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Paradigma, abordagens, tipo e procedimento de pesquisa

5. APONTAMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA: A TRAMA DA ESCRITA

5.1. Paradigma, abordagens, tipo e procedimento de pesquisa

Tendo em vista que utilizamos os contributos dos princípios fundantes do pensamento de Paulo Freire para analisar a trajetória socio-histórica de Desenvolvimento Profissional Docente - DPD, este estudo assenta-se na Fenomenologia, visto que as obras freireanas estão permeadas por ideias fenomenológicas e existencialistas, a exemplo da discussão sobre consciência e conscientização, diálogo, comunicação, autonomia; sobre o inacabamento, a inconclusão e a finitude do ser humano, entre outros mais.

Não é nossa tarefa aqui discutir em profundidade o paradigma fenomenológico;

contudo, é pertinente elucidar que “a fenomenologia é uma doutrina universal das essências, que se integra à ciência da essência do conhecimento” (HUSSERL, 1990, p.22). Com isso, indiscutivelmente, coloca a ciência em questionamento e o seu lugar de “verdade irrefutável”;

além disso, questiona a realidade e o processo de conscientização humana.

Tomar a trajetória de DPD, aqui particularmente, a formação stricto sensu, como objeto de análise, exige estudar a essência desse fenômeno e desprender das lentes tradicionais, isto é, das ideias pré-concebidas. O exercício é complexo, porém necessário para se permitir adentrar no universo dos/as docentes colaboradores/as desta pesquisa e conhecer os fatores que trazem implicações para o DPD. Reale (1991) nos chama a atenção ao escolher a fenomenologia como corrente filosófica, pois:

[...] não manipula dados de fato, mas essências; não se interessa pelo comportamento moral desta ou daquela pessoa, mas pretende conhecer a essência da moralidade e ver se a moral é ou não fruto de ressentimento. O fenomenólogo cumpre funções bem diferentes das cumpridas pelos cientistas.

A consciência é intencional, é sempre consciência de alguma coisa (REALE, 1991, p. 555).

Esse conjunto de afirmativas delineia um/a perfil necessário de pesquisador/a que se interessa por fenômenos em sua essência, que se dispõe ao exercício cauteloso exigido por toda pesquisa, buscando compreender a historicidade dos acontecimentos, em um movimento dinâmico e contínuo. Ademais, colocar-se na posição de pesquisador/a desses fenômenos demanda uma consciência crítica de que o DPD tem suas particularidades, varia de professor/a para professor/a, ou seja, existem muitos fatores que nele influem, como: valorização, carreira, remuneração, salário, políticas de formação, plano de carreira, condições de trabalho, entre tantos elementos (OLIVEIRA, 2013; FERREIRA, 2020; 2021; CRUZ; BARRETO;

FERREIRA, 2020). Como nos assevera Amado e Crusoé (2017, p. 19):

[...] num processo de pesquisa, não nos podemos instalar no já sabido (aparente, tradicional, dogmático) nem no mais fácil (como seria ficar pela mera descrição do que dizem e fazem os sujeitos observados). Pelo contrário, exige que saibamos colocar-nos, permanentemente, no seio das grandes contradições inerentes ao mundo da vida – o indivíduo e a sociedade, a liberdade e o determinismo, o contingente e o previsível, o micro e o macro, o local e o global, a teoria e a prática, a simplicidade e a complexidade, o subjetivo e o objetivo – e que saibamos compreender a necessária relação dialética entre esses contraditórios.

De posse dessa compreensão, os princípios fundantes da pedagogia de Paulo Freire se constituíram como uma alternativa para fundamentar a nossa percepção sobre os dados da pesquisa. Dada a historicidade do pensamento freireano, é possível observar em seus escritos a presença do paradigma fenomenológico-existencialista.

A origem da fenomenologia é demarcada nas produções de Edmund Husserl (1859-1938), que ficou conhecido como o criador desse paradigma, corrente filosófica tão bem difundida nas pesquisas em Educação. Em especial, naquelas que estudam os fenômenos que emergem do cotidiano da sala de aula, das relações sociais, das práticas escolares etc. A esse respeito, Reale (1991, p. 554) aponta:

[...] a palavra-de-ordem da fenomenologia é a do retorno às próprias coisas, indo além da verbosidade dos filósofos. [...] Em suma, procuram-se evidências estáveis para colocar como fundamento da filosofia “sem evidência, não há ciência”, diria Husserl nas Pesquisas Lógicas. [...]. A fenomenologia não é ciência dos fatos, e sim ciência de essências (REALE, 1991, p. 554).

Indiscutivelmente, a fenomenologia é uma ciência, e, como tal, apresenta uma relação entre sujeito e objeto, estabelecida por vínculo necessário para o processo de conscientização.

Neste domínio de pensamento, Paulo Freire concebe em seus escritos o homem/mulher como

ser no e com o mundo, mediatizados/as em uma relação que pode permitir o processo de conscientização à medida que percebe a própria capacidade de atuação e transformação desse mundo, no qual se encontra inserido/a.

