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CAPÍTULO 4 DCE: GESTÃO E EFETIVAÇÃO NUMA REALIDADE

4.1 PARA EMBASAR A DISCUSSÃO: CONCEITOS E FUNÇÕES DA

Reconhece-se que com o passar dos tempos o conceito de Arte e sua função na sociedade foi alterado, arbitrariamente, de acordo com o sistema de produção vigente. Canclini (1984, p. 12) afirma que a legitimidade é dada ao artístico “pelas necessidades do sistema de produção e pela reprodução das atitudes consagradas como estéticas pela educação”. Em outras palavras, que a família e os escolares reproduzem a necessidade de fruição de determinadas obras artísticas que foram tidas dignas de serem apreciadas, no arbitrário cultural de um sistema de produção a partir de um modo de apreciação.

Independente da época, o que permanece, no entanto, é que o homem é o único ser capaz de conferir valor artístico, e, da mesma forma, consideramos ser ele o único que produz obras de Arte. Assim, seja modificando a natureza para construção de suas ferramentas, seja utilizando a própria natureza como Arte, o homem histórico e social é o protagonista da Arte.

Há, por exemplo, o entendimento de que o que uma obra de Arte quer „dizer‟, depende de cada indivíduo, ou seja, é subjetivo e não referente à história, cultura e sociedade do compositor. Nesse entendimento, ensinar Arte é possibilitar o domínio das técnicas para reproduzir a obra de Arte, haja vista que o conhecimento da Arte se revela nesse domínio.

Se, por um lado, não cremos na existência de uma obra de arte ideal, estanque da realidade histórico-social, por outro, também não cremos na obra de

arte totalmente individual. Nem essencial, nem objetiva, mas produzida historicamente pelo trabalho do homem social.

Por outro lado, há o entendimento de que a obra de Arte seja a expressão da subjetividade do artista, dos seus sentimentos e pensamentos. Logo, a técnica e a forma não são a prioridade, mas a expressão. Nessa concepção, ensinar Arte é viabilizar um meio de expressão ao aluno. Daí o conhecido chavão de que “Arte não se ensina, se expressa”.

Pode-se perceber que as duas concepções, acima expostas, restringem a finalidade do conhecimento artístico a ele mesmo, seja no domínio da técnica, seja na livre expressão. Porém, se se entende que o homem transforma a natureza e o mundo pela atividade criadora, oportunizar ao aluno o contato com a Arte, com o fazer artístico, é possibilitar que ele se veja como transformador da realidade material e da humana, por consequência.

Assim, entende-se que a concepção da Arte pela Arte, da contemplação subjetiva do objeto artístico, e da livre expressão são limitadas, haja vista que o objeto artístico não se encontra isolado do contexto histórico de sua produção.

Nesse caso, assumimos a concepção da Arte como forma de conhecimento a qual concebe a arte como verdade, ligada à realidade. Nesse entendimento o conhecimento artístico diferencia-se do conhecimento científico, pois a realidade refletida não é a realidade objetiva, posta independente do homem, mas é a realidade humanizada, que passou do plano filosófico geral para o estético (VÁZQUEZ, 1978, p. 33).

Assim, podemos dizer que o objeto específico da arte é o homem em sua relação com o mundo, não de forma generalizada, mas na sua particularidade (inclusive histórica), refletida no objeto artístico. Vázquez (1978, p. 36) propõe ainda que esta reflexão não ocorre pela mera imitação ou reprodução do concreto real, mas a arte é conhecimento na medida em que é criação de uma nova realidade (ou obra de arte) específica e humanizada. Nesse sentido afirma:

(...) o conhecimento que a arte pode nos dar acerca do homem, este conhecimento só pode ser atingido por um caminho específico que não é, de modo algum, o da imitação ou reprodução do concreto real; a arte vai do concreto real ao concreto artístico [...]. O conhecer artístico é fruto de um fazer; o artista não converte a arte em meio de conhecimento copiando uma realidade, mas criando outra nova. A arte só é conhecimento na medida em que é criação. Tão somente assim pode servir à verdade e descobrir aspectos essenciais da realidade humana. (VÁZQUEZ, 1978, p. 35, 36)

Entendemos assim que esse é um primeiro passo em direção à emancipação da alienação no sistema capitalista em que nos situamos. Peixoto (2003, p. 45, 46), fundamentada nos escritos de Marx, afirma que os sentidos humanos “podem se embrutecer sob o império da necessidade premente”, ou seja, a luta pelas necessidades humanas básicas diárias impede ou dificulta ao homem o acesso à Arte, a qual tem seu valor estético “obnubilado pelo valor de troca”, e não vê na obra de arte outro valor que não o comercial.

Assumimos a humanização dos sentidos no espaço escolar, a partir da concepção da Arte como conhecimento, como determinante “para a superação do homem desumanizado [...] no processo produtivo, com vista à sua humanização e à construção de uma [...] [sociedade] que venha produzir o homem passível de desenvolver em toda a plenitude o seu ser” (PEIXOTO, 2003, p. 49).

