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CAPÍTULO 1 – TRAJETÓRIA DA PESQUISA

1.3 MÉTODOS E TÉCNICAS

1.3.1 Paradigma da pesquisa

O paradigma representa uma determinada maneira de conceber e interpretar a realidade sendo essencial à investigação científica (SANDÍN, 2010), uma vez que nenhuma interpretação pode ser realizada na ausência de um corpo implícito de convicções teóricas e metodológicas, que entrelaçadas orientam os processos de seleção, avaliação e crítica (SIENA, 2007).

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Neste sentido, buscou-se suporte em Kuhn (2006), para quem o paradigma representa uma teoria ou sistema dominante o qual concebe a constelação de crenças, valores e técnicas utilizadas numa área científica, em particular, sendo compartilhado pelos membros de uma comunidade determinada (ciência normal). Tal comprometimento e consenso se mantêm até o momento em que o paradigma vigente torna-se insuficiente para explicar um fato novo. Surge daí descontinuidades e rupturas que dão origem a novas teorias, provocando revoluções científicas.

A modernidade é considerada como um dos períodos mais significativos da crise de paradigmas, representando o “[...] teatro de uma revolução científica sem par na história da humanidade” (DOMINGUES, 1999, p. 32). Até então, a produção do conhecimento fundava- se na filosofia (antiguidade clássica) e na teologia (era medieval). A partir do século XVI surge um novo modelo de conhecimento (paradigma), pautado nas ciências positivas nas quais o rigor científico é aferido pelo rigor das medições, levando as outras ciências a afastarem-se do corpo da filosofia natural (SANTOS, 2009). A marca dessa transição é o confronto entre o modelo geocêntrico (Aristóteteles) e o heliocêntrico (Copérnico) que se deu na passagem desse século para o seguinte (MARCONDES, 2005).

No século XVII a episteme2 encerra como projeto comum a mathesis universalis, uma ciência universal da ordem e da medida, crença na ordem e racionalidade do mundo, cujo modelo são as matemáticas, tendo como principal expoente a obra de Descartes. No século XVIII surge uma ciência completamente dissociada da metafísica3, edificada nas ciências da natureza na qual o conhecimento tem como paradigma a física de Newton que associa o matematismo ao empirismo (DOMINGUES, 1999).

Essa fragmentação deu origem a um pensamento cada vez mais fechado e isolado, responsável por levar a ciência a se apropriar do objeto e a filosofia do sujeito, criando assim uma distinção entre o humano e o natural (MORIN, 1987, p. 21). Isto fez com que o universo passasse a ser enxergado sob uma perspectiva reducionista, considerada por Amador (2009)

2 O termo grego episteme, que significa ciência, por oposição a doxa (opinião) e a techné (arte, habilidade), foi

reintroduzido na linguagem filosófica por Michel Foucault com um sentido novo, para designar o "espaço" historicamente situado onde se reparte o conjunto dos enunciados que se referem a territórios empíricos constituindo o objeto de um conhecimento positivo (não-científico).

3 O termo "metafísica" origina-se do título dado por Andronico de Rodes, principal organizador da obra de

Aristóteles, por volta do ano 50 a.C., a um conjunto de textos aristotélicos — ta meta ta physikd — que se seguiam ao tratado da física, significando literalmente "após a física", e passando a significar depois, devido a sua temática, "aquilo que está além da física, que a transcende". [...] Kant vê solução para as pretensões da metafísica apenas no campo da razão prática. Isto é, não do conhecimento, mas da ação, da moral. "A metafisica, conhecimento especulativo da razão isolada e que se eleva completamente para além dos ensinamentos da experiência através de simples conceitos” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p. 129).

como o cerne do paradigma tradicional da Ciência. Trata-se, no entendimento desta autora, de uma concepção estática, que se orienta pela causualidade linear, obedece a um princípio de ordem, eliminando a desordem, e conduz a observação para um ponto da sequencial de interações.

Segundo Santos (2009), no século XIX inicia-se um movimento questionador da supremacia do paradigma da racionalidade científica. Esse colapso foi gerador da profunda revolução epistemológica no conhecimento científico que caracteriza a situação intelectual do tempo presente. Duas importantes facetas sociológicas surgem desse processo: uma delas é o fato de tais reflexões estarem sendo geradas no próprio meio científico e a outra se constitui na análise das condições sociais, dos contextos culturais e dos modelos organizacionais da investigação científica, antes recolhida no campo separado e estanque da sociologia da ciência.

