade, inventividade, são qualidades que não apresenta muito desenvolvidas. Pelo contrário, um aluno com grande capacidade para realizar redacções, seja qual for a temática, cria, recria, adapta-se e «inventa» sempre. E o jogo é isto: é variabilidade, é ajustamento, é capacidade de interpretação das circunstâncias de forma comum (M. Gomes, Anexo 4).
No Futebol, sua aprendizagem, o que se passa é exactamente o mesmo. Exagera-se na utilização de regras (ditados) nos exercícios, evitando-se, dessa forma, a intervenção (redacções) dos jogadores sobre os mesmos. Por exemplo, abusar da condicionante jogar a dois toques leva a que a gestão do instante, por parte dos jogadores, seja mais mecânica do que não mecânica e, por isso, tende a tornar linear aquilo que não o é.
Para além disso, em jogo nunca existe apenas uma solução (H. Fonseca, 2006) e, por isso, ninguém, nem mesmo o treinador, pode “dizer que é assim” (Taí, 2006), porque dizendo “é assim”, a criança não pensa, não procura, não descobre, não cria, não inventa.
Sustentamos, deste modo, muito mais uma formação do «porque não?» e do «porque sim», em vez de uma formação do «não» e do «sim». É que, em conformidade com o que já ficou evidenciado, o movimento não é só aquilo que se vê (Frade, 1976) e, por isso, a formação, não deformação, tem obrigação de disponibilizar uma sujeição circunstancial à DIVERSIDADE, pelo conteúdo e pela forma. Quer isto dizer que, resultando a aprendizagem da interacção indivíduo-meio e sendo esta interacção mediada por uma actividade cognitiva de processamento de informação durante a qual a informação sobre o comportamento e sobre o meio é transformada em representações simbólicas de auto-regulação que permitem antever possíveis consequências de diferentes alternativas de respostas e controlar o comportamento, a Educação, pela Formação, deve ser «problematizadora» e, como tal, aberta ao futuro, ao diferente, ao novo, põe os indivíduos no caminho do desenvolvimento das suas potencialidades criadoras (Frade, 1976).
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Evidenciamos já, suficientemente, que o jogo de futebol é extremamente sensível às condições iniciais, isto é, não tem causalidade linear, e que é precisamente esta sensibilidade, em conjunto com uma certa individualidade, a determinar a configuração da intervenção do jogador sobre o jogo e o jogar, em cada momento. Então, o grande jogador é aquele que o treinador lhe diz “vira” ou o treinador lhe diz “remata” ou “passa” e ele faz outra coisa e o treinador diz assim: “também pode ser” (M. Gomes, Anexo 4), porque o jogo é que determina se devo jogar a dois toques ou a três ou a um ou a duzentos. Ou seja, se o treinador promove a que haja uma quase “robotização” do jogo, isto é, aquele treinador que intervém no sentido de dar a solução permanentemente ao jogador, não está a facilitar o processo, está, até, a retardá-lo.
Consideramos, a este nível, que a intervenção do treinador é positiva quando direccionada no sentido da autonomização do jogador, até quando potencia auto-hetero reflexão sobre o jogar, porque se o treinador disser ao jogador “chuta” e ele remata, o treinador fica sem saber se o jogador rematou porque entendeu que era o contexto ideal para rematar ou se ele rematou porque o treinador disse para ele “chutar” e, portanto, o jogador nem sequer pensou no que estava a fazer e, se calhar, para a próxima ele vai ter que rematar, porque o contexto assim o vai determinar, e ele não vai rematar porque ninguém lhe disse para rematar. Deste modo, «solucionador» em vez de «problematizado», o treinador, em vez de acelerar, está a atrasar, ou até a “matar”, o processo de desenvolvimento do jogador (M. Lopes, Anexo 2).
Face ao exposto, parece-nos ser, já, possível, conjecturar, configurando, a intervenção do treinador, de presença inevitável em função do desaparecimento do Futebol de Rua e consequente proliferação das escolas de futebol, no actual processo de EnsinoAprendizagem.
Sendo contingente, o jogo promove a emergência de soluções criativas, sendo probabilístico, o jogo promove a existência de princípios metodológicos e sendo contingentemente probabilístico, o jogo exige do treinar, “muito mais a
arte das trajectórias do que a teoria dos alvos” (Frade, 2006). Isto é, mais do
que “reproduzir coreografias à imagem e semelhança do treinador” (Araújo, D., 2006), o treinar deve promover a construção de jogadores capazes de usar
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todos os recursos para atingir um determinado fim, pela participação activa dos jogadores em todo o processo.
Deste modo, embora seja orientada por um treinador que, com base na sua experiencia e conhecimento, conduz todo o processo, a descoberta do Talento é feita pelo jogador, à imagem e semelhança do que acontecia no Futebol de Rua.