Partindo desse viés, fomos em busca do “que se mostra; o que se revela” (HEIDEGGER, 2007, p. 67) para compreender os processos de construção da profissionalidade docente, com vistas a analisar como os/as professores/as se desenvolvem e em quais condições. Este tipo de pesquisa dos fenômenos da vida precisa ser fundamentado na fenomenologia, “sempre que se queira dar destaque à experiência de vida das pessoas” (MOREIRA, 2020, p. 60). Neste viés, foi necessário assumir uma postura fenomenológica a partir das observações do campo de pesquisa, do estudo de como o/a docente percebe o mundo a sua volta e assim descrever os fenômenos da forma como eles se apresentam à consciência.

Neste caminho investigativo, escolhemos a abordagem qualitativa para o direcionamento desta pesquisa, posto que ela traz pontos em comum com a fenomenologia. De acordo com Moreira (2002, p. 44), a pesquisa qualitativa é recomendada para quem trabalha

“preferencialmente com as palavras oral e escrita, com sons, imagens, símbolos etc.”, os quais serão interpretados de forma subjetiva pelo/a pesquisador/a. O fato é que “os interpretacionistas enxergam a vida como uma atividade das pessoas em contato com as outras” (MOREIRA, 2002, p. 44). Destarte, calcados na fenomenologia, estes focam no comportamento humano, para compreender como os sujeitos interagem no mundo, como se constroem e reconstroem, se transformam e transformam o contexto em que estão inseridos.

Para Chizzotti (2006, p. 28), “a pesquisa qualitativa recobre hoje um campo transdisciplinar, envolvendo as ciências humanas e sociais” e exige do/a pesquisador/a concepções claras e bem definidas que orientem a ação, as práticas investigativas, os procedimentos e instrumentos para produção de dados. Este tipo de abordagem possibilita captar a realidade, em seu dinamismo e heterogeneidade e, assim, dar voz aos sujeitos participantes para conhecer suas histórias pessoais e profissionais, sua relação com a formação stricto sensu, com o seu campo de atuação profissional e sua prática docente.

Chizzotti (2006, p. 27-28) contribui para refletirmos sobre a pesquisa qualitativa ao afirmar que:

Se [...] o pesquisador supõe que o mundo deriva da compreensão que as pessoas constroem no contato com a realidade nas diferentes interações humanas e sociais, será necessário encontrar fundamentos para uma análise e para a interpretação do fato que revele o significado atribuído a esses fatos pelas pessoas que partilham dele. Tais pesquisas serão designadas qualitativas, termo genérico para designar pesquisas que, usando ou não quantificações,

pretendem interpretar o sentido do evento a partir do significado que as pessoas atribuem ao que falam e fazem (CHIZZOTTI, 2006, p. 27-28).

Conforme o referido autor, a abordagem qualitativa não é infalível, ou seja, não nos oferece respostas claras e definitivas. Posto isto, foi necessário um esforço para analisar as trajetórias históricas e dialéticas de DPD, com vistas a explorar os fenômenos que emergiram da pesquisa e compreender os limites, as contradições e a interpretação subjetiva dos dados, o que caracteriza esta pesquisa como descritiva e exploratória. Esta descrição e exploração requerem um trabalho de seleção da gama de dados produzidos, perguntar-se quais devem ser examinados, levando em consideração os objetivos a serem alcançados (GIBBS, 2009).

A partir dessa perspectiva, adotamos a pesquisa-formação como procedimento de pesquisa, por melhor atender ao objetivo aqui proposto. Assim, sujeitos pesquisados/as e pesquisadores/as assumem o papel de protagonistas no processo dialógico, pois ocorre tanto a produção dos dados (pesquisa) quanto o mergulho formativo (formação). É desse modo que ambos os protagonistas são envolvidos/as, independentemente da posição que ocupam.

Com a pesquisa-formação ocorrem as interações dialógicas humanas, respeitosas e que valorizam as histórias de vida e as experiências dos/as participantes. Trata-se de “uma experiência a ser elaborada para que quem nela estiver empenhado possa participar de uma reflexão teórica sobre a formação e os processos por meio dos quais ela se dá a conhecer”

(JOSSO, 2004, p. 113). Nesse movimento, tende a possibilitar a reflexão/ação; por conseguinte, provocar processos de conscientização, ao passo que somos impactados com o exercício de olhar para si e para os outros (JOSSO, 2007).

Para realização desse tipo de procedimento de pesquisa, é necessário conceber o/a professor/a como sujeito histórico e aprendiz, posto que lampejam de seus discursos os acontecimentos que marcaram a sua vida pessoal e profissional; os contextos que inibiram ou favoreceram o seu DPD; seus saberes; seus conhecimentos; suas práticas educativas; seus sonhos; seus medos; suas lutas, entre outros. Tudo isso tende a provocar processos formativos tanto para os/as pesquisadores/as como para os/as pesquisados/as, visto que há reflexão ao ouvir e narrar a própria história, relacionar os saberes e conhecimentos com as experiências na docência e na formação, organizar os acontecimentos e refletir sobre eles. Em síntese, na escolha da pesquisa-formação é possível provocar a formação individual a partir de uma ação coletiva.

5.2. Campo Empírico, colaboradores/as da pesquisa e instrumentos/técnicas para