1. NATUREZA E ÂMBITO DO ESTUDO
1.2. PARADIGMA DO ESTUDO
Tendo em conta os objectivos propostos, este trabalho de investigação insere-se numa abordagem interpretativa, uma vez que se procura conhecer e valorizar a perspectiva dos sujeitos sobre as questões previamente definidas (Bogdan & Bilken, 1994). Este é um estudo de natureza qualitativa, no qual a preocupação central é a compreensão aprofundada de uma determinada problemática.
Segundo Bagdan e Biklen (1994), os investigadores qualitativos partem para um estudo munidos dos seus conhecimentos e da sua experiência, com hipóteses formuladas com o único objectivo de serem modificadas e reformuladas à medida que vão avançando (p.84).
A investigação traz, inevitavelmente, uma grande carga de valores, interesses e princípios que orientam o investigador na procura do conhecimento científico. Esse
conhecimento “(…) vem igualmente marcado pelos sinais do seu tempo, comprometido com a sua realidade histórica.” (Ludke & André, 1986).
A vantagem da utilização de uma metodologia qualitativa em estudos em que se pretende compreender e descrever situações de ensino, nas quais têm especial relevância os pensamentos dos professores, tem sido largamente divulgada por vários investigadores (Clark, 1986, p.94).
Segundo Eisner (1991), no contexto da Educação, a investigação qualitativa significa, que é através do nosso sistema sensorial que todas as qualidades são experienciadas e são tanto mais securizantes quanto elas estiverem presentes, quer no ambiente, quer de uma imaginação activa. A capacidade de experienciar qualidades é uma forma de realização humana, que depende de um acto de pensamento e a experiência qualitativa depende das formas qualitativas de investigação. Ver, ouvir e sentir são aprendizagens, que usadas de forma subtil ajudam na diferenciação dos dados perceptíveis.
Entendemos, tal como Flores (1994), por estudo qualitativo, um estudo em que a finalidade da investigação é compreender e interpretar a realidade tal como é entendida pelos sujeitos participantes e em que os “dados” estudados são relativos às interacções entre sujeito e investigador.
Berger (2000) discute a diferença entre investigação qualitativa e quantitativa. Para este autor, qualidade tem a ver com a resposta à pergunta "de que tipo?", enquanto quantidade tem a ver com a resposta à pergunta “quantos?”.
Muitas vezes, os investigadores quantitativos são acusados de ser demasiado restritos, porque só se interessam pelo que podem contar e medir, esquecendo, muitas vezes, o que realmente importa.
É objectivo dos investigadores qualitativos, compreender melhor o comportamento e experiências humanas, tentar entender o processo mediante o qual as pessoas constroem significados e descrevem em que consistem estes mesmos significados, através de uma observação empírica. (Bogdan & Biklen, 1994).
Para Botelho (2002), na investigação de opinião (investigação qualitativa) o investigador centra-se em casos únicos ou em várias pessoas, em situações ou organizações. Segundo a mesma autora, a investigação qualitativa descreve casos únicos ou procura desenvolver afirmações gerais baseadas nas questões comuns aos vários casos e visa descrever as características específicas dos fenómenos sociais e
educacionais, podendo desenvolver esforços, no sentido da generalização e da teorização.
Segundo Bogdan et al. (1994), os investigadores qualitativos estabelecem estratégias e procedimentos que lhes permitam tomar em consideração as experiências do ponto de vista do informador.
É na reflexão e na crítica sistemática à perspectiva positivista, em relação à prática científica, onde o papel do investigador tem uma postura neutra e passiva, na observação e registo dos fenómenos (Ferreira de Almeida & Madureira Pinto, 1990, p.62). É, especialmente, adequado a investigadores individuais porque lhes dá oportunidade de focar um aspecto do problema num curto espaço de tempo (Bell, J., 1999).
Estas críticas fundamentam-se, principalmente, na natureza do trabalho científico, no domínio das Ciências Sociais, onde o investigador tem um papel privilegiado, na forma como delimita o seu campo de “intervenção”, como sustenta o seu trabalho, como delimita o seu objecto de estudo, sustentando-o no conceptual teórico, ou seja, no “fechamento controlado do campo analítico”, como dizem Ferreira de Almeida e Madureira Pinto (1990, p.62).
O investigador intervém, permanentemente, na realidade do seu estudo, quando estabelece limites do objecto em estudo, questiona, atribui sentidos e significações e até quando interpreta.
O acesso do investigador está condicionado pelas interpretações dos actores sociais que são informadores privilegiados dos processos, daí que a matéria-prima com que lida, sejam as realidades e não a realidade.
O presente estudo é um estudo qualitativo, mais precisamente um estudo de caso, o que implica privilegiarmos os processos relacionais e a interpretação do significado que as pessoas dão às coisas. Optámos pelo estudo de caso, visto que esta metodologia permite compreender melhor a particularidade do fenómeno em estudo (Ponte, 1991). A metodologia seguida relaciona-se, deste modo, directamente com o objecto de estudo, com o problema levantado e com as questões e objectivos da investigação.
Ao optarmos por esta metodologia de investigação, pretendemos que o produto final se baseie numa análise de conteúdo das entrevistas e que o estudo permita ao leitor pôr-se
no lugar do professor, apercebendo-se dos seus pensamentos, das suas escolhas e opiniões, possibilitando a compreensão de alguns comportamentos.
A investigação é sempre um papel social, através do qual os grupos humanos transformam o conhecimento que têm da realidade, transformando ao mesmo tempo a sua maneira de agir sobre esta realidade (Vielle P.J., volume XI, nº.3, 1981, p.339). Em suma, os factores concretos em que este estudo se baseia, o seu objectivo, a natureza das questões levantadas e o produto final que se pretende, apontam para a utilização de uma metodologia qualitativa, baseada numa análise de conteúdo das entrevistas feitas aos professores, apresentando características próximas do paradigma interpretativo e dos estudos de caso. O paradigma interpretativo subscreve uma perspectiva relativista da realidade. Dentro do paradigma interpretativo, o estudo de caso visa conhecer o como e os porquês de um fenómeno ou entidade bem definida – o caso.