Consideramos, em suma, que a «Auto-Descoberta» é categorizável de modo «formal-rural» quando a intervenção do treinador nas escolinhas de futebol procura obter aquilo que na Rua acontecia de modo espontâneo e natural: a aprendizagem e o desenvolvimento do Talento. Ou seja, quando a “Descoberta Guiada” é a matriz configuradora de todo e qualquer «processo talentoso», porque a formação deve conferir às crianças, a cada uma, a aptidão de «aprender a aprender» para que todos os momentos possam ser problematizadores, já «ensinadores».
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6 - Uma Espécie de CONCLUSÃO Introdutória
“O mundo vai mudando (…) e, porque isso muda, as ciências, se querem continuar a reflectir e a ter um olhar que retrate o que se passa nesse mundo, têm que modificar os seus conceitos, as suas maneiras de ver (…) procurar inventar novos conhecimentos, novos saberes, novos instrumentos, novas perspectivas, novas ideias e é por isso que este trabalho, este labor de reflexão teórica, de reflexão científica é inesgotável, é inconclusivo, é inacabado, está sempre a caminho…” (Bento, Anexo 1).
Sendo agora altura de apresentar o corpus de conhecimento final, construído por um trabalho de pesquisa, reflexão e dedicação apaixonada, importa sublinhar que as hipóteses enunciadas não são, para nós, uma posse (uma gratificação em si mesmas) mas sim um crescimento que consideramos fundamental à evolução deste fenómeno que nos «atrevemos» a cientificar.
As evidências que a seguir vamos enunciar representam uma “transformação espiraloidal da estrutura original” e, por isso, têm a pretensão de se constituir como uma verdadeira conclusão «introdutória».
Depois de tudo o que foi salientado no presente estudo, podemos concluir que o Futebol carece, inquestionavelmente, de uma mudança de paradigma capaz de representar o seu carácter caótico, complexo, auto-organizador e multifractalizador.
Depois de redefinir o Jogo, o Jogar, a Equipa, o Movimento, a Finta, o Timing, a Velocidade e a Inteligência, concluímos que o Futebol impõe, em função de uma plurideterminação, a «cerebralização» do músculo e a «corporalização» do cérebro, desempenhando as emoções e os sentimentos papel fundamental nessas aprendizagens.
Devemos ainda ter em consideração que sendo o Futebol um fenómeno que requisita, por parte de quem o pratica, uma grande adaptabilidade, a Especificidade Precoce é uma necessidade.
Contudo, uma vez que a sociedade (des)evoluiu num sentido eminentemente «condominado», urge a necessidade de racionalizar, qualitativamente, os processos de formação, em torno das novas circunstâncias, no sentido de reciclar, bem, aquelas que foram as actividades de infância daqueles que
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posteriormente se revelaram como talentos futebolísticos de expressão mundial.
Concluímos, deste modo, que as actividades de infância desses Talentos mais não eram do que o Futebol de Rua na sua máxima expressão e que, para desenvolver o talento, à maneiro do que acontecia antigamente, a reciclagem do Futebol de Rua pelas escolas e clubes de futebol pode representar uma aposta determinante na Requalificação do Futebol.
Concluímos, a este respeito, que se entendermos a categorização como um processo complexo, abrangente e limitativo, mas não limitador, é possível estabelecer uma série de categorias formais-rurais, capazes de configurar a operacionalização da aposta supra enunciada. Desta conclusão emanou a descoberta de cinco categorias «formais-rurais» fundamentais. São elas, a COMPETIÇÃO, o ESTADO DE ALMA, a DESCOBERTA GUIADA, a IMITAÇÃO e a VARIABILIDADE QUANTITATIVA DE RELAÇÃO COM BOLA.
Concluímo, ainda, da categorização exposta, que o processo que permite o despoletar do talento deve ser guiado por um determinado jogar (o de qualidade), numa operacionalização que promova a construção de jogadores capazes de usar TODOS os recursos para atingir um determinado fim, pela participação activa dos jogadores em todo o processo.
Em suma, para a exponenciação do Talento em Futebol urge a necessidade de uma Periodização À La Long, que se preocupe, desde o primeiro momento, em criar um jogar de qualidade, de realidade plural (uma vez que a qualidade colectiva, assim como a individual, no futebol se manifesta de múltiplas formas) e adaptar à Especificidade de cada escalão (qualitativamente determinado), desencadedaor do desenvolvimento da inteligência de Jogo, através da sua «cerebralização» e «corporalização».
Esta Periodização parte de uma abordagem complexa e dinâmica e identifica- se com conceitos sistémicos. Acreditamos, por isso, que este Paradigma nos permite assegurar um novo rumo para o Futebol.
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