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Paradigma ocidental

No documento Teologia e Sumak Kawsay (páginas 70-74)

2.3 Debates atuais

2.3.2 Paradigma Ocidental e Paradigma Indígena Originário

2.3.2.1 Paradigma ocidental

Existem dois paradigmas que se propõe no Ocidente: um individual extremo, o individualismo, e outro coletivo extremo, o comunismo.

O paradigma individual, que está em vigência, determina as relações sociais, jurídicas e de vida. Há muitos séculos ele está levando as sociedades de todo o mundo à desintegração, por dessensibilizar os seres humanos, o que tem prejudicado a vida, mesmo no conjunto. O mais importante para este paradigma é a acumulação do capital.45

Para o paradigma coletivo extremo, o comunismo ou socialismo, o bem estar do ser humano é o mais importante, sem levar em consideração as outras formas de existência.

A cosmovisão individual antropocêntrica do ocidente que optou por uma determinada forma de vida (individualista, consumista, depredadora, homogênea e insensível) nasce da concepção de que o ser humano é o rei da criação. É a leitura misógena do relato da criação conforme a Bíblia, que afirma a submissão da mulher e a hegemonia do homem. Concepções que

44 HUANACUNI, F. Buen Vivir/Vivir Bien, p. 22.

45 HUANACUNI, F. Buen Vivir/Vivir Bien, p. 25.

se tornaram “sagradas” e foram marcando processos de interação e relação de vida individualista e machista - apenas humanista onde o papel da mulher é aleatório e secundário, colocando o ser humano acima das formas de existência, gerando uma estrutura piramidal de hierarquia em uma relação de sujeito-objeto que concede autoridade ao ser humano para usar e abusar de tudo o que tem a sua disposição.46

Por outro lado, o individualismo só compreende em sua forma de agir duas premissas: o sim e o não, que promovem por oposição uma luta de contrários. Esta relação dualista estruturou o pensamento e o afazer humano. Nesta dialética, vemos que há lugar para formas extremas de admitir o dual, mas em luta, oposição, tal e qual como vemos nos extremos do individualismo em sua máxima expressão e no comunismo como contraposição.

Ambos de visão antropocêntrica impuseram um determinado modelo. O resultado de tudo isso é a forma de conceber a vida e o mundo que gerou crise sem precedentes e desencontro em todos os níveis e aspectos da vida.

46 HUANACUNI, F. Buen Vivir/Vivir Bien, p. 26.

2.3.2.1.1. Desenvolvimento e progresso

Os

modelos ‘pro-civilizatorios’, desarrollistas y modernistas hegemónicos en el planeta durante los últimos siglos está llegando, si es que no han llegado ya, a un tope, y por lo tanto toca el descenso. No se trata sólo de un problema económico, social, político o cultural. Las promesas de progreso y desarrollo que en algún momento guiaron a toda la humanidad, ya mostraron a plenitud sus limitaciones y efectos devastadores, sobre todo en países ‘altamente desarrollados’ como los europeos, en los hoy en día la prioridad ya no es el desarrollo sino la forma de revertir todo el daño que se ha causado.47

Ao falar de desenvolvimento, incluamos as relações comerciais em que os povos indígenas originários muitas vezes se veem obrigados a inserir-se, de fato, rompendo os sistemas de intercâmbio de produtos.

Os povos amazônicos entendem que eles têm uma dinâmica própria de assimilação e de participação nos intercâmbios comerciais tradicionais. E é com essa visão que se aproximam da economia do mercado: como provedores de matéria prima. Mas a lógica do mercado ao qual se incorporaram não é de reciprocidade, mas de exploração extrema. Assim, ficaram presos em um turbilhão de consumo do qual tinham poucas oportunidades para escapar e estavam em desvantagem tecnológica. Em consequência, foram depredados os recursos naturais e sua própria vida cotidiana como a da comunidade foram se tornando mercadoria atrativa.48

O meio ambiente não pode suportar mais processos de industrialização, nem revoluções verdes49. O paradigma de

47 HUANACUNI, F. Buen Vivir/Vivir Bien, p. 27.

48 HUANACUNI, F. Buen Vivir/Vivir Bien, p. 28.

49 Algumas delas trazem uma roupagem de marketing capitalista, na contínua busca pelo desenvolvimento e não como alternativa ao desenvolvimento.

desenvolvimento e consumismo produziu um grave aquecimento global de onde não há escapatória e leva a destruição da própria vida. Vemos que,

durante los últimos años se ha venido dando un proceso de búsqueda de alternativas a esta crisis. Hay una necesidad de retornar a una vida más natural y a los valores y principios ancestrales, especialmente en los países industrializados. Pero para ellos es más fácil porque son los que más se esforzaron en acabar con sus culturas originarias y exterminar todos los rasgos

‘pre-modernos’ que podían haber sobrevivido a la arremetida de la modernidad.50

Em contrapartida, nos países do assim chamado “terceiro mundo”, as práticas sociais relacionadas com o “pré-moderno”, as visões e alternativas de civilização distintas do ocidente, são parte do cotidiano. Contemplando os resultados o desenvolvimento que foi conseguido em países do “primeiro mundo”, as distintas ações de resistência a uma globalização neoliberal seguem se somando em todo o mundo e mantém ainda muitos espaços “pré-modernos”

que não puderam ser desestruturados totalmente.

De maneira contundente acontece,

en la región andina, que fue cuna de una de las civilizaciones más importantes del planeta. La visión de que todo vive y está conectado, el principio comunitario, la reciprocidad y muchos otros principios se han mantenido y hoy están siendo referentes en todo el mundo para encontrar un nuevo paradigma para vivir bien.51

O mundo começou a falar em desenvolvimento sustentável.

Há fóruns mundiais, encontros, assembleias, oficinas e vários iniciativas para discutir qual o tipo de desenvolvimento vai ser assumido. Fala-se de desenvolvimento harmônico,

50 HUANACUNI, F. Buen Vivir/Vivir Bien, p. 29

51 HUANACUNI, F. Buen Vivir/Vivir Bien, p. 29.

desenvolvimento com identidade, mas não se toca na raiz do problema.

Na cosmovisão dos povos originários não se fala em desenvolvimento, com um antes e um depois, como um lugar para conseguir uma vida desejável, como acontece no mundo ocidental.

Pelo contrário, trabalha-se para criar condições materiais e espirituais para construir o sumak kawsay, que também se define como vida harmônica e em permanente estado de construção.52

Desse modo,

como el Vivir Bien va mucho más allá de la sola satisfacción de necesidades y el solo acceso a servicios y bienes, más allá del mismo bienestar basado en la acumulación de bienes, el Vivir Bien no puede ser equiparado con el desarrollo, ya que el desarrollo es inapropiado y altamente peligroso de aplicar en las sociedades indígenas, tal y como es concebido en el mundo occidental.53

Então quando falamos em processos de mudanças, estamos falando de uma mudança de estruturas, de paradigmas e não de simples reformas ou mudança de conteúdo.

No documento Teologia e Sumak Kawsay (páginas 70-74)