O ensino de Arte que defendemos é aquele que possibilita ao estudante se aproximar da obra de Arte para conhecê-la na sua totalidade histórica, cultural, social e técnica e, a partir desse conhecimento, reconheça a sua própria história como homem que é, na totalidade humana. Esse conhecimento dará ao aluno os conhecimentos necessários para lhe possibilitar uma leitura crítica da realidade e, nesse ensino, o trabalho ou fazer artístico, são um eixo metodológico imprescindível. A respeito do ensino de Arte na educação básica PENNA (1995) expõe que esse se insere dentro de um projeto de democratização no acesso à cultura, e que para isso

é preciso que a escola encare o difícil desafio de buscar formas alternativas para, no curto espaço da situação escolar, desenvolver em todos a familiarização com a arte, que alguns devem a uma vida inteira em determinado ambiente sócio-cultural. (PENNA, 1995, p. 20)

Nessa colocação a autora reconhece a dificuldade da relação entre ensino e tempo. A arte abarca, no espaço escolar, pelo menos quatro áreas (música, dança, artes visuais e teatro), e sua carga horária varia de uma a quatro horas-aula por semana (dependendo do sistema e série em que estiver inserida, considerando-se a partir do ensino fundamental II e ensino médio53), logo a expressão “difícil desafio”

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Em geral, nas escolas particulares a disciplina de Arte tem uma hora-aula semanal no ensino fundamental II e no ensino médio. Já nas escolas públicas paranaenses, a disciplina de Arte tem duas horas-aula semanais nas duas etapas de ensino, entretanto, em se tratando do ensino médio em blocos, no qual as disciplinas anuais são divididas entre dois semestres, a disciplina de Arte tem quatro horas-aula semanais em um semestre anual.

utilizada pela autora é totalmente pertinente se se pretende que o aluno tenha uma formação artística vasta, de ampliação do seu universo cultural.

Já especificamente em relação ao ensino de música, de modo elementar, podemos dizer esse se refere à relação de ensino-aprendizagem entre professor, aluno e música. Ou, nas palavras de Souza, que “a tarefa básica da música na educação é fazer contato, promover experiências com possibilidades de expressão musical e introduzir os conteúdos e as diversas funções da música na sociedade sob condições atuais e históricas” (SOUZA, 2001, p. 176).

Com base nessa citação, pode-se afirmar que no contexto escolar o ensino de música deve contemplar a música da sociedade de hoje e de tempos passados, em suas diversas funções, seja de expressão emocional, prazer estético, diversão, religiosa, etc.54, de modo que possibilite o contato e a experimentação da amplitude de possibilidades musicais. Entretanto, reiteramos que esse ensino não deve se limitar a essas questões.

Fazendo uso novamente dos textos de Penna (2008c), podemos citar que ela concebe a musicalização no espaço escolar

como um processo educacional orientado que, visando promover uma participação mais ampla na cultura socialmente produzida, efetua o desenvolvimento dos instrumentos de percepção, expressão e pensamento necessários à apreensão da linguagem musical, de modo que o indivíduo se torne capaz de apropriar-se criticamente das várias manifestações musicais disponíveis em seu ambiente - o que vale dizer: inserir-se em seu meio sociocultural de modo crítico e participante. (PENNA, 2008c, p. 47)

O que fica evidenciado nessas citações é que o intuito do ensino de música no contexto escolar não tem a intenção de formar o músico profissional, ou instrumentista, mas de ampliar o conhecimento musical historicamente construído, desenvolver os meios de percepção individual e instrumentalizar, assim, o aluno para que faça uma leitura do concreto real iniciando pela crítica musical. Ressaltamos ainda que esse objetivo não é limitado à existência individual do estudante, mas que além de favorecer seu desenvolvimento como homem em sua totalidade, possibilita a sua inserção na sociedade, conforme acima citado, “de modo crítico e participante”.

Faz-se necessário esclarecer que a própria Penna (2008c, p. 46) concebe uma diferenciação entre musicalização e educação musical. A primeira destina-se à escola regular e trata do fato musical em si, já a educação musical, sendo mais

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ampla, pode atingir etapas de desenvolvimento musical que ultrapassam a musicalização, tal como notação musical convencional55. Em nosso entendimento, porém, não há necessidade de limitar o ensino de Arte/música escolar à musicalização, entretanto, tendo em vista de que, generalizadamente, o ensino de música não está tão presente nas escolas do modo como apresentamos neste tópico, se faz necessário apresentar um parâmetro inicial para que educadores musicais brasileiros estabeleçam suas metas educacionais relacionadas à música. Quiçá pudéssemos pensar que em curto prazo as escolas públicas brasileiras tivessem, além do ensino de música, o ensino de teoria e instrumentos musicais!

4.2) AS CONCEPÇÕES SOBRE O ENSINO DE ARTE DOS GESTORES