Redimidos da maldição
5. Para remir os que estavam debaixo da lei, a
fim de recebermos a adoção de filhos.
A expressão “meninos” do versículo três, se refere a condição em que estávamos antes de receber “a adoção de filhos” (vers. 5). Representa nossa condição antes de ser redimidos da maldição da lei, ou seja, antes de nossa conversão. Se trata dos “meninos inconstantes, levados por qualquer vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente (Efe. 4:14). Em resumo: refere-se a nós em nosso estado antes da conversão, quando “vivíamos nos desejos da nossa carne... e éramos por natureza filhos da ira,
igual aos demais” (Efe. 2:3).
“Quando éramos meninos”, “éramos servos debaixo dos rudimentos do mundo”. “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não são do Pai, mas do mundo. E o mundo e seus desejos passam” (1 João 2:16 e 17). A amizade do mundo é inimizade contra Deus. “Não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus?” (Tiago 4:4). É “do presente século mau” que Cristo veio nos salvar. “Cuidem para ninguém vos engane por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição de homens, conforme os elementos do mundo, e não segundo Cristo” (Col. 2:8). A passagem “debaixo dos rudimentos do mundo” consiste em andar “segundo a corrente deste mundo”, viver “ao impulso dos desejos de nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”, sendo “por natureza filhos da ira” (Efe. 2:1-3). É a mesma escravidão descrita em Gálatas 3:22-24: “Antes que chegasse a fé”, quando estávamos “confinados debaixo da lei”, encerrados “debaixo do pecado”. É a condição dos
homens que estão “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efe. 2:12).
Todos podem ser herdeiros
Deus não tem descartado a raça humana. Pois ao primeiro homem criado o chamou de “filho de Deus” (Luc. 3:38), todos os homens podem ser igualmente herdeiros. “Antes que chegasse a fé”, desde que todos nos apartamos de Deus, “estávamos guardados pela Lei”, guardados por um severo vigilante, tidos em sujeição, a fim de podermos ser levados a aceitar a promessa. Que benção, que Deus concede também aos ímpios, ou a quem estiver na escravidão do pecado, como a seus filhos; filhos errantes e pródigos, mas sempre filhos, do começo ao fim! Deus tornou todos os homens “aceitos no Amado” (Efe. 1:16). O presente tempo de prova nos é dado com o propósito de nos oferecer uma oportunidade para que o conheçamos como nosso Pai, e que venhamos a ser-lhe verdadeiros filhos. A menos
que retornemos a Ele, morreremos como escravos do pecado. “Quando se cumpriu o tempo”, Cristo veio. Em Romanos 5:6 encontramos uma expressão paralela: “Quando éramos fracos, a seu tempo Cristo morreu pelos ímpios”. A morte de Cristo opera a salvação tanto dos que vivem hoje como para seus contemporâneos, que viveram na Judéia, antes que se manifestasse em carne. Não teve um maior efeito nos que viveram naquela geração. Morreu uma vez por todos, mas seu impacto é o mesmo em qualquer época. “Quando se cumpriu o tempo”, se refere ao tempo no qual a profecia havia predito que se revelaria o Messias, mas a redenção é para todos os homens, em todas as épocas. Foi “conhecido ainda antes da criação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos” (1 Ped. 1:20). Se o plano de Deus houvesse sido o de se revelar em nossos dias, não haveria diferença alguma, de acordo com o propósito geral do evangelho. “Está sempre vivo” (Heb. 7:25), e sempre estará. “É o mesmo ontem, hoje e por todos os séculos” (Heb. 13:8). É “pelo Espírito eterno” que se ofereceu a si mesmo por nós (Heb. 9:14); portanto, esse sacrifício é eterno, presente e igualmente eficaz em
qualquer era.