No seu ponto de vista, a crise do paradigma dominante resulta de “[...] posturas diferenciadas, ou seja, cada vez mais o mundo se pluraliza. Essa pluralização, por sua vez, também exige do ser humano um pensamento plural” (SANTOS, 2009, p. 47), condição necessária para se conviver no atual cenário, caracterizado por constantes mudanças e incertezas. Tais transformações têm posto em xeque os pressupostos e procedimentos que até então orientaram a atividade científica e conferiram credibilidade ao seu resultado.

Vasconcellos (2002) explica que as limitações da ciência clássica para responder aos problemas e questões da sociedade presente tem sido geradora de uma crise paradigmática que se esforça para deixar de lado uma visão linear, objetiva e fragmentada do objeto de estudo passando a incorporar uma visão contextualizadora, capaz de compreender as partes como componentes de um todo, dinâmico, onde ocorrem múltiplas relações.

O restabelecimento dessa condição exige a aceitação de uma realidade que se encontra envolta em paradoxos e incertezas. Isto não significa a contestação do conhecimento objetivo, cujos benefícios foram inestimáveis, mas sim de integrá-lo em um conhecimento mais vasto e refletido (MORIN, 1987). Esse entendimento conduz a busca por um paradigma que dê conta de inúmeras questões – um conhecimento sistêmico – que explique os fenômenos em sua totalidade. Foi nessa concepção que se fundamentou esta pesquisa, haja vista compartilhar-se do pensamento de Edgar Morin ao afirmar que:

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[...] o ser humano faz parte dum sistema social, no seio dum ecossistema natural, que por sua vez está no seio dum sistema solar, que por sua vez está no seio dum sistema galáctico: é constituído por sistemas celulares, os quais são constituídos por sistemas moleculares, os quais são constituídos por sistemas atômicos. Existe, pois, neste encadeamento, cruzamento, imbricamento, sobreposição de sistemas, e na necessária dependência duns em relação aos outros, como, por exemplo, na dependência que liga um organismo vivo, no planeta Terra, ao Sol, que o rega de fotões, à vida exterior (ecossistema) e interior (células e eventualmente microrganismos), à organização molecular e atômica, um fenômeno e um problema chave (MORIN, 1987, p. 96-97).

Segundo Domigues (1999) a idéia de sistema não é recente, pelo contrário, é tão antiga quanto a filosofia, estando presente em Plantão, o qual sugeria para o filósofo um espírito capaz de abarcar com um só “olhar” e de um só “golpe” a totalidade do real; na raiz do modelo cosmológico que comandou a episteme na antiguidade clássica; e mesmo na idade média, em sua variante teológica cuja compreensão estendia os atributos do cosmo ao espírito. Entretanto, somente nas três últimas décadas do século XX acrescentaram-se aos questionamentos a respeito do paradigma tradicional da ciência importantes contribuições vindas de cientistas conceituados, a exemplo do químico russo Ilya Prigogine, do físico e ciberneticista austríaco Heinz von Foerster, do biofísico francês Henri Atlan, dos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, entre outros, de forma que coexistem atualmente diferentes vertentes da ciência dos sistemas (VASCONCELLOS, 2002).

Cabe ressaltar que o paradigma sistêmico, no qual este estudo buscou aporte, refere-se à epistemologia sistêmica, uma nova premissa, visão de mundo, conjunto de pressupostos, e não à teoria sistêmica (VASCONCELLOS, 2002). A Teoria Geral dos Sistemas, atribuída ao biólogo alemão Ludwig von Bertalanffy, considerou duas tendências básicas na ”ciência dos sistemas” a mecanicista e a organicista, chama atenção essa autora, que vê tal distinção como fundamental.

Todas essas considerações conduziram ao entendimento de que, se a natureza é um todo polissistêmico, como bem afirma Morin (1987), não há como querer interpretar os fenômenos que dizem respeito ao viés da sustentabilidade, onde as dimensões imbricam-se umas nas outras, senão sob uma perspectiva sistêmica. Isto suscita, porém, mudanças de critérios de validação da verdade, representando uma ruptura com o positivismo, razão pela qual a transição paradigmática da racionalidade científica para o paradigma sistêmico ainda

não é facilmente aceita ou bem compreendida (MARCONDES, 2005). Tal reação não deve, entretanto, ser vista com estranheza, pois muitas das revoluções científicas – crises mais radicais de paradigmas – só são percebidas ao longo do tempo, num processo analítico da história.