“Nascido de mulher”
Deus enviou seu Filho “nascido de mulher”: um homem autêntico. Viveu e sofreu todas as enfermidades e dores que afligem o homem. “O Verbo se fez carne” (João 1:14). Cristo sempre se referiu sempre a si mesmo como “o Filho do homem”, identificado-se assim para sempre com todo o gênero humano. Uma união que nunca será quebrada.
Sendo “nascido de mulher”, necessariamente teve que ser “nascido debaixo da Lei”, desde que essa é a condição de toda a humanidade. “Pelo que convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” (Heb. 2:17). Tomou sobre si todas as coisas. “Levou nossas enfermidades e sofreu nossas dores” (Isa. 53:4). Tomou nossas enfermidades e levou nossas doenças” (Mat. 8:17). “Todos nós nos perdemos como ovelha, cada um se
afastou por seu caminho: mas Jeová carregou nele o pecado de todos nós” (Isa. 53:6). Nos redime vindo literalmente em nosso lugar, e levando a carga de nossos ombros. “Como não teve pecado, Deus o fez pecado por nós, para sermos feito justiça de Deus Nele” (2 Cor. 5:21).
No mais pleno sentido da palavra, e em um grau que raramente se pensa quando se usa a expressão, se converteu em substituto do homem. Permeia todo nosso ser, identificado-se tão completamente conosco, que tudo quanto nos toque ou afete, toca e afeta Ele. Não é nosso substituto no sentido em um homem substitui outro. No exército, por exemplo, é colocado um soldado na posição de outro que está em algum outro campo. Mas a substituição de Cristo é algo completamente diferente. É tão completamente nosso substituto que vem em nosso lugar e já não aparecemos mais. Desaparecemos, de forma que “já não vivo eu, mas Cristo vive em mim”. Coloquemos nossas necessidades nEle, não tirando-as de nós e colocando-a sobre Ele mediante penoso esforço, mas humilhando-nos no nada que realmente somos,
de forma que nossa carga descanse somente nEle. Podemos ver já a forma em que veio “redimir aos que estavam debaixo da Lei”. O faz no mais real e prático dos sentidos. Alguns supõem que essa expressão significa que Cristo livrou os judeus da necessidade de oferecer sacrifícios, ou de toda a obrigação de guardar os Mandamentos. Por si somente os judeus estavam “debaixo da lei”, então Cristo veio redimir só os judeus. Nós precisamos reconhecer que estamos – ou estivemos antes de ser crentes – “debaixo da lei”, pois Cristo veio redimir precisamente os que estavam “debaixo da lei”, e não a outros. Estar “debaixo da lei”, tal como temos visto, significa estar condenado pela lei como transgressores. Cristo não veio “chamar os justos, mas pecadores” (Mat. 9:13). Mas a lei condena exclusivamente os que estão sob sua jurisdição, e aqueles que estão sob a obrigação de obedecê-la. Considerando que Cristo nos livra da condenação da lei, é evidente que nos redime para uma vida de obediência à lei.
"A fim de que recebêssemos a adoção de filhos”
"Amados, agora já somos filhos de Deus” (1 João 3:2). “A todos que o receberam, aos que creram em seu Nome, lhes deu o direito de serem filhos de Deus” (João 1:12). É um estado radicalmente diferente do descrito em Gálatas 4:3 (“quando éramos meninos”). Naquela situação, poderia ser dito de nós “que este povo é rebelde, filhos mentirosos que não querem obedecer a Lei do Eterno” (Isa. 30:9). Ao crer em Jesus e receber “a adoção de filhos”, somos descritos como “filhos obedientes”, não conforme os maus desejos que obedecíamos em nossa ignorância (1 Ped. 1:14). Cristo disse: “Meu Deus, me deleito em fazer a tua vontade, e tua Lei está no meu coração” (Sal. 40:8). Portanto, uma vez que se fez nosso substituto, tomando literalmente nosso lugar, não no lugar de nós, mas vindo a nós e vivendo sua vida em nós e para nós, fica claro que sua lei estará em nosso coração, quando recebermos a adoção de filhos.